O joio e o trigo.

Quem acompanha este blog a mais tempo sabe que o debate entre evolucionismo e criacionismo sempre foi um tema recorrente, ao menos no primeiro ano de vida. Gradativamente o debate em si foi sendo deixado de lado, e isso se deve ao fato de que, ao meu ver, falta nos dois lados da polêmica o refinamento necessário para uma discussão saudável.

Normalmente vemos textos e mais textos, os deste blog incluídos, que funcionam basicamente na refutação de contra-argumentos do adversário. Nesta troca desmedida de refutações, o que pouca gente se dá ao trabalho de fazer é separar o joio do trigo. A começar pela unidade fundamental do que se está debatendo: Teoria evolutiva ou teoria da evolução?

Ao observador desatento, ao dogmático mais ferrenho e ao cientista  epistemologicamente pobre, ambas as coisas podem parecer iguais. A simples compreensão desta diferença pode evitar uma série de discussões inúteis e erros de interpretação.

Quando nos referimos à realidade (ou não) da evolução dos seres vivos, estamos falando da teoria evolutiva. Qualquer querela neste nível deve se ater à discussão sobre se a biodiversidade do planeta existe como a vemos hoje desde “sempre” ou foi mudando ao decorrer do tempo. A questão básica aqui é, as espécies são fixas no tempo ou variam?

Já por teoria da evolução entendemos os mecanismos propostos para a variação das espécies no tempo. É aqui que entram Lamarck, Darwin, Neodarwinistas e por aí a fora. A diferença é sutil, mas bastante clara: Uma coisa é saber se as espécies mudam, outra é COMO mudam.

Um cientista bem preparado, e que responde “qual delas?” para a pergunta “você acredita na teoria da evolução?”, tenho certeza, acaba com a maioria dos debates antes mesmo deles começarem.

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Mata Atlâtica um Hotspot ameaçado

O conceito Hotspot significa uma área de importância elevada para conservação da biodiversidade. Ele se baseia no princípio de que a biodiversidade não está distribuída igualmente no planeta, e por isto delimita determinadas áreas com altos níveis de biodiversidade e em risco de degradação ou desaparecimento, e por isso a urgência na implementação de ações de conservação a fim de se preservar estes ecossistemas ou os remanescentes da sua formação original.

No Brasil há dois Hotspots a Mata Atlântica e o Cerrado, que são ecossistemas prioritários para a conservação, isto é, de alta biodiversidade e ameaça em alto grau. Estes ecossistemas foram incluídos nesta categoria, após avaliação de especialistas e do Ministério do Meio Ambiente (1) que trabalharam juntos para identificá-los como Hotspots.

A Floresta Amazônica não é considerada um Hotspot, mesmo sendo considerada de altíssima biodiversidade, pois, não sofreu e/ou sofre um processo de degradação tão intenso como os dois ecossistemas citados, e por isto com risco de desaparecimento permanente de espécies.

O processo de degradação da Mata Atlântica é histórico, teve seu início no Brasil colônia, onde os ciclos exploratórios foram sendo implantados de acordo com as necessidades da metrópole, como a extração do pau-brasil e plantio de espécies economicamente viáveis como a cana de açúcar e café.

No entanto, o extrativismo e a agricultura não foram as únicas formas de degradação, a ocupação populacional também teve influência, pois geograficamente este ecossistema situa-se na costa brasileira, local onde as cidades foram se desenvolvendo, como a mata era um obstáculo natural foi então removida.

Mas não foi somente no passado que a mata atlântica foi degradada, em perspectivas gerais, no século XX e XXI, ela foi e continua sendo utilizada como fonte de energia barata (madeira), e sendo alvo de inúmeros atos exploratórios.

O dados mais atuais dos índices de cobertura vegetal, estão disponíveis no Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica – Período de 2000 à 2005, disponibilizado no site da Fundação SOS Mata Atlântica (2) em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE (3) e publicado em 2008, e demonstrados na tabela 1:

O Estado do Rio de Janeiro, como sugerem os dados da pesquisa, sofreu um deflorestamento de 628 ha e decréscimo da cobertura vegetal em 0,30% no período de 2000 à 2005.

Referências Bibliográficas:

1. MMA – Ministério do Meio Ambiente: http://www.mma.gov.br/

2. SOS Mata Atlântica: http://www.sosmatatlantica.org.br/

3. INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais: http://www.inpe.br/

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Carta aberta aos pais de alunos.

Nas últimas semanas acompanhei, sem me pronunciar é verdade, as inflamadas notícias sobre escolas brasileiras que decidiram inserir o criacionismo em suas aulas. A despeito da já infrutífera discussão entre criacionismo e evolucionismo, a reportagem da Veja sobre este assunto esbarra em um questão que se perde no “blablabla” habitual.

Lá, perdido no meio da reportagem, vemos a seguinte passagem:

Os pais de alunos das escolas evangélicas não costumam reclamar do fato de seus filhos serem instruídos no criacionismo em detrimento da ciência. Dizem ter escolhido a escola por acreditar que ela incute nas crianças valores morais, éticos e cristãos. “Nossa escola forma verdadeiros cidadãos. De que adianta o adolescente estar preparado para o vestibular se não tiver uma boa formação como ser humano?”, diz a baiana Selma Reis Guedes, uma das diretoras do Colégio Batista Brasileiro, de São Paulo.

Eu não poderia concordar mais com a diretora Selma, de que adianta estar preparado para o ensino superior sem a formação moral necessária? Por outro lado, não poderia descordar mais dos pais dos alunos que depositam no ensino religioso a responsabilidade pelo ensino moral e ético (e ainda estou em dúvida sobre o cristão).

Se existe um mérito compartilhado pela maioria das religiões, é a imagem pública conquistada. A maior parte das pessoas de fato correlaciona valores morais e éticos à religião. E há motivos para isso. É certo que muitas religiões defendem valores que em termo geral, são de fato éticos. Mas defender um valor qualquer não basta, é preciso praticá-lo.

Além disso, boa parte dos valores apreciados pela sociedade não nasceram com as religiões e, com efeito, são completamente independente delas. Uma pessoa não precisa ser religiosa para ser boa, assim como uma pessoa religiosa pode ser absolutamente má. É um salto retórico imenso colocar valores morais desejados como efeito de uma causa tão controversa quanto religião.

Outro salto retórico igualmente medonho é convencer as pessoas de que acreditar em uma teoria científica qualquer resulte no abandono da ética e da moral. E é exatamente o que esta implícito na fala da diretora Selma a qual chamei a atenção.

Portanto deixo aqui aos pais de alunos que se interessam verdadeiramente pela “formação como ser humano” de seus filhos. A educação começa em casa. Se os senhores desejam uma educação ética e moral para seus filhos, não depositem a responsabilidade apenas na escola.

Ética e moral são valores independentes de religiões e credos. Não caiam no erro de acreditar que uma educação científica deficiente, em prol de uma educação religiosa mais presente, irá produzir seres humanos melhores. Faz parte de um ser humano melhor saber conviver com a pluralidade cultural, religiosa e, vá lá, científica.

Uma educação que busca atacar essa pluralidade não é moral ou ética ou religiosa, independente de vestir tal máscara. É, em verdade, um ensino tacanho que irá produzir seres humanos igualmente tacanhos.

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Um chopes, dois pastel e ciência por favor!

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa um choppes, dois pastel e uma ciência que não seja requentada. Um pão bem quente com matemática à beça, um guardanapo e um copo de exatas bem gelado, outro de humanas e um último de biológicas. Aproveita para perguntar ao seu freguês do lado o resultado da palestra, que já está no fim.

Seu garçom feche a porta da direita com muito cuidado que eu estou disposto a ficar exposto a esta forma de divulgação científica. É que a ciência está no bar e se você ficar limpando a mesa, não me levanto e nem pago a despesa. Vá pedir ao seu patrão uma caneta, um tinteiro, um conteúdo científico que semana que vem a gente está de volta.

Seu garçom, você sabia que Brasil adentro tem Cachaça Científica? Já está virando rotina lá na Regional de Pernambuco da Sociedade Brasileira de Progresso à Ciência. E se você pensa que cachaça é água, em 2005 aconteceu na Universidade Federal de Santa Catarina e em 2007 a ciência destilada chegou ao Rio de Janeiro com a Casa da Ciência e o Instituto de Química da Universidade Federal.

Acho que não dá para negar. São eventos inspirados no pioneiro Chopp Científico, ciência com arte e colarinho, que aconteceu pela primeira vez em 2002 no Rio de Janeiro, coordenado pela jornalista Luisa Massarani do Centro de Estudos do Museu da Vida / Fiocruz. Ela, por sua vez, foi inspirada em eventos já existentes na Grã-Bretanha, Austrália e França.

Ah, não se esqueça de me dar palitos. Em várias cidades do mundo tem o Café Scientifique, com temas diversificados, e o SciBar, bastante atual. Já sobre Ciência e Governo, é possível ir ao INSPIRE Science Café. Seu garçom vá dizer ao charuteiro que me empreste umas revistas, um isqueiro e um cinzeiro. É que nossos amigos franceses estão com tudo. Eventos desta natureza acontecem já tem mais de anos, em torno de uma década. Bar des Sciences em Paris, Cafes Sciences e Junior Cafes em Lyon, além de eventos semelhantes em cidades como Marseille e Grenobe.

Seu garçom me empresta algum dinheiro que eu deixei o meu com o bicheiro. Tem Café Scientifique em Marrocos, no Egito, na Dinamarca, na Suíça e no Canadá. Tem em Portugal. Tem aqui, tem ali. Tem Science in the Pub na Austrália, tem Café Científico na Argentina. Vá dizer ao seu gerente que pendure esta despesa no cabide ali em frente, que a divulgação científica está criativa, etílica e saborosa. Uma verdadeira Conversa de Botequim, como bem canta Noel Rosa.

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Crodowaldo Pavan e o projeto Roda Viva Científico

A ciência, especialmente a genética, brasileira está de luto com o falecimento do Prof. Crodowaldo Pavan no dia 03/04/2009. O irreverente e obstinado pesquisador, autor de inúmeras contribuições científicas e políticas tanto quanto de observações provocadoras e desconcertantes em reuniões científicas ou declarações à sociedade, contava aos alunos de divulgação científica que nunca temeu estar errado! com a graça irônica de um vovô esperto que sorria ao lembrar-se de seus adversários científicos, que o colocaram, como bem lembrou o Thiago aí embaixo, dando três voltas no Mundo até acreditarem em seus cromossomos politênicos.

1998. Congresso da Sociedade Brasileira de Genética. Após exposição da Prof. Lygia da Veiga Pereira sobre clonagem, Pavan pega o microfone e diz alto e em bom tom, para a indignação dos demais geneticistas brasileiros. “Eu não vejo problema algum em um casal querer fazer clonagem para renascer um filho morto!”

Geração parental na minha formação científica me enchia de orgulho quando, ao freqüentar o Núcleo José Reis de Divulgação Científica, eu percebia que em seus discursos havia um tanto daquilo que eu havia aprendido com seu F1 Pedro Henrique Saldanha, meu orientador do mestrado. Era um cultivo ao entusiasmo romântico da ciência, de uma época na qual os valores éticos e morais eram muito mais sólidos, em que ser doutor e publicar era conseqüência e não uma necessidade anti perecimento na academia. Não é a toa que neste heredograma se expressa dominantemente a experiência do filme A história de Louis Pasteur – “Façam o que vocês gostam de fazer!”
“Glória, os textos dos alunos tem que entrar no livro!”

2007. Núcleo José Reis de Divulgação Científica. Ouço Pavan contar a mesma história, em duas ocasiões diferentes, fazendo a graça indescritível de balançar a cabeça imitando o diretor da Rockfeller. “Fui apresentado ao diretor da Fundação Rockfeller como sendo um bom pesquisador brasileiro. Ele me pediu que fizesse uma lista de materiais necessários para criar laboratórios de Genética Humana no Brasil. Pedi um microscópio e algum material de consumo. O homem olhou e disse que aquilo não era possível, para eu pedir mais. Fiz outra lista, sempre com a preocupação de não pedir demais e ficar sem saber explicar onde usei depois. Prá encurtar a história, o diretor resolveu que tudo bem só aquilo, mas nunca negou absolutamente nada do que pedi posteriormente. E com esta verba foram construídos os primeiros laboratórios de Genética Humana no Brasil.”

Na conversa com o Prof. Laércio Elias Pereira, surgiu a idéia de fazer o que chamamos inicialmente de “Projeto Roda Viva Científica”. Os Profs. Osmir Nunes e José Arbex Jr. incentivaram a proposta. Laércio mirou na TV Cultura.

01/07/2008.“Caro Professor Laércio, a pedido do nosso presidente, Paulo Markun, vamos marcar uma conversa. (…) ligue-me tão logo seja possível e assim combinaremos o encontro aqui na TV Cultura. Um abraço Pola Galé.”

Na reunião, da qual o próprio Prof. Pavan também participou, foi combinado que a TV Cultura elaboraria um projeto e nos retornaria em breve, mas apesar da minha insistência em atormentar a Sra. Shizuca, secretária do Sr Pola Galé, o projeto nunca aconteceu.

Lamentavelmente, não é possível compartilhar aquele olhar como queríamos, contando com toda aquela graça os caminhos que ajudou a trilhar na genética humana brasileira em primeira pessoa. Retumba na cabeça a lembrança de vê-lo descendo as escadas ignorando a própria dificuldade e o elogio “Muito boa a idéia de fazer este projeto e de termos vindo até aqui! Parabéns!” Será que eles vão mesmo topar fazer? “Se vão não sabemos, mas a nossa parte nós fizemos!”

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Nota de falecimento: Crodowaldo Pavan

Em 2007, quando comecei a fazer a pós em Divulgação Científica do Núcleo José Reis de Divulgação Científica, tive o prazer de conhecer pessoalmente o professor Crodowaldo Pavan (1/12/1919 – 03/04/2009). Aquele senhorzinho franzino, conservava um cérebro afiadíssimo. Sempre simpático com os alunos, sempre  disposto a conversar com todos.

Era conhecido pela força de suas opiniões, frequentemente polêmicas. Era, afinal, um grande exemplo de como um cientista deve realmente ser. Até os últimos dias questionador, curioso, engajado. Muito diferente da maioria dos cientistas de hoje, sempre preocupados demais com seus egos e currículo Lattes para poderem realizar um trabalho científico realmente interessante.

Pavan foi um dos maiores cientistas Brasileiros. Como ele, restam muito poucos. Sentiremos saudade do homem que sempre empolgado contava em como deu a volta ao mundo três vezes divulgando seu trabalho.

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Sobre a história da relação Ser Humano x Natureza

Nos primórdios da humanidade, na pré-história (aproximadamente 4000 a.C.) período que antecede a invenção da escrita, há, portanto, uma falta de registros de como se inter-relacionavam ser humano e natureza. Possivelmente estas relações eram baseadas no princípio de que homem e natureza eram um todo, sem a separação de um e outro, consequentemente não se observavam relações de domínio ou posse da natureza pelo ser humano.

Com o passar do tempo o ser humano passou a dominar técnicas que o possibilitaram o manejo da natureza como a fabricação de utensílios para a caça, pesca, coleta e manufatura de materiais. Estas técnicas mesmo que rudimentares já demonstrava uma certa independência do ser humano em relação à natureza, no entanto, foi somente com o desenvolvimento da agricultura e a domesticação dos animais, que ele conseguiu diminuir sua dependência em relação à natureza, tornando-se não mais nômade, e fixando-se em habitações. Assim as relações ser humano x natureza mudaram de uma perspectiva de ‘’uma coisa só” para uma relação de domínio desta por aquele.

Na idade média, esta relação, mais uma vez sofre uma mudança com a inserção de um elemento “sobrenatural” ou “divino”. Para mediar as relações entre ser humano e divino surgem as religiões, que determinam como serão estas relações estabelecendo regras que devem ser cumpridas (dogmas). Na mesma época há o surgimento também do Estado que passa a controlar as relações entre os seres humanos, ou seja, agora existem pessoas que cuidam de como o ser humano se relaciona com o sobrenatural (clero) e como este se relaciona com as pessoas (Estado). Neste contexto, a relação ser humano x natureza sofre uma mudança intensa, pois, a humanidade privilegiada por suas habilidades e origem divina passa a exerce sobre esta a natureza um domínio oficializado pela igreja e por “Deus”.

A partir do Renascimento (séc. XVI) e com a difusão de idéias antropocêntricas e racionais, a relação ser humano x natureza sofre também uma mudança bem significativa, pelo fato do ser humano passar a ser o centro, um ser privilegiado por suas habilidades racionais e por isso apto a explorar e se apropriar da natureza (não mais como direito divino), mas utilizando a racionalidade que o diferencia e destaca dos demais animais.

Em plena revolução Científico-industrial o mundo natural passa a ser objeto de conhecimento empírico-racional, de uso do ser humano para bem de seu desenvolvimento e de desenvolvimento de suas atividades. Esta relação ser humano x natureza é apoiada pela visão mecanicista do mundo e confere a natureza o ‘’status” de meio de obtenção de lucro e recursos naturais infinitos, para uso dos seres humanos. Assim começa-se a construir e intensificar uma relação cada vez mais exploratória da natureza, pelo ser humano, que foi transpassando os séculos num voraz uso dos recursos naturais, até que estes foram dando sinais de que não eram tão infinitos quanto se imaginava…

A reação ocorreu, a partir de meados do século XX com os movimentos ambientalistas que tentavam despertar o interesse pela história natural e valorização da natureza. Estes movimentos ambientalistas apareceram principalmente nos anos 60 e 70 (séc. XX) aliados a outros grupos como hippies, pacifistas e socialistas com discussões. As idéias “ecologistas” passaram a ser uma das muitas a serem defendidas junto com as anti-militaristas, pacifistas, direito das mulheres e direitos das minorias.

Estas idéias ecologistas criticaram, sobretudo, as relações ser humano com a natureza que vinham degradando a natureza em prol de uma produção cada vez mais desenfreada, para suprir as necessidades de consumo, muita das vezes supérfluas das sociedades industrializadas modernas. Este movimento ambientalista trouxe a público, questões de reflexões e interesse da humanidade como o uso de energia nuclear, o uso desregrado dos recursos da natureza, extinção de espécies animais, acidentes ambientais e a necessidade mais profunda de discussões teóricas sobre as visões de relação da humanidade com a natureza.
Ainda no mesmo século (XX), nas décadas de 80 e 90 surgem os Partidos Verdes, cujos interesses visavam ações políticas e governamentais em proteção da natureza.

Posterior ao surgimento dos movimentos ambientalistas, houve a necessidade de discussões teóricas sobre as inter-relações ser humano x natureza. Estas discussões são norteadas por duas principais linhas de pensamento: (1) a antropocêntrica, que ressalta a dicotomia ser humano x natureza, justificando a exploração da natureza, através da ciência e tecnologia, sendo a natureza somente um depósito de recursos para uso do ser humano, e este está no centro destas relação; (2) a ecocêntrica ou biocêntrica, onde a natureza está no centro destas relações, e o ser humano é somente mais um ser vivo inserido no mundo natural, além deste ter um valor intrínseco e independente da utilidade que possa ter para o ser humano.

A partir destas duas linhas norteadoras do pensamento sobre as relações ser humano x natureza, surgiram diferentes escolas com diferentes correntes de pensamento ecológico, que serão melhores discutidas em outro post.

P.s. A dissertação que seguiu teve como base a descrição das inter-relações ser humano x natureza, no entanto, está longe de ser a “história real”, pois em sua maior parte é explicada sobre a égide de uma visão européia, principalmente até o século XVI. Nós brasileiros e sul-americanos carecemos de uma história nossa, não desvinculada da européia, pois sabemos da influência desta sobre nossa cultura e ciência, mas urge uma visão que contemple também a histórica das inter-relações ser humano x natureza, dos outros povos que são tão importantes na nossa história, como os indígenas que habitavam nosso continente e os africanos que foram trazidos para cá.

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Ciência em fase beta.

Publicar um artigo científico é, em geral, um processo laborioso e até certo ponto burocrático. Além do evidente trabalho de escrever o artigo, é preciso submetê-lo a uma revista apropriada e torcer por uma resposta positiva. Daí até a publicação efetiva o artigo ainda passa pela peer review e etc.

O caso é que na maioria das revistas, da aceitação do artigo à publicação, existe um hiato de, em geral, um ano. Dependendo da revista, esse período pode aumentar ainda mais, eventualmente, chegando a três anos.

Disso resulta que é muito comum ver os pesquisadores distribuindo seus trabalhos entre seus colegas antes de ele ser publicado. A questão que podemos levantar disso tudo é, até quando tal situação vai se manter?

Quer dizer, é compreensível a importância do artigo publicado em uma revista científica. Tem a ver com a famosa “auto-validação” da comunidade. Quando um artigo é publicado, significa que esta validado. Por outro lado, tal artigo já estava “nas mãos” da comunidade antes disso, e em alguns casos, já poderia estar sendo usado como conhecimento validado.

Se assim o é, podemos dizer que o artigo já estava validado pela comunidade, embora não pelo método “oficial”. Extrapolando um pouco a situação toda, e fazendo um monte de especulações, podemos imaginar um cenário futuro curioso.

E se os pesquisadores começassem a disponibilizar seus artigos em seus blogs ou sites pessoais? E mais, e se isso fosse o suficiente para o trabalho ser reconhecido pela comunidade? Afinal, por mais referree’s que uma revista possa arranjar para avaliar seu artigo, eles ainda seriam menos do que os que poderiam potencialmente realizar a mesma atividade caso o artigo estivesse amplamente disponível na internet.

De fato, é possível dizer que desta forma, toda a comunidade de pares poderia, em última análise, avaliar um artigo qualquer. Mais ainda, o pesquisador em questão poderia ir modificando seu artigo conforme fosse recebendo críticas ou sugestões, além de poder constantemente atualizá-lo conforme fosse desenvolvendo a pesquisa.

Isso produz um efeito semelhante ao que vemos hoje em dia com os softwares disponíveis pelas grandes empresas de internet. Eles estão sempre em fase beta, por que estão sempre sendo modificados pra atender o feedback dos usuários.

Será este o destino da ciência 2.0? Estar em fase beta? E com uma comunidade capaz de validar os trabalhos científicos sem que eles sejam publicados em revistas de renome, qual seria o destino destas publicações?

É um cenário extremo, mas não de todo impossível.

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Pós em Divulgação Científica

Antes que as pedras voem, aviso: Este não é um post pago.

A divulgação científica no Brasil não é um fenômeno recente. Que o diga o grande divulgador-cientista-jornalista José Reis. Mas apesar de não ser novidade alguma, é impossível negar que a atividade como um todo vem, nos últimos tempos, ganhando ainda mais importância, relevância e maturidade.

A internet tem grande responsabilidade neste movimento, e apesar disso é estranhamente negligenciada na maior parte dos cursos que tratam sobre o tema.Foi pensando sobre isso, em um brainstorm regado a pizza e vinho, que a Andréa, a Fernanda e eu desenvolvemos o projeto de um curso de Divulgação Científica que dê a devida importância à internet.

Foi durante o brainstorm que pensamos: Se estamos aqui dando tanta importância para a internet, por que não fazer o curso em Educação a Distância? Com isto em mente, não só decidimos que o curso seria em EAD, como também decidimos organizá-lo todo à distância. Tirando aquele primeiro brainstorm, todo o resto foi feito através da internet.

Com o projeto todo pronto, e com a Andréa trabalhando na parte burocrática, o projeto foi aprovado pela Universidade Gama Filho e se transformou no primeiro (até aonde me consta, embora exista um curso em jornalismo científico em EAD) curso de pós-graduação lato senso em Divulgação Científica à distância destas terras tupiniquins.

Eu poderia ficar aqui discursando o quanto estou feliz com este projeto e etc, mas é melhor pular a parte sentimental e irmos diretamente ao que interessa:

O curso tem carga horária de 340 horas e mais 20 presenciais (presenciais? Sim, por determinações burocráticas a legislação atual exige que determinados cursos em EAD tenham horas presenciais obrigatórias. Mais detalhes aqui e aqui. E meu obrigado ao Sérgio Lima pelo toque). Pode ser feito por qualquer pessoa de qualquer lugar do Brasil, e as inscrições são, evidentemente, feitas através do site.

As disciplinas são divididas em 4 módulos:

- História e Filosofia da Ciência
Introdução à Divulgação Científica;
História e Filosofia da Ciência;
Tópicos em Ciência;
Metodologia da Pesquisa;

- Divulgação Científica
História e Filosofia da Divulgação Científica;
Ética em Divulgação Científica;
Tópicos em Divulgação Científica;
Tecnologia da Informação na Divulgação Científica;

- Meios de Divulgação Científica
Documentação e Informação em Ciências;
Jornalismo Científico;
Ferramentas Virtuais: Mídias;
Ferramentas Virtuais: Objetos de Mídias;
Comunicação Visual;

- Práticas de Divulgação Científica
Escrita Criativa;
Escrita Crítica;
História em Quadrinhos;
Fotografia Digital;
Podcast e Videocast;
Blogs;

Outros informações como preços e a data do início das aulas podem ser consultadas no site do curso. Divulguem, twittem, espalhem.

Obs: Embora o curso esteja classificado como pós-graduação em ciências biológicas, é aberto a todos os interessados, de qualquer área.

Panfleto de Divulgação. Clique para ampliar.

Panfleto de Divulgação. Clique para ampliar.

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Remédios naturais

Imagine que você está com uma dor-de-cabeça terrível e que pode escolher entre dois remédios igualmente eficientes: um comprimido e um chá feito com cascas de árvore. Qual dos dois você preferiria, sabendo que ambos resolverão o problema da mesma maneira? Em princípio não haveria razão para preferir um ou outro método, a não ser pela facilidade de ingestão – há quem tenha dificuldade de engolir comprimidos, outras pessoas detestam chá… No entanto, tenho certeza de que uma grande proporção das pessoas escolheria o chá com a mesma justificativa: é que o chá é natural…

Primeiro vamos entender o conceito de “natural” utilizado nesse pensamento. Um comprimido obviamente é uma substância química manipulada pelo farmacêutico, humano, e, portanto, não veio pronto da natureza. Já o chá é apenas alguma parte vegetal preparada em água quente e portando todas as suas características originais, sendo, assim, natural.

Se o princípio ativo das duas formas de medicamento é o mesmo, isto é, se a substância que vai fazer a dor-de-cabeça passar é a mesma tanto no comprimido, quanto no chá, por que é, então, que o método de extração faria alguma diferença?  Quando a substância sintetizada em laboratório (e idêntica àquela do chá) é introduzida no corpo do paciente, o organismo percebe que ela não foi gerada na planta? Não, o corpo não sabe, por isso é apenas crendice supor que uma substância “natural” é superior à dita “química”.

Agora modifiquemos o exemplo: as suas opções para aliviar a sua cefaléia insistente são um comprimido de aspirina e um chazinho de casca de salgueiro. O comprimido foi fabricado por um laboratório e o chá foi feito pela sua avó. Qual você prefere? Nesse caso eu recomendo fortemente que você opte pelo comprimido, exatamente porque ele não é “natural”. A casca do salgueiro possui, além do princípio ativo da aspirina, milhares de outros compostos químicos, desenvolvidos ao longo do processo evolutivo como forma de defesa química contra predadores. Isso significa que não sabemos exatamente como essas substâncias interagem entre si. Some-se a possível ocorrência de substâncias exógenas, como fungos e bactérias, as quais influenciam a composição química da casca. Quando testados os compostos para verificar-se o princípio ativo da casca do salgueiro, isolou-se a substância que comprovou ser a solução para a dor-de-cabeça, e aí o produto já deixou de ser “natural”, porque ele foi filtrado – manipulado em laboratório.

Assim, o comprimido foi desenvolvido a partir de uma substância encontrada na casca do salgueiro, e cuja composição foi melhorada para atingir sua máxima eficiência. Quando a sua avó faz o seu chá ela não verifica a sua resposta fisiológica e não faz testes controlados para saber se a planta está realmente fazendo efeito ou se há algum risco para a sua saúde. Os laboratórios, por mais fraudulentos que sejam, fazem esse tipo de teste e são regulados por alguma agência pública de saúde, que pode verificar resultados de experimentos extensos e decidir se um determinado medicamento pode e deve ser liberado para consumo da população.

Os medicamentos “naturais” utilizados com base na sabedoria popular são muito importantes, porque constituem uma fonte de informação acumulada por inúmeras gerações, baseada no princípio de tentativa e erro, mas não são exatamente um exemplo de segurança. Por essa razão a disciplina da Etnobotânica (que estuda, entre outras coisas, o conhecimento humano de vegetais e seu uso) é ativamente estimulada, para investigar cientificamente a eficiência de tais medicamentos e, por vezes, romper crendices e superstições.

Aqui tem um post de Cristina Vieira discutindo os supostos benefícios de substâncias naturais, e aqui um artigo de Lauro Barata, pesquisador do Laboratório de Química de Produtos Naturais do Instituto de Química da UNICAMP, sobre a produção brasileira de fitomedicamentos.

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