Uma pequena nota.

Apesar de o blog andar desatualizado (culpa da vida atribulada de todos nós), é válido lembrar que dia 17 deste mês o Polegar Opositor fez três aninhos.

Honestamente? Quando comecei este projeto não achei que ele fosse durar tanto e, coisas da vida, ele é hoje parte fundamental dos caminhos que decidi tomar no meu mestrado. O Polegar Opositor é de uma importância sem tamanho para mim, e me custa muito ficar tão distante dele quanto ando nos últimos meses. Mas prometo que assim que terminar o mestrado, por volta de Setembro deste ano, volto a me dedicar mais ao blog.

Como sempre, o blog também não seria o que é sem a ajuda dos meus queridos colaboradores. Portanto, um obrigado a todos vocês por acreditarem no Polegar e por terem dedicado um pouco o tempo de vocês para alimentarem o blog.

Que venha o quarto ano :)

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Bola Recuada, Jornalismo Esportivo e Divulgação Científica

Pois se em Copa do Mundo o tema é recorrente, o jornalismo esportivo anda mesmo muito a desejar. Em informações interessantes, claro. É só ligar a tevê e as reportagens se repetem, e como há quatro anos atrás:

• rivalidade entre Brasil e Argentina. A novidade fica por conta da propaganda de cerveja;
• bate-papos informais com ex-jogadores de futebol e algumas celebridades emergentes. O que será que Bruna Surfistinha tem a dizer?
• filmagens com os estrangeiros e suas colônias. E a saia justa de todo repórter: se o seu país for para a final com o Brasil, pra quem você torcerá?
• mitos pra lá, mitos pra cá. E na história de todas as Copas do Mundo isso, e aquilo, e coisa e tal.
• mais uma vez um jogo de estréia a desejar. Torcedores frustrados.

E se essa Copa do Mundo é aquela que mais investiu em tecnologia – dizem que a FIFA superestimou o poder das vuvuzelas, que atrapalham na recepção de som e, consequentemente, da transmissão televisiva – por que eu sinto falta de matérias mais elaboradas, com conteúdos mais reflexivos?

Uma vez a Tv Cultura passou uma série ótima e polêmica sobre o esporte: Mais que um jogo. Já tem uns dez anos isso, e eu nunca me esqueço. É que fui apresentada por uma verdade escamoteada, a do dopping com toda ciência e consciência aí envolvidas, ou não. E por que não aproveitar o momento para oferecer à população um pouco de informação científica? O dopping genético, por exemplo, é assunto pra lá de polêmico. Mas, mais próximo ao futebol e à própria Copa do Mundo está a confecção dessa nova bola, envolvida em muita ciência e tecnologia. Não daria margens para muitos programas de cinco minutos? Uma série, um qualquer coisa com um conteúdo das ciências, o futebol como fator de formação científica básica?

Eu tenho uma teoria, que é subjetiva, cuja conclusão me surge sem método nem estatísticas. É apenas uma observação empírica da coisa. Os jornalistas, e os repórteres, e o pessoal da comunicação não está muito habituado em trabalhar com a linguagem científica, mesmo sendo o futebol a paixão nacional. Talvez porque a ciência e a tecnologia sejam paixão apenas de alguns. Ou, do outro lado, no capitalismo da coisa, está a ponta da massificação da informação e coisa e tal.

Penso que, nos próximos seis anos, com a Copa do Mundo de 2014 a ser sediada no país, bem como os Jogos Olímpicos de 2016; penso que talvez esse pudesse ser o momento de levar à população reflexões mais críticas sobre os fatores envolvidos nesses eventos, principalmente em relação ao retorno para a nação. Não só, mas incluindo aí o conhecimento científico.

Por que é que nas últimas Olimpíadas a cobertura televisiva contou com mais desses artifícios e realizou mais embates científicos e tecnológicos? Câmera de movimentos lentos para entendermos a evolução técnica dos atletas, explicações sobre os recordes na piscina olímpica e sua construção tecnológica e etc, etc, etc. Por que o futebol parece ter sua discussão suficiente pela paixão nacional?

Por que as diversas mídias não vão aos laboratórios espalhados pelas universidades país afora para mostrar as evoluções científicas e tecnológicas que envolvem a preparação do atleta? Tem tanta informação diferente a ser pescada que me parece burrice um jornalismo esportivo feito de mesmices. O canal de cá com a mesma linguagem que o canal de lá. Competitividade, provavelmente.

Claro que não digo em 100%, digo de uma maioria. De qualquer forma, fica o alerta. Um país não se constrói só de paixão nacional. Tem muitas outras coisas aí que merecem entrar em pauta. E uma boa parte delas tem a ver com a Divulgação Científica. Isso, para que a bola não fique recuada no processo de crescimento do país.

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A Literatura de Cordel e a Leitura Científica

As possibilidades da Divulgação Científica são muitas. Algumas tradicionais, outras nem tanto. O fato é que em toda a possibilidade de comunicação há igualmente a possibilidade de divulgação científica. Simples assim. E como bem sabe o marketing e a publicidade, qualquer lugar pode vir a ser um suporte para as estratégias de ação. A mesma coisa se pode dizer da divulgação científica. A diferença é que esta última, em oposição ao marketing e a publicidade, ainda não está na boca do povo. Assume-se por uma distância e pelos esforços de aproximá-la do grande público, em luta de espaço contra o capital tomado pelas mídias de massa. Preferências de um mundo formado por gerações e mais gerações focadas no consumismo e na descartabilidade das coisas e das pessoas.

O instrumento da leitura, assim que adquirido, passa a ser inato ao ser humano, que lê de um tudo que lhe cai à frente: caixas de cereais, bulas de remédios, placas, propagandas, legendas de filmes, livros, notas de rodapé. E quanto maior o uso das letras, maior a incorporação da linguagem se faz para o dentro de cada um de nós. Também a música se faz de linguagem, e letra. E de olho nessa capacidade de comunicação, o marketing e a publicidade, nada bobos, fizeram uso dela através dos jingles, sempre presentes em comerciais de televisão e rádio, dois excelentes suportes para a divulgação científica. Do mais alto nível do uso da linguagem, com suas perfeições acadêmicas, ao mais popular e uso corriqueiro que dela se faz, específicos das tradições populares ou das tradições orais, como os cordéis, um tipo de poesia popular impressa em folhetos rústicos expostos para venda pendurados em cordas (ou cordéis), se faz comunicação e, portanto, divulgação científica.

A leitura científica permite a aproximação entre a população e a ciência. Propicia um aprofundamento de conceitos. Geralmente sugerem-se: a revista Ciência Hoje (publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), a revista eletrônica Café Orbital (publicação do Observatório Nacional), as revistas Scientific American e Scientific American Brasil (publicação da Editora Duetto), dentre outras como a Galileu (da Editora Globo), etc. Na ponta, os folhetos, o cordel, escritos em forma rimada e ilustrados com xilogravuras.

Nessa onda, o cordelista e presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Gonçalo Ferreira da Silva, lançou sua coleção Ciência em Versos de Cordel (publicação da editora Rovelle). Autor de diversos títulos com a temática da ciência, Gonçalo teve esse seu trabalho minuciosamente selecionado para dar origem a 12 livros infantis usando a literatura de cordel como suporte. São eles: Corpos Celestes, Microbiologia, Naturalismo, Natureza, Saúde, Criação, Imprensa, Astronomia, Mecânica, Matemática, Pensamento e Filosofia. Clap! Clap! Um bom exemplo do uso da leitura, das tradições e dos valores regionais para divulgar conceitos da ciência.

E que tal recitar esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados da viola? Os saraus agradecem, e o público também, afinal, conhecimento nunca é demais. Para você, uma boa leitura científica.

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Podem os vírus ter-nos tornado humanos? – Parte I

A questão começou por ser filosófica. Numa sessão da American Philosophical Society de 15 de Novembro de 2003, o virologista Luis P. Villarreal, director do Centro de Investigação em Vírus da Universidade da Califórnia em Irvine perguntava: «Can Viruses Make Us Human? A ciência tinha uma resposta objectiva. Não. Os vírus, que nem sequer seres vivos são considerados, são parasitas moleculares cujo interesse primordial consiste em induzir doenças no seu hospedeiro. Neste sentido, os vírus são qualquer coisa de maléfico. Veja-se o caso do VIH causador da SIDA que todos os anos ceifa milhares de vida em todo o mundo. Ou o vírus H1N1 que ameaçava dizimar populações inteiras. Ou ainda o temível vírus Ébola que nos filmes é-nos apresentado como uma espécie de assassino em série. Ou então o mais contido vírus da gripe sazonal que todos os anos faz com que milhões de pessoas passem os seus dias a espirrar. Para tornar tudo isto ainda mais grave, não há forma de os combater. Por conseguinte, como podem os vírus ter-nos tornado humanos? Não, para nós, o grande plano dos vírus sempre foi exterminar os humanos. Acontece que, além da objectividade pura não existir, a resposta da ciência a esta questão está profundamente afectada por uma subjectividade. Na verdade, alguns cientistas têm sido de tal modo convincentes que nós acreditámos sem qualquer resistência nos seus delírios. Estamos pois todos dentro ou fora da realidade, como acontece nos chamados delírios partilhados. Provavelmente, mais fora do que dentro. Talvez aqui a filosofia possa dar uma ajuda. Por exemplo, segundo Peirce, a realidade é tudo aquilo que nos provoca resistência. Quer isto dizer que se há qualquer coisa que cause resistência à nossa expectativa, então é provável que essa qualquer coisa seja real. A ciência é uma incessante busca pela realidade. E é escrita a lápis de carvão. Porque a ciência vive na eminência de ter de ser rescrita uma vez, e outra vez, e ainda mais outra. Aliás, a história da ciência é um livro rasurado em todas as suas páginas. O caso dos vírus é um exemplo bastante eloquente. Investigações recentes têm defraudado persistentemente as nossas expectativas. O que significa que, por certo, nos aproximamos cada vez mais da realidade.

Para hoje vejamos apenas o caso dos retrovírus endógenos. Em 2003 foi publicado um artigo muito interessante nos Proceedings of The National Academy of Sciences. Nele se falava sobre a capacidade que estes retrovírus apresentam na regulação do crescimento e diferenciação da placenta em ovelhas. Quer isto dizer que as ovelhas contém no seu genoma aproximadamente 20 cópias de um retrovírus endógeno altamente relacionado com o retrovírus exógeno e patogénico Jaagsiekte. Sendo endógeno e abudantemente expresso no tracto genital das ovelhas, ele não vai causar doença mas antes dar um contributo decisivo na morfogénese da placenta. E de tal forma que se for inactivado, então o desenvolvimento embrionário torna-se inviável. Ou seja, sem este vírus as ovelhas depressa deixavam de ser ovelhas.

Mas não se pense que isto é uma aberração da natureza sem qualquer significado. Na verdade, os retrovírus endógenos abundam nos genomas dos vertebrados, incluindo os humanos. Estima-se que 10% do nosso genoma contém sequências de origem retroviral muito diferentes entre si mas englobadas na denominação genérica de retrovírus endógenos humanos. E, espantem-se, pouco tempo depois de ter sido detectado nas ovelhas o tal retrovírus endógeno com funções na morfogénese da placenta, o mesmo retrovírus foi detectado por uma equipa de investigadores no útero de uma mulher justamete com as mesmas funções.

(continua)

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Positivismo, Ciência e progresso: Uma provocação.

A Promessa

No final do século 18, a maior parte dos cientistas responsáveis pela grande revolução científica européia, como Descartes, Galileu e Newton já haviam morrido, mas seu legado permanecia, e a Ciência ocidental continuava passando por um período muito fértil. No entanto, ela ainda era vista como apenas mais uma forma de conhecer a natureza, e não como a melhor forma de fazê-lo. A Ciência ainda não tinha o poder de legitimar o que era verdade e o que não era, já que o misticismo e o conhecimento religioso ainda tinham um grande poder explicativo na sociedade. Nesse contexto surgiu uma corrente filosófica de afirmação do conhecimento científico como sendo o único conhecimento autêntico e, mais do que isso, do homem (e não Deus) como sendo o produtor desse conhecimento. Ou seja, o positivismo é uma corrente filosófica que nos redime do pecado original de Adão e Eva e, mais do que isso, prega que temos mesmo que nos banquetear na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

August Comte (1798-1857), o “pai do positivismo”, escreve a obra que inaugura essa corrente filosófica, o Curso de Filosofia Positiva. Nesse livro, Comte formula sua Lei dos Três Estados, que parte do princípio de que a humanidade está evoluindo, avançando de uma época bárbara e mística para outra civilizada e esclarecida. Comte explica que essa evolução intelectual humana tem três fases muito bem definidas: a fase teológica, em que todos os fatos são explicados pelo sobrenatural (Deus); a fase mística ou metafísica, em que o homem começa a pesquisar a realidade, mas ainda com um viés sobrenatural muito forte (criam-se categorias alegóricas como “a Natureza”, “o Povo”, etc.); e a fase científica ou positiva, que seria o apogeu do intelecto humano. Os outros dois estados do conhecimento são apenas degraus pelos quais a humanidade teve que passar para atingir o estado mais elevado, em que o homem explica os fenômenos naturais por leis gerais que ele mesmo descobre a partir do estudo da natureza.

Dessa forma, para os positivistas o progresso da humanidade estaria intimamente relacionado com o progresso da Ciência. O conhecimento positivo (a Ciência) é o auge da evolução intelectual humana, então devemos investir nesse tipo de conhecimento e abandonar de vez a teologia e a metafísica, pois somente o conhecimento positivo poderá tirar a humanidade da ignorância e da superstição e colocá-la no caminho do progresso.

A Aposta

Por algum motivo, Comte e seus seguidores foram ouvidos. Foram muito ouvidos. O positivismo ganhou muita força. O lema positivista está estampado em nossa bandeira nacional, que diz “Ordem e Progresso”. A humanidade apostou boa parte de suas fichas na idéia de que para progredir seria necessário investir na Ciência.

Alguns séculos depois, aqui estamos. Agora temos satélites monitorando nosso planeta e chegamos à Lua. Temos super computadores com internet e carros ultra velozes. Seqüenciamos o DNA dos organismos e trocamos genes entre eles. Temos geladeira, microondas, ar condicionado, chuveiro quente, telefone celular, GPS, viajamos de avião e freqüentamos cinemas 3D. Fizemos descobertas médicas que aumentaram bastante a nossa expectativa de vida. Certamente temos uma vida muito mais confortável do que Comte e seus contemporâneos tiveram, e isso é fruto do investimento que a humanidade fez na Ciência.

Progresso?

Mas, será que podemos dizer que a humanidade progrediu? Não podemos esquecer que enquanto alguns fazem fila para comprar o iPad no primeiro dia, mais da metade da população da Terra não tem saneamento básico. Andamos nas ruas e vemos pessoas sem comida, sem teto, sem escolaridade e sem esperança. O que é o progresso da humanidade? Ser capaz de inventar robôs que deixam milhões de pessoas desempregadas? Inventar tranqueiras supérfluas que menos de 10% da população mundial tem dinheiro pra comprar? Às vezes me parece que os bons e velhos índios, que andavam descalços na mata e não tinham energia elétrica estavam muito na nossa frente em termos de “progresso humano”.

A pergunta que fica é: será que valeu a pena? E, se valeu, será que ainda vale a pena continuar investindo bilhões de dólares todo ano e sacrificar milhares de espécies e habitats para que a Ciência continue avançando? Aparentemente os positivistas estavam errados. O investimento no conhecimento científico não trouxe progresso pra humanidade (se entendermos que a humanidade consiste de todos os seres humanos, e não somente daqueles que têm boas condições econômicas). Talvez, inclusive, tenha agravado ainda mais as desigualdades e reforçado alguns preconceitos. Será que não está na hora de procurar uma outra forma de progredir? Porque eu não acho que uma sociedade que tem gente morrendo de fome possa ser considerada uma sociedade evoluída, não importa quão poderosos seus computadores sejam.

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Heróis e vilões na (falsa) história da Ciência

Às vezes é um pouco difícil definir o que a Ciência é. Saber o que ela não é passa longe de ser tarefa mais simples, principalmente se a olharmos historicamente, já que muito do que hoje consideramos como não-Ciência, como a astrologia, por exemplo, já esteve dentro do campo científico em tempos não tão remotos assim. E o curioso é que quanto mais estudamos e conhecemos a Ciência e seus métodos, mais difícil fica fazer essas (in)definições. Mas, independentemente da quantidade de estudo ou da linha filosófica que escolhermos para olhar a Ciência, uma característica dela é – ou pelo menos deveria ser – clara e inegável: ela é uma atividade legitimamente humana, ou seja, é feita por seres humanos. O conhecimento produzido no campo científico é resultado de um longo processo de trabalho duro de pessoas como você e eu.

No entanto, quando ouvimos falar dos cientistas, seja pela mídia ou nas próprias escolas, não é bem essa a imagem que vemos. Sob nenhuma circunstância passa pelas nossas cabeças que nós, com todos os nossos defeitos, poderíamos estar ali naquele livro, naquela matéria. É mais ou menos parecido com o que acontece quando lemos histórias de super heróis. Ênfase no mais ou menos. Já explico: ninguém pensa seriamente em se tornar um super herói. Talvez só na infância. E a imensa maioria da população também não pensa seriamente em se tornar cientista, o que ocorre em boa parte pelo desconhecimento do que um cientista de fato faz. No entanto, às vezes, quando lemos as histórias dos heróis, nos pegamos fantasiando como seria legal ter super poderes ou salvar a humanidade de ameaças que ninguém mais poderia conter. Mas quando lemos a história do Mendel, não pensamos “nossa, como seria legal ficar recluso num mosteiro cruzando e contando ervilhas por anos e só depois de morto ter o trabalho reconhecido para virar o ‘pai da genética’”. Além disso, as histórias de heróis deixam claro que eles, mesmo que venham de outro planeta, têm um lado humano muito forte, entram em conflitos e dilemas morais e, alguns, como o Wolverine, têm até um lado meio cafajestão. Mas os cientistas não; eles são todos parecidos, e todos muito, muito distantes de nós. É como se os super heróis fossem de alguma forma mais reais do que os cientistas. Wow.

As histórias que ouvimos dos cientistas são sempre assim: Super gênios isolados da sociedade que ficam fazendo contas e experimentos que ninguém mais consegue entender e descobrem coisas fantásticas com uma facilidade impressionante. Cai uma maçã na cabeça do Newton e ele descobre a gravidade. Darwin vê uns passarinhos numas ilhas e descobre a seleção natural. Arquimedes entra na banheira e descobre o empuxo. Realmente é mais fácil se imaginar soltando raios laser pelos olhos do que fazendo coisas como essas – e talvez até mais desejável. Os cientistas são heróis que ninguém gostaria de ser.

Quem você prefereria ser: Arquimedes ou o Superman? Hmm, difícil hein?

Todos ouvimos essas histórias, assim como todos ouvimos as histórias dos super heróis. A diferença é que mesmo uma criança sabe que as histórias dos heróis são falsas, enquanto essas absurdas histórias dos cientistas continuam circulando como verdadeiras. Chega. Está na hora de parar.

Não digo que está na hora de parar só porque seria legal se todos soubessem as histórias reais dos cientistas ao invés dessas versões distorcidas e descontextualizadas. O problema vai muito além da acuidade histórica, chegando a atingir as raízes da nossa sociedade e de seus valores. Essas historinhas mentirosas vão construindo uma imagem de quem são os cientistas (todos homens, brancos, europeus e muito inteligentes) e de como a Ciência é produzida (sempre por insights geniais desses cientistas). Ora, essa história tem uma mensagem que, apesar de implícita, é clara: os cientistas são pessoas muito mais inteligentes do que você pode imaginar, e essa inteligência é um pré-requisito básico para ter essa profissão. Sendo assim, é aconselhável que você acredite no que a Ciência diz, porque ela é feita por pessoas muito mais inteligentes do que você jamais vai ser. Não se meta a fazer Ciência. Deixe para quem sabe. E aí está mais um motivo pras pessoas não pensarem seriamente em se tornar cientistas: “isso não é pra mim! Não sou esperto o bastante”. Essa impotência frente à Ciência se deve em grande parte à essas falsas historias, que transformam alguns cientistas em admiráveis cavaleiros que salvaram a humanidade da ignorância e outros em vilões que difundiram idéias erradas, como Lamarck ou a própria igreja, por exemplo (olhem só como ela foi injusta com Copérnico, coitadinho!).

A história da Ciência é uma história de seres humanos. Isso deve ficar bem claro. Serem humanos erram e às vezes fazem coisas movidos unicamente pela emoção. Seres humanos têm família, amigos, amores e interesses. Seres humanos (da sociedade capitalista) precisam de dinheiro, e fazem o que podem pra consegui-lo. Seres humanos gostam de fama, poder e prestígio. Se os cientistas são de fato seres humanos, então todas essas características se aplicam a eles também. Eles não são nem heróis, nem vilões. Na verdade, eles tem nada de especial – nem mesmo a inteligência: acreditem, é tudo treino!

Deve ficar claro também que a história da Ciência é contada por seres humanos. Seres humanos que colocam o seu ponto de vista naquilo que contam, mesmo que não tenham a intenção de fazê-lo. Depois de alguns séculos de distorções (intencionais ou não), o resultado é uma história que tem pouco a ver com o que realmente aconteceu, que guarda pouco de quem realmente eram os personagens e que nunca considera que a época em que eles viveram era diferente da época em que vivemos hoje.

E quem sai perdendo com tudo isso? Vejo a situação como um sistema de retroalimentação positiva. Quanto mais essas histórias circulam, mais as pessoas se distanciam da Ciência. E quanto mais distante a Ciência fica da sociedade, mais convinventes essas histórias parecem ser. E dessa forma a sociedade fica sem entender a Ciência e a Ciência fica cada vez mais fechada em seu mundinho, sem que os próprios cientistas entendam seu papel nessa sociedade. E quem sai ganhando? Hmm…dizem as más linguas que uma população que acredita cegamente em tudo que tem o rótulo de “científico” (por não entender como funciona a Ciência) pode beneficiar bastante os grande grupos econômicos que controlam o capital, já que essa população é manipulada muito facilmente. Mas isso é só especulação. Será? Na dúvida, eu acho que seria melhor se repensássemos a forma de contar a história da Ciência e dos cientistas.

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Por que Galileu não seria publicado na Nature (nem na Science).

Não há dúvidas de que Galileu é uma das figuras mais importantes da ciência moderna. Aqui mesmo neste blog não são poucos os textos sobre ele e, evidente, por razões mais do que justificadas.

Galileu é uma das figuras centrais da Revolução Científica. Fez contribuições importantíssimas para a mecânica e astronomia além de ser sido um artesão bastante competente. Mas Galileu vai além.

Representa para a ciência moderna o “espírito” do verdadeiro cientista. É tido como o questionador por excelência. O rebelde que desafiou costumes, leis e arriscou a própria vida em prol da defesa de um conhecimento científico que combatia o obscurantismo medieval. É, mais do que todos, o gigante que apoiou em seus ombros tantos outros gigantes.

É claro que quem estudou a história do matemático sabe que essa imagem heróica atribuída a ele é, antes de qualquer coisa, uma interpretação da figura histórica de Galileu. Ainda assim, é uma interpretação conveniente. Ainda que não seja verdadeira, transmite para os jovens iniciados na ciência o tipo de atitude que se espera deles.

Mas será que é isso mesmo que a ciência quer? Será que a ciência moderna premia seus “rebeldes”? Se Galileu estivesse vivo hoje, veria seus trabalhos publicados pela Science ou pela Nature?

O subversivo método científico.
Alexandre Koyré cunhou o termo Revolução Científica, assim mesmo em maiúsculas, pra se referir à mudança que ocorreu na forma como a ciência passou a ser conduzida no século XVII. Com efeito, é até difícil de chamar o que veio antes da Revolução Científica de ciência.

O fato é que houve uma mudança drástica, e uma das características dessa mudança foi o abandono do aristotelismo como metodologia. Isso significa que noções como a divisão do Universo em mundo sublunar e supralunar deixou de existir, assim também como toda a física aristotélica foi aos poucos sendo derrubada. Galileu era neste sentido um subversivo completo.

Mesmo o uso de seu famoso telescópio como ferramenta de investigação não era permitida pelos aristotélicos. Para eles, era preciso estudar a natureza sem inteferências e o telescópio era exatamente isso, um objeto que se colocava entre a natureza e seu observador.

O instrumento era, antes de qualquer coisa, considerado uma curiosidade. Para a maioria das pessoas que olhavam pelo telescópio, o que ele fazia era produzir uma ilusão que não tinha qualquer relação com a realidade. Poucos entenderam o valor do famoso objeto. Kepler foi talvez o mais importante, já que vem dele a teoria ótica que explicava com pormenores o funcionamento do telescópio. Em todo caso, os trabalhos em mecânica de Galileu são tão subversivos quanto o próprio telescópio.

Ao realizar experimentos para explicar fenomenos naturais, Galileu podia estar usando uma metodologia que é perfeitamente aceita hoje em dia, mas completamente incompatível com o aristotelismo da época. Ao considerar que as causas por trás dos fenomenos celestes eram as mesmas causas por trás dos fenomenos observados na Terra, Galileu só reafirmava sua subversão.

Quando obstruir virou sinônimo de comunicar.
Mas deixemos Galileu de lado só por um momento, em prol da lógica do argumento. O que se viu nos séculos seguintes à Revolução Científica foi o desenvolvimento brutal da prática científica. E uma das características chave nesse sentido foi a institucionalização da ciência e a comunicação de seus avanços.

Começamos com as leituras nas sociedades científicas, passamos para um modelo intermédio aonde a comunicação das novidades era feita nas sociedades e depois distribuídas por periódicos e chegamos aonde estamos hoje.

Embora ainda hoje tenhamos congressos e eventos equivalentes que de certa forma cumprem o mesmo papel da antiga “leitura na sociedade”, é certo que o principal meio de comunicação da ciência seja através da publicação em periódicos.

O problema é que esse modelo se consolidou antes do advento da internet. Foi preciso criar mecanismos de filtrar o que seria publicado, já que não era, e ainda não é, comercialmente possível publicar tudo o que era submetido aos periódicos.

Podemos achar que o filtro criado é o processo de revisão por pares, mas o fato é que pelo menos para a Nature, isso não é bem verdade. O processo de peer review é secundário no que diz respeito ao que vai ser publicado neste periódico, como eles deixam bem claro em sua página na internet:

“O julgamento sobre quais artigos interessam para um público mais geral é feito pelos editores da Nature, não pelos referees.”

Em outras palavras, os editores da Nature julgam que tipo de artigos devem atrair um público mais generalizado, e não os representantes da comunidade científica. O que me faz questionar como é que a Nature se transformou em um dos periódicos mais importantes para a comunidade…

É claro que se pode argumentar que os editores da Nature são também cientistas, embora eu não tenha encontrado essa informação no site da revista. O caso é que o peso da decisão sobre qual artigo deve ser publicado parece ser mais mercadológico do que pelo interesse da comunidade.

Um caso emblemático neste sentido foi a publicação do artigo sobre clonagem humana na Science de junho de 2007. A despeito do alegado rigor com que estes periódicos alegam tratar o conteúdo a ser publicado, o artigo fraudulento foi publicado com grande pompa e anúncio em todos os meios de comunicação.

Posteriormente a culpa recaiu sobre o sistema de revisão por pares, mas é de se questionar se a culpa foi exclusivamente dos referres como ficou sugerido. O fato é que criou-se uma economia aonde a autoridade e importância do periódico esta relacionada com a quantidade de artigos que ele rejeita, e não na qualidade dos artigos que ele publica.

O curioso é notar que segundo este artigo publicado na PLoS, a maior parte dos artigos são rejeitados por falta de espaço para publicação. Ainda assim, tanto a Nature quanto a Science propagandeiam os altos índices de rejeição como resultado de sua seleção rigorosa, ainda que o peer review esteja claramente em segundo plano.

A ciência moderna segue assim nessa situação. Embora a comunicação seja um dos pilares fundamentais do processo de desenvolvimento da ciência, o que vemos é a dificuldade em ter acesso ao conteúdo submetido aos periódicos. Seja pela não publicação de artigos por questões mercadológicas nas versões impressas, seja pela obrigatoriedade de pagamento de taxas altíssimas para acesso das versões digitais.

Por que Galileu não seria publicado na Nature (nem na Science).
Mas voltemos a Galileu. Afinal, Galileu estivesse vivo hoje e o carater de seu trabalho tivesse o mesmo significado que teve em sua época, seria ele publicado em algum periódico? Sou obrigado a concluir que não.

Galileu rompeu com a tradição metodológica da época e seus trabalhos só são considerados importantes por que toda a ciência criada nos séculos após o matemático seguiu pelo mesmo caminho que ele.

Se fosse vivo hoje e trabalhasse com uma metodologia completamente diferente da que estamos acostumados, Galileu sequer seria considerado para publicação, seja por falta de espaço, seja por não poder passar pelo processo de revisão por pares.

No final das contas, nossa ciência que tanto diz gostar de ser desafiada e questionada, que elege como heróis homens que eram rebeldes metodológicos, dificilmente vai aceitar com alegria um Galileu moderno, um Kepler do século XXI.

Mesmo com essa constatação talvez pessimista, gosto de pensar que temos uma oportunidade de ouro hoje em dia. A web 2.0 pode mudar completamente a forma como a ciência se comunica e talvez permitir que a nova geração de cientistas possa ser um pouco mais rebelde.

Acredito que estamos em um ponto aonde o sistema de publicação e revisão por pares vai inevitavelmente sofrer alterações drásticas. O quão interessante seria poder ver um artigo que não fosse um conteúdo estático, preso à sua data de publicação?

Um artigo de conteúdo dinâmico, que pudesse ser melhorado gradativamente com o passar dos anos e por meio de uma revisão por pares à posteriori? Uma revisão por pares que não fosse levada a cabo por um pequeno colégio de especialistas, mas por toda a comunidade interessada?

Um artigo deste tipo não precisaria ser absolutamente rejeitado. Poderia ser aceito pela comunidade como um “projeto em andamento”, sendo pouco a pouco delapidado e transformado, mais ou menos como no desenvolvimento de softwares de código aberto que temos hoje.

Posso apenas imaginar esse tipo de mudança, nunca prever. Mas em minha opinião uma coisa é certa, ou mudamos nossa forma de comunicar e validar a ciência, ou corremos o risco de ignorarmos de forma injusta o nosso próximo Galileu.

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O mito da sustentabilidade

O que há de errada não é a ideia em si, mas como o discurso dominante que se apropriou ideologicamente do significado da palavra sustentabilidade, para dar a ele uma ideia de que é possível desenvolver sem agredir o meio ambiente, desde que seja um desenvolvimento tecnológico feito através do “know how” da ciência e financiado pela economia de mercado…

Aí é que jaz o problema, esse discurso hegemônico apoiado no paradigma cientificista-tecnológico que vivenciamos na sociedade moderna, capitalista, urbana e globalizada nos leva a uma lógica muito contrária ao que apregoa o discurso da sustentabilidade… Na verdade a lógica é a produção e o consumo. E para haver produção há de se ter recursos, buscados na exploração no meio ambiente (mas isso ninguém precisa saber, ou a gente dá um jeito de falar que estamos fazendo isso de uma maneira sustentável) e assim essa relação se retroalimenta pelo discurso que a produção se justifica, pois, garante a qualidade de vida (consumo exagerado e supérfluo).

sustentabilidade

E assim empresas que querem ser corretas do ponto de vista socioambiental, divulgam suas imagens em comerciais publicitários em horário nobre e os clientes e consumidores daquela marca, por terem uma visão simplificada do processo caem na armadilha do senso comum.

Um outro exemplo, da armadilha do senso comum é de que através de mudanças de comportamentos, haverá uma solução milagrosa de todos os problemas ambientais: locais e globais. Esses argumentos que se destinam à “conscientização” podem parecer convincentes para grande parte do público e apesar de conterem falácias, não são totalmente falsos. É importante sim que cada um faça a sua parte, mas , para haver mudanças significativas da realidade socioambiental não bastam apenas as transformações individuais, são necessárias também transformações ao mesmo tempo na sociedade.

E aí voltamos ao tema que deu início a esse “post” o mito da sustentabilidade. Se fosse empregado através do sentido dado pela Comissão Mundial da ONU sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED) deveria ser entendido da seguinte forma: “O desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as futuras gerações se satisfazerem.” No entanto, muitos acreditam que seguindo a lógica mercadológica do capitalismo atual, isso simplesmente seria impossível e somente uma quebra de modelo (paradigma) e mudança nos rumos sociais poderia possibilitar o um desenvolvimento efetivamente sustentável, mas isso pode vir a ser tema para um outro momento, possivelmente um outro “post.”

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Com o coração do lado direito

Há dias, estava eu a tentar por ordem nas dezenas de ficheiros que flutuam no ambiente de trabalho do meu notebook, quando de repente me salta aos olhos um artigo sobre competição espermática. Ah, os espermatozóides! Lembrei-me logo de uma história que eu costumo sempre contar quando pretendo mostrar a alguém como a lógica da vida nos prega uma valente rasteira de cada vez que julgamos saber tudo. 

Woddy Allen

Os espermatozóides, como todos sabem, têm uma cauda. E é precisamente essa cauda que lhes permite moverem-se com todo aquele vigor olímpico merecedor de uma ode pítica. Os biólogos chamam-lhe flagelo. A sua construção inicia-se com uma proteína chamada tubulina, que se organiza em longas estruturas tubulares, formando microtúbulos, que por sua vez se organizam em pares e se dispõem em círculo. Entre cada par, uma outra proteína chamada dineína põe ordem no sítio. Surge então o flagelo em todo o seu esplendor. Mas os espermatozóides não têm o exclusivo comercial destas estruturas. Os cílios, por exemplo, estruturalmente semelhantes aos flagelos mas mais curtos, batem aos molhos no nosso tubo respiratório, com a função de escoarem o muco e de filtrar e aquecer o ar inspirado. Os lagos e os mares estão cheios de microorganismos feitos de uma célula só rodeada por eficientes cílios e flagelos que lhes permitem mover-se de um lado para o outro. Os flagelos e os cílios são uma espécie de invenção mirabilis da Natureza. Mas como não há bela sem senão, é por causa deles que algumas pessoas têm o coração do lado direito. Pois. Do lado direito.

Como dizia há pouco, a dineína é a proteína que põe ordem no sítio e, mais importante ainda, gera a força mecânica necessária ao movimento dos cílios e dos flagelos. O que significa que, quando há uma falha na sua produção, instala-se um verdadeiro caos. Os flagelos e os cílios não batem e, por conseguinte, as células não podem cumprir a sua missão. A desordem instala-se. E se os espermatozóides não nadam então os homens afectados são estéreis. E se os cílios do tubo respiratório não batem então surgem as bronquites recorrentes e as sinusites e otites crónicas e aqueles narizes sistematicamente atolados em ranhoca e cheios de pólipos no seu interior. E se os flagelos e os cílios não batem então o coração fica do lado direito. Cinquenta por cento dos indivíduos que sofrem de síndrome da imotilidade ciliar sofre também de situs inversus com dextrocardia. Quer isto dizer que a assimetria corporal, definida pelas posições descentradas de órgãos ímpares como o coração, o intestino, o fígado e o apêndice, se encontra invertida e dá origem a pessoas simétricas das pessoas normais. É como se a imagem do espelho tomasse vida. Os que padecem conjuntamente dos três problemas, espermatozóides imóveis, cílios imóveis e situs inversus, dizem-se afectados pela síndrome de Kartagener, um subgrupo da síndrome da imotilidade ciliar. Kartagener porque foi precisamente este senhor que em 1933 fez com que este síndrome passa-se a letra impressa nos livros de medicina.

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Uma nota breve sobre a adaptação das espécies II

Mas afinal o que é que faz com que haja tanta variedade? Para os neodarwinistas, essa variedade resulta fundamentalmente das mutações e da recombinação génica. Mas há um outro mecanismo de produção da variação que é a simbiose e a transferência horizontal de genes. Por exemplo, quando começámos a sequenciar o genoma humano, ficámos surpreendidos pela quantidade de DNA que aparentemente não tinha qualquer utilidade. Era referido como junk DNA. Hoje sabemos que esse lixo é afinal informação genética de vírus e bactérias que a determinada altura integraram o genoma humano. Por exemplo, porque razão a nossa flora intestinal se mantém ordenadamente dentro de certos parâmetros fisiológicos e apenas com aquelas variedades de bactérias? Certamente porque houve transferência horizontal de genes. Um outro exemplo bastante paradigmático é o caso da lesma Elysia chlorotica que ao alimentar-se da alga Vaucheria litorea tem a capacidade de incorporar no seu epitélio intestinal os cloroplastos desta, e apenas desta, alga, mantendo-os viáveis por um período de cerca de 8 meses. No final desse período, ingere e integra novos cloroplastos. Ora, para isto acontecer, teve que haver uma transferência horizontal de genes por forma a que esses cloroplastos se mantenham viáveis. Na verdade, foram identificados no genoma da E.chlorotica genes – por exemplo, rbcL, rbcS, psaB, psbA – da alga V.litorea que possibilitam que haja uma tradução e transcrição activa de genes cloropastidiais dentro do animal hospedeiro. O que é, digamos assim, algo de absolutamente surpreendente. Por conseguinte, mutações, recombinação génica e simbiose são os grandes produtores de variedade contribuindo assim para uma maior possibilidade de adaptação por parte das espécies aos múltiplos desafios ecológicos.  

Será que é mesmo assim? Dawkins dirá que sim, que somos escravos de genes egoístas. Mas o conceito de adaptação também pode ser discutido noutra dimensão. Eu comecei por dizer que a adaptação é apenas aparente, o que na verdade acontece é que é a diversidade de características que possibilita a adaptação. No entanto, há casos em que a adaptação é comportamental e até mesmo cultural e tecnológica. Por exemplo, o engarrafamento do oxigénio permitiu-nos explorar novos mundos. Ou então coisas tão simples como a invenção de fatos térmicos que nos permitem aguentar temperaturas negativas que em condições normais seriam fatais. Até mesmo nas relações sociais nós desenvolvemos estratégias comportamentais de adaptação. E não se pense que isto é um exclusivo dos humanos. Muitos outros animais desenvolvem estratégias comportamentais, muitas delas adquiridas pela transmissão cultural. Por exemplo, os chimpanzés que fabricam instrumentos, as garças de Trinidad que usam um isco para capturaram peixes na superfície do lago, o abutre do Egipto que recorre a pedras para quebrar a casca dos ovos capturados, estorninhos que se esfregam com formigas porque o ácido fórmico elimina os parasitas, etc. Ou seja, a adaptação não é exclusivamente genética, isto é, ao nível dos genes, mas é também cultural.

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