Muito se especula sobre a capacidade do raciocínio humano. Nosso cérebro é, observando-se as devidas proporções, o maior do reino animal. Um orgão tão complexo naturalmente é alvo das mais diversas controvérsias. Uma delas, talvez a mais conhecida, é a idéia que atesta que os seres humanos só utilizam 10% de sua capacidade cerebral. Mas qual a verdade nesta afirmativa?
Antes de averiguarmos se realmente a capacidade cerebral não é totalmente utilizada, é preciso entender de onde veio tal conceito. Durante o século 19 as pesquisas sobre o funcionamento do cérebro ainda estavam engatinhando. Existiam diversas teorias sobre a maneira como o cérebro processava as informações. Uma dessas teorias alegava que o cérebro agia como um todo, processando todas as informações da mesma forma e em um mesmo local. Karl Spencer Lashley, seu criador, elaborou um experimento para comprovar sua teoria. Realizava pequenas cirurgias em ratos, lesionando propositalmente partes do cérebro dos animais e depois averiguando seu comportamento.
Lashey logo chegou a conclusão de que, de fato, os ratos não mostravam perda de habilidades visuais ou de memória significativas, mesmo quando a lesão atingia aproximadamente a metade do cérebro. Seus experimentos foram a base de outras teorias que foram surgindo e acabaram por gerar o mito de que os seres humanos não utilizam plenamente sua capacidade cerebral.
Embora sempre tenha havido oposição a esta teoria, ela acabou sendo amplamente difundida pois permitia uma série de interpretações nada científicas. “Videntes” e pessoas que alegavam possuir toda sorte de poderes sobrenaturais davam credibilidade às suas habilidades dizendo que eram capazes de utilizar mais amplamente sua capacidade cerebral. Os “10% do cérebro” viraram um local seguro a se recorrer quando um embasamento científico era necessário para dar credibilidade a algum tipo de charlatanismo.
A teoria de Lashley não sobreviveu aos ataques da ciência. Scanners de ressonância magnética e os PET’s demonstraram visualmente que de fato o cérebro age de forma compartimentalizada, processando diferentes informações em diferentes regiões. Os experimentos de Lashley também se provaram tendenciosos já que não analisavam de forma ampla o comportamento dos ratos lesionados. No mais, a própria afirmação de Lashley não se sustenta. Seria possível retirar 90% do cérebro de uma pessoa sem causar danos reais? O que dizer dos lobotomizados? Afinal, o que esses 10% significam de fato? Nem Lashley, nem os defensores de sua idéia souberam responder.
Hoje em dia o mito dos 10% ainda sobrevive, mas com nova roupagem. No livro Cachorros de Palha (RCB, 2005) John Gray defende que nosso consciente só consegue captar alguns poucos megabytes de informação enquanto nosso inconsciente capta um número muito maior de dados. Não há formas científicas de se quantificar a quantidade de dados captados pelo consciente, mesmo essa divisão de consciente, subconsciente e inconsciente é questionada pela ciência. Tal idéia não me parece diferir muito do mito dos 10%, tanto em sua honestidade quanto em sua validade.
*Obrigado ao amigo Ogro pela idéia do texto.
Indo além
Cachorros de Palha
Continuum: Como Funciona o Cérebro?
Mente e Cérebro
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Eu trabalhava com PET que é um tipo de tomografia por emissão de pósitrons, e nele nós usamos glicose marcada. Ou seja, onde tem atividade, tem metabolismo, usa glicose e aparece para nós. Digo a voces, a não ser que o pcte tenha alguma doença cerebral, o cerebro inteiro capta mais ou menos intensamente dependendo do estímulo.
Hah! Com direito a menção honrosa!!! =D
Muito interessante isso! Esse Lashley foi é muito espertinho. Como você falou (muito bem), tudo que ele descobriu foi uma excelente maneira de justificar diversos charlatanismos!!! Na verdade, de justificar a própria falta de conhecimento, né? Tipo, “já que não sei pra quê serve, vamos dizer que não serve pra nada”. heh
Agora… quanto a existência ou não de consciente, sub consciente e inconsciente… Psicologia não é uma ciência exata, é? Isso deve gerar um PEGA entre cientistas e psicólogos… Vixe!
Eu não acho que o Lashley agiu de má fé na verdade. Ele estava condicionado ao conhecimento da época. Embora sua intenção de explicar o funcionamento do cérebro fosse legítima e honesta, a idéia toda foi subvertida pelo charlatanismo.
Sabe como é, esse povo se apega a qualquer coisa que possa dar um mínimo de credibilidade para as maiores mentiras.
A psicologia não é uma ciência exata, mas a biologia também não. Na verdade temos três "grandes ciências". As ciências formais (as ditas "exatas", como a matemática), as ciências naturais (como a física e a biologia) e as ciências sociais (como a antropologia). Em tese as psicologia NÃO SE ENQUADRA em nenhuma delas. Existe um motivo pra isso… Acho que vale a pena fazer até um texto, mas tem a ver com a ciência moderna ser muito materialista e exigir que para que algo seja científico ele deve poder ser quantificado e, mais do que isso, deve poder ser explicado de forma materialista… Como vc pode perceber, a psicologia até pode quantificar alguns dados, mas como explicar os fenômenos quantificados de forma material? Qual seria a explicação materialista para o inconsciente?
É claro que existem críticas (das quais eu as vezes compartilho) desse método científico empregado hoje em dia. Ele deixa de fora muita coisa que obviamente deveria ser encarado com mais seriedade. Mas há aqueles que defendem que o que esta fora da ciência hoje inevitavelmente vai ser incluído quando as explicações materialistas apropriadas puderem ser formuladas…
Ótimo esclarecimento! Já ouvi muito falar desses 10% do cérebro, blah….
Quanto à psicologia, creio que apenas a psicologia comportamental (behavorismo) é considerada ciência.
abraço
Desculpe por um comentário após muitos anos. Mas decidi pesquisar sobre o assunto após assistir um filme chamado Sem Limites, de ficção científica, onde o personagem principal começa a consumir um remédio onde ele passa a usar o suposto 100% do cérebro e vira um tipo de "fodão". Só que se não é verdade que o homem usa apenas 10%, então porque quando uma pessoa treina algo, como atividades lógicas, ela se torna boa naquilo? Quando você treina matemática, você decora cálculos mentalmente? Porque quando estamos em uma situação arriscada você vira uma espécie de "superman" podendo se cortar sem nem perceber, levantar objetos pesados que você morreria pra levantar em uma situação normal, claro, isto vem da adrenalina, mas então, porque nosso corpo não é bombeado com adrenalina para conseguirmos estas super capacidades que nosso corpo não está habituado? Acho que realmente não usamos todo nosso potencial, mas isso ainda não foi estuda cientificamente, porém as pessoas vêm isso de uma forma ficcional, por exemplo "vamos poder nos teletransportar". Não é bem assim, temos uma capacidade muito maior, mas não algo irreal né.
Guillherme, também vi esse filme (Limitless) e concordo contigo plena mente, eu acho que a usamos 100% do cérebro, porém assim como usamos 100% do nosso corpo, não podemos nos confundir o uso físico de uso da capacidade, por exemplos:
- todos com o mesmo tipo físico pode correr, porém sem ao menos treinar e com o mesmo tipo físico sempre irá ter aquele que correrá mais rápido que o o outro, portanto será que isto não ocorre por que ao usamos 100% da capacidade que nos resta? sendo que desses que correram menos rapido geralmente são os que tem "maior inteligência" ou capacidade cerebral?
- sub consciente, inconsciente, consciente, para mim são apenas palavras inventadas ao que não conseguimos entender, pois o que será os sonhos? uma quarta categoria inteiramente voltada a criação chamada de Imaginação? talvez possa se dizer que a imaginação é a que chamada de sub consciente, inconsciente, consciente, lugar acessado facilmente enquanto estamos em repouso absoluto, portanto, podendo ter muito mais energia ou química ou capacidade de processo sendo amplamente utilizada pelo cérebro, que digas-se de passagem não pode parar e está 100% ativo, e que visto ao repouso de outros processos que o cérebro tinha que cuidar, sendo assim tendo mais capacidade de processamento e assim relembrando de tudo que vimos, ouvimos e sentimos, sendo acessadas somente nesses momentos de repouso. Tendo tudo isso em mente, então, creio que podemos ter bastante lógica ao dizer que não usamos 100% na nossa capacidade cerebral, porém usamos 100% do cérebro.
- quando perdemos uma parte de nosso corpo, mesmo assim, continuamos a usar 100% do que nos restou, porém a capacidade fica comprometida, as vezes perceptível como na perda de uma perna ou de forma imperceptível como a perda de um dedo.
Há muito que ser estudado, mas para mim é certeza de que não usamos 100% da capacidade do cérebro mesmo tendo a convicção de que usamos 100% do cérebro físico.
Na verdade o mito não é exatamente assim, mas foi distorcido com o passar do tempo por pessoas que aparentemente realmente usam menos de 10% do cérebro rssss.
Como realmente funciona:
Um computador pode ter inúmeros fins, você pode utilizar para processamento de cálculos, planilhas de textos, jogos, musica, uma infinidade de coisas… …mas… de todas essas coisas, quanto % dessa possibilidade você já usou? O processamento dele, você provavelmente usa constantemente 100% ou próximo, mas você já fez tudo o que da pra fazer com um computador?
Foi dessa forma que apareceu este mito, alguém algum dia no passado compreendeu que apesar de todos os cérebros ter aproximadamente a mesma "capacidade" ninguém nunca utilizaria o seu próprio cérebro para todos os fins que seria possível. Por exemplo, eu nunca usei meu cérebro para compor uma musica ou aprender medicina, mesmo eu sendo teoricamente tão capaz, como qualquer outra pessoa de aprender medicina ou compor uma musica!
Atividade cerebral sim, é constante, e 100% dele é ativa, mas as pessoas apenas utiliza ele para uma porcentagem muito baixa de coisas, em relação a tudo que poderíamos usar.
Apesar de tudo, ainda tenho pena de quem defende rigorosamente a teoria de que utilizamos apenas 10% do cérebro, eu apenas dou uma risada e respondo:
-Você usa só 10%? tenho pena de você! eu uso 100% do meu! rsss