O argumento da entropia

setembro, 2007

Na tentativa de desacreditar o darwinismo e a “teoria da evolução” como um todo, seus oponentes criam os mais diversos argumentos falaciosos. Existe um em particular que é usado com certa frequência e muitas vezes acaba sendo considerado válido pelo público leigo. É o argumento que se vale das leis da termodinâmica para provar a impossibilidade de qualquer organismo vivo evoluir.

A termodinâmica é um conjunto de leis da física que explica a natureza da energia e suas interações e transformações. É a termodinâmica que estabelece que energia não pode ser criada nem destruída, apenas transformada. É a termodinâmica também que estabelece o conceito de entropia. A entropia, erroneamente conhecida como um estado caótico, é na verdade o conjunto total da energia em seu estado mais degradado. Tão degradado que não pode ser convertida em mais nenhum tipo de energia.

É a entropia que impede a produção de um motor de funcionamento perpétuo. Imaginava-se um motor a vapor, aonde pistões seriam colocados em movimento pela força do vapor, o calor emitido pelo movimento dos pistões seria usado para aquecer a água que se transformaria em vapor e moveria os pistões. O problema é que quando a força do movimento dos pistões se converte em calor, parte da energia se degrada no processo impedindo seu reaproveitamento.

O que os opositores da teoria da evolução fizeram foi aplicar o mesmo conceito aos organismos vivos. Como explicar um cenário aonde organismos vivos simples vão gradativamente ficando mais complexos e mais exigentes de energia? Aparentemente a evolução então violaria uma lei da física e a única explicação conveniente seria acreditar que os seres vivos teriam sido criados em suas formas mais complexas.

O argumento todo faria muito sentido, se os opositores da evolução não omitissem um pequeno detalhe sobre a termodinâmica e a entropia. A entropia só aumenta em sistemas fechados, ou seja, sistemas que não recebem energia de fontes externas a eles. É o que ocorre com um motor de carro por exemplo, quando colocamos gasolina ou álcool estamos repondo a energia que foi convertida e diminuindo a entropia do sistema como um todo.

O planeta Terra é um sistema aberto. Sofre influencia direta dos raios de Sol e de raios cósmicos que chegam até aqui de todos os pontos do Universo. Essa descarga de energia entrando no planeta compensa a entropia e impede que ela aumente desordenadamente, ou seja, a entropia não impede que a evolução ocorre e portanto a evolução não fere uma lei da física.

Cada vez que uma planta fotossintetizante absorve a luz do Sol, compensa sua entropia. Cada vez que um vegetariano come uma planta, repõem a energia degrada pelo seu metabolismo diminuindo a entropia. Cada vez que um carnívoro se alimento de um animal herbívoro, compensa sua entropia.

Cada vez que o argumento da termodinâmica é usado para defender a impossibilidade da evolução, seu argumentador pode ser considerado um mentiroso desonesto que se vale da ignorância do público leigo para espalhar crenças infundadas ao mesmo tempo que tenta refutar não só uma teoria, mas um fato amplamente observado.

Pau que nasce torto, nasce torto mesmo?

setembro, 2007

Estes dias, entre amigos meus, surgiu uma questão interessante. Características humanas, como egoísmo ou comportamento violento por exemplo, são inatos? Seriam essas características definidas pela genética ou seriam fruto de interações do indivíduo com o meio ambiente?

É de costume, neste tipo de discussão, estabelecer relações comparativas com o comportamento de animais. Mas mesmo na etologia, a área do conhecimento que estuda o comportamento animal, essa questão não esta bem definida. Existe uma séria de complicações em se detectar quando um comportamento é inato ou quando foi aprendido. Alguns pesquisadores afirmam que é simplesmente impossível ter certeza de que um comportamento qualquer seja inato. A alegação é que ainda que um animal seja isolado de seus pais no momento do nascimento, ou ainda antes quando se trata de animais que botam ovos, não é possível afirmar categoricamente que ele não tenha sofrido um estímulo qualquer durante sua vida embrionária.

Pelo lado da genética a situação é igualmente nebulosa. Ainda assim existem bravos pesquisadores envolvidos com essa questão e, aparentemente existe um consenso geral de que é muito provável que o comportamento animal seja definido pela genética e pelo meio ambiente ao mesmo tempo. O estudo do canto das aves fornece alguns dados interessantes neste sentido.

Experimentos efetuados com pardais compararam o canto de aves de diferentes espécies em duas condições específicas. Algumas aves eram isoladas do convívio com outras enquanto outras aves eram mantidas em seu convívio normal. O que se constatou foi que, muito embora o padrão do canto das aves mantidas isoladas fosse substancialmente diferente do padrão das aves mantidas em convívio com outras, características específicas do canto de cada espécie (como a duração do canto por exemplo) eram mantidos. Isso pode significar um bocado de coisas, mas aparentemente a constatação mais clara é a de que o canto em si é de fato um fator genético já que as características individuais do canto de cada ave foram mantidas nas que foram isoladas de seus pares, no entanto, os padrões dos diferentes cantos de cada espécie são aprendidos.

Ainda no campo da genética existe um conceito conhecido como plasticidade fenotípica. A definição deste termo diz que um genótipo qualquer pode produzir diferentes variações fisiológicas, morfológicas ou comportamentais em resposta a condições ambientais específicas. Isso significa que um comportamento qualquer condicionado geneticamente (seja pelo comportamento em si, seja por depender de estrutura morfológicas específicas) pode ser modificado em razão da interação entre o genótipo e o meio ambiente. Por exemplo, se supormos que uma espécie qualquer de inseto tenha estruturas que produzam um som específico na época de reprodução, seu comportamento reprodutivo seria modificado substancialmente caso essa estrutura que produz o som seja originária de um genótipo que modifica sua expressão de acordo com, digamos, a disponibilidade de comida.

Mas voltando às características humanas. Será que elas passam por processos similares aos citados acima no que diz respeito ao comportamento animal? É preciso levar em consideração que o comportamento humano esta fortemente atrelado à cultura. Mas não seria a cultura a expressão máxima do comportamento humano? Não acredito que haja uma resposta definitiva para este caso.

Acredito apenas que passamos por processos similares aos dos outros animais, tendo a genética e o meio ambiente papéis fundamentais na formação de nossos comportamentos durante todo o processo evolutivo do homem. Os processos genéticos fornecendo a capacidade para o desenvolvimento de comportamentos sociais e culturais e o meio ambiente selecionando esses comportamentos. Não creio na possibilidade de alguém nascer predestinado a ser egoísta ou violento, como se é de imaginar caso a genética fosse a única força responsável pela expressão de tais características.

Nascemos todos com o potencial para o egoísmo e para o altruísmo. Para a violência e para o pacifismo. O que nos faz tender para um comportamento específico é nosso contexto histórico, social, cultural e, portanto, ambiental.

Duvidar é saudável!

setembro, 2007

Não sei a quanto tempo, mas anda rodando a internet um vídeo mostrando supostos discos voadores no Haiti passando por cima de coqueiros e subindo aos céus para se juntar a outros tantos discos. A algumas semanas também recebi um email dizendo que em determinado dia de agosto seria possível observar Marte no céu a olho nú , ele estaria do tamanho da Lua e o fenômeno só se repetiria em alguns séculos. Os dois casos possuem duas coisas em comum. Ambos são falsos e ambos foram encarados como legítimos por muita gente.

Esse tipo de situação não é raro. Ainda me lembro que certa vez o Discovery Channel passou um programa que especulava se seria possível, sem apelar ao fantástico, a existência de animais como os lendários Dragões. No dia seguinte diversas pessoas vieram me questionar se eu tinha visto que “os cientistas ” tinham descobertos fósseis reais de dragões. O mais surpreendente foi ver pessoas da minha sala da faculdade repetindo o mesmo.

Sagan já avisava, falta ceticismo no mundo. As pessoas parecem ter uma propensão a aceitar o fantástico imediatamente, sem pararem para questionar o que estão vendo ou aceitando. Um péssimo hábito cultivado cada vez mais por uma sociedade de pensamento padronizado, alguns diriam até “pasteurizado”. Não se para mais para ouvir, por consequência , perdemos a habilidade de analisar o que é dito. A preguiça de pensar ou de averiguar a veracidade do que foi exibido se alastrou como uma doença contagiosa. Qual a finalidade de pensar, se temos quem faça o trabalho pesado por nós?

Talvez seja a hora de os divulgadores científicos agirem com mais energia na tentativa de disseminar o ceticismo saudável, afinal este é o papel de todos que estão comprometidos honestamente com a boa ciência.

Indo além

Bilhões e Bilhões: Reflexões Sobre Vida e Morte.

O Mundo Assombrado Pelos Demônios.

A teoria da evolução NÃO EXISTE.

setembro, 2007

Não. Este que vos escreve não esta fazendo uso de entorpecentes. Nem ficou louco ou deixou de acreditar na ciência. Mas é fato, a teoria da evolução não existe e eu vou explicar o motivo.

A primeira coisa que devemos entender é que em biologia, a palavra evolução não quer dizer “melhoria” ou “progresso”. Na verdade, o Sr. Theodosius Dobzhansky definiu muito bem evolução como a mudança de frequência alélica dentro de um pool gênico. O que isso quer dizer exatamente?

Hoje é bem conhecido que durante a divisão celular o DNA contido na célula é copiado e que este processo nem sempre é exato. Na verdade, é comum que ocorram mudanças na sequência de DNA, conhecida como frequência alélica. Quando esta mudança ocorre em indivíduos já completos, esse processo as vezes resulta em doenças como câncer. No entanto, quando esta mudança na frequência alélica ocorre nas células sexuais, podem provocar a modificação de características de alguns genes. Muitas vezes tais modificações acabam por inviabilizar a célula, mas também não são raras as vezes em que essa mudança produz efeitos benéficos (nem sempre imediatos).

Tal fenômeno já foi devidamente documentado e pode ser observado com certa frequência de modo que podemos dizer que é um fato. A evolução, enquanto mudança de frequência alélica, é um fato observável portanto. O que realmente se questiona a respeito da evolução é a forma como ela ocorre. Qual o mecanismo que faz com que as modificações na frequência alélica se acumulem e sejam selecionados em detrimento de outros? Neste sentido já houve na história uma série de teorias. Entre todas as teorias propostas, a seleção natural de Darwin é certamente aquela que melhor explica os mecanismo da evolução.

O termo “teoria da evolução” acabou sendo usado pelo senso-comum como forma de se referir a toda idéia darwinista/neodarwinista, ignorando completamente o verdadeiro conceito de evolução (que insisto em frisar, é um fato observável) e causando uma série de enganos a respeito do tema.

Vale lembrar que mesmo os defensores do Design Inteligente reconhecem a evolução como um fato, muito embora duvidem que seus efeitos possam resultar no surgimento de novas espécies. O neodarwinismo defende, pelo contrário, que a evolução pode sim ser o motor do surgimento de novas espécies, servindo como uma explicação elegante da diversidade de de seres vivos no planeta.

Como diria Dobzhansky: “Nada na biologia faz sentido senão à luz da evolução”.