O pequeno problema da mídia.

novembro, 2007

O pequeno problema da mídia é que toda notícia é, antes de qualquer coisa, um produto a ser vendido. Hipoteticamente não haveria problema algum com isso, não fosse o fato de a notícia ser processada, como se fosse matéria prima, e vendida em uma embalagem bonita, como se fosse um pacote de salgadinhos. Um bom exemplo disso foi a recente publicação de um estudo que demonstrava uma forma de se conseguir células tronco polivalentes (células tronco capazes de se transformarem em qualquer tido de célula, com exceção dos anexos embrionários.), hoje extraídas apenas de embriões, usando células da pele.

Eu tive a oportunidade de receber a notícia através do Jornal Nacional da Globo. A reportagem anunciava o fato, dizendo rapidamente algo sobre a técnica empregada e em seguida alardeando que esta deve ser a maior descoberta, no campo de pesquisa com células tronco, dos últimos tempos. A reportagem seguia ainda mostrando todos os benefícios do tratamento com células tronco polivalentes, passeatas de pessoas com problemas físicos que teoricamente só poderiam ser resolvidos com o uso de células tronco e encerrava com o aval do Vaticano sobre a nova técnica. No dia seguinte, o mesmo Jornal Nacional, no mesmo horário, divulgou uma outra matéria.

O anuncio da matéria dizia que “cientistas brasileiros olham com cautela para a nova técnica que transforma células da pele em células tronco embrionárias”. O que o Jornal Nacional não disse foi que provavelmente TODOS OS CIENTISTAS SÉRIOS DO MUNDO estão olhando com cautela para o novo método, possivelmente até seus descobridores estão cautelosos. Mas já estava feito. Após as matérias do Jornal Nacional todo o tipo de revista, reportagem, entrevista e mesa redonda foi feito sobre o tema.

A notícia virou produto e muita informação circulou nos dias subsequentes. A questão é, qual era a qualidade da informação vendida? Há motivos para alardear tanto uma descoberta científica? Quais os interesses por trás disso tudo? Difícil responder tais questões. É possível afirmar apenas que a técnica é muito interessante por resolver o maior problema do estudo com células tronco hoje, a questão moral sobre os embriões. No entanto a descoberta é recente e não sabemos suas consequências.

A técnica usada para transformar as células de pele em células tronco é a manipulação de genes, e a manipulação de genes não é algo exatamente previsível. Em geral, erros na manipulação inviabilizam a célula modificada. No entanto, não há motivos pra crer que a manipulação desses genes seja de todo segura. Outra questão é de que o uso terapêutico de células tronco embrionárias em animais com frequência resulta em um câncer com resultados fatais e não na cura para a doença tratada. Este é o motivo para todos os cientistas estarem cautelosos sobre a nova técnica, e é por isso que os meios de mídia deveriam ser mais cautelosos ao divulgar a descoberta.

Que vendam seu produto, mas que o façam de forma responsável, especialmente no que diz respeito a novas descobertas científicas. Quanto a nova técnica, sejamos cautelosos, mas vamos torcer para que ela possa se desenvolver de forma a trazer os benefício esperados.

Mais um pouco sobre raças.

novembro, 2007

Este tema já foi discutido aqui, e por isso mesmo deixo a simplicidade de lado e me aprofundo um pouco mais no assunto. Recentemente tivemos a infeliz declaração do Dr. Watson, que alegou que os africanos são intelectualmente inferiores que o resto do mundo, justificando tal afirmação usando a genética. Tal declaração reacendeu uma série de discussões sobre o papel da ciência na origem do racismo. Alguns, menos honestos e mais apressadinhos, logo se adiantaram a dizer que o racismo é filho da ciência, esta mãe solteira e prostituída que agora nega sua própria cria.

Evidente que no “mundo ideal” destas pessoas é muito simples atribuir à uma única atividade humana, aquela que mais os incomoda por uma série de questões, um problema que, no mundo real que esta longe de ser o “ideal”, possui raízes muito mais profundas. Mas antes de entrar nesta discussão, vamos dar uma olhada rápida no passado, presente e futuro do conceito de raças para à ciência.

Um pouco de história antiga

Classificar a biodiversidade do planeta não é uma atividade recente. O primeiro sistema de classificação que se tem notícia é o de Aristóteles, que separava os animais em grupos de acordo com o local em que viviam (terra, água e ar). Desde então ficou clara a importância de se classificar os animais de forma a facilitar o estudo da imensa biodiversidade do planeta.

O processo de classificação mudou muito desde Aristóteles, especialmente entre os séculos XVII e XVIII. Foi durante esse período que a sistemática atual ganhou corpo com o trabalho de Lineu, que desenvolveu a nomenclatural binominal que é usada até hoje. Lineu também foi o responsável pela construção da hierarquia que divide os animais em reinos, filo, classe, ordem, família, gênero e espécie.

Cada divisão dessas é conhecida como táxon. Era a análise morfológica, ou seja, a comparação de características físicas dos animais que levava os cientistas da época a determinarem em que táxon cada um se enquadrava. Mas as dificuldades logo surgiram. Algumas animais pareciam se enquadrar em mais de um táxon, enquanto outros pareciam não se enquadrar em nenhum.

Com isso foram sendo criados subtáxons, que funcionavam como uma espécie de “gambiarra” de sistematização. Não demorou para um táxon em particular, o que definia a espécie dos animais, ganhasse um subtáxon conhecido como subespécie. É importante notar que em algum momento da história, o conceito de subespécies e raça acabou se misturando.

A princípio a palavra raça definia apenas as diferentes variedades comerciais de alguns animais como cachorros, pombos, cavalos e etc. No entanto, logo subespécies e raças se transformaram em sinônimos, dando ao termo raça uma espécie de embasamento científico diretamente relacionado à sistemática.

Com o conceito de raças mais ou menos estabelecido, alguns cientistas da época, incluindo Darwin, acabaram por separar as populações humanas em raças. A divisão era feita, como tudo na época, por comparação morfológica e foi essa divisão que deu origem à divisão dos humanos em negros, caucasianos e mongolóides.

Um pouco de história moderna

No século XX as coisas mudaram um pouco. Ficou claro para os biólogos modernos que separar os animais por diferenciação morfológica não era mais suficiente. Com frequência haviam enganos e mudanças de classificação. A maioria passou a concordar que a classificação feita por comparação morfológica era muito subjetiva.

O avanço dos estudos em genética, comportamento animal, biologia molecular e muitos outros acabou por definir uma nova forma de classificação. Hoje em dia temos três ciências que cuidam disso, a sistemática, a filogenética e a cladística. A sistemática cuida da organização, criação ou extinção das ordens taxonômicas. A filogenética estabelece as relações evolutivas sobre os organismos na tentativa de melhor agrupá-los nos táxons. A cladística analisa a relação evolutiva dos seres tentando estabelecer sua genealogia.

A genética é parte muito importante neste estudo e ajudou a responder uma série de dúvidas de classificação. Foi a genética que mostrou que o conceito de subespécies era superestimado e que, em geral, nenhuma classificação de subespécies se sustenta.

O índice de fixação

Tal afirmação se baseia no índice de fixação, conceito criado por um geneticista americano chamado Sewall Wrigth. O índice de fixação surgiu de um conceito anterior que estabelecia que, quando da análise morfológica de duas populações, um valor de variação entre 25 a 30% entre elas indicava que eram subespécies diferentes.

O índice de fixação usa o mesmo valor de variação, mas a variação que se compara não é mais entre as diferenciações morfológicas e sim do material genético. Usa-se a fórmula do índice de fixação para se calcular a diferenciação genética entre duas populações e entre indivíduos de uma mesma população. Diferenças genéticas entre 25 a 30% indicam que as populações comparadas pertencem à subespécies diferentes.

A aplicação do índice de fixação entre os seres humanos indicou que as diferenças genéticas não ultrapassam 15%, estabelecendo por fim que não existem subespécies, e portanto raças, entre os seres humanos. A aplicação do índice de fixação em outros animais vem indicando que as divisões em subespécies não encontram embasamento genético.

A comissão Internacional de Nomenclatura Zoológica não estabelece regras para a nomenclatura de subespécie, indicando que a comunidade científica internacional esta de fato abandonando o conceito de subespécies e, portanto, raças.

Um pouco de palpite sobre o futuro

Eu acredito que daqui pra frente a tendencia será ir abandonando aos poucos os subtáxons. Os táxons em si estão passando atualmente por uma profunda reformulação, reenquadrando algumas formas de vida em reinos próprios. A microbiologia e a genética tem papel fundamental nesta reformulação, pois estabelecem formas confiáveis de análise comparativa dos seres vivos. A morfologia não foi totalmente descartada e, muito provavelmente, nunca o será. Mas seu papel foi imensamente reduzido.

Voltando para a discussão do racismo

Aqueles citados acima, os desonestos e apressadinhos que atribuíram o surgimento do racismo à ciência, costumam com frequência ignorar que o empreendimento científico não é um processo dogmático. A ciência erra, e erra muito. Mas aceita seu erro e, tendo completa consciência de que seus processos não são perfeitos e a prova de falhas, com frequência os reformula para refletirem melhor a realidade observada.

Neste sentido, a ciência assume que por um período deu suporte ao conceito de raças na espécie humana. Mas deixa claro que as pesquisas e técnicas recentes desfizeram esse engano. O conceito de raças é hoje marginalizado mesmo nas ciências sociais, aonde se prefere usar o termo etnia para se referir às diferentes populações humanas. Atribuir o racismo à ciência unicamente, é ser desonesto e absolutamente superficial. É ignorar todo um processo histórico e cultural iniciado desde o surgimento do homem na Terra.

Como ignorar que a igreja justificava a escravidão dizendo que os negros não tinham alma e que, portanto, não passavam de animais? Como assumir que o simples ato de se conceituar raça, justifique ações de ódio contra raças? Será mesmo que se o conceito de raça jamais tivesse sido formulado, nunca teríamos visto o ódio entre brancos e negros? Como ignorar os processos de transformações políticas, culturais e sociais quando o mundo começou a ficar pequeno demais para manter as populações humanas separadas geograficamente, misturando as mais diversas culturas e gerando os mais diversos conflitos? Alguém ai da platéia gritou Jihad? Cruzadas?

Estou certo que sim.