Sobre a história da relação Ser Humano x Natureza

Nos primórdios da humanidade, na pré-história (aproximadamente 4000 a.C.) período que antecede a invenção da escrita, há, portanto, uma falta de registros de como se inter-relacionavam ser humano e natureza. Possivelmente estas relações eram baseadas no princípio de que homem e natureza eram um todo, sem a separação de um e outro, consequentemente não se observavam relações de domínio ou posse da natureza pelo ser humano.

Com o passar do tempo o ser humano passou a dominar técnicas que o possibilitaram o manejo da natureza como a fabricação de utensílios para a caça, pesca, coleta e manufatura de materiais. Estas técnicas mesmo que rudimentares já demonstrava uma certa independência do ser humano em relação à natureza, no entanto, foi somente com o desenvolvimento da agricultura e a domesticação dos animais, que ele conseguiu diminuir sua dependência em relação à natureza, tornando-se não mais nômade, e fixando-se em habitações. Assim as relações ser humano x natureza mudaram de uma perspectiva de ‘’uma coisa só” para uma relação de domínio desta por aquele.

Na idade média, esta relação, mais uma vez sofre uma mudança com a inserção de um elemento “sobrenatural” ou “divino”. Para mediar as relações entre ser humano e divino surgem as religiões, que determinam como serão estas relações estabelecendo regras que devem ser cumpridas (dogmas). Na mesma época há o surgimento também do Estado que passa a controlar as relações entre os seres humanos, ou seja, agora existem pessoas que cuidam de como o ser humano se relaciona com o sobrenatural (clero) e como este se relaciona com as pessoas (Estado). Neste contexto, a relação ser humano x natureza sofre uma mudança intensa, pois, a humanidade privilegiada por suas habilidades e origem divina passa a exerce sobre esta a natureza um domínio oficializado pela igreja e por “Deus”.

A partir do Renascimento (séc. XVI) e com a difusão de idéias antropocêntricas e racionais, a relação ser humano x natureza sofre também uma mudança bem significativa, pelo fato do ser humano passar a ser o centro, um ser privilegiado por suas habilidades racionais e por isso apto a explorar e se apropriar da natureza (não mais como direito divino), mas utilizando a racionalidade que o diferencia e destaca dos demais animais.

Em plena revolução Científico-industrial o mundo natural passa a ser objeto de conhecimento empírico-racional, de uso do ser humano para bem de seu desenvolvimento e de desenvolvimento de suas atividades. Esta relação ser humano x natureza é apoiada pela visão mecanicista do mundo e confere a natureza o ‘’status” de meio de obtenção de lucro e recursos naturais infinitos, para uso dos seres humanos. Assim começa-se a construir e intensificar uma relação cada vez mais exploratória da natureza, pelo ser humano, que foi transpassando os séculos num voraz uso dos recursos naturais, até que estes foram dando sinais de que não eram tão infinitos quanto se imaginava…

A reação ocorreu, a partir de meados do século XX com os movimentos ambientalistas que tentavam despertar o interesse pela história natural e valorização da natureza. Estes movimentos ambientalistas apareceram principalmente nos anos 60 e 70 (séc. XX) aliados a outros grupos como hippies, pacifistas e socialistas com discussões. As idéias “ecologistas” passaram a ser uma das muitas a serem defendidas junto com as anti-militaristas, pacifistas, direito das mulheres e direitos das minorias.

Estas idéias ecologistas criticaram, sobretudo, as relações ser humano com a natureza que vinham degradando a natureza em prol de uma produção cada vez mais desenfreada, para suprir as necessidades de consumo, muita das vezes supérfluas das sociedades industrializadas modernas. Este movimento ambientalista trouxe a público, questões de reflexões e interesse da humanidade como o uso de energia nuclear, o uso desregrado dos recursos da natureza, extinção de espécies animais, acidentes ambientais e a necessidade mais profunda de discussões teóricas sobre as visões de relação da humanidade com a natureza.
Ainda no mesmo século (XX), nas décadas de 80 e 90 surgem os Partidos Verdes, cujos interesses visavam ações políticas e governamentais em proteção da natureza.

Posterior ao surgimento dos movimentos ambientalistas, houve a necessidade de discussões teóricas sobre as inter-relações ser humano x natureza. Estas discussões são norteadas por duas principais linhas de pensamento: (1) a antropocêntrica, que ressalta a dicotomia ser humano x natureza, justificando a exploração da natureza, através da ciência e tecnologia, sendo a natureza somente um depósito de recursos para uso do ser humano, e este está no centro destas relação; (2) a ecocêntrica ou biocêntrica, onde a natureza está no centro destas relações, e o ser humano é somente mais um ser vivo inserido no mundo natural, além deste ter um valor intrínseco e independente da utilidade que possa ter para o ser humano.

A partir destas duas linhas norteadoras do pensamento sobre as relações ser humano x natureza, surgiram diferentes escolas com diferentes correntes de pensamento ecológico, que serão melhores discutidas em outro post.

P.s. A dissertação que seguiu teve como base a descrição das inter-relações ser humano x natureza, no entanto, está longe de ser a “história real”, pois em sua maior parte é explicada sobre a égide de uma visão européia, principalmente até o século XVI. Nós brasileiros e sul-americanos carecemos de uma história nossa, não desvinculada da européia, pois sabemos da influência desta sobre nossa cultura e ciência, mas urge uma visão que contemple também a histórica das inter-relações ser humano x natureza, dos outros povos que são tão importantes na nossa história, como os indígenas que habitavam nosso continente e os africanos que foram trazidos para cá.

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Ciência em fase beta.

Publicar um artigo científico é, em geral, um processo laborioso e até certo ponto burocrático. Além do evidente trabalho de escrever o artigo, é preciso submetê-lo a uma revista apropriada e torcer por uma resposta positiva. Daí até a publicação efetiva o artigo ainda passa pela peer review e etc.

O caso é que na maioria das revistas, da aceitação do artigo à publicação, existe um hiato de, em geral, um ano. Dependendo da revista, esse período pode aumentar ainda mais, eventualmente, chegando a três anos.

Disso resulta que é muito comum ver os pesquisadores distribuindo seus trabalhos entre seus colegas antes de ele ser publicado. A questão que podemos levantar disso tudo é, até quando tal situação vai se manter?

Quer dizer, é compreensível a importância do artigo publicado em uma revista científica. Tem a ver com a famosa “auto-validação” da comunidade. Quando um artigo é publicado, significa que esta validado. Por outro lado, tal artigo já estava “nas mãos” da comunidade antes disso, e em alguns casos, já poderia estar sendo usado como conhecimento validado.

Se assim o é, podemos dizer que o artigo já estava validado pela comunidade, embora não pelo método “oficial”. Extrapolando um pouco a situação toda, e fazendo um monte de especulações, podemos imaginar um cenário futuro curioso.

E se os pesquisadores começassem a disponibilizar seus artigos em seus blogs ou sites pessoais? E mais, e se isso fosse o suficiente para o trabalho ser reconhecido pela comunidade? Afinal, por mais referree’s que uma revista possa arranjar para avaliar seu artigo, eles ainda seriam menos do que os que poderiam potencialmente realizar a mesma atividade caso o artigo estivesse amplamente disponível na internet.

De fato, é possível dizer que desta forma, toda a comunidade de pares poderia, em última análise, avaliar um artigo qualquer. Mais ainda, o pesquisador em questão poderia ir modificando seu artigo conforme fosse recebendo críticas ou sugestões, além de poder constantemente atualizá-lo conforme fosse desenvolvendo a pesquisa.

Isso produz um efeito semelhante ao que vemos hoje em dia com os softwares disponíveis pelas grandes empresas de internet. Eles estão sempre em fase beta, por que estão sempre sendo modificados pra atender o feedback dos usuários.

Será este o destino da ciência 2.0? Estar em fase beta? E com uma comunidade capaz de validar os trabalhos científicos sem que eles sejam publicados em revistas de renome, qual seria o destino destas publicações?

É um cenário extremo, mas não de todo impossível.

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Pós em Divulgação Científica

Antes que as pedras voem, aviso: Este não é um post pago.

A divulgação científica no Brasil não é um fenômeno recente. Que o diga o grande divulgador-cientista-jornalista José Reis. Mas apesar de não ser novidade alguma, é impossível negar que a atividade como um todo vem, nos últimos tempos, ganhando ainda mais importância, relevância e maturidade.

A internet tem grande responsabilidade neste movimento, e apesar disso é estranhamente negligenciada na maior parte dos cursos que tratam sobre o tema.Foi pensando sobre isso, em um brainstorm regado a pizza e vinho, que a Andréa, a Fernanda e eu desenvolvemos o projeto de um curso de Divulgação Científica que dê a devida importância à internet.

Foi durante o brainstorm que pensamos: Se estamos aqui dando tanta importância para a internet, por que não fazer o curso em Educação a Distância? Com isto em mente, não só decidimos que o curso seria em EAD, como também decidimos organizá-lo todo à distância. Tirando aquele primeiro brainstorm, todo o resto foi feito através da internet.

Com o projeto todo pronto, e com a Andréa trabalhando na parte burocrática, o projeto foi aprovado pela Universidade Gama Filho e se transformou no primeiro (até aonde me consta, embora exista um curso em jornalismo científico em EAD) curso de pós-graduação lato senso em Divulgação Científica à distância destas terras tupiniquins.

Eu poderia ficar aqui discursando o quanto estou feliz com este projeto e etc, mas é melhor pular a parte sentimental e irmos diretamente ao que interessa:

O curso tem carga horária de 340 horas e mais 20 presenciais (presenciais? Sim, por determinações burocráticas a legislação atual exige que determinados cursos em EAD tenham horas presenciais obrigatórias. Mais detalhes aqui e aqui. E meu obrigado ao Sérgio Lima pelo toque). Pode ser feito por qualquer pessoa de qualquer lugar do Brasil, e as inscrições são, evidentemente, feitas através do site.

As disciplinas são divididas em 4 módulos:

- História e Filosofia da Ciência
Introdução à Divulgação Científica;
História e Filosofia da Ciência;
Tópicos em Ciência;
Metodologia da Pesquisa;

- Divulgação Científica
História e Filosofia da Divulgação Científica;
Ética em Divulgação Científica;
Tópicos em Divulgação Científica;
Tecnologia da Informação na Divulgação Científica;

- Meios de Divulgação Científica
Documentação e Informação em Ciências;
Jornalismo Científico;
Ferramentas Virtuais: Mídias;
Ferramentas Virtuais: Objetos de Mídias;
Comunicação Visual;

- Práticas de Divulgação Científica
Escrita Criativa;
Escrita Crítica;
História em Quadrinhos;
Fotografia Digital;
Podcast e Videocast;
Blogs;

Outros informações como preços e a data do início das aulas podem ser consultadas no site do curso. Divulguem, twittem, espalhem.

Obs: Embora o curso esteja classificado como pós-graduação em ciências biológicas, é aberto a todos os interessados, de qualquer área.

Panfleto de Divulgação. Clique para ampliar.

Panfleto de Divulgação. Clique para ampliar.

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Remédios naturais

Imagine que você está com uma dor-de-cabeça terrível e que pode escolher entre dois remédios igualmente eficientes: um comprimido e um chá feito com cascas de árvore. Qual dos dois você preferiria, sabendo que ambos resolverão o problema da mesma maneira? Em princípio não haveria razão para preferir um ou outro método, a não ser pela facilidade de ingestão – há quem tenha dificuldade de engolir comprimidos, outras pessoas detestam chá… No entanto, tenho certeza de que uma grande proporção das pessoas escolheria o chá com a mesma justificativa: é que o chá é natural…

Primeiro vamos entender o conceito de “natural” utilizado nesse pensamento. Um comprimido obviamente é uma substância química manipulada pelo farmacêutico, humano, e, portanto, não veio pronto da natureza. Já o chá é apenas alguma parte vegetal preparada em água quente e portando todas as suas características originais, sendo, assim, natural.

Se o princípio ativo das duas formas de medicamento é o mesmo, isto é, se a substância que vai fazer a dor-de-cabeça passar é a mesma tanto no comprimido, quanto no chá, por que é, então, que o método de extração faria alguma diferença?  Quando a substância sintetizada em laboratório (e idêntica àquela do chá) é introduzida no corpo do paciente, o organismo percebe que ela não foi gerada na planta? Não, o corpo não sabe, por isso é apenas crendice supor que uma substância “natural” é superior à dita “química”.

Agora modifiquemos o exemplo: as suas opções para aliviar a sua cefaléia insistente são um comprimido de aspirina e um chazinho de casca de salgueiro. O comprimido foi fabricado por um laboratório e o chá foi feito pela sua avó. Qual você prefere? Nesse caso eu recomendo fortemente que você opte pelo comprimido, exatamente porque ele não é “natural”. A casca do salgueiro possui, além do princípio ativo da aspirina, milhares de outros compostos químicos, desenvolvidos ao longo do processo evolutivo como forma de defesa química contra predadores. Isso significa que não sabemos exatamente como essas substâncias interagem entre si. Some-se a possível ocorrência de substâncias exógenas, como fungos e bactérias, as quais influenciam a composição química da casca. Quando testados os compostos para verificar-se o princípio ativo da casca do salgueiro, isolou-se a substância que comprovou ser a solução para a dor-de-cabeça, e aí o produto já deixou de ser “natural”, porque ele foi filtrado – manipulado em laboratório.

Assim, o comprimido foi desenvolvido a partir de uma substância encontrada na casca do salgueiro, e cuja composição foi melhorada para atingir sua máxima eficiência. Quando a sua avó faz o seu chá ela não verifica a sua resposta fisiológica e não faz testes controlados para saber se a planta está realmente fazendo efeito ou se há algum risco para a sua saúde. Os laboratórios, por mais fraudulentos que sejam, fazem esse tipo de teste e são regulados por alguma agência pública de saúde, que pode verificar resultados de experimentos extensos e decidir se um determinado medicamento pode e deve ser liberado para consumo da população.

Os medicamentos “naturais” utilizados com base na sabedoria popular são muito importantes, porque constituem uma fonte de informação acumulada por inúmeras gerações, baseada no princípio de tentativa e erro, mas não são exatamente um exemplo de segurança. Por essa razão a disciplina da Etnobotânica (que estuda, entre outras coisas, o conhecimento humano de vegetais e seu uso) é ativamente estimulada, para investigar cientificamente a eficiência de tais medicamentos e, por vezes, romper crendices e superstições.

Aqui tem um post de Cristina Vieira discutindo os supostos benefícios de substâncias naturais, e aqui um artigo de Lauro Barata, pesquisador do Laboratório de Química de Produtos Naturais do Instituto de Química da UNICAMP, sobre a produção brasileira de fitomedicamentos.

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