O outro lado da moeda – um preâmbulo

outubro, 2009

E se um dia você for fazer um plano de saúde e a atendente, muito graciosamente, te disser: “Sinto muito senhor, mas nossa empresa não se interessa em fazer um plano para você. Aquela amostra de sangue que recolhemos do senhor na semana passada acusou que você tem um gene que causa câncer. Não podemos arcar com esses prejuízos. Tenha um bom dia!”.

E se um dia você for matricular seu filho na escola e a secretária disser: “Olha…eu sei que seu filho tem apenas 5 anos de idade, mas acontece que ele tem o gene da agressividade. Não queremos alunos violentos em nossa escola. Sinto muito, não poderemos fazer a matrícula do seu filho, mas posso te passar o nome de algumas escolas que aceitam margin…digo, crianças com esse gene”.

Absurdo demais? Talvez nem tanto. Na verdade, não falta muito para chegarmos lá. Tudo o que falta, aliás, é a certeza absoluta de que o sujeito vai mesmo desenvolver câncer e de que o moleque vai mesmo ser violento – o resto a ambição e a cretinice humana dão conta de fazer. Cientistas não muito gente boa estão trabalhando para que isso aconteça, enquanto nós ficamos aqui, no escuro.

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Observação, teoria e experiência.

outubro, 2009

Alexandre Koyré foi um dos gigantes da história e filosofia da ciência. Seu trabalho foi fundamental para a estabelecer a revolução científica com o ponto central da história da ciência, além de romper com a narrativa positivista da primeira geração de historiadores.

Um dos pontos curiosos do trabalho de Koyré é a radical importância que ele dá à precedência da teoria sobre a experiência. Com efeito, Koyré chegou a afirmar que face ao papel da teoria, a experiência é inútil.

Essa posição é particularmente notável em seus trabalhos sobre Galileu, e desencadeou uma série de outros tantos trabalhos por outros tantos pesquisadores que passaram a averiguar se os experimentos descritos por cientistas do passado eram de fato possíveis de serem feito à época, ou apresentavam os resultados descritos.

Alexandre Koyré

Alexandre Koyré

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Empreendimento temporário?

outubro, 2009

Certa vez, e várias vezes depois dessa, eu li que o conhecimento científico é somente mais um tipo de conhecimento humano, e que não deveria haver valorações, ou seja, não deveríamos considerar o conhecimento científico melhor (ou pior) do que os outros tipos de conhecimento humano, como o religioso, o do cotidiano, a sabedoria popular, etc. “Há, até parece! O cara que escreveu isso deve ser um criacionista lazarento!”, pensei eu na primeira vez que li isso. E na segunda. E na terceira. De certo na quarta também. Talvez na quinta e na sexta. Enfim, entender isso foi um processo lento e doloroso, e até hoje me pego de vez em quando pensando que a Ciência é a melhor.

Thomas Kuhn, o grande filósofo dos paradigmas e das revoluções, me ajudou a entender isso, mas eu tive que extrapolar a teoria dele um pouquinho para isso. Tive que tirar ela da Ciência pra perceber que existem paradigmas também na sociedade; existem idéias e valores que permeiam a forma de pensar das pessoas de uma maneira tão íntima que parecem imutáveis e atemporais. Essa noção de que o conhecimento científico é melhor que os outros tipos de conhecimento é um desses paradigmas, e para entender como ele surgiu temos que voltar no tempo até uma época em que as coisas eram bem diferentes: a Idade Média.

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O ringue oculto dos cientistas e a falsa democracia

outubro, 2009

Atualmente aclamamos a democracia como a melhor forma de governo para as sociedades humanas, e não olhamos com bons olhos aqueles que defendem ditaduras ou monarquias. De fato, já que o governo deveria atender os interesses do povo, nada melhor, na teoria, do que um regime governamental em que os cidadãos tenham voz e participação nas decisões, não só podendo elecroger seus representantes, mas também reivindicando que esses governantes garantam a melhor qualidade de vida possível para a população. A democracia, entretanto, tem um pequeno viés: depender, por assim dizer, da participação popular. E se o povo for passivo, acrítico e não se interessar por participar das decisões políticas de sua cidade/estado/país? Se isso ocorrer, a democracia pode se aproximar dos temidos regimes ditatoriais, já que as decisões tomadas pelos governantes não serão questionadas e não haverá resistência por parte da população. Dessa forma, para o bom funcionamento da democracia é fundamental que os cidadãos sejam impelidos e incentivados a serem participativos na sociedade. A conscientização da importância de participar deve ocorrer, entre outros lugares, na escola – o que está, inclusive, previsto por lei.

O leitor deve estar pensando “Tá… Muito bonito, mas o que isso tem a ver com Ciência?” Peço calma aos senhores! Há uma relação bastante direta, embora pouco óbvia, entre o bom funcionamento do regime democrático e o entendimento adequado da natureza da Ciência. Chegaremos lá.

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Questão de acesso

outubro, 2009

Imaginem a cena: o ilustríssimo Dr. Roberto, renomado cientista na área de fisiologia osmorregulatória de caranguejos, passa 7 anos fazendo um grande estudo. Viaja a trabalho por diversos países, se enfiando nos mangues mais fedidos e barrentos para coletar esses crustáceos, depois os leva para o laboratório e faz exaustivos experimentos que resultam numa pilha de centenas de tabelas e gráficos que ele, com muita paciência, analisa e compara um a um. Depois de sistematizar seus dados, Dr. Roberto os compara com os da literatura, identifica semelhanças e diferenças entre os estudos e quebra a cabeça para tentar entender de forma integrada o fenômeno que está estudando. Depois disso tudo, ele, super empolgado, escreve um artigo para tornar público o seu estudo, seus questionamentos e suas conclusões.

O artigo do Dr. Roberto é publicado em alguma revista super específica sobre crustáceos que menos de 1% da população mundial sabe que existe. As únicas pessoas que vão se interessar em lê-lo são os outros cientistas que estudam osmorregulação em caranguejos, e olhe lá, por que se o grupo de caranguejos que o Dr. Roberto estuda for muito distante filogeneticamente do que o Dr. Luís estuda, talvez o Dr. Luís nem se dê ao trabalho de ler. Mas o Dr. Luís não é importante. O importante é que, a partir de agora, qualquer pessoa que quiser estudar osmorregulação naquele grupo de caranguejos vai poder contar com a contribuição do Dr. Roberto, certo?

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Grandes colegas que nunca conheci

outubro, 2009

A Ciência é uma construção coletiva. Essa é uma grande verdade, mas temos que entender melhor o que isso quer dizer. “Construção coletiva” não significa que os cientistas trabalham em harmonia, que são todos super amigos que se abraçam pelos corredores dos laboratórios e trocam cartões de natal. Nada disso. Na verdade, não é raro existirem rixas entre os cientistas, que disputam ferozmente por prestígio ou por cargos de chefia nos departamentos das instituições em que trabalham. Claro que eles podem também trabalhar em equipe e formar grupos de pesquisa. Isso de fato acontece (eu mesmo faço parte de um!) e não deixa de ser uma forma de construção coletiva, mas não é a esse tipo de comportamento que nos referimos quando dizemos que a Ciência é uma atividade coletiva. A coletividade na Ciência é algo diferente, e ocorre num nível histórico. Expliquemos.

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Sobre mitocôndrias, esfingomielina e estípulas interpeciolares

outubro, 2009

Estava lendo um livro esses dias que dizia que, na cidade de São Paulo, as aulas de Biologia do Ensino Médio têm uma média de seis termos novos definidos por aula. Se fizermos as contas considerando que em geral as escolas têm três aulas de Biologia por semana, veremos que o número de termos novos “aprendidos” pelos alunos é de cerca de 600 por ano. Não sei, mas acho que se eu soubesse falar 600 palavras em russo talvez eu fosse capaz de me comunicar rudimentarmente com alguns russos (os dispostos a fazer um esforço pra me entender), mas os alunos do Ensino Médio que decoram 600 termos biológicos por ano não são capazes de entender os princípios elementares da Biologia.

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