O outro lado da moeda – um preâmbulo

E se um dia você for fazer um plano de saúde e a atendente, muito graciosamente, te disser: “Sinto muito senhor, mas nossa empresa não se interessa em fazer um plano para você. Aquela amostra de sangue que recolhemos do senhor na semana passada acusou que você tem um gene que causa câncer. Não podemos arcar com esses prejuízos. Tenha um bom dia!”.

E se um dia você for matricular seu filho na escola e a secretária disser: “Olha…eu sei que seu filho tem apenas 5 anos de idade, mas acontece que ele tem o gene da agressividade. Não queremos alunos violentos em nossa escola. Sinto muito, não poderemos fazer a matrícula do seu filho, mas posso te passar o nome de algumas escolas que aceitam margin…digo, crianças com esse gene”.

Absurdo demais? Talvez nem tanto. Na verdade, não falta muito para chegarmos lá. Tudo o que falta, aliás, é a certeza absoluta de que o sujeito vai mesmo desenvolver câncer e de que o moleque vai mesmo ser violento – o resto a ambição e a cretinice humana dão conta de fazer. Cientistas não muito gente boa estão trabalhando para que isso aconteça, enquanto nós ficamos aqui, no escuro.

Na área da genética, há um esforço muito grande para tentar associar genes com funções. “Esse gene serve para fazer isso, aquele gene para fazer aquilo, etc.” Muitas vezes, dá certo, e promessas empolgantes são feitas. Terapias e vacinas gênicas são apenas um exemplo. Especulam até que num futuro não tão distante poderemos escolher um conjunto de características, levar no laboratório e esperar nove meses para ter um filho do jeitinho que a gente quer. Mas tem vários tipos de interesses políticos e econômicos por trás dessas coisas; sempre tem. E as coisas nunca são tão simples quanto parecem, e é aí, exatamente nesse ponto (entre milhares de outros), que a Filosofia da Ciência e o pensamento crítico fazem falta ao cidadão.

Na escola todo mundo aprende que “Fenótipo = Genótipo + Meio Ambiente”, mas ninguém para pra pensar o que isso significa. Saber que pintar o cabelo de loiro muda o fenótipo, mas não o genótipo, passa longe de ser suficiente. Estão usando a Ciência pra defender os interesses de uma minoria, e ninguém está percebendo.

A Ciência pode e deve ser questionada. É assim que ela progride, por sinal. Mas isso é um segredinho que, infelizmente, só os cientistas sabem, e enquanto o conhecimento científico for visto como dogmático, as pessoas vão continuar acreditando em “contos de fadas científicos”, e o estrago pode ser muito, muito grande.

Desconfie da Ciência. Isso será muito bom pra você, pra sociedade e pra Ciência também.

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Observação, teoria e experiência.

Alexandre Koyré foi um dos gigantes da história e filosofia da ciência. Seu trabalho foi fundamental para a estabelecer a revolução científica com o ponto central da história da ciência, além de romper com a narrativa positivista da primeira geração de historiadores.

Um dos pontos curiosos do trabalho de Koyré é a radical importância que ele dá à precedência da teoria sobre a experiência. Com efeito, Koyré chegou a afirmar que face ao papel da teoria, a experiência é inútil.

Essa posição é particularmente notável em seus trabalhos sobre Galileu, e desencadeou uma série de outros tantos trabalhos por outros tantos pesquisadores que passaram a averiguar se os experimentos descritos por cientistas do passado eram de fato possíveis de serem feito à época, ou apresentavam os resultados descritos.

Alexandre Koyré

Alexandre Koyré

A relação entre teoria e experiência é sempre complexa, especialmente quando tentamos estabelecer uma “sequência” entre uma e outra, como fez Koyré. Gostamos de pensar que a ciência é feita seguindo um script comum. Observamos um fato, produzimos uma teoria e testamos esta teoria através de uma experiência qualquer.

Mas em geral as coisas não são tão esquemáticas assim. Estas três etapas da ciência se misturam de formas nem sempre claras. Por vezes a observação depende de um objeto que só pode ser construído por conta de uma teoria. Por vezes teorias são feitas a partir de experimentos. Por vezes, pulamos completamente a observação, teorizando estruturas que não podem ser observadas por nenhum meio conhecido.

A história da ciência mostra que Koyré acertou algumas vezes. De fato, alguns experimentos descritos jamais poderiam ter sido feitos ou apresentado os resultados pelos quais são conhecidos.

Mas será que a ciência moderna, com todo o seu pretendido rigor, está livre de teorias fundamentadas unicamente por experimentos mentais? E se este não for o caso, será que devemos considerar tais experimentos prejudiciais?

Talvez estas respostas só possam ser dadas no futuro, quando a ciência moderna já tiver virado história.

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Empreendimento temporário?

Certa vez, e várias vezes depois dessa, eu li que o conhecimento científico é somente mais um tipo de conhecimento humano, e que não deveria haver valorações, ou seja, não deveríamos considerar o conhecimento científico melhor (ou pior) do que os outros tipos de conhecimento humano, como o religioso, o do cotidiano, a sabedoria popular, etc. “Há, até parece! O cara que escreveu isso deve ser um criacionista lazarento!”, pensei eu na primeira vez que li isso. E na segunda. E na terceira. De certo na quarta também. Talvez na quinta e na sexta. Enfim, entender isso foi um processo lento e doloroso, e até hoje me pego de vez em quando pensando que a Ciência é a melhor.

Thomas Kuhn, o grande filósofo dos paradigmas e das revoluções, me ajudou a entender isso, mas eu tive que extrapolar a teoria dele um pouquinho para isso. Tive que tirar ela da Ciência pra perceber que existem paradigmas também na sociedade; existem idéias e valores que permeiam a forma de pensar das pessoas de uma maneira tão íntima que parecem imutáveis e atemporais. Essa noção de que o conhecimento científico é melhor que os outros tipos de conhecimento é um desses paradigmas, e para entender como ele surgiu temos que voltar no tempo até uma época em que as coisas eram bem diferentes: a Idade Média.

Nessa época, a Ciência era um empreendimento secundário e muito mal visto. Os corajosos que se atreviam a dar explicações científicas para os fenômenos naturais iam parar na fogueira. A sociedade era altamente religiosa, e religiosa de uma forma que não conseguimos imaginar. Aquela sua avó que vai à missa todo dia e reza o terço três vezes por semana seria quase herege nesse tempo. Estamos falando de pessoas que procuravam na bíblia a explicação para todos os fenômenos. A palavra de Deus era a palavra de ordem, e se você sequer se sentisse inseguro por um momento para acreditar nisso, a brasa da fogueira estava quentinha te esperando.

“Nossa, mas que tempos horríveis!” “Como a igreja era má!” “Essas pessoas tinham o pensamento muito limitado!” Tudo isso é verdade, ou ao menos parece verdade, quando olhamos pra Idade Média com os olhos de nossa época. Mas temos que nos atentar para o fato de que, naquela época, isso tudo fazia muito sentido. Chegaremos lá.

Hoje em dia vivemos na era da informação, da tecnologia, da Ciência. Explicações não científicas para qualquer fenômeno são mal vistas, quando não ridicularizadas. Nem mesmo os valores morais conseguem barrar a Ciência. Cientistas se juntam num navio e vão para águas internacionais (onde não há lei) para fazer experimentos com embriões humanos e ninguém está nem aí. Quem não sabe mexer num computador é excluído da sociedade, e as culturas que pensam e vivem de forma diferente (indígenas, aborígenes, etc.) são vistas como artefatos exóticos, que devem ser preservados com o único intuito de entreter-nos.

“Nossa, mas que tempos horríveis!” “Como os cientistas são maus!” “Essas pessoas têm o pensamento muito limitado!”. Os tempos são outros. Os inquisidores agora somos todos nós, que “jogamos na fogueira” todo mundo que acha que a Ciência não vai salvar a humanidade.

Tudo isso faz muito sentido se olharmos o lado histórico da coisa. Na Idade Média, estávamos no feudalismo. Existiram grandes impérios, cada um com seu respectivo Rei. O Rei era considerado um representante de Deus na Terra. Ora, me parece que faz todo o sentido ter uma população extremamente religiosa quando o comandante é considerado um representante divino, não?

Hoje em dia, vivemos o ápice do capitalismo. Não existem mais Reis. Os poucos que ainda sobraram são meras figuras ilustrativas, que não governam sem seus parlamentares. Nosso “rei” é o capital; vivemos em função dele. Curiosamente, a “revolução científica” que aconteceu no final da Idade Média, e que consolidou a Ciência como a forma mais adequada de pensar o desconhecido, coincide com a ascensão da burguesia como classe dominante – início do capitalismo. Ora, a religião é algo que todos, ricos e pobres, negros e brancos, têm acesso. A Ciência não. Se você quiser entender a Ciência, você vai ter que gastar bastante dinheiro. Seja pelas taxas de museus, seja pelos cursos de Ciências, seja pelos preços abusivos das revistas científicas, o acesso à Ciência é restrito a quem está disposto a pagar. Se temos que pagar, vira negócio, e negócios dão lucro. Como o lucro é o fundamento básico do capitalismo, a legitimação do conhecimento científico como o mais verdadeiro interessa muito para o sistema capitalista.

Não estou dizendo que devemos parar de investir no conhecimento científico por que isso ajuda o capitalismo e o capitalismo é ruim. Não escrevi esse texto com intenções comunistas; escrevi-o para gerar uma reflexão. O que é verdade dentro da Ciência muda o tempo todo, todos sabemos disso, isso é mais ou menos fácil de entender. Não tão óbvio é o fato de que a Ciência nem sempre foi legitimada como a melhor forma de pensar. A definição do que é verdade é construída socialmente, e isso é bem difícil de entender, por que para isso temos que reconhecer que vivemos num paradigma burguês. Pense nisso.

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O ringue oculto dos cientistas e a falsa democracia

Atualmente aclamamos a democracia como a melhor forma de governo para as sociedades humanas, e não olhamos com bons olhos aqueles que defendem ditaduras ou monarquias. De fato, já que o governo deveria atender os interesses do povo, nada melhor, na teoria, do que um regime governamental em que os cidadãos tenham voz e participação nas decisões, não só podendo elecroger seus representantes, mas também reivindicando que esses governantes garantam a melhor qualidade de vida possível para a população. A democracia, entretanto, tem um pequeno viés: depender, por assim dizer, da participação popular. E se o povo for passivo, acrítico e não se interessar por participar das decisões políticas de sua cidade/estado/país? Se isso ocorrer, a democracia pode se aproximar dos temidos regimes ditatoriais, já que as decisões tomadas pelos governantes não serão questionadas e não haverá resistência por parte da população. Dessa forma, para o bom funcionamento da democracia é fundamental que os cidadãos sejam impelidos e incentivados a serem participativos na sociedade. A conscientização da importância de participar deve ocorrer, entre outros lugares, na escola – o que está, inclusive, previsto por lei.

O leitor deve estar pensando “Tá… Muito bonito, mas o que isso tem a ver com Ciência?” Peço calma aos senhores! Há uma relação bastante direta, embora pouco óbvia, entre o bom funcionamento do regime democrático e o entendimento adequado da natureza da Ciência. Chegaremos lá.

Como sabemos, a Ciência é uma construção histórica. Longe de ser neutra e pacífica, a Ciência é permeada por conflitos de diversas naturezas. A Ciência pode conflitar com os interesses e crenças da sociedade (como exemplo, podemos citar o alvoroço causado quando Darwin apresentou sua Teoria da Evolução por seleção natural) e tem, claro, seus embates internos. Os conflitos internos ocorrem em diversos níveis. Um deles é o embate de idéias entre os cientistas, que ocorre intensamente, dia após dia, paper após paper, por causa das diversas interpretações possíveis que um mesmo conjunto de dados pode ter. Às vezes esses conflitos de idéias geram grandes mudanças de paradigma na Ciência, como Kuhn entenderia. Outra forma de conflito na Ciência – uma forma um pouco mais velada, que os cientistas não gostam muito de admitir – é o conflito entre as áreas do conhecimento ou entre cientistas individuais por prestígio. A vontade de trazer cientistas capacitados para sua área de pesquisa ao invés de outras, ou a pretensão de persuadir a comunidade científica de que determinado ponto de vista é mais adequado pode ser um grande aditivo motivacional para os cientistas que, nesses casos, vêem os outros cientistas como “competidores” que devem ser ultrapassados. Não podemos esquecer ainda dos caminhos metodológicos, que estão sempre em constante discussão. Definitivamente, “consensual” não é um dos adjetivos que se pode dar à Ciência.

O ponto principal é que todas essas formas de conflito, longe de constituírem “pontos fracos” que devem ser evitados, são a força motriz da Ciência. É esse interminável embate de idéias e de interesses que faz a Ciência progredir. Tire o conflito da Ciência e tenha uma Ciência estagnada, imóvel, que não se desenvolve – uma Ciência que beira a inutilidade.

A centralidade do conflito para o desenvolvimento da Ciência (não esqueçamos que o conflito também é central para o desenvolvimento da sociedade, como observaria qualquer historiador razoável – “A história do homem é a história da luta de classes”, como diria um historiador bastante razoável) é um fato, e um fato que não deveria ser escondido de ninguém. Entretanto, a Ciência que é apresentada aos alunos nas escolas é bem diferente dessa Ciência conflituosa da qual acabamos de falar, e isso pode ter conseqüências que vão muito além dos muros da escola.

A Ciência escolar de hoje deixaria August Comte (“o pai do Positivismo”) muito orgulhoso, pois mostra a Ciência como neutra, objetiva e livre de quaisquer tipos de pré-conceitos por parte dos cientistas. Nunca é mostrado que existem posições diferentes na Ciência ou, quando é, são apresentados critérios “objetivos” que sempre convencem os cientistas de que um lado está correto e o outro não está. Essa teoria consensual de Ciência que é apresentada aos estudantes os impede de perceber como as discordâncias e as controvérsias são elementos importantes para a construção de conhecimento.

Essa ocultação da importância do conflito força os alunos a interiorizar a perigosíssima noção de que o conflito é algo ruim. Essa concepção falaciosa é reforçada pelo currículo das outras disciplinas e pela organização da escola como um todo, e o resultado da exposição covarde dos alunos por anos a fio a esse ideário tendencioso só pode ser um: uma escola que forma alunos (cidadãos!) que acham que o conflito é algo que deve ser evitado para que a sociedade prospere. Em outras palavras, o não entendimento de que a Ciência progride pelo conflito pode contribuir para a formação de cidadãos passivos e acríticos, com ares de quietismo político e aceitação.

Ora, acabamos de comentar que o bom funcionamento de democracia depende da participação popular. Se a escola forma cidadãos que pensam que a sociedade progride por meio da “paz” (entendida como ausência de conflito), então podemos prever que a democracia não vai funcionar adequadamente, e basta abrirmos qualquer jornal para constatarmos que realmente não está. Quem vê o conflito como algo ruim não vai querer participar das decisões políticas da sociedade, e quando o povo não faz questão de participar, a democracia falha. Essas falhas, como bem sabemos, prejudicam principalmente as classes mais pobres que, ao mesmo tempo em que são as que mais devem reivindicar participação, são as que estudam nas piores escolas. Um ciclo vicioso se forma, e a distribuição de poder na sociedade permanece inalterada.

É função da escola apresentar a Ciência de forma adequada aos estudantes. Também é função da escola ensinar História, Geografia, Matemática, Português e todas as outras matérias de forma adequada. Mas adequada para quem? Se for adequada para os alunos, então, considerando o que foi discutido, ensinar Ciências (ensinar de verdade!) chega a ser um ato revolucionário. Formar alunos que entendam a natureza e o funcionamento da Ciência pode contribuir para o estabelecimento de uma sociedade mais justa, democrática e participativa, pelo simples fato de que esses cidadãos terão compreensão da importância do conflito para o progresso da Ciência e da humanidade.

Gostaria de finalizar esse ensaio deixando bem claro que conhecer a natureza da Ciência não garante de forma alguma que os cientistas sejam politizados e participativos na sociedade. Como eles só aprendem a importância do conflito depois de alguns anos na academia, após terem passado mais de 15 anos incorporando os valores de uma escola castradora, fica difícil entender que não é só na Ciência que o conflito é importante. Fazer essa transição é muito difícil. A burguesia agradece.

“O Estado é um instrumento da classe dominante para se manter enquanto classe dominante.”  - Karl Marx

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Questão de acesso

Imaginem a cena: o ilustríssimo Dr. Roberto, renomado cientista na área de fisiologia osmorregulatória de caranguejos, passa 7 anos fazendo um grande estudo. Viaja a trabalho por diversos países, se enfiando nos mangues mais fedidos e barrentos para coletar esses crustáceos, depois os leva para o laboratório e faz exaustivos experimentos que resultam numa pilha de centenas de tabelas e gráficos que ele, com muita paciência, analisa e compara um a um. Depois de sistematizar seus dados, Dr. Roberto os compara com os da literatura, identifica semelhanças e diferenças entre os estudos e quebra a cabeça para tentar entender de forma integrada o fenômeno que está estudando. Depois disso tudo, ele, super empolgado, escreve um artigo para tornar público o seu estudo, seus questionamentos e suas conclusões.

O artigo do Dr. Roberto é publicado em alguma revista super específica sobre crustáceos que menos de 1% da população mundial sabe que existe. As únicas pessoas que vão se interessar em lê-lo são os outros cientistas que estudam osmorregulação em caranguejos, e olhe lá, por que se o grupo de caranguejos que o Dr. Roberto estuda for muito distante filogeneticamente do que o Dr. Luís estuda, talvez o Dr. Luís nem se dê ao trabalho de ler. Mas o Dr. Luís não é importante. O importante é que, a partir de agora, qualquer pessoa que quiser estudar osmorregulação naquele grupo de caranguejos vai poder contar com a contribuição do Dr. Roberto, certo?

É… Certo naquelas. Imaginem que alguns anos depois, um certo Dr. Silvio, que adora crustáceos, se interessa muito em estudar esse tema que causa tanto fascínio no Dr. Roberto. Mas a biblioteca que o Dr. Silvio tem acesso não assina a revista em que o artigo do Dr. Roberto foi publicado. Quando ele tenta acessar o trabalho pela internet, ele se depara com um aviso assim:

artigo 34 dolares

“Poxa, como assim? Trinta e quatro dólares para ler UM artigo? Mas nem que a vaca tussa! O Dr. Roberto que me perdoe, mas ele não estará entre as referências do meu trabalho!”, pensa o Dr. Silvio. Ele continua fazendo o levantamento bibliográfico para sua pesquisa e lê o resumo de um artigo que parece ser muito bom, mas quando vai fazer o download, um pop-up se abre:

want the full article

“Catorze dólares? You gotta be kidding me, man!” Dr. Silvio vai à loucura! Todo site que ele entra, tem que pagar pra acessar os artigos. Ele se revolta e dá um soco no computador. Indignado, ele desiste de estudar osmorregulação de crustáceos e opta por pesquisar outra coisa, hábitos alimentares, por exemplo. Mal sabe ele que seu computador ainda vai levar muitos outros socos.

O conhecimento científico é construído coletivamente. Se Darwin não tivesse lido Malthus, Lyel, Lamarck, Chambers, entre tantos outros, ele jamais teria sido capaz de formular sua teoria de seleção natural. Se Marx não tivesse lido Hegel, Adam Smith, David Ricardo, Feuerbach, entre tantos outros, jamais teria feito uma análise tão aprofundada da sociedade capitalista. Imaginem se Darwin fosse pobre (não era o caso…) e tivesse que pagar 34 dólares para ler o trabalho do Malthus? Não ia rolar! E se Einstein estivesse na miséria e tivesse que pagar 14 pra ler Newton? No way, man!!

Essa questão sobre o acesso a trabalhos científicos é muito complicada. Por um lado, se ninguém ler o trabalho do Dr. Roberto, é praticamente a mesma coisa do que se ele nunca tivesse ralado por 7 anos para escrevê-lo. O salário do Dr. Roberto não varia de acordo com o número de pessoas que lêem o trabalho dele. Se alguém pagar 34 dólares para comprá-lo, toda essa grana vai para a editora e ele nem fica sabendo. A única coisa que o Dr. Roberto ganha é uma citação em algum trabalho. Não é vantagem nenhuma para ele que as pessoas tenham que pagar para ler o seu artigo; na verdade, pra ele (e pra Ciência!) seria bom que todo mundo que quisesse ler tivesse acesso livre.

Mas, por outro lado, revista científica não é tudo igual. Se o trabalho do Dr. Roberto sair publicado na Nature, você nem precisa ler pra saber que é bom. Se sair na Revista Sul-Alagoana de Crustáceos Bonitos, é melhor ler com cuidado. Uma revista tem toda uma equipe de avaliadores e pareceristas que seleciona quais trabalhos merecem ser publicados naquela revista e quais não merecem. As revistas têm qualificadores e índices de impacto, e isso é absolutamente importante para manter a ordem no empreendimento científico. As revistas precisam pagar seus funcionários. Ao contrário de Superinteressantes e afins, a maioria delas não pode contar com uma grande quantidade de exemplares vendidos, por que o público alvo é muito restrito – quem no mundo assinaria uma revista chamada “Acoustical Physics”, por exemplo?

Assim, um paradoxo se estabelece. Impedir alguém de ter acesso a artigos científicos é contra a própria natureza coletiva da Ciência (lembrem-se do Darwin), mas as revistas fazem um trabalho muito importante e têm que receber dinheiro de alguma forma. Cobrar dos leitores talvez não seja a melhor forma (coitado do Dr. Silvio!). Um artigo curto (2-3 páginas) cita pelo menos outros 15-20 artigos, e se cada um custar 34 dólares, wow, eu quero ser dono de uma revista! Mas, então, o que fazer? Se alguém aí tiver alguma idéia, por favor, me diga, porque eu não agüento mais ver números e cifrões ao invés de letras e gráficos nos artigos que eu quero ler!

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Grandes colegas que nunca conheci

A Ciência é uma construção coletiva. Essa é uma grande verdade, mas temos que entender melhor o que isso quer dizer. “Construção coletiva” não significa que os cientistas trabalham em harmonia, que são todos super amigos que se abraçam pelos corredores dos laboratórios e trocam cartões de natal. Nada disso. Na verdade, não é raro existirem rixas entre os cientistas, que disputam ferozmente por prestígio ou por cargos de chefia nos departamentos das instituições em que trabalham. Claro que eles podem também trabalhar em equipe e formar grupos de pesquisa. Isso de fato acontece (eu mesmo faço parte de um!) e não deixa de ser uma forma de construção coletiva, mas não é a esse tipo de comportamento que nos referimos quando dizemos que a Ciência é uma atividade coletiva. A coletividade na Ciência é algo diferente, e ocorre num nível histórico. Expliquemos.

O primeiro passo de qualquer investigação científica, após a delimitação do tema da pesquisa, é o levantamento bibliográfico. Isso significa que antes de sair fazendo experimentos freneticamente por aí, o cientista (vamos chamá-lo de Dr. João?) tem que consultar as bases de dados, as bibliotecas e o bom e velho Google em busca de artigos de outros cientistas que já pesquisaram o mesmo tema ou temas parecidos. Depois de achar esses artigos, Dr. João tem que ler todos eles, e isso levará algumas semanas, talvez meses. Pode parecer que é muito tempo, mas a verdade é que, ao final de apenas algumas semanas, Dr. João vai ter uma boa noção de todo o conhecimento que a humanidade já produziu em toda sua história a respeito daquele assunto, e é a partir desse conhecimento que ele vai ter idéias de como fazer sua pesquisa. Ele não vai utilizar uma metodologia que um Dr. Pedro, 10 anos atrás, utilizou e viu que não é muito adequada. Ele não vai fazer uma pesquisa que o Dr. José já fez 150 anos atrás. Mais importante de tudo, o nosso Dr. João não vai sair do zero! Ele vai contar com todo um arcabouço de conhecimentos prévios a partir do qual ele pode construir conhecimentos novos, e o Dr. Leandro, daqui 5 ou 50 anos, poderá contar com os resultados das pesquisas do Dr. João para desenvolver as suas próprias investigações.

Assim, a maior contribuição para a pesquisa do Dr. João pode vir de um cara que mora no Azerbaijão e que ele nunca vai conhecer. Pode vir de um sujeito que já morreu há décadas, e isso é absolutamente normal. Marx será eternamente uma grande referência para os sociólogos, Newton sempre será importante na Física e a reviravolta que Darwin deu na Biologia é permanente. A Ciência é coletiva na medida em que as idéias e os métodos vão se acumulando e se transformando ao longo do tempo. Marx não seria Marx sem Hegel, Newton não seria Newton sem Descartes e Darwin não seria Darwin sem Lamarck.

Hoje tomamos antibióticos quando ficamos doentes, temos IPod Touch com internet WiFi e seqüenciamos o DNA dos organismos. Essas coisas jamais poderiam existir se, ao longo do tempo, vários cientistas não tivessem dedicado suas vidas ao estudo de coisas que hoje consideramos triviais, como a estrutura e funcionamento de uma célula ou a existência e as propriedades de uma onda. Hoje os físicos discutem sobre spins de elétrons e sobre núcleos que viajam no tempo (?!), mas isso só é possível por que lá nos idos da Grécia antiga alguém um dia imaginou que toda a matéria deveria ser formada por partículas elementares, e é aí que está a coletividade da Ciência: na história.

O empreendimento científico é histórico, e o reconhecimento desse fato muda a forma com que olhamos pra Ciência. Não podemos dizer que a Ciência de hoje é melhor que a Ciência de antigamente porque, não fosse o trabalho daqueles cientistas antigos (que hoje injustamente chamamos de “burros”, como Lamarck ou Dalton), ainda teríamos as mesmas dúvidas que eles tinham, ainda pensaríamos da mesma forma que eles pensavam e ainda faríamos as mesmas coisas que eles faziam.

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Sobre mitocôndrias, esfingomielina e estípulas interpeciolares

Estava lendo um livro esses dias que dizia que, na cidade de São Paulo, as aulas de Biologia do Ensino Médio têm uma média de seis termos novos definidos por aula. Se fizermos as contas considerando que em geral as escolas têm três aulas de Biologia por semana, veremos que o número de termos novos “aprendidos” pelos alunos é de cerca de 600 por ano. Não sei, mas acho que se eu soubesse falar 600 palavras em russo talvez eu fosse capaz de me comunicar rudimentarmente com alguns russos (os dispostos a fazer um esforço pra me entender), mas os alunos do Ensino Médio que decoram 600 termos biológicos por ano não são capazes de entender os princípios elementares da Biologia.

Os intermináveis termos técnicos sempre foram objeto de muitas reclamações de alunos em relação à Biologia, que acaba sendo vista como uma matéria “decoreba”, uma lista enorme de nomes difíceis e pomposos que devem ser memorizados e colocados nas provas. As relações entre esses nomes – e muitas vezes até seus significados – são vistas como algo secundário, quase desimportante. Na aula de Botânica, é muito importante saber que as plantas são autótrofas, o que quer que seja isso. Na de Ecologia, não se pode esquecer que as plantas têm o papel de produtores nas cadeias alimentares. A relação entre ser autótrofo e ser produtor, que é o mais importante da história, acaba se perdendo no meio dos termos, ficando em segundo plano.

Nessa situação, há dois grandes problemas. O primeiro deles é a priorização (tanto por parte dos alunos quanto dos professores) da memorização dos nomes em detrimento do entendimento dos processos: mitose não é o processo pelo qual uma célula se divide em duas; mitose é “interfase + prófase + metáfase + anáfase + telófase”. A importância de compreender que as células têm um ciclo e que os tecidos dos seres vivos estão constantemente renovando suas células dá lugar à lembrança de “picuinhas”, como a de que a telófase dos animais tem citocinece centrípeta e a das plantas tem citocinece centrífuga. Já vi muitos alunos que eram capazes de explicar todas as fases da mitose com todos os nomes difíceis, mas que pensavam que cada célula “escolhia” uma fase e ficava nela o tempo todo.

O outro grande problema é que os termos complicados dificultam a vida dos corajosos alunos que querem entender os processos, desestimulando-os. Semana passada um aluno, que estava tendo dificuldades com um texto sobre vírus, me chamou para perguntar o que era “endoparasita obrigatório”. Depois que eu expliquei do que se tratava, todo o resto das coisas que ele tinha lido no texto fez muito mais sentido, e ele me disse: “Ahhh… Então por que o cara escreve assim, tão difícil? Parece que ele faz isso de propósito, só pra ninguém entender o que ele fala.” Eu disse a ele que não era bem assim, mas não consegui me articular muito bem para explicar a importância desses termos para a Ciência. Acho que até então eu nunca tinha parado pra pensar nisso.

Porque será que os detentores do conhecimento científico se orgulham tanto de sua terminologia difícil e acham tão importante que ela seja entendida por todos que queriam aprender Ciência? Porque falar que “a membrana celular tem composição lipoproteica e disposição em mosaico-fluido” ao invés de “a película que reveste e delimita a célula é formada por lipídeos e proteínas que se arranjam de tal forma que eles nunca ficam parados no mesmo lugar”?

É estranho, mas a primeira frase, mesmo muito mais curta, parece dizer muito mais do que a segunda. Mas isso, claro, só para quem compreende o que é uma membrana celular e qual é a sua dinâmica. Os termos técnicos da Biologia são sim um código, mas um código de compactação e não um código criptográfico. A intenção não é esconder o significado real das palavras, mas sim agregar vários conceitos em uma única palavra. Assim, “lisossomo” não é só uma forma chique de dizer “bolsa cheia de enzimas que digerem as partículas que entram na célula”, mas uma forma de sintetizar uma ampla gama de conceitos e processos de uma forma que todos os que forem estudar Biologia Celular entendam da mesma maneira. Um lisossomo no Brasil é o mesmo que um lisossomo nos Estados Unidos, na Botsuana, ou em qualquer outro lugar do mundo. Isso é muito importante, pois, dessa forma, um cientista da Armênia pode ler um artigo de um cientista de Laos e ter certeza de que ele está falando daquele lisossomo– até mesmo porque não existe outro.

Mas e os estudantes, como ficam nessa história? Eles não são cientistas, e muitos deles não almejam ser. Vemos de forma muito negativa o fato de eles enxergarem a Ciência como algo inatingível, mas quando eles se interessam em aprender Ciência, se deparam com textos que são incapazes de entender. É totalmente compreensível que os alunos pensem que esses textos não foram feitos para eles e que achem que decorar as palavras esquisitas é a forma mais adequada de aprender Ciência.

A Biologia escolar não deve abolir os termos. “Sintetizar” não é o mesmo que “produzir” e “população” não é o mesmo que “bocado de indivíduos”. Tornar esses termos sinônimos não é o caminho para tornar a Biologia uma matéria mais interessante nas escolas. Isso na verdade só iria piorar as coisas, pois distanciaria os alunos ainda mais da Ciência. A mudança que precisa acontecer é exatamente o oposto disso. Deve haver uma aproximação dos alunos à Ciência, mas uma aproximação verdadeira. Eles devem entender como a Ciência é produzida e como ela funciona, sem misticismos, sem ilusões. A Biologia escolar tem conteúdo demais e aprendizagem de menos. Se os alunos entendessem como o conhecimento biológico é construído, eles entenderiam, entre muitas outras coisas, a origem e a importância dos termos, e a aprendizagem não ficaria reduzida à memorização de nomes e processos. A quantidade de informações advindas do campo da Biologia é enorme e não tem como ensinar tudo para os alunos. No entanto, tem como ensinar a eles como a Ciência funciona pegando o conhecimento biológico como pano de fundo. O mesmo poderia acontecer nas aulas de Física e Química.

Entendendo como a Ciência é construída, os alunos poderiam fazer suas próprias pesquisas ao invés de ficar em suas carteiras esperando o produto acabado da Ciência cair em seus colos de forma descontextualizada. Para isso, seria preciso repensar todo o ensino de Ciências. Todavia, a necessidade de reavaliar as práticas educacionais não é novidade pra ninguém. O ensino vai muito mal e não é só no Brasil. É necessário relembrar uma coisa óbvia: o mais importante numa aula de Ciências é aprender Ciências! Como a quantidade de informação científica é gigantesca e só tende a aumentar, seria muito mais negócio focalizar a construção do conhecimento científico para formar alunos que conheçam a base de cada campo da Ciência e saibam aplicar esse conhecimento do que insistir num ensino enciclopédico que as últimas décadas deixaram bem claro que não funciona.

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