Pra quê?

José Oliveira se prepara para uma grande festa que ele vai dar. Essa festa simboliza uma grande mudança em sua vida, já que após três anos de cursinho ele foi finalmente aprovado no vestibular e irá cursar Economia numa das melhores universidades do país. Ele está muito aliviado porque nunca mais na vida vai ter que ouvir falar em isótopos, complexo de Golgi ou leis de Kepler. Ele odeia Ciências, e acha que todas as aulas de Ciências que teve na vida foram uma perda de tempo. “Nunca usei a Ciência que aprendi na escola. Não é preciso saber conteúdos científicos para entender o cotidiano”, diz.

As alegações de José são contundentes, e devem ser levadas a sério. Ele diz que saber ou não saber Ciências dá na mesma. Ele não precisa saber o que são pontes de hidrogênio para saber que a água demora mais pra ferver do que o leite, não precisa saber o que é índice de refração para usar óculos e lava louça tranqüilamente sem saber o que é uma molécula polar ou apolar.

José certamente não está sozinho. Muita gente concorda com ele, e a discussão que eles levantam é interessante e não trivial. Por que as pessoas têm que saber Ciências se, ao contrário de Línguas ou Matemática, muito pouco desse conhecimento é de fato aplicável ao dia-a-dia? José não vai mudar o jeito de viver se descobrir que uma dia existiu um tal de Trilobita ou que a água tem densidade máxima a 4ºC.

Poderíamos dar a José o argumento de Sagan, de que “a Ciência é como uma vela num mundo assombrado por demônios”, mas ele não aceita argumentos assim abstratos. Ele quer coisas concretas, aplicáveis, palpáveis. Pra que serve saber as partes de um átomo e tantas outras besteiras que os profs de Ciências insistem em dizer?

Há várias maneiras de retrucar José. Escolherei uma e convidarei os leitores a pensem (e, de preferência, comentarem) em outras.

Talvez José esteja certo em dizer que as aulas de Ciências que ele teve na vida foram uma perda de tempo. Sabemos que o modelo de aula e a concepção de educação que permeia nossas escolas estão muito ultrapassados. Mas o fato da aula ser ruim não significa que o conteúdo não seja importante. Existem professores péssimos de Matemática, mas isso não significa que não é importante saber contar. Talvez se José tivesse tido bons professores de Ciências, ele entenderia o argumento de Sagan, e gostasse de Ciência nem que fosse pelo exercício intelectual. Mas ele não teve, e não engole esse argumento.

Ora, se José é tão espertalhão e só quer saber das coisas concretas, então ele não pode negar que a tecnologia, uma das facetas da Ciência, interfere diretamente em sua vida. Mesmo assim, ele poderia argumentar que ele não precisa saber como funciona um pen drive para usar um. Correto. Mas e se formos para assuntos mais polêmicos, como clonagem humana, alimentos transgênicos, células tronco, créditos carbono ou robôs que tiram o emprego de centenas de homens?

José quer saber das coisas paupáveis, mas, por não gostar de Ciência, não a vê como empreendimento humano. Não entende que a Ciência e a sociedade estão altamente interligadas, e que se ele não souber um mínimo de Ciência (que não é tão pouco assim) ele vai ser só mais uma ovelha no rebanho. José quer ser questionador, mas como vai questionar a Ciência se não a conhecê-la?

Grande parte do financiamento para pesquisa é feita com dinheiro público – o dinheiro do José de todas as outras pessoas. Isso significa que o Governo, ao invés de ampliar as vagas nas Universidades públicas, está investindo milhões para sequenciar DNA de cana. Se fosse diferente, José não precisaria ter feito três anos de cursinho. Mas se ele não souber o que é DNA e não souber o que a cana tem de tão especial, ele nunca vai entender onde estão gastando o seu dinheiro.

Reações de combustão, fotossíntese e comprimentos de onda parecem coisas abstratas. Mas dinheiro, emprego e tempo de cursinho são bastante concretos. A relação entre essas coisas só será visível para José se ele entender um pouquinho de Ciência. Cidadania tem tudo a ver com Ciência, mas infelizmente pouca gente sabe disso.

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A Letra Corrida da Divulgação Científica

É fato existir uma competição científica mundo afora. O laboratório de lá distante do laboratório de cá. Mais vezes uns contra os outros do que todos em prol da ciência. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. No limite, o monopólio químico-farmacológico das descobertas científicas reflete um capitalismo contemporâneo. Uns lutam para serem melhores que os outros. E os estímulos nacionais e mundiais aparecem: Olimpíadas de ciências, de tecnologia, de engenharia e matemática. Por aí afora, qual é a letra da Divulgação Científica?

Por certo que, dentro do contexto, é letra corrida, e armamentista. Letra de capacitações, sistemáticas e feitas para gerarem lucro. Como se as manchetes dos jornais competissem entre si, pelas melhores descobertas, pelo furo, pelo apelo da ciência e, em comum, a esperança de cura para a humanidade. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. E a briga continua entre as ciências naturais e humanas, todas buscando seu lugar ao sol, buscando o estado de dentro, sua tradução em palavras para que chegue até o receptor mais longínquo. Aquele bóia fria que não sabe ler, que vive da tradição oral. Uma metáfora para lembrar que letra não é apenas escrita, posta em papel, mas que há um conjunto de recursos, e são amplos, a disposição da Divulgação Científica.

História oral é letra popular. Independe de ser cursiva, de forma, caixa alta, digital. Letra é signo. É símbolo. É um corpo mudo que pode ser ouvido por alguém. E é aí que entra a ciência, e suas metodologias, para dar forma ao que não se ouve, não se vê com olhos comuns, não se encontra nos paradoxos. É letra corrida, que vai daqui para ali, e dali para acolá. Como os causos, os mitos, as lendas das tradições orais. Quanto de ciência não está dentro delas? Alguém duvida?

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Fatos fatídicos

“Helado”, em Espanhol, não significa “gelado”. “Bixa”, em português de Portugal, não significa “gay”. De forma semelhante, existem alguns termos que são utilizados em Ciência que têm significados muito diferentes do que parecem ter. Dois desses termos merecem atenção especial: “teoria” e “fato”.

Na linguagem do dia-a-dia, dizer “eu tenho uma teoria” é o mesmo que dizer “eu acho que”, ou seja, as teorias carregam um alto grau de incerteza. Em contrapartida, na Ciência as teorias são hipóteses altamente corroboradas e bem fundamentadas. Atentaremos-nos a isso em algum outro texto. Este aqui tratará da diferença entre um fato do dia-a-dia e um fato científico. Para isso, peço que o leitor considere os dois grupos de afirmações a seguir:

Grupo 1: “Joãozinho andou de bicicleta ontem”. “A filha de Maria nasceu dia 5/12”. “O Flamengo ganhou o Brasileirão”.

Grupo 2: “A Terra gira em torno do Sol”. “Todas as espécies têm um ancestral comum”. “A Terra tem 6 bilhões de anos”.

Quais as diferenças entre os dois grupos de sentenças? O Grupo 2 contêm apenas afirmações científicas que são bastante aceitas atualmente, enquanto o Grupo 1 consiste de afirmações sobre acontecimentos cotidianos. Se olharmos um pouco mais a fundo, podemos perceber que as diferenças não param por aí, e passam pela questão fundamental que diferencia um acontecimento científico de um não-científico. Para perceber essa diferença, analisemos os grupos separadamente:

Grupo 1: O Flamengo ganhou o Brasileirão. Ponto. É um fato. Se você torce por outro time e não gostou do resultado, azar o seu! Não há nada que você possa fazer, pois esse fato é imutável. Por toda a eternidade ficará constado que o campeão brasileiro de 2009 foi o Mengão. Da mesma forma, a filha da Maria nasceu dia 5 de dezembro. Ponto. Pelo resto da vida, é nesse dia que ela comemorará seu aniversário. Nada pode mudar o dia em que ela nasceu.

Grupo 2: A Terra tem 6 bilhões de anos. Pelo menos até encontrarem uma rocha mais antiga que isso. Além disso, não faz muito tempo que esse fato (?) foi aceito. Na verdade, existem pessoas – e não são poucas – que acreditam que o mundo não tem mais do que 6 mil anos. De forma semelhante, as voltas que a Terra dá em torno do Sol nem sempre foram um fato. Antes era fato que o Sol girava em torno da Terra.

Percebe-se que os fatos do Grupo 1 têm duas características bem claras: são inquestionáveis e imutáveis. A mãe do Joãozinho pode não gostar nem um pouco do fato dele ter andado de bicicleta ontem, mas ele andou, e acabou. Ela pode deixar ele de castigo, mas não pode mudar o fato. Já no Grupo 2, os fatos tem propriedades bem diferentes: estão sempre abertos à discussão e podem mudar.

Essa análise simples nos permite perceber uma propriedade importante dos fatos científicos: ao contrário dos fatos do cotidiano, eles nunca são verdades por si mesmos, mas dependem do que vai acontecer com eles nas mãos dos outros. Não existem “verdades absolutas”. Um fato é apenas alguma coisa que uma grande quantidade de pessoas da área aceita como verdadeira, e essas coisas são negociáveis, e mudam ao longo do tempo.

Isso é um pouco difícil de enxergar quando olhamos para fatos já bastante consolidados como a ancestralidade das espécies ou a heliocentricidade do sistema solar, mas fica fácil se olharmos para um fato que está em construção. Peguemos o exemplo do ovo. Comer ovo faz bem ou faz mal? Uma semana é “fato” que ovo aumenta o colesterol e faz um grande estrago no corpo, na outra, é “fato” que ele é um alimento muito rico que pode ser consumido sem restrições.

Na Ciência os fatos mudam porque eles não são nada por si mesmos, mas dependem da quantidade de pessoas que acreditam nele. Na medida em que os cientistas vão coletando mais e mais evidências para defender o seu ponto de vista, eles vão puxando o fato mais para o seu lado, mas isso não os torna mais verdadeiros, apenas mais aceitos. Uma nova descoberta ou uma nova estrutura conceitual (Revolução Científica) pode mudar a veracidade de muitos fatos. Assim, quando falamos de fatos cotidianos, estamos falando de acontecimentos, mas quando falamos de fatos científicos, estamos falando de pessoas e de suas “crenças”, por mais bem embasadas que essas “crenças” possam estar. Pessoas podem duvidar que o mundo tenha 6 bilhões de anos, mas ninguém pode duvidar que o Flamengo ganhou o campeonato.

Como conseqüência, temos que se um cientista faz uma pesquisa e propõe um novo fato que outro cientista não gostou, esse outro cientista pode contra argumentar, e, se vitorioso, mudar o fato. Isso abre margem para que interesses externos manipulem os fatos científicos. Fritjof Capra já dizia que boa parte dos fatos na área médica está permeada por interesses das indústrias farmacêuticas.

Essa negociabilidade dos fatos científicos pode parecer bem esquisita para quem é de fora, mas, em contrapartida, é uma das características que torna a Ciência tão interessante, e que fez pensadores como Kuhn e Popper fritarem os neurônios para tentar entender como se dão essas negociações e como os fatos são construídos e desconstruídos ao longo do tempo.

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Copenhagen 2009

A história de conferências mundiais com a temática do meio ambiente começa em 1972 em Estocolmo na Suécia. Esse encontrou levou a reunião de 113 países e várias ONGs de todo o mundo, e é considerado o marco-zero dos debates sobe meio ambiente, além de ter dado origem a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

Passados 20 anos, no Rio de Janeiro realizou-se a Rio-92 – Convenção sobre Mudança do Clima, com o intuito de discutir as questões ambientais e redução dos gases causadores do efeito estufa que causam o aquecimento global, e contou com a presença de 154 países.

A primeira Conferência das Partes (COP 1), com os países que participaram da Rio-92 aconteceu em 1994, onde foi tomada a decisão da criação até o ano de 1997 de um protocolo com metas para a redução das emissões.

Em 1997, em Kyoto no Japão mais uma conferência global deu origem ao Protocolo de Kyoto, estabelecendo um compromisso de todos os países que o assinaram a reduzirem até 2012 as emissões de gases poluentes para os níveis emitidos em 1990, a partir de 2005.

A mídia já comenta e entre os dias 7 e 18 de Dezembro estará acontecendo a 15ª Conferência das Partes (COP 15) da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (Rio-92). Os países voltarão a se reunir em Copenhague para discutir como será o acordo global que vai suceder o Protocolo de Kyoto (que vence em 2012).

Esse ano cerca de 200 países estarão reunidos para o encontro, cuja pauta é a discussão das mudanças ambientais, ações de mitigação para o aquecimento global e estabelecimento de novas metas de redução das emissões de gases do efeito estufa (e esperamos que mais contundentes que as planejadas em Kyoto em 1997).

Há grandes interesses em não se reduzir as emissões de gases estufas, pois isso necessariamente implica em frear o processo de crescimento industrial e econômico dos países mais poluentes e/ou gerar gastos na pesquisa e implantação de tecnologias menos poluentes.

Vamos acompanhar de perto a COP 15 e esperar que algo efetivo seja feito para diminuir a emissão dos gases estufa e assim conseguirmos frear um pouco esse aquecimento global e as mudanças climáticas do Planeta Terra.

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