Creation: uma crítica

Quando li a notícia de que estavam fazendo um filme sobre como Darwin escreveu o Origem das Espécies fiquei bastante empolgado. Primeiro por que qualquer um que leu o livro biográfico escrito por Adrian Desmond e James Moore sabe que esta é uma excelente história a ser contada. Segundo por que o ator encarregado de interpretar o naturalista inglês é o Paul Bettany que já tinha interpretado um outro naturalista, fictício é verdade mas tremendamente inspirado em Darwin, no filme Mestre dos Mares.

Tive a oportunidade de assistir ao filme ontem que, numa tentativa infeliz de ironia, foi chamado de Creation. Tenho más notícias. Vou resumir o assunto já que os próximos parágrafos vão conter algum spoiler e eu não quero estragar nada para ninguém. O filme não se sustenta nem como filme, nem como cinebiografia. Aviso novamente, como reforço, OS PRÓXIMOS PARÁGRAFOS PODEM CONTER SPOILERS, portanto, siga por própria conta e risco.

Esteriótipos e Exageros

Antes de mais nada devo reforçar que toda a crítica que faço é, sobretudo, por oposição ao livro do Desmond e Moore. Obra que não tem relação direta com o filme, que foi baseado no livro Annie’s Box, de Randal Keynes que é também tataraneto de Darwin.

O filme se divide em duas linhas de tempo. A primeira tem como ponto central a figura de Anne Darwin, mostrando a relação privilegiada entre Charles e sua segunda, e preferida, filha até sua devastadora morte aos 10 anos de idade. A segunda linha de tempo mostra Darwin lutando contra sua doença e sua tentativa de terminar o Origem das Espécies para publicação.

A primeira coisa que me incomodou bastante é a maneira como tudo é construído. Tudo muito exagerado, tudo muito esteriotipado. Darwin é o gênio indomável que tenta conter a si próprio em respeito ao amor que sente por sua esposa, Emma, a beata que em nome da religião vê, sem reclamar, sua filha sendo torturada, ao mesmo tempo em que suprime os impulsos do marido na busca de salvação para sua alma. Anne é a criança gênio, feita à imagem e semelhança do pai.

E por exagerar transforma o “naturalista atormentado” de Desmond e Moore em um “naturalista alucinado”. Darwin passa metade do filme tendo visões do fantasma de sua filha, em uma crise existencial que relaciona o Origem das Espécies com a morte de Anne, com as dificuldades do casamento, com a doença misteriosa.

Para o filme, o “Origem” não é um livro científico, mas um livro destinado a matar Deus, que só vê a luz do dia quando seu autor finalmente faz as pazes consigo mesmo, com sua esposa beata, com sua filha morta e com seu ateísmo latente. E é essa preocupação em a todo instante colocar a ciência em contraposição com a religião me leva a um segundo ponto.

Quando não se tem conteúdo, apele para a polêmica.

Creation faz exatamente isso. O filme não consegue prender o expectador pela força da história de como Darwin escreveu seu famoso livro. Ao invés disso, aposta todas as fichas em polêmicas rasas e que estão na moda. Não há uma só oportunidade de reforçar a briga entre ciência e religião que seja perdida. Darwin é retratado como um ateu enrustido, mesmo antes da morte de sua filha. A própria Anne é mostrada como uma criança que não acredita nos ensinamentos da bíblia, sendo penalizada e torturada por seu tutor religioso.

O nome do filme, como já disse anteriormente, é um trocadilho barato feito exclusivamente com o intuito de provocar polêmica. Nem mesmo o caso Darwin x Wallace passa batido.

Por fim, fiquei excepcionalmente desapontado. Não é de hoje que espero um bom filme sobre Darwin e, quando ele finalmente chega, é feito nas coxas. Por outro lado, Charles é uma figura tão rica em termos de história que o melhor seria uma série de TV. Em todo caso, não assistam, a não ser a título de curiosidade.

O duro é ver uma excelente idéia ser tão ridiculamente mal aproveitada. No final das contas, não temos nem 10 minutos de cenas que são ativamente relacionadas com a “criação” do Origem das Espécies. Nem mesmo a presença da lindíssima Jennifer Connelly salva. Aliás, se você quer ver Jennifer Connelly como esposa de um cientista, uma opção muito melhor é assistir ao Uma mente brilhante que, ao menos como filme, supera e muito essa aberração chamada Creation.

Leia também:

7 Comentários
Categoria: blog
Fim do essencialismo?

Como se sabe, o essencialismo, uma filosofia creditada a Platão (428 a.C. – 347 a.C.), mas que provavelmente o antecedia, permeou o pensamento científico ocidental por mais de 2000 anos. O essencialismo foi uma das grandes barreiras que Darwin teve que enfrentar quando propôs sua teoria da evolução por seleção natural. Alguns estudiosos de Darwin acreditam que esse paradigma foi um obstáculo mais difícil de transpor do que as próprias idéias religiosas, que já estavam perdendo credibilidade há algum tempo por causa de outras descobertas científicas.

Ás vezes é dito que Darwin acabou com o pensamento essencialista. Ele certamente o abalou, ao demonstrar que essa filosofia não dá conta de explicar a origem e evolução das espécies sem tropeçar nas diversas evidências paleontológicas e geológicas que estavam aflorando em sua época. No entanto, o essencialismo não se restringe à Ciência. Ele é muito mais amplo do que isso.

O essencialismo postula que todas as coisas têm uma essência que é imutável. No campo da Biologia, isso significa que todas as espécies têm uma essência fixa e eterna; todos os coelhos têm a essência do coelho, ou seja, eles têm um conjunto de características que nos permite distingui-los como coelhos, apesar de alguns serem mais peludos ou maiores do que os outros. As pequenas diferenças entre os indivíduos das espécies eram facilmente explicadas porque a “essência ideal” era inalcançável, ela só existia no plano das idéias (de Deus), de forma que cada coelho seria apenas uma representação imperfeita desse modelo ideal. Cada indivíduo tinha uma imperfeição diferente em relação à essência perfeita (de Deus), logo, os indivíduos podem ser diferentes mesmo tendo todos a mesma essência. Darwin quebrou esse pensamento ao demonstrar que as espécies mudam ao longo do tempo. Se as essências são fixas, como poderiam as espécies mudar?

No entanto, o essencialismo continua aí. Essa história toda de “essência ideal” feita por Deus pode parecer meio absurda nos dias de hoje, mas para esclarecer as coisas basta pegarmos um exemplo mais próximo, como, por exemplo, uma cadeira.

Todas as cadeiras têm uma mesma essência: são objetos elaborados para nos sentarmos. Existe uma grande variedade de cadeiras. Desde banquinhos de plástico até poltronas reclináveis, desde assentos num ônibus até cadeiras de dentista, não importa, todas elas servem para a mesma coisa. Todas têm a mesma “essência ideal”, criada pelo homem, mesmo que difiram na cor, no tamanho ou no revestimento. Dessa forma, quando eu falo “cadeira”, todo mundo entende do se trata.

Sim, eu sou essencialista, e você também é. Toda vez que pegamos um conjunto de características e o extrapolamos, criando uma categoria onde inserimos coisas ou pessoas, somos essencialistas. Somos essencialistas quando falamos sobre “os muçulmanos”, “as pessoas de esquerda” ou até mesmo “a minha família”, pois ao fazer isso, estamos criando categorias a partir de características que acreditamos compartilhar com nosso interlocutor e estamos incluindo muitas pessoas nessa categoria, mesmo sem conhecer todas elas. “Os corintianos são bandidos” é uma típica frase essencialista – e preconceituosa.

E ser essencialista é ruim? Bom, se você estiver tentando entender a teoria da evolução, isso pode te atrapalhar. Mas parece que o essencialismo faz parte da lógica de nosso pensamento. Tente raciocinar sem criar categoria; é impossível! O pensamento tipológico é uma materialização da filosofia essencialista. Claro que essa tendência a pensar criando categorias (tipos) também favorece o desenvolvimento de preconceitos, já que “os negros”, “os judeus” e “as mulheres” formam categorias tão bem quanto “os talheres”, “os vizinhos”, “os países industrializados” ou “os meus amigos”.

Algumas pessoas defendem que a religião é um “contra” da nossa capacidade de imaginação. Talvez os preconceitos contra grupos inteiros que mal conhecemos sejam um “contra” da nossa forma lógica de raciocinar. Não sei, isso é só especulação, mas, ironicamente, parece que a única coisa imutável no essencialismo é ele mesmo. Talvez pensar de forma essencialista esteja na essência do homem.

Leia também:

5 Comentários
Categoria: blog
“Spider sense is tingling”

Certa vez, um velhinho muito sábio disse a seu sobrinho que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Tudo bem, tudo bem, esse velhinho é um personagem de quadrinhos, mas ele sabia do que estava falando. Esse é um texto sobre como a máxima do sr. Ben Parker pode se aplicar à Ciência.

O grande poder da legitimação

Não é novidade pra ninguém que a Ciência, na forma que tem hoje, é uma grande legitimadora de conhecimento. O conhecimento científico é visto como muito mais acurado e muito melhor do que os outros tipos de conhecimento, mesmo por aqueles que nada sabem sobre o processo de construção dos conhecimentos científicos. Ou seja, mesmo quem não sabe como funciona a construção de saberes na Ciência julga que esses saberes são mais válidos do que os seus próprios, adquiridos a partir de suas vivências. A Ciência tornou-se inquestionável, mesmo que seu pressuposto básico seja o questionamento e a busca pelo conhecimento. Por sinal, quando uma pessoa ouve uma explicação científica para um fenômeno qualquer, ela deixa de buscar esse conhecimento, pois, afinal, ele já está “pronto”. Se a Ciência falou, tá falado.

Em miúdos: atualmente a Ciência tem o poder de decidir qual conhecimento é válido e qual não é. É quase como poder de decidir o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é ruim (por exemplo, de uma semana para a outra a Ciência pode transformar o ovo de vilão a herói de nossa saúde, e seu parecer será definitivo, enquanto a opinião dos ruralistas que criam as galinhas de nada vale, afinal, o que eles podem saber sobre ovos?).

A grande responsabilidade da universalização

Se por um lado a Ciência nos permite feitos incríveis como chegar a Marte ou seqüenciar o DNA dos bichos, por outro ela marginaliza todas as pessoas que não entendem como esses feitos são possíveis, assim como todas as formas de pensar que não concordam com “o progresso da Ciência” – estas são vistas como reacionárias. Ela cria analfabetos, analfabetos científicos. Isso acontece porque, coincidentemente ou não, o conhecimento que a Ciência cria e valoriza é um que a grande maioria da população não tem acesso.

Existem dezenas de motivos pelos quais devemos defender a universalização do conhecimento científico, já que uma população alfabetizada cientificamente só traz desvantagens àqueles que dela querem se aproveitar. E é esse o ponto que levanto aqui; um ponto ideológico: é muito mais fácil convencer uma pessoa de que você está certo se ela não entender nada do que você está falando (os editores de Sokal que o digam!). Assim, uma população analfabeta cientificamente continuará a acreditar cegamente em tudo o que a Ciência disser, enquanto uma população alfabetizada iria se posicionar, questionar, criticar, etc.

Se a Ciência que se deseja é uma que se afasta da sociedade e se envolve numa áurea para parecer imaculada e neutra, então estamos no caminho certo. Mas sabemos que as coisas não são bem assim.A Ciência cresce na medida que mais e mais pessoas são capazes de entendê-la para questioná-la e, assim, alavancar seu desenvolvimento. Além disso, se todos entendessem a Ciência, a população iria assegurar que a Ciência vai concentrar esforços e verbas em áreas pertinentes para toda a sociedade, e não somente para os grupos dominantes.

A idéia central é que, se a Ciência têm o poder de decidir o que é verdade e o que é mentira, então ela tem a responsabilidade de validar verdades que sejam do interesse de todos, e a única maneira disso acontecer é garantindo que todos tenham acesso ao conhecimento que é produzido por ela. Limitar o privilégio do acesso ao conhecimento apenas às “mentes brilhantes” que freqüentam as universidades pode custar muito caro. Mais caro do que qualquer agência financiadora pode pagar. “Spider sense is tingling”.

“O aspecto mais triste da vida de hoje é que a Ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria” (Isaac Asimov).

Leia também:

Nenhum comentário
Categoria: blog