A Prenhez Tubária, o Anticoncepcional e a Divulgação Científica

Fornecer informações de um modo acessível à população é o principal objetivo da Divulgação Científica. Digo de se traduzir aquela linguagem técnica, de difícil absorção, cheia de latins e de palavras que passam ao largo do uso cotidiano, como no caso das ciências e suas expressões mais puras. Nelas e nas mais diversas áreas.

E por quê não usar o dicionário?
Divulgação: ato ou efeito de tornar pública alguma coisa; difusão, propagação, vulgarização. (Houaiss)

Repito: difusão, propagação, vulgarização. Três palavras adequadas ao propósito deste texto. E um incômodo. Explico:

Recentemente passei por uma cirurgia para a retirada de um pedaço de uma das trompas, em decorrência de uma gravidez ectópica (quando o feto se desenvolve de forma tubária). Por certo, uma fatalidade. Maior ainda pelo fato de eu estar tomando Mesigyna®, anticoncepcional injetável fabricado pela Bayer do México e comercializado aqui no Brasil pela Schering.

A parte interessante desse tipo de anticoncepcional trata-se do fato dele ser administrado mensalmente por via intramuscular profunda, de forma extremamente lenta e, portanto, há registro de cada dose na farmácia em que a injeção é aplicada. Coisas das legislações, ainda bem, pois assim levanto a possibilidade de entrar com um processo contra o laboratório.

E é aí que encontro o primeiro incômodo e penso no quanto é importante a Divulgação Científica. Afinal, de que se trata aquela porcentagem de ineficácia (geralmente 1%) presente em todas as bulas dos anticoncepcionais?

“Quando usado corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano (uma gestação a cada 100 mulheres por ano de uso). O índice de falha pode aumentar quando os intervalos entre as injeções são prolongados.” (Bula do Mesigyna®).

“Os COCs [Contraceptivos Orais Combinados] são utilizados para prevenir a gravidez. Quando usados corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano. O índice de falha pode aumentar quando há esquecimento de tomada dos comprimidos ou quando estes são tomados incorretamente, ou ainda em casos de vômito dentro de 3 a 4 horas após a ingestão de um comprimido ou diarréia intensa, bem como interações medicamentosas.” (Bulas do Yaz® e do Yasmin®).

“Contraceptivos orais combinados, quando usados corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano. A ingestão irregular pode levar a sangramentos intermenstruais, além de reduzir a eficácia terapêutica e o efeito contraceptivo de Diane® 35.”

É tanta repetição que levanta até suspeitas. Algo do tipo os laboratórios se precaverem de ações legais caso algo ocorra distante do previsto e coisa e tal. E apenas isso?

Por certo devem haver estudos científicos que apresentam tal margem de erro e, como dizem os manuais de métodos de pesquisa, principalmente no tocante as estatísticas e validade dos experimentos nos quais as variáveis são controláveis.

Consenso: várias técnicas estatísticas são necessárias para permitir a descrição das características dos dados, testar relações de conjunto entre os dados e suas diferenças. Geralmente o resultado é uma média.

No caso da eficácia dos anticoncepcionais, o conceito utilizado em técnicas estatísticas é o de confiabilidade (e não o de probabilidade, como muitos podem achar). Envolve pesquisa correlacional (entre as variáveis) e isso significa haver um coeficiente de correlação, que pode ser alto ou baixo, satisfatório ou insatisfatório.

E as dúvidas vão aumentando: cientificamente, de que se trata o uso correto de uma substância? Esta falha de 1% do uso dos anticoncepcionais injetáveis é determinada a partir de quê? Do esquecimento de uma das doses? Do erro na administração da ingestão? Ou refere-se mesmo à ineficácia da substância para determinados organismos? Dentro deste 1%, qual é a porcentagem destinada ao uso inadequado da substância? E em relação à interação com outros medicamentos? Afinal, como é calculado este 1%? E outras tantas perguntas, para tantas variáveis…

Entre as variáveis, por certo que outros fatores estão envolvidos, e que representam o mundo científico: a amostra populacional, a validade das medidas e a expressão de fidedignidade por meio da correlação. E tudo isso promove uma margem de erro.

Mas, afinal, essa margem de erro é suficiente para o laboratório eximir-se da responsabilidade de ineficácia de um medicamento? Todos lembram do caso da pílula de farinha.

Em uma pesquisa breve relacionada na internet, verifico haver muitas mulheres na mesma situação do que a minha. E muitas delas questionando o laboratório judicialmente. Se há um argumento que possa ser válido, eu aposto na confiabilidade.

E não digo apenas em relação ao método científico em si, mas de todo o entorno. É fato de que os anticoncepcionais são vendidos por sua confiabilidade e não pela possibilidade do erro.

Onde entra a Divulgação Científica nisso tudo? No acesso à informação. Essa eu só fui procurar depois do ocorrido, para então ouvir de especialistas frases do tipo:

- esse medicamento quando não funciona tem um alto risco de gravidez ectópica;
- nossa farmácia parou de aplicar o medicamento porque muitas mulheres relataram passar mal, então o laboratório veio pedir para voltarmos a aplicar o medicamento;
- é bobagem processar o laboratório já que nenhum método para evitar a gravidez é 100% seguro.

Independente dos argumentos, uma coisa é fato: o acesso à informação, a popularização da ciência, sua vulgarização poderia ter me permitido correr esse risco de gravidez ectópica de uma forma mais consciente. Afinal, eu poderia ter aliado o anticoncepcional com o uso da camisinha. Ou com o uso de um DIU. Ou outra combinação possível.

Aqui, eu entraria com o debate pelos argumentos da bioética e coisa e tal. É fato que nós somos responsáveis pelos nossos atos, e, neste caso acima relatado, os laboratórios também não o são?

De qualquer forma, ressalto a importância da Divulgação Científica para a tomada de decisão das pessoas, para que elas evitem incômodos. Inclusive quando se quer usar da própria ciência em um processo judicial.

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Ciência e a utopia da imortalidade

Escrito muito antes da Ilíada e da Odisseia, a Epopeia de Gilgamesh conta-nos a história de um homem que toma a consciência de si próprio e descobre o medo da morte através da perda trágica daquele que ama, levando-o a iniciar uma busca desperada pela imortalidade. Depois de ter falhado todas as tentativas, sobretudo devido à impossibilidade de dominar o tempo, o homem regressa à cidade de Uruk, onde toma a decisão de escrever a sua epopeia, mesmo sem se aperceber que ao fazê-lo está a imortalizar a sua memória, que é a única que nos convém e que nos é possível. Em certo sentido vai ser este o corolário lógico das epopeias modernas na busca por uma imortalidade. Já esquecido do que o levou a ter vontade de viver para sempre, o homem moderno, digamos assim, procura materializar os seus sentimentos de terror e de perda, transformando-os em obstáculos transponíveis pela técnica. A manipulação genética, e todas as suas derivações mais ou menos sofisticadas, surge assim como uma espécie de epifenómeno de uma doença que, precisamente por ter momentos felizes, é levada a esquecer-se de si.

O espinho essencial de ser consciente
É normal que não estejamos atentos à vida porque habitualmente estamos entretidos com o que ela nos oferece. A vida tem manha. Distrai-nos com muitos problemas para que ela própria não se torne num problema. A vida tem um aspecto doentio. Que a vida é uma frenética correria para a morte é o seu sintoma mais óbvio. Aliás, correria essa que nega o sintoma precisamente porque acha que a morte está no fim da vida, quando na verdade a vida gasta-se e consome-se. A morte é então encarada como um abismo e enquanto assim for, a vida será sempre uma piada sem graça. Uma correria sem sentido mas com a aparência de sentido. Uma ilusão de haver mais qualquer coisa à nossa frente mas insconscientes do simples facto de estarmos vivos. A lucidez perante a vida, ou como dizia Álvaro de Campos, «o espinho essencial de ser consciente, a vaga náusea, a doença incerta, de me sentir», arrastaria consigo a angústia. Salva-nos a miopia de não nos enxergarmos com clareza. Salva-nos também os estratagemas hábeis que vamos impregnando no nosso modo de viver por forma que tudo isto não se transforme numa mais ou menos lenta agonia.

A ideia de imortalidade enquanto estratagema que nos distrai da vida
A ideia de imortalidade, ou melhor, a vontade de viver para sempre, surge então como uma utopia edificante cujo representante mais eloquente é o cristianismo. A matriz é universal. Há sempre alguém a mandar os outros fazer qualquer coisa em troca da vida eterna. Quando na verdade o embuste é evidente. Um pouco como no tempo em que diziam aos judeus que iam tomar banho, e lhes pediam inclusivé que decorassem o número do cabide onde tinham pendurado as suas roupas, quando na verdade, sem saberem, estavam voluntariamente a entrar numa câmara de gás. A promessa de vida eterna, ou até de um simples banho, são assim estratagemas que nos permitem acordar, viver e dormir tranquilos sem pensar nisso.

Porque o desespero paralisar-nos-ia por completo.A parábola do jardim do Éden é exemplar da necessidade que o homem tem em dominar o tempo. Porque ser imortal é precisamente isso, é exercer um domínio autoritário e totalitário sobre o tempo. É manipulá-lo ao seu jeito. É jogar com ele mas tomando como certeza que no final ele acaba sempre por perder. Nesse jardim havia duas árvores – a árvore da ciência do bem e do mal, e a árvore da vida. Da primeira o homem comeu o fruto e por isso foi expulso do jardim, que é agora guardado por querubins armados de espada flamejante para que o homem não se aproprie também da árvore da vida. Porque a imortalidade só pode ser alcançada pela redenção. E não uma imortalidade do corpo mas sim da alma. Aliás, uma imortalidade da alma que se faz à custa da mortalidade do corpo. O que, no imediato, quer dizer que esta vida que temos, feita de carne e osso, e que é única, não tem qualquer valor.

A vontade de viver para sempre resulta assim de uma inquetação humana profunda: a consciência de si. Esta consciência é como um espinho profundamente entranhado e que nos causa uma dor persistente e aguda. Aliás, uma dor que nos faz suplicar pelo seu fim. A dor é em grande parte dos casos o limite. E um limite que pode levar ao suicídio como um acto de desespero mas também de sobrevivência. Quando se quer a verdade, tortura-se, provoca-se dor. Ninguém a suporta. Ninguém a quer. Todos a evitam. Estar doente é ter dor. Quando dói queremos que essa dor termine o mais rapidamente possível. A imortalidade surge assim na forma de promessa. Na verdade, ela funciona como um potente analgésico. Elimina a dor.

Ciência e a promessa de imortalidade
Vivemos hoje tempos difíceis. Diz-se por aqui à boca cheia que as sociedades ocidentais vivem tempos de descrença. Não um tempo em que os homens não acreditam num deus, mas antes um tempo em que os homens deixaram simplesmente de acreditar. Seria então de esperar que, em consequência desta descrença, em grande parte devido a uma inesperada lucidez perante a corrupção dos valores dentro da própria Igreja, os homens caissem numa situação de uma angustiante solidão espiritual. Mas não é bem assim. É claro que tudo isto teve consequências. O capitalismo é necessariamente uma sociedade de violência, que corrompe as pessoas e as torna violentas. E uma violência que não é apenas física mas também, e sobretudo, psicológica, evidenciada naquilo que o filósofo León Rozitchner define como uma «violência normal», aquela que resulta da «vontade dos outros».

Porém, o homem moderno é incapaz de viver no vazio existencial. O sentido da vida é algo que lhe é ontológico e do qual depende como de pão para a boca se tratasse. Surpreendentemente, ou não, a ciência tem vindo a assumir esse papel. Com as suas promessas de cura e de alívio da dor, e sobretudo de imortalidade, a ciência, tal e qual a conhecemos hoje, tem vindo a assumir o aspecto de uma crença. Começou com o milagre dos antibióticos que iriam de uma vez por todas livrar-nos das doenças terríveis que ceifavam massivamente as vidas alheias. Começou com a penicilina, depois a estreptomicina. Vieram depois os anti-maláricos, os anti-depressivos, os anti-inflamatórios, os anti-piréticos, sempre os anti-qualquer coisa. O caso da raiva é eloquente da forma como uma descoberta científica pode santificar o seu descobridor. Louis Pasteur viveu num tempo em que a raiva matava milhares de pessoas. A Europa viva com muito medo de algo que não sabia combater. E ninguém suporta viver com tanto medo.

Neste contexto, a descoberta da cura para a raiva surgiu assim como uma espécie de milagre. Em todos os casos, o corolário era o mesmo. Íamos deixar de estar doentes. E se íamos deixar de estar doentes, então isso significava que íamos viver para sempre. Hoje, as promessas de cura são agora sintetizadas em fórmulas mais sofisticadas próprias do nosso tempo como seja a manipulação genética, a clonagem terapêutica de células estaminais ou a cirurgia fetal, ou ainda o advento da biónica, berradas todos os dias na televisão e nos jornais.

Nalguns casos estas promessas surgem disfarçadas de artigos científicos publicados em revistas altamente credíveis. O efeito mais imediato é que as pessoas passam a acreditar na ciência porque ela é a solução para todos os nossos problemas. Não interessa que mais de cinquenta anos depois ainda não tenhamos descoberto a cura para a SIDA. O que interessa é a promessa. Porque é ela que nos acalma a nossa dor e nos permite viver uma vida sem angústia. Os cientistas prometem que dentro de algum tempo vamos ser imortais.

E apesar da ideia ser entusiasmante, sobretudo porque confere ao cientista um poder imenso, ela não passa de uma mentira. Não sabemos tudo nem nunca vamos saber tudo. Porque a natureza é um alvo em movimento. Porque a natureza está constantemente a desafiar-nos. Ela resiste (veja-se o caso da resistência aos antibióticos, assunto cada vez mais sério). Ela resiste sempre.

Em 2006, a revista científica Nature publicou um artigo do biólogo franco-croata Miroslav Radman onde se descrevia o mecanismo de ressurreição da bactéria Deinococcus radiodurans que mesmo depois de morta é capaz de voltar à vida em poucas horas. E isto graças à capacidade genial e única de regenerar o seu material genético mesmo quando este se encontra fragmentado. Logo depois da publicação deste artigo, o senhor foi entrevistado por múltiplos órgãos de comunicação social, sempre tendo como epíteto que agora é que a medicina regenerativa ia vingar e que este era apenas o primeiro passo para a reconstituição neuronal e cardíaca e, claro está, para a imortalidade dos humanos.

Numa entrevista ao jornal La Nacion, este mesmo senhor esgrima argumentos, cria cenários, repete até à exaustão que tudo é possível, mas sobretudo faz promessas. E promessas com destinatários muito específicos. Porque não é ingenuamente que surge no meio de tudo isto a palavra ressurreição.

Aliás, é estratégico. Ainda na mesma entrevista, quando o jornalista o questiona se o instituto que acaba de fundar – Instituto Mediterrânico para as Ciências da Vida - irá trabalhar na ressurreição humana, o senhor responde que pediu inclusivé um financiamento ao Vaticano para trabalhar sobre a base molecular da ressurreição. Ora, estas patetices, que enchem as pessoas de expectativas, não passam de estratégias com vista a impressionar potenciais investidores. Além do mais, isto está de tal modo enviesado que ninguém é capaz de debater estas questões de um modo sério. Nestes tempos ndamos assim. De um lado, prometem a imortalidade daqui a não sei quantos anos. Do outro lado, por causa do aquecimento global e da predação assaz dos ecossistemas, anunciam o fim do mundo também daqui a não sei quantos anos. Ai eu!

O processo de santificação da ciência é uma ilusão perigosa. Como dizia François Jacob, «nada é mais perigoso do que a certeza de se ter razão». Porque com ela se pode manipular muito para além de gâmetas ou embriões. Pode-se inclusivamente manipular sociedades e implementar vontades. E ganhar muito dinheiro. Ou já se esqueceram dos tempos em que a ciência era usada com fins sociais absolutamente perniciosos? Lembram-se dos pressupostos da eugenia? Eu não me esqueço. E a gente não se pode esquecer. Porque se nos esquecermos disto, se aceitarmos tudo isto com uma passividade crítica própria de um homem térmita, se deixarmos que a ciência seja abusivamente mostrada ao grande público como uma espécie de Boa Nova, então será o fim da ciência. É por isso que hoje, agora, já, é urgente que se advirta as pessoas para não acreditarem em tudo aquilo que lêem ou que ouvem. Até mesmo quando é escrito ou dito por cientistas.

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Alexandre Koyré: Soldado, filósofo, historiador.

Alexandre Koyré

Aproveitando o embalo do texto anterior sobre Galileu, volto a abordar um dos historiadores fundamentais para qualquer um que pretenda estudar com mais detalhe a o matemático italiano.

Alexandre Koyré nasceu em 1892 na Russia, mas cresceu na França. Estudou em Göttingen, na Alemanha, com David Hilbert e Edmund Husserl. Teve a sua tese rejeitada por Husserl, o que o fez retornar a França.

Quando a 1ª grande guerra veio, Koyré se alistou no exército frances por sua própria vontade e acabou indo servir na Russia. Ao final da guerra passou a se dedicar à filosofia. Estudou os trabalhos de Descartes e Santo Anselmo sobre Deus, completando seu doutorado em filosofia da religião pela faculdade de letras de Paris.

É um homem de história curiosa, sem dúvida. De soldado a filósofo da religião, de filósofo da religião a historiador da ciência. Mesmo trilhando caminhos tão “divergentes” por assim dizer, é impossível separar a história da ciência de Koyré. Foi ele um dos grandes nomes que cunharam a grande Revolução Científica como o ponto central da disciplina.

Internalismo e externalismo.
Para entendermos a importância de Koyré, é preciso antes entendermos como era a história da ciência antes dele. A primeira geração de historiadores da ciência estava comprometida com os ideais positivistas, buscando na filosofia de Comte uma abordagem metodológica capaz de superar os limites da história convencional e produzir uma narrativa adequada para a história da ciência.

Neste projeto a ciência era estudada como um empreendimento isolado, ou seja, levava em consideração apenas os processos internos da atividade, ignorando completamente o contexto social de seus praticantes ou da própria prática.

Em 1930 os historiadores passaram a abandonar gradativamente esta abordagem. A historigrafia atual assume que é muito difícil compreender a história da ciência sem considerar seu contexto social. Um exemplo disso é o livro Galileu Cortesão, de Mario Biagioli, que foi usado no texto anterior sobre Galileu. Biagioli constrói sua narrativa mostrando que as práticas cortesãs influenciaram diretamente a ciência de Galileu.

Koyré não era exatamente um externalista, mas também não pode ser chamado de internalista. Kuhn chega mesmo a dizer que nenhum destes rótulos se aplica a ele. Koyré não se importava em usar fatores extracientíficos e demonstrar sua importância no desenvolvimento da ciência, mas não produziu nada que fosse estritamente externalista.

Koyré platônico.
A despeito da discussão sobre internalismo e externalismo, o que realmente importa é a influência que a formação filosófica teve sobre sua carreira de historiador. Koyré era um platônico e, como tal, se interessou em estudar a história das ideias científicas.

E foi como platônico que ele interpretou Galileu. Seus Estudos Galileanos mostram um Galileu que da enfase na experiência mental, um Galileo que já sabe o resultado da experiência antes mesmo de a realizar. Com efeito, Koyré se apegou tanto a esta metodologia que em certo ponto chegou a dizer que “a boa física é feita a priori, teoria precede o fato, a experiência é inútil por que antes de qualquer experiência já estamos de posse do conhecimento que estamos buscando”.

A alegação de que a experiência é inútil é um tanto forte, mas é curioso ver como nem Galileu nem Kepler precisaram da observação das luas de Júpiter ou os dados de Tycho Brahe para aceitarem o heliocentrismo. Alguns historiadores, por influência de Koyré, acabariam por reconstituir determinados experimentos a fim de descobrir se de fato eles haviam sido feitos.

No caso específico de Galileu, descobriu-se que muitos dos experimentos que ele descrevera simplesmente não apresentavam os resultados que o italiano descrevia. Tal conclusão vai de encontro com o que Koyré dizia. Galileu de fato conduzia experimentos mentais e estava tão seguro de seus resultados que os apresentava sem realizar alguns experimentos de fato.

Koyré também fez grandes contribuições para o estudo do período da Revolução Científica. Foi ele quem interpretou o período como o abandono do aristotelismo e a mudança para uma metodologia mais arquimediana. A geometrização do universo e a infinitização do espaço, como ele mesmo colocou.

Era, em outras palavras, a racionalização da ciência, que passa a ser capaz de tirar conclusões e fazer previsões sobre o mundo físico mesmo que determinado fenômeno previsto não tenha sido observado por uma razão qualquer. Para o historiador, Galileu era o grande exemplo dessa mudança metodológica.

Antes de falecer em 1964 Koyré se dedicou a estudar outro grande cientista, Isaac Newton. Seu trabalho rendeu uma nova tradução do Principia e mais um sem número de artigos que demonstravam a influência de Descartes no pensamento newtoniano, além de abordarem a relação entre os trabalhos de Newton e Leibiniz.

Koyré era ele próprio o grande exemplo de uma mudança metodológica. Um platônico por excelência que mudou, de forma determinante, o desenvolvimento da história da ciência nos anos vindouros.

Bibliografia.

Beltrán, Antonio. “Wine, Water and Epistemological Sobriety: A Note on the Koyré-MacLachlan Debate”, Isis (1), (1998), 82-89.

Cohen, Bernard and Marshall Clagett. “Alexandre Koyré (1892-1964): Commemoration,” Isis (2), (1966), 157-166.

Elkana, Yehuda. “Alexandre Koyré: between the history of ideas and sociology of knowledge,” History and Technology (1987), 111-144.

Gavroglu, Kostas. O Passado das Ciências como História. Porto: Porto Editora, 2007.

Herivel, John. “Obituary: Alexandre Koyré (1892-1964),” The British Journal for the History of Science (3), (1965), 257-259.

Koyré, Alexandre. “Galileo and Plato”, Journal of the History of Ideas (4), (1943), 400-428.

Koyré. Alexandre. “Galileo and the Scientific Revolution of the Seventeenth Century”, The Philosophical Review (4), (1943), 333-348.

Koyré, Alexandre. “Influence of Philosophic Trends on the Formulation of Scientific Theories”, The Scientific Monthly (2), (1955), 107-112.

Kuhn, Thomas S. “Mathematical versus Experimental Traditions”, Journal of Interdisciplinary History (1976), 1-31.

MacLachlan, James. “A Testofan ‘Imaginary’ Experiment of Galileo’s”, Isis (3), (1973), 374-379.

MacLachlan, James. “Experimenting in the History of Science”, Isis (1), (1998), 90-92.

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Galileu, matemático , cortesão e desonesto?

A Nature publicou ontem um pequeno texto (ao qual tive conhecimento pelo colega blogueiro Rafael do RNAm e que também escreveu um texto sobre o assunto) dizendo que evidencias recentes mostram que Galileu defendeu o sistema heliocêntrico apesar de suas observações não sustentarem tal sistema.

Tenho uma novidade pra Nature, tal fato já é sabido pela história da ciência a muito mais tempo. Aliás, o artigo em si é bastante estranho, e não estivesse publicado no site da Nature, eu ia dizer que era obra do G1. Mas vamos ao que interessa.

Galileu, Matemático.
Todo mundo sabe que Galileu foi um matemático. Deu aulas na universidade de Pádua, até ser escolhido como matemático oficial da corte dos Médici. O que pouca gente sabe é que a matemática não tinha o estatuto social que tem hoje.

Platão, de vermelho e Aristóteles de azul.

À época, a filosofia natural era a grande disciplina e tinha como modelo central a física aristotélica e a descrição celeste de Ptolomeu. Aristóteles classificava o universo em um mundo sublunar, ou seja, tudo aquilo que fica disposto “abaixo” da Lua (incluindo a própria Lua), e o mundo supralunar, ou tudo aquilo que fica disposto acima da Lua.

Em tal sistema, a Terra fica ao centro do Universo com a Lua, os planetas e todas as estrelas orbitando ao seu redor. Embora pareça favorecer a importância de nosso planeta no Universo, a verdade é que a justificativa de Aristóteles para isso é precisamente a inversa. Para o grego, o mundo supralunar era perfeito, existia desde sempre e continuaria existindo de maneira imutável. Os planetas e estrelas não tinham imperfeições, eram esferas perfeitas, se movendo em orbitas circulares ao redor da Terra em um mundo incorruptível.

O mundo sublunar por sua vez se situava no centro do Universo justamente por ser composto por uma substância comum, que não se “misturava” ao mundo supralunar. Na época de Galileu, este sistema era aceito da mesma maneira que aceitamos hoje um universo cheio de planetas que nada se parecem com esferas perfeitas.

Mas divago. Tudo isso era pra dizer que a filosofia natural possuía um estatuto social superior ao da matemática por exemplo. E Galileu era um homem que queria combater o aristotelismo. Não por birra, mas por acreditar que a matemática tinha grande papel no entendimento do mundo sublunar e supralunar. Para Galileu, era preciso matematizar o universo, unificando estes dois mundos.

O problema todo era justamente que para discutir em pé de igualdade com os aristotélicos Galileu precisava ter um status social compatível com seus interlocutores e ser um matemático de Pádua não era o suficiente.

Galileu Galileu.

Galileu, cortesão.
Na época de Galileu, a ciência como a conhecemos hoje ainda não existia. Por isso mesmo, não havia periódicos, sociedades científicas ou peer-review. Em outras palavras, os mecanismos atuais de validação ainda não tinham se estabelecido. Sem estes mecanismos, a validação era feita por um complexo sistema de mecenato.

Galileu sabia muito bem disso e já estava acostumado com as intrincadas regras de etiqueta das cortes italianas. Tentou por alguns anos se tornar o matemático filósofo da corte dos Médici, mas tal feito só seria conseguido quando da publicação de seu famoso Siderius Nuncius.

Como se sabe, Galileu melhorou sensivelmente a qualidade dos telescópios da época. De início, o telescópio de Galileu foi usado como um instrumento militar, mas em dado momento, o italiano teve a brilhante idéia de apontar sua lente para o céu. O resultado deste fato veio mais tarde, em seu livro que descrevia as descobertas feitas, como as crateras lunares e as luas de Júpiter.

Ao publicar o livro, Galileu o ofereceu aos Médici. Mais do que isso, nomeou as quatro luas de Júpiter que havia observado com o nome de altos membros da poderosa família italiana. Por regra da corte, ao ser presenteado, um mecenas deveria responder à altura, o que na época rendeu a Galileu o cargo de filósofo e matemático do Príncipe Cósimo II de Médici.

Ao manobrar sua aceitação na corte do grande mecenas, o matemático italiano finalmente adquiriu o estatuto social necessário para dialogar em igual nível com os aristotélicos.

Copérnico Vs Tycho Brahe.
A pergunta de por que Galileu era copernicano não encontra muita resposta. É sabido que ele chegou a defender o sistema ptolomaico, mas mudou de idéia quando ainda dava aulas em Pádua. Uma das explicações sugeridas é a de que o italiano percebeu em Copérnico um sistema mais elegante. Elegante não em termos estéticos, mas em termos matemáticos.

Via de regra, o modelo heliocêntrico de Copérnico, em termos de predição do movimento dos astros, não era muito melhor do que o de Ptolomeu. No entanto, era matematicamente mais coerente. Com efeito, os historiadores concordam que nesta época, poucos cientistas eram capazes de entender Copérnico. Galileu e Kepler foram dois destes privilegiados.

O caso é que o sistema de Ptolomeu só começou a cair quando o próprio aristotelismo passou a ser contestado. Como eu já disse mais acima, para Aristóteles o mundo supralunar era perfeito e imutável. Mas em 1572 uma supernova pode ser observada a olho nu, brilhou no firmamento como se fosse uma nova estrela para desaparecer por completo duas semanas depois.

Alguns anos depois um cometa pode ser observado por Tycho Brahe que, com os instrumentos de precisão mais potentes da época, calculou que tal cometa estava se deslocando no espaço, não sendo assim um fenômeno atmosférico como antes se acreditava. Galileu também ajudou no processo ao observar as luas de Júpiter e as manchas solares.

Em 1618 três cometas puderam ser observados. Tal fato atraiu a atenção dos mecenas que passaram a se interessar por explicações sobre o fenômeno. Galileu foi um dos interpelados sobre os cometas, bem como os jesuítas. Um dos membros da Companhia de Jesus, Orazio Grassi produziu uma conferência pública que resultou em um texto sobre os cometas. Neste texto, Grassi usa o sistema tychonico, que coloca a Terra no centro do Universo, o Sol a orbitar ao redor da Terra e todo o resto a orbitar ao redor do Sol, como parte da explicação sobre os cometas.

Nicolau Copérnico.

Galileu não pode se ausentar à disputa. Não produzir uma resposta à Grassi seria o mesmo que apoiar o sistema de Tycho. A esta altura o sistema de Copérnico já havia sido proibido pela igreja, o que deixou a Galileu uma única opção: Desacreditar o sistema tychonico.

Atacar tal sistema trazia para Galileu dois benefícios. O primeiro era impedir que o sistema de Tycho fosse aceito como o novo modelo canônico. O segundo era garantir a si próprio a imagem de grande autoridade astronômica, impedindo assim que os jesuítas assumissem tal papel. Foi durante toda a disputa que o cardeal Barberini, amigo de Galileu, foi eleito como novo Papa. A conjuntura foi tão boa que, se usando da mesma tática que havia usado para ser aceito na corte dos Médici, o italiano dedicou seu livro O Ensaiador ao novo Papa de modo a receber a proteção de um mecenas ainda mais poderoso que Cósimo.

Embora em nenhum momento Galileu tenha defendido Copérnico de forma aberta, O Ensaiador era um livro com duras críticas ao aristotelismo, e gozava da aceitação do Príncipe maior da Igreja Católica.

Galileu e a Inquisição.

A queda do favorito.
Na boa conjuntura em que se encontrava, Galileu pediu permissão à Urbano VIII para escrever um livro aonde defenderia o heliocentrismo de Copérnico. O Papa permitiu que Galileu assim o fizesse, mas não de forma a apresentar uma nova teoria, apenas como um exercício hipotético. Urbano VIII chegou mesmo a dar algumas sugestões sobre o conteúdo do livro.

Galileu, seguro de sua proteção, escreveu o livro na forma de diálogo, não só defendendo o copernicianismo abertamente e não de forma velada como sugerira o Papa, mas colocando na voz de Simplício, o personagem tacanho e ignorante de seu diálogo, algumas frases que o próprio Urbano teria proferido.

O Diálogo Sobre os Dois Sistemas do Mundo caiu como uma bomba. Urbano já se encontrava em posição difícil, sofrendo ameaças dos espanhóis que durante a guerra dos 30 anos começaram a acusar o Papa de ajudar os franceses, e ameaçaram uma invasão a Roma. Além disso, muitos dos críticos de Urbano diziam que ele protegia os hereges e pecadores.

Galileu foi a gota d’água. Ao ver suas próprias palavras reproduzidas no livro e precisando demonstrar seu pulso firme, Urbano iniciou o processo que levou Galileu à sua prisão perpétua domiciliar. O processo de abandono do cliente pelo seu mecenas é conhecido por “queda do favorito”. Galileu, no final, sofreu pelo mesmo sistema que o havia lhe dado tudo o que tinha.

Corroboração sem dados.
Eu sei que a história é longa, mas necessária para entender o porquê o artigo da Nature não só não traz nenhuma novidade para a história da ciência, como é permeado por anacronismos que não deveriam ser feitos de forma alguma.

O fato é que Galileu já era copernicano antes mesmo de ter criado seu famoso telescópio. Ao contrário do que o artigo faz parecer, não foram suas observações que o levaram a defender o heliocentrismo. Da mesma forma, as observações feitas por Galileu também não poderiam levá-lo a defender o sistema tychonico.

Isso por que ambos os modelos, o de Copérnico e o de Tycho Brahe, eram equivalentes e resolviam os grandes “buracos” do sistema de Ptolomeu. Com efeito, com os dados adquiridos na época, seja lá por qual meio, não era possível escolher qualquer um dos dois modelos como correto.

Para piorar, Tycho Brahe era considerado o maior astrônomo da época, com um castelo construído em uma ilha recheado de aparelhos de precisão para estudar os movimentos dos astros. Copérnico era só um padreco muito pouco conhecido.

A despeito disso, não podemos ser anacrônicos e olhar para uma época pré-ciência usando a metodologia moderna. Os dados que confirmavam o heliocentrismo pouco importavam para Galileu. O que ele buscava era a unificação entre o céu e a Terra. Seus trabalhos em mecânica, de longe as maiores contribuições que ele deu para a ciência, estão em completa harmonia com o fato, haja vista o método que ele usou para levá-los a cabo, completamente incompatível com os métodos aristotélicos da época.

Dizer que Galileu escondeu os problemas do heliocentrismo, ou que defendia Copérnico apesar de suas observações não corroborarem com o sistema não é só errado, é grosseiramente errado.

Bibliografia

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