Podem os vírus ter-nos tornado humanos? – Parte I

abril, 2010

A questão começou por ser filosófica. Numa sessão da American Philosophical Society de 15 de Novembro de 2003, o virologista Luis P. Villarreal, director do Centro de Investigação em Vírus da Universidade da Califórnia em Irvine perguntava: «Can Viruses Make Us Human? A ciência tinha uma resposta objectiva. Não. Os vírus, que nem sequer seres vivos são considerados, são parasitas moleculares cujo interesse primordial consiste em induzir doenças no seu hospedeiro. Neste sentido, os vírus são qualquer coisa de maléfico. Veja-se o caso do VIH causador da SIDA que todos os anos ceifa milhares de vida em todo o mundo. Ou o vírus H1N1 que ameaçava dizimar populações inteiras. Ou ainda o temível vírus Ébola que nos filmes é-nos apresentado como uma espécie de assassino em série. Ou então o mais contido vírus da gripe sazonal que todos os anos faz com que milhões de pessoas passem os seus dias a espirrar. Para tornar tudo isto ainda mais grave, não há forma de os combater. Por conseguinte, como podem os vírus ter-nos tornado humanos? Não, para nós, o grande plano dos vírus sempre foi exterminar os humanos. Acontece que, além da objectividade pura não existir, a resposta da ciência a esta questão está profundamente afectada por uma subjectividade. Na verdade, alguns cientistas têm sido de tal modo convincentes que nós acreditámos sem qualquer resistência nos seus delírios. Estamos pois todos dentro ou fora da realidade, como acontece nos chamados delírios partilhados. Provavelmente, mais fora do que dentro. Talvez aqui a filosofia possa dar uma ajuda. Por exemplo, segundo Peirce, a realidade é tudo aquilo que nos provoca resistência. Quer isto dizer que se há qualquer coisa que cause resistência à nossa expectativa, então é provável que essa qualquer coisa seja real. A ciência é uma incessante busca pela realidade. E é escrita a lápis de carvão. Porque a ciência vive na eminência de ter de ser rescrita uma vez, e outra vez, e ainda mais outra. Aliás, a história da ciência é um livro rasurado em todas as suas páginas. O caso dos vírus é um exemplo bastante eloquente. Investigações recentes têm defraudado persistentemente as nossas expectativas. O que significa que, por certo, nos aproximamos cada vez mais da realidade.

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Positivismo, Ciência e progresso: Uma provocação.

abril, 2010

A Promessa

No final do século 18, a maior parte dos cientistas responsáveis pela grande revolução científica européia, como Descartes, Galileu e Newton já haviam morrido, mas seu legado permanecia, e a Ciência ocidental continuava passando por um período muito fértil. No entanto, ela ainda era vista como apenas mais uma forma de conhecer a natureza, e não como a melhor forma de fazê-lo. A Ciência ainda não tinha o poder de legitimar o que era verdade e o que não era, já que o misticismo e o conhecimento religioso ainda tinham um grande poder explicativo na sociedade. Nesse contexto surgiu uma corrente filosófica de afirmação do conhecimento científico como sendo o único conhecimento autêntico e, mais do que isso, do homem (e não Deus) como sendo o produtor desse conhecimento. Ou seja, o positivismo é uma corrente filosófica que nos redime do pecado original de Adão e Eva e, mais do que isso, prega que temos mesmo que nos banquetear na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

August Comte (1798-1857), o “pai do positivismo”, escreve a obra que inaugura essa corrente filosófica, o Curso de Filosofia Positiva. Nesse livro, Comte formula sua Lei dos Três Estados, que parte do princípio de que a humanidade está evoluindo, avançando de uma época bárbara e mística para outra civilizada e esclarecida. Comte explica que essa evolução intelectual humana tem três fases muito bem definidas: a fase teológica, em que todos os fatos são explicados pelo sobrenatural (Deus); a fase mística ou metafísica, em que o homem começa a pesquisar a realidade, mas ainda com um viés sobrenatural muito forte (criam-se categorias alegóricas como “a Natureza”, “o Povo”, etc.); e a fase científica ou positiva, que seria o apogeu do intelecto humano. Os outros dois estados do conhecimento são apenas degraus pelos quais a humanidade teve que passar para atingir o estado mais elevado, em que o homem explica os fenômenos naturais por leis gerais que ele mesmo descobre a partir do estudo da natureza.

Dessa forma, para os positivistas o progresso da humanidade estaria intimamente relacionado com o progresso da Ciência. O conhecimento positivo (a Ciência) é o auge da evolução intelectual humana, então devemos investir nesse tipo de conhecimento e abandonar de vez a teologia e a metafísica, pois somente o conhecimento positivo poderá tirar a humanidade da ignorância e da superstição e colocá-la no caminho do progresso.

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Heróis e vilões na (falsa) história da Ciência

abril, 2010

Às vezes é um pouco difícil definir o que a Ciência é. Saber o que ela não é passa longe de ser tarefa mais simples, principalmente se a olharmos historicamente, já que muito do que hoje consideramos como não-Ciência, como a astrologia, por exemplo, já esteve dentro do campo científico em tempos não tão remotos assim. E o curioso é que quanto mais estudamos e conhecemos a Ciência e seus métodos, mais difícil fica fazer essas (in)definições. Mas, independentemente da quantidade de estudo ou da linha filosófica que escolhermos para olhar a Ciência, uma característica dela é – ou pelo menos deveria ser – clara e inegável: ela é uma atividade legitimamente humana, ou seja, é feita por seres humanos. O conhecimento produzido no campo científico é resultado de um longo processo de trabalho duro de pessoas como você e eu.

No entanto, quando ouvimos falar dos cientistas, seja pela mídia ou nas próprias escolas, não é bem essa a imagem que vemos. Sob nenhuma circunstância passa pelas nossas cabeças que nós, com todos os nossos defeitos, poderíamos estar ali naquele livro, naquela matéria. É mais ou menos parecido com o que acontece quando lemos histórias de super heróis. Ênfase no mais ou menos. Já explico: ninguém pensa seriamente em se tornar um super herói. Talvez só na infância. E a imensa maioria da população também não pensa seriamente em se tornar cientista, o que ocorre em boa parte pelo desconhecimento do que um cientista de fato faz. No entanto, às vezes, quando lemos as histórias dos heróis, nos pegamos fantasiando como seria legal ter super poderes ou salvar a humanidade de ameaças que ninguém mais poderia conter. Mas quando lemos a história do Mendel, não pensamos “nossa, como seria legal ficar recluso num mosteiro cruzando e contando ervilhas por anos e só depois de morto ter o trabalho reconhecido para virar o ‘pai da genética’”. Além disso, as histórias de heróis deixam claro que eles, mesmo que venham de outro planeta, têm um lado humano muito forte, entram em conflitos e dilemas morais e, alguns, como o Wolverine, têm até um lado meio cafajestão. Mas os cientistas não; eles são todos parecidos, e todos muito, muito distantes de nós. É como se os super heróis fossem de alguma forma mais reais do que os cientistas. Wow.

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Por que Galileu não seria publicado na Nature (nem na Science).

abril, 2010

Não há dúvidas de que Galileu é uma das figuras mais importantes da ciência moderna. Aqui mesmo neste blog não são poucos os textos sobre ele e, evidente, por razões mais do que justificadas.

Galileu é uma das figuras centrais da Revolução Científica. Fez contribuições importantíssimas para a mecânica e astronomia além de ser sido um artesão bastante competente. Mas Galileu vai além.

Representa para a ciência moderna o “espírito” do verdadeiro cientista. É tido como o questionador por excelência. O rebelde que desafiou costumes, leis e arriscou a própria vida em prol da defesa de um conhecimento científico que combatia o obscurantismo medieval. É, mais do que todos, o gigante que apoiou em seus ombros tantos outros gigantes.

É claro que quem estudou a história do matemático sabe que essa imagem heróica atribuída a ele é, antes de qualquer coisa, uma interpretação da figura histórica de Galileu. Ainda assim, é uma interpretação conveniente. Ainda que não seja verdadeira, transmite para os jovens iniciados na ciência o tipo de atitude que se espera deles.

Mas será que é isso mesmo que a ciência quer? Será que a ciência moderna premia seus “rebeldes”? Se Galileu estivesse vivo hoje, veria seus trabalhos publicados pela Science ou pela Nature?

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O mito da sustentabilidade

abril, 2010

O que há de errada não é a ideia em si, mas como o discurso dominante que se apropriou ideologicamente do significado da palavra sustentabilidade, para dar a ele uma ideia de que é possível desenvolver sem agredir o meio ambiente, desde que seja um desenvolvimento tecnológico feito através do “know how” da ciência e financiado pela economia de mercado…

Aí é que jaz o problema, esse discurso hegemônico apoiado no paradigma cientificista-tecnológico que vivenciamos na sociedade moderna, capitalista, urbana e globalizada nos leva a uma lógica muito contrária ao que apregoa o discurso da sustentabilidade… Na verdade a lógica é a produção e o consumo. E para haver produção há de se ter recursos, buscados na exploração no meio ambiente (mas isso ninguém precisa saber, ou a gente dá um jeito de falar que estamos fazendo isso de uma maneira sustentável) e assim essa relação se retroalimenta pelo discurso que a produção se justifica, pois, garante a qualidade de vida (consumo exagerado e supérfluo).

sustentabilidade

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Com o coração do lado direito

abril, 2010

Há dias, estava eu a tentar por ordem nas dezenas de ficheiros que flutuam no ambiente de trabalho do meu notebook, quando de repente me salta aos olhos um artigo sobre competição espermática. Ah, os espermatozóides! Lembrei-me logo de uma história que eu costumo sempre contar quando pretendo mostrar a alguém como a lógica da vida nos prega uma valente rasteira de cada vez que julgamos saber tudo.

Woddy Allen

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Uma nota breve sobre a adaptação das espécies II

abril, 2010

Mas afinal o que é que faz com que haja tanta variedade? Para os neodarwinistas, essa variedade resulta fundamentalmente das mutações e da recombinação génica. Mas há um outro mecanismo de produção da variação que é a simbiose e a transferência horizontal de genes. Por exemplo, quando começámos a sequenciar o genoma humano, ficámos surpreendidos pela quantidade de DNA que aparentemente não tinha qualquer utilidade. Era referido como junk DNA. Hoje sabemos que esse lixo é afinal informação genética de vírus e bactérias que a determinada altura integraram o genoma humano. Por exemplo, porque razão a nossa flora intestinal se mantém ordenadamente dentro de certos parâmetros fisiológicos e apenas com aquelas variedades de bactérias? Certamente porque houve transferência horizontal de genes. Um outro exemplo bastante paradigmático é o caso da lesma Elysia chlorotica que ao alimentar-se da alga Vaucheria litorea tem a capacidade de incorporar no seu epitélio intestinal os cloroplastos desta, e apenas desta, alga, mantendo-os viáveis por um período de cerca de 8 meses. No final desse período, ingere e integra novos cloroplastos. Ora, para isto acontecer, teve que haver uma transferência horizontal de genes por forma a que esses cloroplastos se mantenham viáveis. Na verdade, foram identificados no genoma da E.chlorotica genes – por exemplo, rbcL, rbcS, psaB, psbA – da alga V.litorea que possibilitam que haja uma tradução e transcrição activa de genes cloropastidiais dentro do animal hospedeiro. O que é, digamos assim, algo de absolutamente surpreendente. Por conseguinte, mutações, recombinação génica e simbiose são os grandes produtores de variedade contribuindo assim para uma maior possibilidade de adaptação por parte das espécies aos múltiplos desafios ecológicos.

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Uma nota breve sobre a adaptação das espécies I

abril, 2010

É frequente dizer-se que as espécies se adaptam. Por exemplo, mamíferos como os golfinhos, adaptaram-se às circunstâncias da vida marinha. Os bicos dos tentilhões das Galápagos adaptaram-se às características peculiares de cada uma das ilhas. Os membros do morcego adaptaram-se ao voo. Em teoria, perante os novos cenários climáticos é provável que muitas espécies se adaptem às novas circunstâncias ecológicas. É provável que o urso polar reduza a espessura da sua camada de gordura, ou então que as orelhas dos elefantes se tornem maiores para uma mais eficaz dissipação do calor. A adaptação das espécies é para nós quase uma banalidade. Em diferentes contextos, as espécies adaptam-se. Ponto final.

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