Plágio e Remix: Uma narrativa de duas culturas.

No dia 02 de outubro o blog de ciências da Folha, o Laboratório, soltou um post chamado Educar para não plagiar. O texto chama atenção para um congresso sobre plágio e má conduta científica e aponta algumas conclusões tiradas durante o evento.

A primeira conclusão é a de que hoje em dia, por conta da facilidade de acesso à informação, está mais fácil plagiar. A segunda conclusão, que de acordo com o texto é mais filosófica, diz que a facilidade de acesso à informação científica não deveria justificar o aumento do número de casos de plágio (o texto original da Folha diz “fraude” e não plágio neste ponto específico, mas fraude segundo o dicionário Aulete quer dizer falsificação de uma forma geral o que, acredito eu, não tem relação direta com a facilidade de acesso à informação, neste caso plágio parece-me ser o mais correto). Uma última conclusão argumenta que estudantes e pesquisadores mais novos não foram ensinados a lidar com toda essa informação e plagiam por pura ignorância.

Curioso ver que nos comentários do texto da Folha alguém que assina como Roberto faz uma pergunta simples mas que está no centro desta questão: “Afinal a internet ajuda ou atrapalha a ciência”?

 

Duas culturas.

Então, depende… Eu sei que parece papo de filósofo mas é preciso levar em consideração que a ciência moderna nasceu no século XIX e deste herdou uma série de valores e regras e convenções. Valores e regras e convenções que diziam respeito a uma cultura construída com papel, tinta e tipos (McLuhan chamava de Cultura Tipográfica)

Valores e regras e convenções que estavam intimamente ligados não à dificuldade de acesso à informação, mas ao meio rígido e pouco interativo de um mundo impresso no papel. Vejam, o que mudou de lá pra cá nada tem a ver com o acesso facilitado à informação. Sim, é mais fácil conseguir informação hoje do que era antes, mas esta é a consequência da mudança e não a mudança em si.

O que a cultura digital trouxe para o mundo é a democratização da comunicação em massa, antes restrita a um grupo de privilegiados. Essa democratização não tem a ver unicamente com a facilidade de acesso. Uma sociedade com a cesso facilitado à informação ainda é uma sociedade “read-only”, ou seja, de consumidores passivos de um produto acabado. Os primórdios da Internet e a Web 1.0 estão aí pra provar meu ponto.

Democratizar* é fornecer os meios para o desenvolvimento de uma sociedade “read/write”, ou seja, de indivíduos capazes também de contribuir, de lidar com a informação como se ela fosse um pedaço de argila esperando para ser moldado em algo que transcenda o valor de si própria.

E é justamente aqui que se encontra a maior diferença entre a cultura tipográfica e a digital. A primeira valoriza muito mais autoria e produção (o texto sobre a salami science da Veronica é bastante certeiro neste ponto), a segunda colaboração e mash-up’s.

 

Plágio e Remix.

O texto da Folha, bem como este outro do New York Times, reforça a ideia de que estudantes estão plagiando por ignorância de como lidar com informação digital. Talvez o problema não seja este, talvez nós é que somos ignorantes em entender como a geração nascida no meio da cultura digital lida com informação.

O artigo do New York Times chega mesmo a dizer que “muitos alunos simplesmente não compreendem que usar palavras que não foram escritas por eles é um crime grave,” e que a maioria dos casos de plágio nas escolas tem a ver justamente com este fato.

Nestes casos, aquele que copia sem dar os devidos créditos à fonte não está assumindo a autoria pelo que copiou. Está meramente distribuindo uma informação que já está disponível livremente na internet ou em livros ou em artigos científicos.

Para a geração da cultura digital informação tem um valor tão baixo que receber os créditos pela autoria de algo, assim como reconhecer a autoria de algo, é desimportante e desinteressante e efetivamente não acrescenta absolutamente nada no valor daquela informação.

Para a cultura digital, informação é a matéria prima usada para construir redes de interação entre pessoas e ideias. Isso significa que um artigo ou texto ou livro pode sim ser importante, mas pela mensagem que ele transmite e pela capacidade que ele tem de promover a formação dessas redes. Pouco importa aqui se o artigo ou texto ou livro (ou, claro, música ou vídeo ou qualquer material áudio visual) é a voz única e singular de seu autor ou se é uma colagem de frases de vários autores.

Na cultura digital do remix e do mash-up, o foco está na rede e não no indivíduo e é por isso que o plágio é mais um problema de choque de gerações do que um problema ético.

 

Educar para não plagiar

O texto da Folha, diferente do texto do New York Times, aborda essa questão do plágio de um só prisma. Deixa clara a mensagem de que trata-se de um problema educacional que precisa ser corrigido.

Mas será mesmo preciso reforçar no processo educacional valores que talvez estejam desconectados da realidade presente das novas gerações de alunos e pesquisadores ainda em formação? É preciso mesmo usar o processo educacional como um meio de impor regras e valores “de cima para baixo”?

A questão ética existe, claro. É preciso combater o plágio intencional e feito de maneira desonesta, que é realmente prejudicial e deletério para qualquer atividade intelectual. É preciso sim mostrar para as novas gerações que existe valor no esforço intelectual, sem reduzir este esforço a uma maneira particular de organizar palavras em um “papel em branco.”

É fundamental entender que existem regras e valores emergentes da cultura digital e que estas regras e valores não são piores ou melhores do que os valores sociais tradicionais, são apenas diferentes. Tentar sufocar estes valores através da educação não vai ajudar na formação de cientistas melhores ou mais honestos.

Criminalizar a maneira que uma cultura em particular achou para se expressar certamente não vai resolver o problema do plágio, assim como não resolveu o problema da pirataria, que é análogo.

Para a ciência fica a oportunidade de se transformar e entender essa nova expressão cultural, encontrar um meio termo entre o velho e o novo e se reinventar para continuar progredindo. Não se pode esquecer que há séculos atrás era a ciência que estava do outro lado da moeda, desafiando a tradição e sendo criminalizada por isso.

 

*Para entender melhor esse processo de democratização (ou descentralização) leia os 10 escritos sobre redes sociais de Augusto de Franco gratuitamente.

1 Comentário
Categoria: blog
Conheço, logo acredito?

A discórdia é o motor propulsor da Ciência. É a partir do embate de ideias, do ataque fervoroso aos pilares teóricos e às evidências que sustentam as teorias que o conhecimento científico avança. Algumas vezes, no entanto, depois de extensas discussões acadêmicas sobre um assunto (que pode demorar décadas), pode acontecer de os cientistas perceberem que aquela questão é “insolúvel”, que nunca haverá consenso. Quando isso acontece, uma espécie de “pacto” é feito, um acordo oculto entre os cientistas de que eles simplesmente vão ter que concordar em discordar.

Pergunte a um biólogo o que é uma espécie e terá uma boa noção do que eu estou falando. O conceito de espécie em Biologia é uma questão que foi (e de vez em quando ainda é) extensamente debatida e, no final de toda essa discussão, o que vemos é existem diversas definições diferentes para este conceito e que cada cientista usa o que melhor lhe convir e ninguém vai “encher o saco” dele por causa disso. Isso a princípio pode parecer absurdo, pois todos os biólogos trabalham com espécies e… como assim nenhum deles sabe ao certo o que é uma espécie? Que contradição!

Há um outro exemplo muito mais chocante, mas, por ser mais conhecido, as pessoas parecem não ligar muito pra ele: O que é Ciência? Há diversas maneiras de tentar responder essa pergunta, desde aquelas mais metodológicas até as sociológicas, passando, é claro, pelas filosóficas (onde se enquadram nossos queridos Popper, Kuhn, Feyrabend, etc.). Há livros e mais livros dedicados exclusivamente a tentar responder essa pergunta (temos até um PolegarCast a esse respeito, confiram!), mas, no final das contas, cada cientista vai pro seu laboratório e faz o seu trabalho sem ficar esquentando muito a cabeça com essa questão. Desde que saia um paper publicado (de preferência dois ou três), tá valendo.

 

Enquanto isso, fora dos laboratórios…

Às vezes jogar o problema pra baixo do tapete e fazer um acordo oculto de não discuti-lo muito pode ajudar. A Ciência vai avançando, mesmo que ninguém saiba definir ao certo o que ela é (como sabemos, então, se ela está avançando? Isso é assunto pra outro texto!). Produzir conhecimento e publicá-lo é o que importa. Mas, se por um lado esse pacto funciona para os cientistas, por outro ele pode ser uma verdadeira pedra no sapato quando se sai da esfera acadêmica.

Se não sabemos claramente o que a Ciência é, como podemos avaliar se a população está sabendo Ciência? Como sabemos se as aulas de Ciências que são ministradas em nossas escolas têm alguma ver a com a Ciência de verdade? Como avaliamos se a população está alfabetizada cientificamente?

Já há um bom tempo vem se tornando consensual a ideia de que algumas noções ingênuas sobre a Ciência devem ser desconstruídas durante a escolarização. Sendo assim, seria ideal que um aluno, ao concluir a educação básica, soubesse que os cientistas não trabalham sozinhos, que eles não são super gênios sobrehumanos, que a Ciência já foi diferente em outras épocas, que o contexto histórico influencia nos interesses das pesquisas, que a Ciência não determina verdades absolutas, que existem critérios de validação do conhecimento científico, etc. Além disso, é claro, é imprescindível que as pessoas conheçam os principais conceitos e as teorias aceitas como verdadeiras pela comunidade científica e como esses conhecimentos afetam a sociedade.

Para avaliar como as pessoas enxergam essas questões, é comum a aplicação de questionários de alfabetização científica. Trata-se de uma lista de perguntas estrategicamente elaboradas por especialistas cujas respostas, depois de passadas por tratamento estatístico, podem indicar o nível de entendimento da população acerca da Ciência, o que é muito importante na tomada de decisões políticas, por exemplo.

Percebam que esses questionários tentam “se esquivar” dos grandes debates e discórdias filosóficas acerca do que é a Ciência, focando mais naquilo que supostamente é “consensual”, que seria aquilo que um cidadão “deveria” saber sobre a Ciência. Estamos num campo polêmico. Ninguém sabe o que é a Ciência, então escolhemos pontos de menor discórdia e “por coincidência” os elegemos como os mais importantes, e aí fazemos questionários pra saber como a população está. Mas a polêmica está só começando.

 

Questionando o questionário

A pesquisadora americana Ann Arbour desenvolveu um questionário de alfabetização científica que foi traduzido e exportado para vários outros países por ser “bem completo”. Nos EUA ele é aplicado a cada dois anos, e ano que vem ele será aplicado novamente. Mas algumas alterações foram sugeridas, e (mais) uma grande controvérsia se formou.

O que acontece é o seguinte: percebeu-se que nas últimas pesquisas a população americana tem ido muito mal nesse teste e que existem algumas perguntas do questionário que são notadamente difíceis, ou seja, que quase todo mundo erra. Duas questões específicas, ambas de verdadeiro ou falso, se destacam: (1) “Os seres humanos, como os conhecemos hoje, se desenvolveram a partir de espécies mais antigas de animais” e (2) “o universo começou com uma grande explosão”.

Há um grupo de especialistas que acredita que os americanos erram essas duas questões em demasia por causa de suas crenças religiosas. Pessoas que acreditam que Deus criou o universo e o homem não marcariam nenhuma dessas afirmações como verdadeiras. Sendo assim, eles sugeriram que as afirmações fossem modificadas com a adição de qualificadores. Elas ficariam assim: “de acordo com a teoria da evolução, os seres humanos…” e “de acordo com os astrônomos, o universo…”. Afinal, a pessoa pode conhecer as teorias, mas não acreditar nelas. A autora do questionário, junto com vários outros especialistas, ficou revoltada. Eles declararam: “Se você mudar o questionário desse jeito, você está fazendo isso por motivos religiosos. (…) Nós não fazemos declarações do tipo ‘de acordo com alguns economistas, nós tivéssemos uma recessão’ ou ‘de acordo com o cara do tempo, nós tivemos um tsunami’”. Segundo esse pessoal, a simples proposição desse tipo de mudança no questionário já é absurda. Seria como mudar as regras do jogo só para que os americanos possam ter melhor desempenho.

Esse debate certamente continuará por um bom tempo, pois os dois lados têm argumentos bastante razoáveis, e o cerne da questão é o seguinte: saber Ciência é acreditar na Ciência? Qual é a diferença? Uma pessoa que não aceita a teoria da evolução e o big bang pode ser considerada alfabetizada cientificamente?

Esse é um campo delicado. Vivemos hoje num paradigma social em que a Ciência tem um papel legitimador muito forte. Sendo assim, não acreditar na Ciência é quase que visto como não acreditar na “verdade”. A Ciência é um tipo de autoridade, e “desrespeitá-la” adotando outras formas de entender o mundo não é muito bem visto. Esse tom valorativo do conhecimento científico sobre os demais pode atrapalhar na hora de pensar sobre questões como essa.

Na minha opinião, a Ciência é, entre outras coisas, uma forma de pensar. É uma forma de ver o mundo que conta muito com a racionalidade e que se baseia em fatos e evidências para sustentar suas afirmações. É necessário que as pessoas não só percebam isso (para que entendam como o conhecimento é construído), mas saibam pensar dessa forma quando conveniente, já que essa maneira de pensar, é claro, não é útil somente dentro dos laboratórios de pesquisa. Podemos utilizá-la para a tomada de decisões no dia a dia e nos beneficiar da sua forma “fria” e crítica de analisar as situações. Mas essa forma de pensar não é adequada para todos os tipos de situação. Quanto maior o número de variáveis subjetivas, como fatores pessoais, inter-pessoais, emocionais, etc., mais complicado é usar a forma científica de pensar. Ninguém vai querer usá-la na hora de escolher uma namorada, por exemplo, pegando a genealogia da pretendente para checar as doenças genéticas presentes na família para averiguar se ela seria uma boa parceira. Pra quem assiste o seriado “The Big Bang Theory”, o Sheldon é um ótimo exemplo de como a forma científica de se pensar pode ser inadequada (até mesmo ridícula) em diversas situações.

 

O buraco é (bem) mais embaixo

Mas quem somos nós para dizer onde essa linha deve ser desenhada? A forma científica de pensar deveria estar no hall de opções de todas as pessoas, até mesmo porque essa é única forma de entender como a Ciência funciona, mas não tem como avaliar quando ela deve ou não ser usada. Uma pessoa que não acredita na teoria da evolução ou no big bang por motivos religiosos está preferindo usar uma outra forma de pensar quando o assunto é a origem do homem e do universo. Há quem diga que o entendimento dessas teorias é suficiente para a sua aceitação, mas a realidade é bem mais complexa que isso.

O discernimento entre conhecer as teorias científicas e aceita-las é importante, mas não pode ser feito de maneira rasa. Todo mundo sabe que a Ciência acredita que as espécies evoluem e que o universo começou com uma grande explosão, mas quantas pessoas conhecem as evidências que sustentam essas teorias? Estar alfabetizado cientificamente é entender como os cientistas elaboraram essas e outras teorias e porque acreditam nelas até hoje, e uma marcação de “verdadeiro” ou “falso” num questionário não passa nem perto de nos dar essa resposta, seja a pergunta montada da forma que for.

Não devemos entrar no mérito de fazer julgamentos sobre as pessoas que não acreditam nas teorias científicas, mas temos a obrigação de fazer questionamentos sobre as escolas que não as ensinam. Afinal, se a escola estivesse em condições de cumprir seus objetivos, nem haveria razão para que questionários desse tipo fossem feitos, já que um diploma de ensino médio seria mais do que suficiente para se ter certeza de que aquela pessoa tem essas habilidades. A discussão a respeito da modificação nesse questionário é pertinente, já que levanta questões importantes, mas impressiona ver como em pleno século XXI ainda este ainda é o tópico de discussão.

Nenhum comentário
Categoria: blog
“Salami science”, autoria contestável e o alpinismo científico

Ninguém gosta de ser avaliado e criticado. Para os cientistas, tão acostumados com suas idéias estarem “certas” e serem corroboradas e publicadas, a avaliação se torna algo até mais temeroso do que para a maioria da população. Entretanto, ninguém escapa de ser avaliado, ainda mais sob a perspectiva de ganhar financiamento (e status, claro, por que não?), passando para isso pelo “simples” desconforto e pressão de ter seu trabalho avaliado.

Um aluno comum, na escola, quando sob pressão é levado a tomar atitudes contra a nossa moral, como a “cola”. O mundo adulto não é tão diferente, por mais que nos recusemos a acreditar. As atitudes que tomamos em medidas desesperadas apenas apresentam uma “roupagem” mais bonita, com a qual podemos disfarçar o que foi feito e ganhar a simpatia da nossa classe, que pode aprovar até mesmo as atitudes mais imorais. São as desculpas que damos a nós mesmos para escapar de uma avaliação ruim, seja ela qual for.

No paradigma atual da avaliação dos programas de pós-graduação e seus pesquisadores, a CAPES se torna um fantasma assombrando a vida de todos minimamente ligados ao âmbito acadêmico. Suas normas, equações, pontuações e avaliações levam os pesquisadores muitas vezes a medidas desesperadas. Mas creio que o maior impacto de um método de avaliação tão “espartano” (joguem os fracos do precipício e fiquem com os soldados mais eficientes) é a legitimação de atitudes fraudulentas e pouco éticas.

Escalando o caminho para o “sucesso”

Principalmente em campos mais competitivos, a “salami science” é encarada como uma prática habitual, até mesmo normal. Afinal, para que fazer do seu doutorado, quatro anos de trabalho intenso, apenas uma publicação se você pode dividi-lo em duas, três ou mais partes? E dessa forma, encontramos diversos trabalhos de pequeno impacto publicados para fornecer mais uma linha no currículo do pesquisador.

Como exemplo do absurdo que a postura “salami science” pode produzir, o professor Sidney Redner da Universidade de Boston fez uma pesquisa sobre as publicações de uma das revistas de sua área, a Physical Review. Os números obtidos são assustadores: de 353.000 artigos publicados, apenas 11 tiveram mais de 1000 citações; 245.000 (a maior parte) tiveram menos de 10 citações; 100.000 tiveram uma ou nenhuma citação. Com isso podemos ver que 1/3 das publicações dessa revista não tem impacto algum. E apesar da ausência de outros estudos do gênero, há especulações que para a maioria das revistas haja um comportamento semelhante. Com isso, temos o desperdício de tempo dos pares na revisão de artigos, desperdício de tempo e dinheiro de revisores e outros trabalhadores do jornal, desperdício de impressão e postagem além do desperdício na indexagem de tais artigos. Em suma, a única pessoa que ganha com isso é o autor, uma linha a mais no currículo, um ponto a mais na sua avaliação e uma probabilidade um pouco maior de se sobressair a outro candidato em um concurso.

Dessa maneira, uma das estratégias de alpinismo científico se torna legitimada em diversos laboratórios. Ao ponto de você conversar com os professores e alunos e eles acreditarem piamente que estão trabalhando de maneira idônea. E se as publicações nos dão vantagem em concurso, além da dividir o próprio trabalho, a cooperação com outros pesquisadores também deve ser frutífera para tais objetivos. Aqui vemos a segunda estratégia de alpinismo científico mais praticada: a autoria irresponsável.

Uma idéia concebida num grupo de discussão, o uso de estrutura laboratorial e insumos de um professor, dados de coleta de informações e mesmo a figura do orientador. Quais das desculpas acima justifica a autoria de um trabalho? Quem estipula onde pára o agradecimento e começa a autoria? Até dia 16 de Setembro deste ano, ninguém.

Regulando uma postura responsável

Eis que a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) elaborou uma cartilha para dizer aos pesquisadores quem está fazendo ciência certo e quem está fazendo ciência errado (ou ao menos, quem divulga seus resultados de tal maneira). Pela primeira vez para o Brasil foi tomada uma iniciativa reguladora, na qual a FAPESP lançou o “Código de Boas Práticas científicas” que, infelizmente, ainda não apresenta medidas punitivas e corretivas específicas, mas já deve ter assustado diversos pesquisadores.

E em um dos tópicos mais amados (ou odiados) a FAPESP pronuncia que “Em um trabalho científico, devem ser indicados como seus autores todos e apenas os pesquisadores que, tendo concordado expressamente com essa indicação, tenham dado contribuições intelectuais diretas e substanciais para a concepção ou realização da pesquisa cujos resultados são nele apresentados. Em particular, a cessão de recursos infraestruturais ou financeiros para a realização de uma pesquisa (laboratórios, equipamentos, insumos, materiais, recursos humanos, apoio institucional, etc.) não é condição suficiente para uma indicação de autoria de trabalho resultante dessa pesquisa.” (tópico 2.2.6, página 6, grifo meu). Com isso, poderíamos esperar que as publicações se atentassem mais a tais especificações. Entretanto, há duas barreiras a se transpor para que isso ocorra.

A primeira é da comodidade e do lugar-comum. Não é um código com medidas punitivas etéreas que conduzirá o trabalho e publicações científicas de maneira mais ética. Para tal, ou o pesquisador se predispõe a repensar sua prática ou medidas sancionadoras chegam “de cima para baixo” e o colocam nas normas (seja a revista na qual publica, a pós-graduação que o abriga ou sua agência de fomento).

A segunda barreira é a nossa própria visão do “certo e errado” em ciência. Em um momento no qual somos bombardeados com informação de diversos tipos, e que nem toda informação apresenta autoria específica, fica difícil discutir o que é nosso e o que proveio de outrem. E a internet apresenta um papel fundamental nessa questão. E se o problema de autoria se encontra nos laboratórios, devemos verificar se não ocorre algo semelhante durante o processo de formação do pesquisador. Se durante a faculdade sua maneira de pesquisar e não citar fontes for legitimada pela correção do professor, o sentimento de que ninguém o observará a fundo prevalece. Atualmente, alguns scripts funcionam na internet para detectar os plágios, como o Farejador de Plágios, mas será que apenas a detecção do plágio é o suficiente?

Da formação à informação

A meu ver, assim como acontece com o ensino público brasileiro, a responsabilidade está passando cada vez mais adiante. É preciso ensinar as pessoas a pesquisar, derrubando a visão de que o conceito de pesquisa consiste em entrar num site de busca e coletar as informações dos primeiros sites que retornam. O senso crítico não pode ser deixado de lado em prol da informação per se. A formação do aluno vai além da reprodução do conhecimento obtido por outras pessoas. Se não abordarmos este tipo de assunto durante a formação dos pesquisadores, teremos um número cada vez maior de cientistas pouco “intelectuais” e mais “executores”, os quais não entenderão a ética nas suas atitudes e, por fim, formarão um número cada vez maior de organismos reprodutores de informação pouco críticos, cujos trabalhos não tem impacto nenhum para a sociedade (seja a sociedade geral ou acadêmica), interessados apenas no alpinismo científico.

5 Comentários
Categoria: blog