Muitas pessoas – e acho que eu arrisco dizer a maioria das pessoas – têm uma dificuldade muito grande para entender e aprender Ciências. Todos aqueles nomes complicados da Biologia, as dezenas de fórmulas da Física e a abstração demasiada da Química dão um verdadeiro nó na cabeça. Por que isso acontece?
Essa é uma pergunta nem um pouco fácil de se responder, e existe uma área de pesquisa relativamente recente que se dedica a responder essa pergunta, entre algumas outras. Esse campo de pesquisa em Ensino de Ciência vem crescendo bastante nos últimos anos, alguns pesquisadores vêm se destacando e, melhor do que isso, começando a ser ouvidos. Como toda área de investigação, ela se divide em sub-áreas, que, por sua vez, também têm suas ramificações, e cada uma dessas “sub-sub-áreas” tenta abordar a questão por uma perspectiva diferente, cada um puxando a sardinha pro seu lado e etc. Enfim, todo aquele ritual que faz o conhecimento crescer.
Dentro da problemática do motivo das pessoas terem tanta dificuldade em entender Ciências, eu simpatizo muito com a idéia de que falta contexto no ensino. Aos alunos chega, via livro didático e professor mal pago, somente o produto acabado da Ciência – como se algum produto da Ciência fosse de fato acabado –, totalmente fora do seu contexto de produção. O rico processo de construção do conhecimento fica obscurecido por trás dos “grandes gênios da Ciência” que “fizeram tudo sozinhos”.
Decore todas as fórmulas e conceitos pra passar nas provas; esse é o nosso ensino de Ciências. Assim fica mesmo difícil aprender alguma coisa. Como aprender um conceito sem ter idéia de sua aplicação e de sua história? Esse ensino que consiste no professor dando respostas prontas pra perguntas que o aluno não fez simplesmente não dá certo. O professor repete as coisas que estão no livro didático, que por acaso são coisas que o aluno não está nem um pouco interessado em aprender.
Por essas e outras razões, acredito que deva haver uma mudança radical no ensino, mas radical em longo prazo; ela na verdade aconteceria aos poucos, um passo de cada vez. E um dos primeiros passos seria a inclusão da História e da Filosofia da Ciência no ensino. Não uma inclusãozinho de leve, com 2 ou 3 aulinhas sobre o tema. Falo de um verdadeiro mergulho na História da Ciência, que iria encharcar todas as aulas com contexto. O problema é que isso que para mim é apenas um primeiro passo já é visto como algo radicalíssimo por muitos, isso sem contar aqueles (que não são poucos), que acham que a História e Filosofia da Ciência não servem pra nada.
Realmente há muitos obstáculos par a implantação dessa idéia, e talvez o principal deles seja a falta de discussão sobre o tema, pelo menos no Brasil. Se a área de pesquisa em Ensino de Ciências é recente, no Brasil ela é ainda mais nova, com pouquíssimos pesquisadores. Dessa forma, esse tipo de discussão caminha em marcha muito lenta por aqui, e eu estou falando da academia. A transposição para a escola é outra história.
Por isso, fiquei muito feliz ao saber que esse ano, em Maresias, ocorrerão dois eventos, um em seguida do outro, que certamente vão catalisar as discussões sobre a inclusão da História e Filosofia da Ciência no ensino por aqui. Os eventos são a 8ª Conferência Internacional para a História da Ciência no Ensino de Ciências (8th ICHSSE) e a 1ª Conferência Latino Americana do Grupo Internacional de História, Filosofia e Ensino de Ciências (1ª HPTS-LA).
Os eventos são só em agosto, mas as expectativas já estão altas. As minhas, pelo menos. Não sei, talvez seja empolgação demais por um congresso que vai ser como qualquer outro, mas não se pode julgar alguém por sonhar, não é? O congresso é em agosto, as eleições em outubro. Quem sabe…
Leia também:
Categoria: blog


(8 votes, average: 4,13 out of 5)
Muito bom, o blog! PArabéns, voltarei sempre! O título do blog é fantástico! Lembrei do curta Ilha das Fores! Um abraço!
Renato, ótimo texto.
É curioso notar que os pais da História das Ciências tinham o objetivo declarado de incluir a disciplina no ensino. O problema? Os pais da História das Ciências estavam alinhados com o positivismo comtista e, em termos gerais, o que eles fizeram foi criar uma narrativa muito pouco confiável.
Depois outros estudo sugeriram que a inclusão da história e filosofia da ciência durante o ensino de ciência não era bem vindo. Parte desta conclusão está relacionada com o que Kuhn diz sobre o treinamento científico, ou seja, a produção de "puzzle solvers" ou em tradução livre macarrônica "resolvedores de enigmas". Pra Kuhn, a atividade da ciência normal é resolver problemas e inconsistências das teorias e o ensino de ciência reforça essa ideia suprimindo discussões sobre a natureza das teorias e dando enfase a metodologias de trabalho.
Desta forma, a inclusão de filosofia e história da ciência é, antes de qualquer coisa, indesejável.
É evidente que estes dois momentos estão extremamente relacionados com, veja você, filosofias das ciências. Por isso não dá pra culpar muito um cientista que julga história e filosofia perda de tempo, para o trabalho do dia a dia elas são incomodas já que questionam o valor epistemológico e antológico do que estamos tentando fazer.
Em termos mais claros e talvez ofensivos para a maioria dos meus colegas, o ensino da ciência atual produz técnicos de laboratórios e não pensadores. Basta ver como a maioria dos biólogos fica a beira do desespero quando são questionados de forma mais insistente sobre o conceito de espécie, um conceito problemático ao extremo, mas cuja definição geral é suficiente para manter a atividade de "puzzle solving" funcionando. Aqui em Portugal, meus professores costumam brincar dizendo que meu treinamento como biólogo falhou completamente rsrs. Ainda bem!
Espero de verdade que um dia tanto história e filosofia sejam cadeiras atuantes na formação científica, e faço o que posso pra reforçar a importância destas duas disciplinas. Mas é preciso percorrer um longo caminho até lá.
Estas duas disciplinas sofrem de um preconceito tremendo no Brasil. Talvez filosofia ainda mais do que a história. É preciso, antes de tudo, recuperar a boa imagem de ambas para que elas mostrem que, de fato, são incrivelmente importantes.
Thiago, vc disse que "para o trabalho do dia a dia elas [a historia e filosofia da ciencia] são incomodas já que questionam o valor epistemológico e antológico do que estamos tentando fazer."
Realmente é assim que muitos cientistas pensam, e isso é uma coisa que eu acho muito contraditória, pois, não é esse um dos objetivos da Ciência? Ser questionada em todos os seus aspectos, desde os metodológicos até os epistemológicos? Não é assim que ela avança? Em teoria, não teria porque ninguém da área da Ciência achar esse tipo de quistionamento uma coisa ruim. Mas claro que, na prática, quanto menos questionado o seu trabalho for, melhor, pois mais próximo da "verdade" ele está, e mais financiamento pra você e pro seu labortório.
O que me preocupa é que se os próprios cientistas não valorizam a historia e filosofia da ciência, como podemos esperar que ela seja valorizada no ensino? Se os alunos devem aprender como a ciencia funciona, bem….não podemos negar que no período de ciência normal ela funciona muito bem sem discussões filosóficas, não é?