A correlação entre ateísmo e ciência não é nova. Não são poucos os cientistas de fama que ostentam tal bandeira. De fato, as vezes fica a impressão de que ser ateu é uma espécie de pré-requisito para ser um bom homem de ciência. O cenário é ainda reforçado pelos embates públicos entre líderes religiosos e a comunidade científica, mal entendidos a respeito do funcionamento da ciência (e talvez até das religiões) e a mídia incendiária que se aproveita da polêmica pra vender jornal.
Uma ciência laica.
Me é curioso que, nestas questões em que se faz necessário compreender alguns conceitos, que os pilares da ciência nem sempre sejam consultados. Como já foi discutido em outro texto neste site, a ciência tem por um dos valores principais a neutralidade. Isso significa, entre outras coisas, que o empreendimento científico não deve assumir inclinações partidárias ou religiosas. A ciência, ao menos epistemologicamente, é laica.
Tomemos por laico o seu significado correto, ou seja, de neutralidade religiosa completa. É importante compreender bem o significado deste conceito, já que não raro a laicidade é encarada como um movimento contrário à religiões.
Fui questionado recentemente se essa laicidade científica é desejada. Acredito que seja não só desejada, mas fundamental. Em uma investigação científica, aonde se pretende compreender da melhor forma possível o objeto de estudo, é importante que as interferências externas sejam minimizadas da melhor forma possível. Ideologias, credos e inclinações políticas podem afetar a investigação de modo a comprometer os resultados.
Talvez seja possível argumentar que, no caso das ciências sociais, a laicidade não seja um valor relevante. No entanto, por mais que os métodos das ciências sociais se difiram dos métodos das ciências naturais, ainda é desejável que o objeto de estudo seja investigado da forma mais precisa possível. Sendo assim a laicidade, e antes disso a neutralidade, ainda é um valor desejável.
Da epistemologia à aplicação.
Parece existir no entanto uma dificuldade em preservar os valores epistemológicos em cenários reais. Não são raros os casos em que a neutralidade da ciência é fortemente golpeada pelas ideologias, credos e inclinações políticas do cientista. Entendo que essa separação seja, em muitos momentos, utópica. Valores externos à ciência já afetam o cientista antes mesmo de ele iniciar qualquer pesquisa. Com freqüência, a linha que de pesquisa esta intimamente ligada aos seus valores. Tal fato não é exatamente um problema, desde que o cientista consiga dosar com cautela a interferência destes valores.
Uma muleta chamada ciência
Acredito que a questão principal na relação entre ateísmo e ciência é a forma como a ciência é usada como sustentação do ateísmo. A verdade é que não existe absolutamente nada na ciência que embase, ainda que minimamente, a inexistência de Deus. Em verdade não é o objetivo do empreendimento científico lidar com essas questões e o motivo é simples: A ciência lida com fenômenos naturais e, por definição, Deus é uma entidade sobrenatural.
Talvez seja exatamente por isso que tantos ateus usem a ciência como muleta, uma atividade tão materialista serve muito bem aqueles que desejam negar a possibilidade de um mundo imaterial. É importante notar que não estou aqui defendendo a existência deste outro mundo. Apenas tento estabelecer que não há motivos suficientemente fortes para atrelar à ciência ao ateísmo ou a qualquer outro movimento religioso.
É importante termos em mente que a ciência é maior que o cientista e, muito embora ambos se relacionem intimamente, as opiniões do cientista não são necessariamente fundamentadas cientificamente.
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O artigo está muito esclarecedor, Thiago! Sério! Muito bom mesmo. Acho que você foi na raiz do problema: O ateísmo se esconde debaixo do guarda-chuva da ciência. A verdade é que o ateísmo tenta se estabelecer como o fator laico que determinará o rumo da ciência.
É por isso que tenho ressalvas em relação à ciência. As motivações por trás de certas pesquisas são, não raro, pautadas pela militância ateísta. A ciência conquistou para si um lugar de respeito junto a sociedade humana. Acho que esse lugar de respeito é imerecido.
Justamente por uma razão muito simples: A ciência é feita por homens e nenhum homem consegue ser genuínamente neutro.
É por isso que me questiono: É desejável uma “ciência laica”? Tenho minhas dúvidas. Se a ciência se autoproclamasse atéia, acho – veja bem, ACHO – que certas motivações ficariam mais claras.
O problema Blogildo é quais são essas motivações e se elas fazem parte dos interesses da comunidade científica… Ou ao menos da maior parte delas.
Não sei pq, mas eu sempre tenho a impressão de que existem uma meia dúzia de fulanos que gritam alto e, por fazerem mais barulho que os outros, se fazem passar pela maioria…
Mas qual seria o interesse legítimo da comunidade científica? O que motiva a comunidade científica? Certamente há algo motivando pesquisas. Seria o progresso? Me parece vago demais. Acho que a suposta isenção que muita gente boa tenta buscar para a ciência acaba se tornando um elemento de dominação por parte de entidades políticas com objetivos bem definidos. A ciência se torna assim o rosto, o front-end, a fachada “isenta” que oculta objetivos inconfessavéis.
Mas posso estar errado e isso ser apenas uma desconfiança paranóica minha. Vá saber…
Os interesses da comunidade científica variam em decorrência de uma série de fatores. Evidente que essas motivações podem estar, e com efeito estão, atreladas a interesses comerciais e políticos. Quanto a isso, não há duvida. Arrisco a dizer até que a isenção não é possível. Talvez se lembre de um texto mais antigo meu aonde abordo essa questão da isenção segundo o Hugh Lacey.
Em todo caso é importante que se diga, a falta de isenção da comunidade científica não faz com que A CIÊNCIA se torne menos isenta. Insisto, a isenção está lá, nos valores fundamentais da base da ciência. É algo desejável, algo que deveria ser buscado. Infelizmente permanece como valor, não sai do plano do “desejável”.
Eu acredito que ocorra uma situação análoga com as religiões. Todas possuem seu conjunto de regras próprios, sua base, sua epistemologia. No entanto, nem todos os fieis (ao que parece, a minoria) os segue com o máximo rigor. Não posso culpar a “religião X” pela falta de rigor de seus fieis.
Na verdade, pensando bem, eu não seria capaz de sitar qualquer conuhto de regras que seja seguido a risca e consiga passar da epistemologia à prática sem perda de alguns valores. Você conhece algum?
Thiago, só para botar lenha na fogueira.
Você comenta em seu texto que o sobrenatural não está no âmbito da ciência, e concordo plenamente com você. Porém o relâmpago, os cometas, as doenças, o fogo, etc. já foram considerados sobrenaturais. Se estas coisas foram “sobrenaturais” e a ciência estudou e estuda, o que está fora do âmbito da ciência? Onde está o corte do que É sobrenatural e do que NÃO É sobrenatural?
Marco, é uma questão relevante.
Sobrenatural é tudo o que parece estar além da natureza, como vc evidentemente sabe. O fato de termos considerados fatos naturais como sobrenaturais no passado só indica que na época não tinhamos os meios de identificar estes fatos como naturais.
Eu entendo que o mesmo pode ocorrer hoje em dia, mas em verdade isso não muda o fato de a ciência não se ocupar do sobrenatural. Se existe algo que hoje consideramos como sobrenatural e, por alguma nova descoberta científica passar a ser considerado natural, ai sim a ciência passará a se ocupar de estudar tal fato.
Vale lembrar também que a ciência moderna é muito mais materialista do que já foi no passado e isso explica o pq de fatos sobrenaturais serem estudados na antiguidade com um rigor mais científico.
Não existem fatos sobrenaturais. O conceito é auto contraditório. Primeiro só podemos perceber os fatos através dos sentidos, só temos percepção pelos sentidos. Assim qualquer coisa que percebemos tem de ser necessariamente natural.
Por isso as alegações sobrenaturais são sim objeto de estudo da ciência. Pois para serem afirmadas tem de ter sido percebidas. e se foram percebidas, o foram pelos sentidos. Como nossos sentidos são materiais…neurônios, sistema receptor, capacidade de raciocínio, atividade cerebral… tudo aquilo que é afirmado ter sido percebido por alguém pode e deve ser estudado pela ciência.
Afinal de contas se alguém diz ter visto algo sobrenatural…ou havia algum fenômeno estranho ou foi ilusão. Qualquer um dos dois pode ser pesquisado.
"Acredito que a questão principal na relação entre ateísmo e ciência é a forma como a ciência é usada como sustentação do ateísmo. A verdade é que não existe absolutamente nada na ciência que embase, ainda que minimamente, a inexistência de Deus. Em verdade não é o objetivo do empreendimento científico lidar com essas questões e o motivo é simples: A ciência lida com fenômenos naturais e, por definição, Deus é uma entidade sobrenatural.
Talvez seja exatamente por isso que tantos ateus usem a ciência como muleta, uma atividade tão materialista serve muito bem aqueles que desejam negar a possibilidade de um mundo imaterial. É importante notar que não estou aqui defendendo a existência deste outro mundo. Apenas tento estabelecer que não há motivos suficientemente fortes para atrelar à ciência ao ateísmo ou a qualquer outro movimento religioso."
Se o ateu se utiliza da ciência que é uma atividade materialista para justificar a inexistência de Deus, que é uma criatura sobrenatural, não poderia o termo Sobrenatural ser utilizado para justificar algo que não existe?
Acho que vale lembrar também que a alguns milhares de anos, fenômenos naturais também eram imateriais e sobrenaturais, então, será mesmo que o sobrenatural não pode ser analisado? Já que vivemos em uma era em que brincamos com o sobrenatural de milhares de anos atráz. E o que é o sobrenatural? O sobrenatural é algo que não conheçemos agora? Esse sobrenatural vai se tornar material e natural quando conseguirmos respondê-lo?
Achei o texto excelente, posto que recentemente escrevi uma série de artigos em meu blog, intitulado "Somos todos deterministas". Mas tenho que, ao menos em parte, discordar de alguns argumentos. Penso ser sofisma afirmar que o ateísmo é uma modalidade religiosa, posto que, por definição, o ateísmo é a negação do theos e das modalidades religiosas. Um dos pilares que esquecera de citar e que, portanto, caracteriza a ética científica, é o ceticismo. Afirmar um fato enquanto teoria é comprová-la ou refutá-la empiricamente. A negação de premissas que encerram a investigação científica é, per si, o ceticismo. A religião, empecilho histórico para melhores explanações da realidade concreta, encerra o debate quando postula dogmas, caracterizados pela inquestionabilidade e aceitação passiva de suas afirmações pela coletividade. Evidentemente que a ciência, essencialmente falando, afirma a laicidade (posto que a ciência é feita de cientistas em seus vários credos), mas em seu método aproxima-se radicalmente de um posicionamento ateísta, e isso é fato.
Comte imaginava uma Ciência Laica, assim como uma religião calcada em preceitos científicos (a chamada Religião da Humanidade), mas não passam, respectivamente, de ideais e mitos. Toda produção intelectual humana é fruto de Zeitgeit, i.e., da produção econômica, social e ideologica de uma dada época, em um dado espaço geográfico. Afirmar a ciência tangente ao ateísmo não é prostar-se à religião, mas reconsiderá-las como tangíveis.
Toda descoberta científica é temporal, relativa e questionável. Mas sempre haverão aqueles para o qual é necessário imaginar uma ciência laica, pura e isenta. Um excelente meio de conceder uma pseudo-imagem de invencibilidade aos cientistas.
Você finge saber muito sobre o funcionamento da ciência, mas se esquece (será que esqueceu mesmo ou foi só tendencioso mesmo?) que o ônus da prova cabe a quem afirma.
"A verdade é que não existe absolutamente nada na ciência que embase, ainda que minimamente, a inexistência de Deus."
Então agora, só porque você quer, vamos passar a provar as negações ao invés das afirmações? A negação "não há nenhuma deus" só existe porque primeiro alguém afirmou "há deus". Quem afirmou que prove suas afirmações, se não, não temos absolutamente nenhum motivo para acreditar, pois não passa de afirmação vazia. A ciência também não provou a inexistência (como se deve provar inexistência de algo, ao invés de quem afirma provar a existência daquilo que afirma existir) de fadas, doendes, outros deuses além do cristão, etc, etc, etc. Mas ninguém dá o privilégio da dúvida a essas outras criaturas mitológicas, só a o deus no qual foram criados acreditando. Por que será? Por que dar o privilégio da dúvida unicamente a crença que você foi ensinado, e às outras não? A ciência não acredita em deus porque tudo o que se tem para acreditar nele são afirmações sem evidências, só tradição. Agora se você acredita nele (no deus ou deuses), tome muito cuidado antes de escrever um texto com cara de ciência. Você pode pegar muita gente despreparada (como vi que pegou mesmo), mas quem tiver o mínimo de conhecimento da metodologia científica, vai notar que seus argumentos são falaciosos, e não científicos.
Outros erros infantis que você cometeu: "uma atividade tão materialista serve muito bem aqueles que desejam negar a possibilidade de um mundo imaterial."
"Deseja negar"? Agora você se sente até no direito de julgar? Eu sou ateu, e não desejo negar nada, apenas não há (não é que eu não acredite que existam, eles não existem mesmo) motivos para acreditar em nada sobrenatural, a não se simples relatos de experiências pessoais.
"É importante notar que não estou aqui defendendo a existência deste outro mundo. Apenas tento estabelecer que não há motivos suficientemente fortes para atrelar à ciência ao ateísmo ou a qualquer outro movimento religioso."
Em primeiro lugar: você está sim! Por quê? Porque você tenta usar a metodologia científica às aversas. Ao invés de não acreditar no que não foi provado, você prefere não acreditar na negação do que não foi provado. Não é assim que a ciência trabalha, é assim que você trabalha (e que assim perde credibilidade). E outra coisa: ateísmo não é religião, qualquer um sabe disso, mas um tendencioso como você prefere dizer que sim. E não vamos começar com a história de que é preciso ter fé pra ser ateu, porque isso é argumento furado.
Nós percebemos o mundo através dos sentidos, as informações dos sentidos então passam para o raciocínio e lá são processadas. Criaram equipamentos similares aos nossos sentidos porém bem mais aguçados, e, mesmo assim a ciência não pode investigar uma criatura sobrenatrual, então, porque é que podemos? se os sentidos mais aguçados não podem ajudar a investigar criaturas sobrenaturais, porque os nossos primitivos sentidos podem? Isso me parece mais um bug no raciocínio.