Seja nos filmes de Hollywood, seja em laboratórios de robótica, as tentativas de se construir uma réplica artificial de seres humanos não são novidade. Existe um efeito bastante curioso relacionado a este fato, conhecido como “vale da estranheza”.
Proposto em 1970 por Masahiro Mori, o conceito diz que quando uma tentativa de produzir uma pessoa artificial chega próximo à perfeição, sem atingí-la de fato, o resultado gera uma espécie de estranhamento. A foto abaixo demonstra bem o efeito.
O que acontece é que nascemos com uma espécie de “instinto”, uma capacidade intrínseca de reconhecermos nossos “iguais”. Quando nos deparamos com robôs como o da foto acima, algo em nossos cérebros sinaliza que “há algo errado ali”.
Por estes dias, refletindo um pouco sobre algumas idéias de Kant, divulgação científica e sobre ciência moderna, tive uma espécie de insight. E se for o caso de a ciência se encontrar em uma situação similar à causada pelo vale da estranheza? Explico do início.
Para Kant, o homem vê o mundo através de uma “moldura” criada por nossos sentidos. Não só os físicos, como a visão, tato e olfato. Mas também por nossos sentidos intelectuais, nossa capacidade de abstração e de compreensão. Partindo deste pressuposto, podemos dizer que qualquer atividade humana esta inerentemente atrelada aos indivíduos e seus valores.
Se assim o é, então a ciência não é exceção. Como empreendimento humano, ela esbarra em questões de valores, moral e política. Mas não é esta a idéia que se “vende”. Com efeito, é costume usar aquela velha máxima positivista de que a ciência é imparcial, neutra e autônoma.
A questão é que quando postulamos que um dos maiores esforços coletivos da história da humanidade não possui em sua constituição características tão humanas, condenamos a ciência ao seu próprio vale da estranheza. Afinal, é um construto humano que carece de humanidade.
E é aí que o problema se agrava. Se de fato a ciência esta situada em seu próprio vale da estranheza, então é natural que as pessoas que não trabalham diretamente no meio científico sintam uma determinada repulsa, uma desconfiança ou algum tipo de receio. Eu até poderia argumentar que isso explica a facilidade que as pessoas tem pra criticar a ciência, mas a dificuldade em que estas mesmas pessoas tem em reconhecer seus méritos. Mas é claro, seria especular demais, pra não dizer inconsistente.
Em todo caso, o trabalho de divulgação científica sofreria um golpe razoável. Afinal, divulgação científica é feita, partindo do pressuposto de que o problema do cidadão médio em compreender a ciência esta na complexidade e quantidade da informação produzida. E o problema pode ser ainda pior.
Além da complexidade e quantidade da informação produzida, poderia existir ainda uma má vontade natural, e subconsciente, em aceitar o empreendimento científico. O que seria muito complicado de se resolver.
Evidente que estou sendo completamente especulativo. Provavelmente bastante exagerado e potencialmente apocalíptico. Mas seria bom refletir se a ciência quer mesmo ser isenta de características humanas, e se a divulgação científica não aposta fichas demais em um pressuposto que pode parecer óbvio, mas que talvez seja só a ponta de um iceberg.


(4 votes, average: 4,00 out of 5)
Categoria: blog