É bastante evidente que a cultura humana se modifica com o decorrer dos séculos. A priori esse movimento pode parecer natural, talvez até esperado. No entanto alguns cientistas acreditam que algumas dessas mudanças se deram por um processo semelhante à seleção natural, ou seja, traços culturais que de alguma maneira beneficiam determinada população sobrevivem e são passadas para a próxima geração.
Richard Dawkins é um dos que defendem essa visão. Mais do que isso, ele é praticamente o pai de uma idéia muito controversa mas extremamente interessante, a memética. Para Dawkins , os traços culturais podem ser classificados em unidades menores similares aos genes. Essas unidades de cultura, chamadas de memes, podem sofrer um processo de seleção natural na medida em que o traço cultural expressado pelo meme é de certa forma importante para determinada população. Podemos tomar como exemplo a higiene. É bastante evidente os benefícios que a higiene trás. Manter hábitos como tomar banho com regularidade, lavar as mãos antes de se alimentar e medidas similares, evitam uma série de problemas com contaminação por agente nocivos ao homem.
Não é de se impressionar portanto, que nos primórdios das sociedades humanas, tribos que mantinham hábitos higiênicos prosperassem mais do que outras tribos que não tinham uma cultura similar. Os benefícios óbvios desse traço cultural beneficiavam aquela tribo, garantindo sua sobrevivência e, por conseqüência, garantindo a sobrevivência do próprio meme. De forma análoga, um traço cultural altamente prejudicial poderia levar determinada população a deixar de existir, levando consigo o meme responsável. É uma idéia, como eu disse, bastante controversa. Seus opositores apontam que não é possível reduzir traços culturais a pequenas unidades auto-replicantes, de modo a não ser possível rastrear ou averiguar a mudança evolutiva de um traço cultural e da população que a exibe.
No entanto, se fosse possível estabelecer termos evolutivos para a mudança cultural, talvez o processo lamarckiano fizesse mais sentido. Ao menos é o que advoga Stephen Jay Gould, outro evolucionista renomado e desafeto de Dawkins. Para Gould , e essa visão me agrada muito mais, traços culturais sofrem influencias do meio, sofrendo mudanças que depois são passadas para a próxima geração. Gould sustenta seu argumento alegando que um processo evolutivo darwiniano, como o da memética , demanda um tempo muito grande para resultar em algo “perceptível”. Nossa cultura parece se modificar muito rapidamente, efeito que poderia ser melhor explicado em um processo evolutivo lamarckista.
Gould tem um bom argumento. Nossa cultura costuma se modificar radicalmente em um período extremamente curto, basta observar as mudanças entre as décadas de 50, 60, 70 e por aí vai. Se fosse possível afirmar que a cultura sofre um processo evolutivo qualquer, eu tiraria minha boina ao lamarckismo.
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As duas são muito interessantes. Em meu pouquíssimo conhecimento, tendo a concordar com você que a teoria de Gould é mais plausível. Não que a outra não seja possível…
Uma coisa que me irrita é ver o quanto o lamarckismo ainda é usado para explicar muita coisa! Comentários oriundos de pessoas estudadas, teoricamente inteligentes..!
Ogro, o próprio Gould chama a atenção para o fato do lamarckismo ter se infiltrado com tamanha facilidade no senso-comum.
O lance é que o esquema lamarckista é muito didático e simples de ser compreendido, ainda que seja evidentemente errado e não sirva pra muita coisa.
Eu já passei da fase de me irritar com algumas coisas, hoje em dia até vejo o lamarckismo como “um pé dentro do evolucionismo” rsrs. É mais fácil explicar o darwinismo pra um lamarckista
Muito corajoso de sua parte se expor assim, rssss
Thiago, me permita discordar de você. Temos exemplos de evolução biológica mais rápidas do que as culturais citadas: os vírus e os organismos unicelulares. A velocidade da evolução depende em parte da pressão seletiva, como foi bem descrito por Gould e é por Dawkins e mais precisamente por diversos outros biólogos evolucionistas que alimentaram os textos destes dois.
Pelo seu postulado a evolução Darwiniana também seria Lamarkista, visto que se apoia em modificações do meio que pressionam para a sobrevivência de um organismo em detrimento de outro, mas que se serve da base biológica de seus antecessores, se não fosse assim jamais saberíamos que descendemos de um ancestral comum.
Não sei se me fiz entender, mas aceito as “pedradas” , rsrsrsrsr
Entendi as lógicas aplicadas, claro. Mas gente…. cultura nehuma modifica gene de algum ser vivo, ainda que este fique em desuso, já que Lamarckismo está em pauta. Por exemplo os nossos dentes do siso e apêndice já não têm razão de existir há várias gerações e no entanto todos os seres humanos ainda carregam genes para o desenvolvimento destas estruturas. Ainda que a cultura nos tenha colocado a comer de garfo e faca, nossos dentes em formatos de caninos continuam preservados. Não há como a cultura sofrer qualquer padrão de evolução biológico. O máximo que posso alcançar é que genótipo + ambiente (cultura) = fenótipo, mas o gene continuará lá, sendo transmitido de geração à geração de acordo com as novas teorias sintéticas da evolução.
Eu só espero que tenha ficado claro que não estou usando processos evolutivos pra explicar modificações culturais.
Como é possível observar no meu 4º parágrafo eu digo “No entanto, se fosse possível estabelecer termos evolutivos para a mudança cultural…”.
Enfatizo, SE FOSSE POSSÍVEL, eu certamente aceitaria o lamarckismo como uma explicação mais viável por conta da velocidade da ação evolutiva. Os vírus e os organismos unicelulares se reproduzem em uma velocidade incomparável quando comparados a qualquer organismo pluricelular. Embora eu provavelmente não me tenha feito claro o suficiente, a comparação em velocidade é feita com a frequencia evolutiva morfológica dos organismos que apresentam esses traços culturais. Ou seja, a cultura humana se modifica bem mais rápido que a morfologia humana.
E evolução darwiniana não é de modo algum lamarckista. Pra Lamarck o meio ambiente influencia o organismo ativamente, PRODUZINDO EFETIVAMENTE UMA MODIFICAÇÃO QUALQUER. A diferença é bastante clara na evolução darwiniana, o meio ambiente apenas condiciona quais modificações, que ocorrem aleatoriamente, são selecionadas.
É importante observar essa diferença, pra Lamarck o meio tem um papel ativo na evolução, enquanto pra Darwin esse papel é passivo e, como visto em seus trabalhos futuros, não necessariamente é o principal.
Em todo caso, de fato cultura alguma condiciona genes. Como o texto deixa bem claro, estamos falando, no máximo, de MEMES. E, embora se possa comparar um meme a um gene, o meme, evidentemente, não é uma estrutura física… Se é que ele existe de fato.
Cara! Acho que ninguém disse que a cultura modifica os genes, mas se assim ficou entendido quero dizer que não parece haver evidências de que os genes sejam modificados pela cultura. O que se sabe, e o próprio Darwin fez várias experiências, é que a cultura pode pressionar para a propagação ou extinção de um gene (seleção artificial).
Tenho muita simpatia pelo Richard Dawkins, mas preciso admitir que concordo com você. Mudanças culturais podem ser lentas, mas algumas são muito rápidas e movidas à necessidade…
thiago preciso da sua ajuda, eu estou fazendo um trabalho de biologia.. tenho que pesquisar sobre, (Evolução cultural humana, e Interuenção humana na evolução) mas não estou achando =/.. será que você poderia me ajudar nisso? obg
vc desenvolve ideias legais sobre a relação da nossa sociedade gostei do blog voltarei quando prescisar
Não é possível estabelecer termos evolutivos para a mudança cultural, porem é possível estabelecer termos evolutivos para a facilidade que um ser se adapta as diversas culturas. Um exemplo seria compararmos dois bebês gêmeos criados em culturas diferentes, eles enfrentariam dificuldades de intensidades diferentes. E isso se refletiria de forma indireta na chance desses indivíduos perpetuarem sua espécie. Com certeza isso é quase que totalmente anulado pelo estilo de vida que levamos hoje, porem é possível analisar o que herdamos de uma época em que a cultura era extremamente decisiva na sobrevivência da espécie. Pode-se destacar um exemplo atual que é o fator cultural da circuncisão, é provado que um homem circuncidado tem chance 30% menor de se contaminar com doenças sexualmente transmissíveis. Um chefe de família judeu que tivesse trauma (de alguma forma ligada a fisiologia do ser) da circuncisão e não adotasse o método em seus filhos e assim por diante, estaria alterando suas chances evolutivas.
muito interessante isto..