Quando fundamentou o princípio da incomensurabilidade, Thomas Kuhn estava pensando nas dificuldades em se estudar a filosofia histórica da ciência e na disputa dos defensores de paradigmas concorrentes. Suas últimas formulações sobre o tema transformaram a incomensurabilidade de maneira surpreendente. Kuhn utilizou princípios da seleção natural darwiniana, bem como estudos sobre filologia e tradução, para melhor compreender a relação entre os diversos paradigmas e a visão de mundo em que eles se inseriam. A conclusão que se chega ao se envolver com o trabalho de Kuhn é que a ciência é um empreendimento humano, que visa a busca pelo conhecimento da natureza física do universo. Mas é também uma linguagem própria e em constante evolução.
Para compreendermos o impacto do trabalho de Kuhn na divulgação científica, é preciso antes abordarmos alguns aspectos específicos. O primeiro aspecto, e provavelmente o mais importante, é o conceito de léxicos kuhnianos. Os léxicos são termos criados para designar um conjunto de observações sobre algo. “Água”, por exemplo, seria um léxico que define o composto químico H2O. Assim como “insetos” seria o léxico para definir animais invertebrados, com três pares de patas e corpo dividido em três tagmas (cabeça, tórax e abdômen).
Sendo os léxicos termos que definem algo de maneira bastante restritiva, eles assumem uma característica similar ao das espécies naturais e, como tais, podem passar por um processo de seleção (natural, artificial ou social embora detalhes sobre esses tipos de seleção não serão abordados). Ainda no exemplo da água, no século XVI acreditava-se que a ela fosse um elemento químico, de modo que o léxico “água” se referia a “qualquer líquido inodoro, insípido e incolor”. Com o avanço das práticas químicas e com a descoberta de que a água era na verdade um composto químico, seu léxico passou por um processo evolutivo e começou a se referir ao H2O. A priori parece uma mudança pouco relevante, mas manter o léxico “água” do século XVI implicaria em assumir que ainda que um elemento ou composto químico seja diferente do H2O, se ele for inodoro, insípido e incolor então deve ser caracterizado como água.
O problema começa justamente neste ponto. Um mesmo léxico pode se referir a coisas diferentes nas mais variadas linguagens. Não estou me referindo exclusivamente a idiomas, embora também possamos considerá-los parte do problema, mas sim aos vocabulários específicos das atividades humanas. Os vocabulários, além de variarem nas atividades (temos um vocabulário próprio da ciência, um vocabulário próprio para o senso comum, outro para as religiões e assim por diante), variam no tempo e no espaço assim como os léxicos. Para Kuhn, a incomensurabilidade surge justamente da incapacidade de compatibilidade dos vocabulários. Usando apenas a ciência como exemplo, se tomarmos o léxico “movimento” da mecânica aristotélica e o léxico “movimento” da mecânica newtoniana, iremos observar que eles são substancialmente diferentes. Comparando o vocabulário todo da mecânica aristotélica com a newtoniana, notaremos que praticamente todos os termos possuem valores lexicais completamente diferentes.
Portanto, estudar uma teoria antiga é o equivalente a aprender uma língua morta. Parte daí que, ainda que o indivíduo compreenda bem a “língua morta” e a “contemporânea”, ele passa a exercer o papel de um bilingue, e não de um tradutor. Embora compreenda bem ambas as teorias, não é capaz de traduzir os termos de uma na outra. É nesta posição que se encontra o divulgador científico, um bilingue tentando traduzir o idioma da ciência para o idioma do “dia-a-dia”.
Não é um papel fácil e, com efeito, não é sequer um papel possível. Como em um processo de tradução normal, o divulgador científico aproxima a ciência da linguagem do dia-a-dia por substituição interpretativa do termo. O léxico “evolução” é um bom exemplo disso. Para a biologia evolução se refere à modificação genética, enquanto para o senso comum significa graduação. Ambos os termos são incompatíveis e não é possível traduzir “evolução” biológica sem se valer de recursos que acabem por se referir a variações do léxico do senso comum. Ou seja, para explicar evolução para um “leigo”, é preciso especificar em quais termos a palavra esta sendo usada. Curiosamente, o léxico evolução da biologia se parece muito mais com o léxico adaptação do senso comum. Fica fácil compreender portanto o motivo da evolução lamarckista ser melhor compreendida por pessoas de fora da ciência.
A despeito da dificuldade do trabalho do divulgador, sua atividade é de vital importância. Assim como uma música em inglês pode provocar o interesse de quem ouve para o estudo da língua, a atividade da divulgação científica é provavelmente a maior responsável por provocar o interesse das mentes jovens (ou nem tão jovens assim) para a atividade científica profissional.
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Queria te convidar para a comunidade Blogs de Ciência, recentemente criada no Orkut!
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=51659033
Cara o /apropriacoes saiu no automático, o link era pra tá direcionado pra cá! Mas tudo bem, cruzeirão campeão!
E sim, Caio Fernando é foda (o texto é dele).
Preciso pegar uma aula com você depois sobre metodos científicos.
Um abraço!
“A conclusão que se chega ao se envolver com o trabalho de Kuhn é que a ciência é um empreendimento humano, que visa a busca pelo conhecimento da natureza física do universo. Mas é também uma linguagem própria e em constante evolução.”
Será preciso envolver-se com o trabalho de Thomas Kuhn para que um cientista perceba que a atividade científica é um empreendimento inerentemente humano, com linguagem própria e qe muda ao longo do tempo?
CO conhecimento da natureza física do universo é, realmete, uma especto importante da ciência moderna. A natureza das oisas, porém, não se restringe aos princípio físicos. Eis a biologia, que nas últimas décadas tem cada vez mais fortalecido a compreensão de que a natureza viva conhecida, embora materialmente similar aos objetos inanimados e sujeita às mesmas leis físico-químicas, é um universo à parte em termos informacionais. Biontes possem um programa informacional, o material genético, que influencia fundamentalmente seus comportamentos. Embora estejam sujeitos às leis naturais do inanimado, não respondem a elas da mesma forma; de fato, a biologia evolutiva incorpora a estocasticidade como uma “inconstância constane” em seu paradigma, já que , em se tratando de seres vivos, aquilo que é, nem sempre é. Teorias biológicas não dependem fundamentalmente de leis físicas, mas sim de conceitos, como ancestralidade comum, seleção natural, sucessão ecológica, população, espécie, etc. Ao nível de organismos vivos, isto é, entidades dotadas de cognição (capazes de fazer escolhas), estes conceitos sãomuito mais relevantes na estruturação de hipóteses que a existência dos grávitons, das supercordas ou de 11 dimensões. A biologia também é uma ciência – uma ciência peculiar, bem explicada em seus meios e em seus fins. Porém, ela trata de níveis de análise distintos das ciências físicas, e isto não pode ser ignorado.Infelizmente, nem mesmo as disciplinas ditas biológicas possuem consenso sobre certas questões – ainda. Isto deixa claro que uma genuína filosofia da biologia deve emergir, unificando historicamente algo que, conceitualmente, é uno. Dentre as difiuldades, por exemplo: dizer que para a biologia, evolução refere-se à modificação genética; trata-se de uma visão amplamente deendida por geneticistas populacionais, uma visão propagada por Theodosius Dobzhansky e que muitos outros acabaram aceitando acriticamente. Evolução, por si só, diz respeito à mudança ao longo do tempo. Evolução biológica diz respeito a dois processos claramente distintos: anagênese e cladogênese. O primeiro tende a produzir adaptação; o segundo, especiação. Os mecanismos responsáveis por tais efeitos são seleção natural e isolamento reprodutivo; outros mecanismos, como a hibridização, podem responder por uma reticulação da árvore da vida. Modificação genética é um fenômeno endógeno que propicia evolução iológica; mutação, pr si só, não é evolução. Em sua obra derradeira, Ernst Mayr chama a atenção para o perigo que o reducionismo representou (e ainda representa) para a solidez de uma filosofia biológica coerente.
GOstei de seus artigos, mesmo porque estou trabalhando o tema de ciencia a partir de Thomas Kuh na minha monografia de Filosofia