Fornecer informações de um modo acessível à população é o principal objetivo da Divulgação Científica. Digo de se traduzir aquela linguagem técnica, de difícil absorção, cheia de latins e de palavras que passam ao largo do uso cotidiano, como no caso das ciências e suas expressões mais puras. Nelas e nas mais diversas áreas.
E por quê não usar o dicionário?
Divulgação: ato ou efeito de tornar pública alguma coisa; difusão, propagação, vulgarização. (Houaiss)
Repito: difusão, propagação, vulgarização. Três palavras adequadas ao propósito deste texto. E um incômodo. Explico:
Recentemente passei por uma cirurgia para a retirada de um pedaço de uma das trompas, em decorrência de uma gravidez ectópica (quando o feto se desenvolve de forma tubária). Por certo, uma fatalidade. Maior ainda pelo fato de eu estar tomando Mesigyna®, anticoncepcional injetável fabricado pela Bayer do México e comercializado aqui no Brasil pela Schering.
A parte interessante desse tipo de anticoncepcional trata-se do fato dele ser administrado mensalmente por via intramuscular profunda, de forma extremamente lenta e, portanto, há registro de cada dose na farmácia em que a injeção é aplicada. Coisas das legislações, ainda bem, pois assim levanto a possibilidade de entrar com um processo contra o laboratório.
E é aí que encontro o primeiro incômodo e penso no quanto é importante a Divulgação Científica. Afinal, de que se trata aquela porcentagem de ineficácia (geralmente 1%) presente em todas as bulas dos anticoncepcionais?
“Quando usado corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano (uma gestação a cada 100 mulheres por ano de uso). O índice de falha pode aumentar quando os intervalos entre as injeções são prolongados.” (Bula do Mesigyna®).
“Os COCs [Contraceptivos Orais Combinados] são utilizados para prevenir a gravidez. Quando usados corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano. O índice de falha pode aumentar quando há esquecimento de tomada dos comprimidos ou quando estes são tomados incorretamente, ou ainda em casos de vômito dentro de 3 a 4 horas após a ingestão de um comprimido ou diarréia intensa, bem como interações medicamentosas.” (Bulas do Yaz® e do Yasmin®).
“Contraceptivos orais combinados, quando usados corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano. A ingestão irregular pode levar a sangramentos intermenstruais, além de reduzir a eficácia terapêutica e o efeito contraceptivo de Diane® 35.”
É tanta repetição que levanta até suspeitas. Algo do tipo os laboratórios se precaverem de ações legais caso algo ocorra distante do previsto e coisa e tal. E apenas isso?
Por certo devem haver estudos científicos que apresentam tal margem de erro e, como dizem os manuais de métodos de pesquisa, principalmente no tocante as estatísticas e validade dos experimentos nos quais as variáveis são controláveis.
Consenso: várias técnicas estatísticas são necessárias para permitir a descrição das características dos dados, testar relações de conjunto entre os dados e suas diferenças. Geralmente o resultado é uma média.
No caso da eficácia dos anticoncepcionais, o conceito utilizado em técnicas estatísticas é o de confiabilidade (e não o de probabilidade, como muitos podem achar). Envolve pesquisa correlacional (entre as variáveis) e isso significa haver um coeficiente de correlação, que pode ser alto ou baixo, satisfatório ou insatisfatório.
E as dúvidas vão aumentando: cientificamente, de que se trata o uso correto de uma substância? Esta falha de 1% do uso dos anticoncepcionais injetáveis é determinada a partir de quê? Do esquecimento de uma das doses? Do erro na administração da ingestão? Ou refere-se mesmo à ineficácia da substância para determinados organismos? Dentro deste 1%, qual é a porcentagem destinada ao uso inadequado da substância? E em relação à interação com outros medicamentos? Afinal, como é calculado este 1%? E outras tantas perguntas, para tantas variáveis…
Entre as variáveis, por certo que outros fatores estão envolvidos, e que representam o mundo científico: a amostra populacional, a validade das medidas e a expressão de fidedignidade por meio da correlação. E tudo isso promove uma margem de erro.
Mas, afinal, essa margem de erro é suficiente para o laboratório eximir-se da responsabilidade de ineficácia de um medicamento? Todos lembram do caso da pílula de farinha.
Em uma pesquisa breve relacionada na internet, verifico haver muitas mulheres na mesma situação do que a minha. E muitas delas questionando o laboratório judicialmente. Se há um argumento que possa ser válido, eu aposto na confiabilidade.
E não digo apenas em relação ao método científico em si, mas de todo o entorno. É fato de que os anticoncepcionais são vendidos por sua confiabilidade e não pela possibilidade do erro.
Onde entra a Divulgação Científica nisso tudo? No acesso à informação. Essa eu só fui procurar depois do ocorrido, para então ouvir de especialistas frases do tipo:
- esse medicamento quando não funciona tem um alto risco de gravidez ectópica;
- nossa farmácia parou de aplicar o medicamento porque muitas mulheres relataram passar mal, então o laboratório veio pedir para voltarmos a aplicar o medicamento;
- é bobagem processar o laboratório já que nenhum método para evitar a gravidez é 100% seguro.
Independente dos argumentos, uma coisa é fato: o acesso à informação, a popularização da ciência, sua vulgarização poderia ter me permitido correr esse risco de gravidez ectópica de uma forma mais consciente. Afinal, eu poderia ter aliado o anticoncepcional com o uso da camisinha. Ou com o uso de um DIU. Ou outra combinação possível.
Aqui, eu entraria com o debate pelos argumentos da bioética e coisa e tal. É fato que nós somos responsáveis pelos nossos atos, e, neste caso acima relatado, os laboratórios também não o são?
De qualquer forma, ressalto a importância da Divulgação Científica para a tomada de decisão das pessoas, para que elas evitem incômodos. Inclusive quando se quer usar da própria ciência em um processo judicial.
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Discussão muito interessante esta.
Tenho um filho de um ano que foi concebido mesmo minha mulher estando sob o efeito de anticoncepcional oral, e a obstetra simplesmente resumiu como “Ah, é assim mesmo. Não é 100% de eficácia.”
Pois é Guilherme, está simplicidade das respostas é uma coisa duvidosa, não é? Então é isso? Apenas isso? Será que os médicos dizem isso porque eles têm parcerias com o laboratórios? Não sei, mas, eticamente, acho que a responsabilidade sobre as falhas de anticoncepcionais devem ser também dos laboratórios. Ou será que alguém compra anticoncepcional querendo engravidar? Daí que entra o método da confiabilidade. A discussão é mesmo longa. Um abraço, Fernanda
Eu não diria que eles tem parcerias com os laboratórios, mas fico com a impressão de que eles superestimam a eficácia dos anticoncepcionais. Quando questionamos como isso poderia ter acontecido, a obstetra nos falou que algumas horas de atraso na ingestão do anticoncepcional já criavam uma “janela de oportunidade”, mas não é isso que a bula fala. Será que a dosagem hormonal é tão baixa que poucas horas já fariam tanta diferença?
É de facto uma discussão interessante. E de alguma forma está relacionado com aquilo que escrevi aqui há uns dias atrás (ver post sobre Ciência e a utopia da imortalidade). O importante é que se tenha a noção que a ciência não é uma entidade omnisciente. Nós não sabemos tudo nem nunca vamos saber tudo. Houve tempos em que a penicilina curava tudo e hoje já não é bem assim. Já deviamos ter aprendido a lição. Nunca vamos dominar a natureza porque ela é um alvo em constante movimento. Partir do princípio que um determinado medicamento é 100% eficaz é ingénuo. É certo que diariamente somos confrontados com os "milagres" da medicina. E acreditamos. Sobretudo porque ninguém gosta de estar doente. Só que a ciência não é uma coisa em que se acredita ou não se acredita. Aliás, até é perigoso. A divulgação científica tem um papel a cumprir, é certo, mas também aqui é necessário distinguir entre a boa e a má divulgação (e como se faz esta distinção?). Porque a má divulgação também pode ter um efeito ainda mais pernicioso.
Viver é um risco. Talvez fosse interessante incluirmos na formação cívica a avaliação do risco. Tomar um comprimido é assumir um risco. E o médico desempenha aqui um papel decisivo porque ele é a pessoa que melhor conhece esse risco. Neste sentido, o primeiro divulgador deve ser o médico. Ou o farmacêutico. E depois é importante também que as pessoas façam perguntas e que sejam curiosas. Perguntem ao médico qual o risco de determinado medicamento. Perguntem. Perguntem mesmo. Perguntem insistentemente e sejam críticos. E exijam respostas.
Oi Fernanda,
os protocolos de determinação de eficácia de um método anticoncepcional geralmente usam grupos de 1000 casais no período de um ano, sendo que normalmente são usados vários grupos de 1000. A eficácia das pílulas combinadas, por exemplo, é em torno de 98,7%, o que nos dá em média 13 casais engravidando, no período de um ano.
o que ocorre é que, contrariamente ao que se aprende no colégio e ao que se divulga (daí a importância, como você muito bem falou, da divulgação científica), a pílula (ou outra forma de administração, como pílula vaginal, injeção, transdérmico etc) não impede a ovulação. na verdade, a pílula tem 4 ações básicas:
- dificulta a espermomigração
- dificulta a ovulação
- dificulta a migração do embrião (mórula e blastocisto)
- dificulta a implantação
essa última é a principal forma de ação dos anticoncepcionais hormonais combinados, e praticamente a única nos anticoncepcionais que só usam progestinas. como a anticoncepção hormonal só "dificulta", é bom usar camisinha nos prováveis dias férteis.
além disso, como você infelizmente descobriu, por dificultar a migração do embrião, podem ocorrer gravidezes ectópicas.
abraço
Olá Geraldo. Como a gente pode perceber, falta mesmo divulgação científica. E agora, com sua mensagem de esclarecimento, obrigada, vejo que há um buraco mesmo, que precisa ser preenchido. Afinal, até antes de ontem eu achava mesmo que anticoncepcional impedia a ovulação e, tipo, eu economizaria uns óvulos pra mais tarde. Bom, fica o alerta para todos. A rapadura é doce, mas não é mole não!
Guilherme, eu fiquei com tantos questionamentos, que eu me senti uma analfabeta do meu próprio corpo. Eu sequer suspeitei que eu pudesse estar grávida, e não fosse eu uma pessoa encanada com o corpo, talvez eu achasse que aquela dor uterina fosse apenas uma cólica menstrual. Sei que cada novo anticoncepcional que inventam, diminuem a dose hormonal, mas se isso interfere tanto assim na janela de horas de esquecimento, sinceramente, não sei não. Parece aquela coisa de data de validade nas embalagens de alimentos: consumir até as 23 hs do dia tal. Será que às 23hs e 5minutos já tem um bando de organismos destruidores da boa alimentação? Falta mesmo uma melhor ação de divulgação científica. Eu, pelo menos, queria ter me sentido menos analfabeta de corpo e sabedoria. Abraços.
Oi Ricardo. É certo que acreditar na eficácia de 100% é ingenuidade. Mas não saber exatamente do que se trata essa ineficácia, por falta de informação não disponível, demonstra haver uma via de mão dupla que só vai, ou que só volta. Concordo que o médico tem um papel decisivo, afinal, o medicamento me fora prescrito por um. E eu teria me sentido melhor se ele tivesse me dito coisas que eu não sabia, e que também não estão nas bulas. Todos devem ter o direito de saber os riscos que correm ao ingerir medicamentos. E fazer suas escolhas a partir daí. E é exatamente esse o foco da divulgação científica. Abraços, Fernanda.
Ola Fernanda! Li seu comentário e concordo com sua opinoão. Há dois meses passei pelo mesmo problema de prenhez ectopica, e também com a suspeita do antioconcepcional hormonal, no meu caso foi o ginesse. No meu caso eu parei de tomar a pilula em novembro e pelas contas engravidei no mesmo mês, mas foi uma prenhez tubária. Andei pesquizando e percebi que realmente estas pilulas causam certos problemas devido os seus mecanismos de ação, que são raroa mais possíveis de ocorrer e estas informações deveriam nos ser passadas de frma clara, para estarmos cientes do que pode ocorrer, algumas pessoas e alguns ginecos dizem que para engravidar, é melhor esperar três meses sem a pilula, por outro lado outros dizem que pode se engravidar logo, o meu ginecologista por sinal, não me disse nada neste sentido simplismente receitou a pilula e pronto. Realmente a população ainda sofre muito por falta de informação.
Abraços Tatiane.
Guilherme, pesquise com sua esposa em "ser mulher,maria celina", vocês vão conhecer a importancia de um planejamento familiar sem drogas, e seguro.