Muito se fala em proteger animais em processo de extinção. É quase senso-comum que a proteção dos animais que estão na lista de extinção é um fator benéfico e, mais ainda, necessário. Alguns diriam compensatório, algo que se faz para que o homem possa chegar ao final de seu dia de destruição em massa do planeta e consiga deitar sua cabeça no travesseiro tranquilamente. Existem inúmeros projetos para conservação das espécies e, mais impressionante ainda, há quem defenda projetos de reespeciação. Reespeciação é o termo dado à tentativa de trazer de volta a vida espécies de animais que já estão extintas mas que possuem abundante material genético conservado. Uma espécie de Jurassic Park, mas menos drástico e mais nobre. Mas quanto de nobreza existe em tais ações?
Quantas vezes nos questionamos sobre motivo que faz com que o homem se preocupe com a preservação das espécies em extinção? Seria uma atitude legítima e compensatória, uma atitude altruísta até? Ou poderíamos dizer que defendemos a manutenção da fauna de nosso planeta pois somos incapazes de prever o impacto causado pelo desaparecimento de uma espécie qualquer? Talvez o impacto seja grande o suficiente para prejudicar toda a dinâmica ecológica do globo, pondo em risco a existência de nossa própria espécie. Neste caso, seria um comportamento egoísta? Se assim o for, o que será do meio ambiente caso nossa tecnologia um dia consiga nos manter de forma autônoma, independente das condições do meio ambiente?
Por outro lado existe a defesa de que o homem, em decorrência do seu desenvolvimento tecnológico e social, se afastou de sua origem harmoniosa com a natureza. Alega-se então que essa preocupação com o meio ambiente seria uma tentativa de retomar algo que se perdeu no decorrer de nossa existência. Como se algo que nos era muito caro tivesse se perdido em algum momento da história e agora isso nos faz falta, nos provoca uma sensação de vazio e de falta de propósito, nos torna seres a parte da natureza. Objetos estranhos em um mundo limpo, verde e perfeitamente integrado.
A sensação de afastamento pode até ser real, mas não acredito que tal afastamento exista de verdade. Somos e sempre fomos parte do meio ambiente. Proteger animais em extinção não nos faz mais “próximos” da natureza. Por vezes nossa “proteção” é duvidosa. Cito o caso que me foi relatado aonde um documentário exibia os esforços de biólogos em realizar o controle populacional de uma espécie de ave de uma ilha qualquer. A justificativa do controle era de que outra espécie de ave sofria com a superioridade numérica da primeira espécie e, por falta de alimento e espaço para procriação, corria risco de extinção. Essa intervenção é correta? Impedir que uma espécie que se adaptou melhor ao ecossistema da ilha se desenvolva livremente não é, antes de um ato de caridade para a espécie que caminha ruma à extinção, uma agressão à dinâmica secular da natureza? Quantas e quantas vezes tal situação não ocorreu em um passado remoto sem que o homem pudesse interferir? Não somos nós mesmos frutos de tal dinâmica?
Pensando ainda em termos de seleção natural, é justo culpar o homem pela extinção de qualquer espécie? É certo que a ação do ser humano é responsável pelo fim de muitas espécies, isso não se discute. O desaparecimento da mega-fauna (ou ao menos parte dela) das Américas parece estar diretamente relacionada com a chegada do homem ao continente. Eram homens primitivos, que caçavam com lanças e flechas, que passavam dias e noites no cerrado brasileiro perseguindo sua presa. Eram homens simples, hipoteticamente integrados, em perfeita harmonia com a natureza, mas que levaram parte da mega-fauna à extinção. Devemos nos culpar por isso? Devemos culpar nossos ancestrais primitivos por fazerem o que todo ser vivo deste planeta faz? Garantir seu próprio alimento e sua própria sobrevivência.
Que o leitor que corajosamente chegou até aqui não se engane. Não estou defendendo o descompromisso com a situação do planeta. O que quero com este texto é tentar entender até aonde podemos nos culpar pela situação em que o Planeta se encontra. Tal situação é tão ruim quanto gostamos de espalhar? Não somos apenas mais um evento de extinção em massa, como tantos outros do passado, e que um dia irá cessar e permitir que outras espécies animais e plantas se desenvolvam? De onde vem a culpa que sentimos pelo aparente padecimento da natureza e até onde devemos interferir para garantir o bem estar da fauna e da flora? Temos a capacidade intelectual necessária para entender o que é o bem estar da fauna e da flora? Os eventos de extinção, caros leitores, são antes de tudo uma probabilidade matemática.
A vida na Terra parece teimar em deixar de existir. Sobreviveu ao evento KT (cretáceo-terciário, o evento de extinção em massa que deu fim à existência dos dinossauros e a muitas outras espécies de plantas e animais) e, antes dele, sobreviveu a outro evento que dizimou 90% da biodiversidade do planeta. A vida sempre encontra um meio de resistir, e resistirá à passagem dos homens.
Mas resistirá o homem à passagem do tempo e ao nosso próprio evento de extinção? Talvez, de todas as questões levantadas neste texto, esta seja a única passível de resposta, mas receio que tal resposta só fique clara quando não mais tivermos a capacidade de intervir.
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Eu penso que nossa espécie é diferente das outras porque nós temos consciencia e ética (presume-se). Então acho que aí entra a nossa preocupação com a preservação…
espécies se extinguem por fenômenos naturais e tal…mas pq permitir CONSCIENTEMENTE que uma espécie se extingua se temos como impedi-lo?
A força motriz deste movimento de preservação é, na verdade, a auto preservação: o grande medo que a humanidade tem de que ao destruir a natureza como a conhecemos, a própria espécie se extingua. Mas não acho que no caso de desenvolvermos uma de forma autônoma, independente das condições do meio ambiente vá haver alteração deste movimento de preservação, justamente porque as pessoas tentam se reintegrar à natureza, tentam fazer parte de algo “maior”.
Claro que no meio disso tudo, não podemos esquecer dos objetivos econômicos… é só ver que a China não aderiu à tentativa de diminuição da emissão de poluentes porque disse que não vai parar seu crescimento e foda-se o resto do mundo.
Quando você questiona o objetivo da reespeciação e pára para pensar em quanto vai se gastar nesta pesquisa você acaba questionando a validade da ciência que tem por objetivo a ciencia. Como aquela velha história de porque gastar dinheiro com pesquisas para saber se Plutão é ou não um planeta. temos que tomar cuidado para não cair na pieguice de dizer que vale muito mais a pena alimentar as criancinhas na África do que fazer uma pesquisa que não vai salvar vidas e nem matar a fome no mundo. No fim, a questão é : qual deve ser o objetivo da ciência? Melhorar as condições de vida da humanidade? Ou apenas agregar conhecimento? Acho que esta é a pergunta que fica…
“qual deve ser o objetivo da ciência? Melhorar as condições de vida da humanidade? Ou apenas agregar conhecimento?”
Questão muito bem colocada.
Oi T, passei esses dias pensando nas coisas que vc escreveu e não consigo pensar em algo que consiga dar conta das questões que vc levanta.
Não faço idéia de até que ponto a interferência do homem na natureza a fim de preservá-la é um benefício. Mas acredito que mesmo que não podemos permitir que certas espécies entrem em extinção.
Sabe aquelas coisas que a gente aprende desde pequenininho e repete sem saber por quê? Tipo, a gent aprende que desde cedo temos que ter um time de futebol. Qual o fundamento disso???
Então, eu aprendí que devemos nos mobilizar ao máximo no sentido de preservar a natureza. A implicações que esse tipo de interferência pode ter é um assunto que ninguém se preocupou em nos dizer, como se não existissem.
Mas outra questão importante é que muitos avanços e descobertas da ciência já têm tempo suficiente para ter chegado a nós através de livros didáticos. A sensação que tenho é que não interessa a ninguém que sejamos mais esclarecidos nesse sentido. Com história acontece a mesmíssima coisa…
Mas é isso aí. Acho que mesmo que não tenhamos respostas imediatas para dar, não se pode deixar de pensar e questionar quais os limites éticos da ciência. E às vezes estamos tão cegos por nossas boas intensões, que nem refletimos direito sobre suas consequencias.
Um beijo