Thomas Kuhn é sempre lembrado por duas palavras simples. Paradigmas e revoluções. O curioso (na verdade, nem tão curioso assim) é que estes pontos são incrivelmente mal compreendidos. Vou falar de paradigmas em outra oportunidade. Por hora, fiquemos com as revoluções.
Quando falamos em revolução, pensamos logo na sua conotação “franco-cheguevariana“. Ou seja, de mudança radical em um modelo ou sistema qualquer. A Revolução Científica do século XVII é um bom exemplo disso. Até então, a ciência não era nem mesmo conhecida como ciência, não existia comunidades científicas e por aí vai.
Mas não é assim pra Thomas Kuhn. No caso dele, a palavra revolução tem sentido de um evento cíclico que se completa. Vejamos com detalhes. Kuhn defende que a ciência passa por alguns “períodos” bem definidos. Nomeadamente os períodos de “ciência normal” e “ciência extraordinária”. Esses períodos estão diretamente relacionados com a mudança de paradigmas.
A fase de ciência normal é caracterizada pela aceitação praticamente axiomática de um paradigma qualquer, enquanto a fase de ciência extraordinário é caracterizada pela substituição do paradigma vigente por outro. Detalhes sobre isso serão tratados em outro texto, mas é importante notar que existe um componente cíclico nestas fases.
Em resumo, bastante esquemático, funciona assim: Durante a fase de ciência normal as pesquisas são feitas sob os moldes do paradigma vigente. Eventualmente existe um ou dois problemas que não podem ser resolvidos pelo paradigma. Estes problemas recebem o nome de “anomalias”. As anomalias podem se acumular até o ponto em que a credibilidade do paradigma é afetada. No processo, um outro paradigma pode acabar substituindo o antigo, resultando no período de “ciência extraordinária”. Uma vez que o paradigma antigo é substituído pelo novo, a “revolução” se completa, voltando para o período de ciência normal.
Embora uma revolução científica kuhniana provoque mudanças na ciência, essas mudanças não são necessariamente “bruscas” ou profundas. Em geral, afetam só a parte da comunidade científica envolvida com o paradigma que foi substituído.
Apesar disso Kuhn pode ser considera um homem revolucionário, não no sentido cíclico, no sentido tradicional. Seu trabalho afetou de forma ampla o modo de se estudar não só a filosofia da ciência, mas também a história.
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Muito interessante seu texto sobre as revoluções de Kuhn, Thiago!
É importantíssimo ressaltar ao público leigo que a ciência avança, revendo seus conceitos e paradigmas. A ciência não é dogmática, por exemplo, como a religião, que repete as mesmas "verdades" há séculos, sem cogitar um corte epistemológico.
Um exemplo interessante de revolução ocorreu recentemente na medicina. Até os anos 80, a úlcera gástrica era atribuída a fatores de personalidade, desequilíbrio da secreção de suco gástrico, entre outros fatores. O tratamento incluía até cirurgia. Em 1983 (favor verificar a data), descobriu-se que a úlcera é uma doença infecciosa, causa pelo Helycobacter pilori. Desde então, trata-se a doença com antibióticos. Uma verdadeira revolução.
Abraço,
Lelec
Alexis de Tocqueville, no século XIX, também tinha uma outra definição para o termo revolução. Guardada as devidas proporções, sua visão de revolução é muito parecida com com de Thomas Khunn. Poderia citar a definição que Tocqueville dá a revolução, mas estou atrasado e deixo a referência: "Viagens à Inglaterra e à Irlanda", págnia 69