Fernanda Ramirez
Quem é?
Alegre e inquieta. Paulistana pé de lã, divulgadora científica e cultural. Mestre e doutoranda pela Unicamp, desenvolve pesquisas em psicanálise e esporte. Blogueira, posta no Cinco de Outubro, no Ser-Tão Paulistano, no Polegar Opositor e no Café Docente. Cronista, colabora com o Jornalirismo. Em 2009 foi premiada pela União Brasileira de Escritores, na categoria Mulheres Cronistas.
Contato
fernandezias@yahoo.com.br

Pois se em Copa do Mundo o tema é recorrente, o jornalismo esportivo anda mesmo muito a desejar. Em informações interessantes, claro. É só ligar a tevê e as reportagens se repetem, e como há quatro anos atrás:

• rivalidade entre Brasil e Argentina. A novidade fica por conta da propaganda de cerveja;
• bate-papos informais com ex-jogadores de futebol e algumas celebridades emergentes. O que será que Bruna Surfistinha tem a dizer?
• filmagens com os estrangeiros e suas colônias. E a saia justa de todo repórter: se o seu país for para a final com o Brasil, pra quem você torcerá?
• mitos pra lá, mitos pra cá. E na história de todas as Copas do Mundo isso, e aquilo, e coisa e tal.
• mais uma vez um jogo de estréia a desejar. Torcedores frustrados.

E se essa Copa do Mundo é aquela que mais investiu em tecnologia – dizem que a FIFA superestimou o poder das vuvuzelas, que atrapalham na recepção de som e, consequentemente, da transmissão televisiva – por que eu sinto falta de matérias mais elaboradas, com conteúdos mais reflexivos?

Uma vez a Tv Cultura passou uma série ótima e polêmica sobre o esporte: Mais que um jogo. Já tem uns dez anos isso, e eu nunca me esqueço. É que fui apresentada por uma verdade escamoteada, a do dopping com toda ciência e consciência aí envolvidas, ou não. E por que não aproveitar o momento para oferecer à população um pouco de informação científica? O dopping genético, por exemplo, é assunto pra lá de polêmico. Mas, mais próximo ao futebol e à própria Copa do Mundo está a confecção dessa nova bola, envolvida em muita ciência e tecnologia. Não daria margens para muitos programas de cinco minutos? Uma série, um qualquer coisa com um conteúdo das ciências, o futebol como fator de formação científica básica?

Eu tenho uma teoria, que é subjetiva, cuja conclusão me surge sem método nem estatísticas. É apenas uma observação empírica da coisa. Os jornalistas, e os repórteres, e o pessoal da comunicação não está muito habituado em trabalhar com a linguagem científica, mesmo sendo o futebol a paixão nacional. Talvez porque a ciência e a tecnologia sejam paixão apenas de alguns. Ou, do outro lado, no capitalismo da coisa, está a ponta da massificação da informação e coisa e tal.

Penso que, nos próximos seis anos, com a Copa do Mundo de 2014 a ser sediada no país, bem como os Jogos Olímpicos de 2016; penso que talvez esse pudesse ser o momento de levar à população reflexões mais críticas sobre os fatores envolvidos nesses eventos, principalmente em relação ao retorno para a nação. Não só, mas incluindo aí o conhecimento científico.

Por que é que nas últimas Olimpíadas a cobertura televisiva contou com mais desses artifícios e realizou mais embates científicos e tecnológicos? Câmera de movimentos lentos para entendermos a evolução técnica dos atletas, explicações sobre os recordes na piscina olímpica e sua construção tecnológica e etc, etc, etc. Por que o futebol parece ter sua discussão suficiente pela paixão nacional?

Por que as diversas mídias não vão aos laboratórios espalhados pelas universidades país afora para mostrar as evoluções científicas e tecnológicas que envolvem a preparação do atleta? Tem tanta informação diferente a ser pescada que me parece burrice um jornalismo esportivo feito de mesmices. O canal de cá com a mesma linguagem que o canal de lá. Competitividade, provavelmente.

Claro que não digo em 100%, digo de uma maioria. De qualquer forma, fica o alerta. Um país não se constrói só de paixão nacional. Tem muitas outras coisas aí que merecem entrar em pauta. E uma boa parte delas tem a ver com a Divulgação Científica. Isso, para que a bola não fique recuada no processo de crescimento do país.


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As possibilidades da Divulgação Científica são muitas. Algumas tradicionais, outras nem tanto. O fato é que em toda a possibilidade de comunicação há igualmente a possibilidade de divulgação científica. Simples assim. E como bem sabe o marketing e a publicidade, qualquer lugar pode vir a ser um suporte para as estratégias de ação. A mesma coisa se pode dizer da divulgação científica. A diferença é que esta última, em oposição ao marketing e a publicidade, ainda não está na boca do povo. Assume-se por uma distância e pelos esforços de aproximá-la do grande público, em luta de espaço contra o capital tomado pelas mídias de massa. Preferências de um mundo formado por gerações e mais gerações focadas no consumismo e na descartabilidade das coisas e das pessoas.

O instrumento da leitura, assim que adquirido, passa a ser inato ao ser humano, que lê de um tudo que lhe cai à frente: caixas de cereais, bulas de remédios, placas, propagandas, legendas de filmes, livros, notas de rodapé. E quanto maior o uso das letras, maior a incorporação da linguagem se faz para o dentro de cada um de nós. Também a música se faz de linguagem, e letra. E de olho nessa capacidade de comunicação, o marketing e a publicidade, nada bobos, fizeram uso dela através dos jingles, sempre presentes em comerciais de televisão e rádio, dois excelentes suportes para a divulgação científica. Do mais alto nível do uso da linguagem, com suas perfeições acadêmicas, ao mais popular e uso corriqueiro que dela se faz, específicos das tradições populares ou das tradições orais, como os cordéis, um tipo de poesia popular impressa em folhetos rústicos expostos para venda pendurados em cordas (ou cordéis), se faz comunicação e, portanto, divulgação científica.

A leitura científica permite a aproximação entre a população e a ciência. Propicia um aprofundamento de conceitos. Geralmente sugerem-se: a revista Ciência Hoje (publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), a revista eletrônica Café Orbital (publicação do Observatório Nacional), as revistas Scientific American e Scientific American Brasil (publicação da Editora Duetto), dentre outras como a Galileu (da Editora Globo), etc. Na ponta, os folhetos, o cordel, escritos em forma rimada e ilustrados com xilogravuras.

Nessa onda, o cordelista e presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Gonçalo Ferreira da Silva, lançou sua coleção Ciência em Versos de Cordel (publicação da editora Rovelle). Autor de diversos títulos com a temática da ciência, Gonçalo teve esse seu trabalho minuciosamente selecionado para dar origem a 12 livros infantis usando a literatura de cordel como suporte. São eles: Corpos Celestes, Microbiologia, Naturalismo, Natureza, Saúde, Criação, Imprensa, Astronomia, Mecânica, Matemática, Pensamento e Filosofia. Clap! Clap! Um bom exemplo do uso da leitura, das tradições e dos valores regionais para divulgar conceitos da ciência.

E que tal recitar esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados da viola? Os saraus agradecem, e o público também, afinal, conhecimento nunca é demais. Para você, uma boa leitura científica.


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Fornecer informações de um modo acessível à população é o principal objetivo da Divulgação Científica. Digo de se traduzir aquela linguagem técnica, de difícil absorção, cheia de latins e de palavras que passam ao largo do uso cotidiano, como no caso das ciências e suas expressões mais puras. Nelas e nas mais diversas áreas.

E por quê não usar o dicionário?
Divulgação: ato ou efeito de tornar pública alguma coisa; difusão, propagação, vulgarização. (Houaiss)

Repito: difusão, propagação, vulgarização. Três palavras adequadas ao propósito deste texto. E um incômodo. Explico:

Recentemente passei por uma cirurgia para a retirada de um pedaço de uma das trompas, em decorrência de uma gravidez ectópica (quando o feto se desenvolve de forma tubária). Por certo, uma fatalidade. Maior ainda pelo fato de eu estar tomando Mesigyna®, anticoncepcional injetável fabricado pela Bayer do México e comercializado aqui no Brasil pela Schering.

A parte interessante desse tipo de anticoncepcional trata-se do fato dele ser administrado mensalmente por via intramuscular profunda, de forma extremamente lenta e, portanto, há registro de cada dose na farmácia em que a injeção é aplicada. Coisas das legislações, ainda bem, pois assim levanto a possibilidade de entrar com um processo contra o laboratório.

E é aí que encontro o primeiro incômodo e penso no quanto é importante a Divulgação Científica. Afinal, de que se trata aquela porcentagem de ineficácia (geralmente 1%) presente em todas as bulas dos anticoncepcionais?

“Quando usado corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano (uma gestação a cada 100 mulheres por ano de uso). O índice de falha pode aumentar quando os intervalos entre as injeções são prolongados.” (Bula do Mesigyna®).

“Os COCs [Contraceptivos Orais Combinados] são utilizados para prevenir a gravidez. Quando usados corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano. O índice de falha pode aumentar quando há esquecimento de tomada dos comprimidos ou quando estes são tomados incorretamente, ou ainda em casos de vômito dentro de 3 a 4 horas após a ingestão de um comprimido ou diarréia intensa, bem como interações medicamentosas.” (Bulas do Yaz® e do Yasmin®).

“Contraceptivos orais combinados, quando usados corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano. A ingestão irregular pode levar a sangramentos intermenstruais, além de reduzir a eficácia terapêutica e o efeito contraceptivo de Diane® 35.”

É tanta repetição que levanta até suspeitas. Algo do tipo os laboratórios se precaverem de ações legais caso algo ocorra distante do previsto e coisa e tal. E apenas isso?

Por certo devem haver estudos científicos que apresentam tal margem de erro e, como dizem os manuais de métodos de pesquisa, principalmente no tocante as estatísticas e validade dos experimentos nos quais as variáveis são controláveis.

Consenso: várias técnicas estatísticas são necessárias para permitir a descrição das características dos dados, testar relações de conjunto entre os dados e suas diferenças. Geralmente o resultado é uma média.

No caso da eficácia dos anticoncepcionais, o conceito utilizado em técnicas estatísticas é o de confiabilidade (e não o de probabilidade, como muitos podem achar). Envolve pesquisa correlacional (entre as variáveis) e isso significa haver um coeficiente de correlação, que pode ser alto ou baixo, satisfatório ou insatisfatório.

E as dúvidas vão aumentando: cientificamente, de que se trata o uso correto de uma substância? Esta falha de 1% do uso dos anticoncepcionais injetáveis é determinada a partir de quê? Do esquecimento de uma das doses? Do erro na administração da ingestão? Ou refere-se mesmo à ineficácia da substância para determinados organismos? Dentro deste 1%, qual é a porcentagem destinada ao uso inadequado da substância? E em relação à interação com outros medicamentos? Afinal, como é calculado este 1%? E outras tantas perguntas, para tantas variáveis…

Entre as variáveis, por certo que outros fatores estão envolvidos, e que representam o mundo científico: a amostra populacional, a validade das medidas e a expressão de fidedignidade por meio da correlação. E tudo isso promove uma margem de erro.

Mas, afinal, essa margem de erro é suficiente para o laboratório eximir-se da responsabilidade de ineficácia de um medicamento? Todos lembram do caso da pílula de farinha.

Em uma pesquisa breve relacionada na internet, verifico haver muitas mulheres na mesma situação do que a minha. E muitas delas questionando o laboratório judicialmente. Se há um argumento que possa ser válido, eu aposto na confiabilidade.

E não digo apenas em relação ao método científico em si, mas de todo o entorno. É fato de que os anticoncepcionais são vendidos por sua confiabilidade e não pela possibilidade do erro.

Onde entra a Divulgação Científica nisso tudo? No acesso à informação. Essa eu só fui procurar depois do ocorrido, para então ouvir de especialistas frases do tipo:

- esse medicamento quando não funciona tem um alto risco de gravidez ectópica;
- nossa farmácia parou de aplicar o medicamento porque muitas mulheres relataram passar mal, então o laboratório veio pedir para voltarmos a aplicar o medicamento;
- é bobagem processar o laboratório já que nenhum método para evitar a gravidez é 100% seguro.

Independente dos argumentos, uma coisa é fato: o acesso à informação, a popularização da ciência, sua vulgarização poderia ter me permitido correr esse risco de gravidez ectópica de uma forma mais consciente. Afinal, eu poderia ter aliado o anticoncepcional com o uso da camisinha. Ou com o uso de um DIU. Ou outra combinação possível.

Aqui, eu entraria com o debate pelos argumentos da bioética e coisa e tal. É fato que nós somos responsáveis pelos nossos atos, e, neste caso acima relatado, os laboratórios também não o são?

De qualquer forma, ressalto a importância da Divulgação Científica para a tomada de decisão das pessoas, para que elas evitem incômodos. Inclusive quando se quer usar da própria ciência em um processo judicial.


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É fato existir uma competição científica mundo afora. O laboratório de lá distante do laboratório de cá. Mais vezes uns contra os outros do que todos em prol da ciência. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. No limite, o monopólio químico-farmacológico das descobertas científicas reflete um capitalismo contemporâneo. Uns lutam para serem melhores que os outros. E os estímulos nacionais e mundiais aparecem: Olimpíadas de ciências, de tecnologia, de engenharia e matemática. Por aí afora, qual é a letra da Divulgação Científica?

Por certo que, dentro do contexto, é letra corrida, e armamentista. Letra de capacitações, sistemáticas e feitas para gerarem lucro. Como se as manchetes dos jornais competissem entre si, pelas melhores descobertas, pelo furo, pelo apelo da ciência e, em comum, a esperança de cura para a humanidade. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. E a briga continua entre as ciências naturais e humanas, todas buscando seu lugar ao sol, buscando o estado de dentro, sua tradução em palavras para que chegue até o receptor mais longínquo. Aquele bóia fria que não sabe ler, que vive da tradição oral. Uma metáfora para lembrar que letra não é apenas escrita, posta em papel, mas que há um conjunto de recursos, e são amplos, a disposição da Divulgação Científica.

História oral é letra popular. Independe de ser cursiva, de forma, caixa alta, digital. Letra é signo. É símbolo. É um corpo mudo que pode ser ouvido por alguém. E é aí que entra a ciência, e suas metodologias, para dar forma ao que não se ouve, não se vê com olhos comuns, não se encontra nos paradoxos. É letra corrida, que vai daqui para ali, e dali para acolá. Como os causos, os mitos, as lendas das tradições orais. Quanto de ciência não está dentro delas? Alguém duvida?


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Seu garçom faça o favor de me trazer depressa um choppes, dois pastel e uma ciência que não seja requentada. Um pão bem quente com matemática à beça, um guardanapo e um copo de exatas bem gelado, outro de humanas e um último de biológicas. Aproveita para perguntar ao seu freguês do lado o resultado da palestra, que já está no fim.

Seu garçom feche a porta da direita com muito cuidado que eu estou disposto a ficar exposto a esta forma de divulgação científica. É que a ciência está no bar e se você ficar limpando a mesa, não me levanto e nem pago a despesa. Vá pedir ao seu patrão uma caneta, um tinteiro, um conteúdo científico que semana que vem a gente está de volta.

Seu garçom, você sabia que Brasil adentro tem Cachaça Científica? Já está virando rotina lá na Regional de Pernambuco da Sociedade Brasileira de Progresso à Ciência. E se você pensa que cachaça é água, em 2005 aconteceu na Universidade Federal de Santa Catarina e em 2007 a ciência destilada chegou ao Rio de Janeiro com a Casa da Ciência e o Instituto de Química da Universidade Federal.

Acho que não dá para negar. São eventos inspirados no pioneiro Chopp Científico, ciência com arte e colarinho, que aconteceu pela primeira vez em 2002 no Rio de Janeiro, coordenado pela jornalista Luisa Massarani do Centro de Estudos do Museu da Vida / Fiocruz. Ela, por sua vez, foi inspirada em eventos já existentes na Grã-Bretanha, Austrália e França.

Ah, não se esqueça de me dar palitos. Em várias cidades do mundo tem o Café Scientifique, com temas diversificados, e o SciBar, bastante atual. Já sobre Ciência e Governo, é possível ir ao INSPIRE Science Café. Seu garçom vá dizer ao charuteiro que me empreste umas revistas, um isqueiro e um cinzeiro. É que nossos amigos franceses estão com tudo. Eventos desta natureza acontecem já tem mais de anos, em torno de uma década. Bar des Sciences em Paris, Cafes Sciences e Junior Cafes em Lyon, além de eventos semelhantes em cidades como Marseille e Grenobe.

Seu garçom me empresta algum dinheiro que eu deixei o meu com o bicheiro. Tem Café Scientifique em Marrocos, no Egito, na Dinamarca, na Suíça e no Canadá. Tem em Portugal. Tem aqui, tem ali. Tem Science in the Pub na Austrália, tem Café Científico na Argentina. Vá dizer ao seu gerente que pendure esta despesa no cabide ali em frente, que a divulgação científica está criativa, etílica e saborosa. Uma verdadeira Conversa de Botequim, como bem canta Noel Rosa.


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1ª versão: Revista Vox Science (Núcleo José Reis de Divulgação Científica)
2ª versão, atualizada: Polegar Opositor

Nas ladeiras de Olinda um pierrô apaixonado, que vivia só cantando, acabou chorando quando viu sua colombina no cordão de Albert Einstein, um boneco gigante no meio da multidão. Isso foi em 2005, e foi a primeira vez do bloco “Com Ciência na Cabeça e Frevo no Pé”, fundado pelo Espaço Ciência, pelo Cenine/UFPE e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência de Pernambuco (SBPC-PE). Já em 2006, quanto riso, oh, quanta alegria, mais de mil foliões no maracatu e um arlequim que ficou chorando o amor de colombina, que só tinha asas para um Santos Dumont em comemoração aos 100 anos do vôo do 14 Bis. Ah, se você fosse sincera… No outro ano foi a vez de José Leite Lopes, físico pernambucano, e a colombina dando viva ao maioral. Ela quer um lindo apartamento, com porteiro e elevador. E sob o tema “Evolução e Diversidade”, Charles Darwin foi o escalado para arrasar pierrôs e arlequins em 2008, ano em que o bloco marca a abertura oficial da V Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de Pernambuco.

Em 2009 os homenageados da vez serão os cientistas Carlos Chagas e Galileu Galilei. É, as águas vão rolar. Por enquanto elas estão sendo puxadas por professores universitários, estudantes e representantes da comunidade científica preocupados com o progresso da ciência, e sua divulgação. Pois então, ei!, vai com jeito, vai, se não um dia, a casa cai.

E qual é o jeito da Divulgação Científica? Em Pernambuco é o frevo que conta a história e homenageia a ciência através de seus personagens. Já as marchas de carnaval pouco têm a ver com isso, dizem o cotidiano e o amor. Elas pertencem a um gênero musical que esteve presente nos carnavais brasileiros entre os anos 20 e 60, altura em que começaram a ser substituídas pelos enredos das escolas de samba. Me leva que eu vou, sonho meu, atrás do samba-enredo há uma ilustração poético-melódica que possui um estilo característico e versejar próprio. Trata-se de uma expressão de linguagem popular, não lhe sendo exigidos esquemas fixos de métrica e rima. Bom para a divulgação científica? Com certeza. A linguagem alegórica escolhida pelos carnavalescos explode corações na maior felicidade e atinge o público em cheio. Candeeiro, candeeiro ó, a pedra do teu anel brilha mais do que o sol!

Pode-se ver, saber e contar de um tudo no maior show da terra. Beija Flor, em 1978, cantou a criação do mundo na tradição nagô, iererê, surge a vida com esplendor. Ciências naturais, da terra, da saúde e humanas. Vai de um tudo para a avenida. Teu cenário é uma beleza. Cada escola apresenta um tema, a partir de um roteiro seqüencial e dos argumentos que fazem uso: alas, destaques, fantasias, adereços e alegorias. Em conjunto, todos devem retratar uma época se o enredo girar em torno de acontecimentos históricos, ou retratar os elementos tradicionais e característicos em casos de temas folclóricos, regionais ou religiosos. E porque através das alegorias, realidades abstratas podem ser concretizadas, as ciências sociais, políticas e econômicas brincam no mar. Elas brincam na areia, no balanço das ondas, e na avenida elas semeiam a vida, o negro, a cultura, a evolução, as tradições, a imigração, a colonização, a arte, os sertanejos, a ecologia, a biodiversidade e os grandes personagens da nossa história: pensadores, sociólogos, artistas, cientistas, políticos. Às vezes nas doses de uma a crítica: liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós. Outras, nas vezes de uma dúvida: como será o amanhã, responda quem quiser. E o realejo diz, que a divulgação científica será feliz entre folias, confetes e serpentinas.


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Sarau Científico

Cena: À direita da porta de entrada, o balcão se fazendo de bar: cachaça de minas, cachaça com canela, vodca, uma garrafa de 51, três garrafas de vinho tinto, frutas vermelhas (morango, framboesa e amora) e limão fatiado para as caipirinhas do tipo faça você mesmo. Compõem a cena uma mesa de salgados, outra de doces do tipo self-service. Na entrada, tocheiros dando as boas vindas, indicam o caminho para o palco: microfone, banquinho, espaço para intervenções. Abre-se o sarau: “queridos amigos, hoje a noite é de muita alegria, pois daremos início ao Primeiro Sarau Científico Polegar Opositor. Como todos sabem, o tema da vez é Evolução. Mas aceitamos vieses, dançarinos de hula-hula e ditadores potenciais do terceiro mundo. Separem seus textos, seus apetrechos que a partir de agora declaro aberto o 1º Sarau Científico Polegar Opositor”.

O texto acima é fictício, mas poderia ter, de fato, acontecido. Lanço aqui a idéia, pois pensar em divulgação científica requer extrapolar os ambientes que são consensualmente comuns à ciência. Tirá-la das salas de aula e dos laboratórios e torná-la mais acessível. Resgatar aquela criança fascinada pelos tubos de ensaios e seus brinquedos alquímicos. Afinal, está lá a Esfinge para nos lembrar. De onde viemos, como funciona o mundo e os feijões que brotam no algodão são questões que facilmente podem ser respondidas num sarau científico. Duvida?

Se fizermos um retrocesso sobre a infância, de quando a rua de cima ficava de rixa com a rua de baixo e as crianças do bairro se organizavam em clubinhos, faziam seus próprios jornaiszinhos e apostavam corrida em carrinhos de rolimã, fica claro que a gente, desde cedo, se organiza em torno de eventos sociais. Então por que nesta gama de possibilidades de se criar e recriar a infância, não apostar que um destes encontros seja um sarau científico? Seria simples. Cada criança ou jovem desenvolveria um pequeno texto de própria autoria ou escolheria algo de agrado, feito por um outro alguém. Haveriam aqueles que levariam uma bússola caseira, outros tentariam por o ovo em pé. Alguns ainda teriam um formigueiro caseiro (pobre de suas mães) enquanto outros se contentariam em usar a espingardinha de chumbo para acertar baratas saída do bueiro da esquina que, divididas em partes, poderiam ser um belo exemplo de dissecação de animais. E como na feira de ciências, o sarau faz da ciência popular e divertida. Uma festa.

Lembro de quando eu era jovem – ou pelo menos mais jovem do que agora – ainda no primeiro ano da faculdade. Bioquímica. Uma prova ferrada no 1º bimestre e uma prova em forma de teatro no 2º bimestre. Meu grupo encenou o Ciclo de Krebs. Perfeito para um sarau científico que, como se pode notar, idade não tem. Só ciência e criatividade.


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ATO: É como se eu pensasse uma Galáxia, em que os fenômenos nebulosos completam-se em si, tampouco estejam em relação direta uns com os outros. De quando eu era criança, nas observações de Sagitário e na procura de um buraco negro que se velava atrás das estrelas, as interpretações científicas eram aquelas oriundas de vozes em planetários. Havia uma auto-suficiência no fenômeno, que o tornava único, mas diluído numa cadeia de experiências de fótons, neutros e prótons. Daí a idéia de constelação. E nas constelações, as estrelas são independentes. Nem por aquelas que tivessem nascido juntas, as estrelas duplas ou triplas, eu poderia estabelecer qualquer relação de encontro. É que, aos meus olhos incompletos, elas surgiam e morriam solitárias. Já a minha “incretude”, ao contrário, sempre me levou a estabelecer inúmeras linhas de união, relacionando-as umas com as outras, uma festa no céu, apesar delas seguirem só. A estrela Dalva, sempre a primeira, sempre única, e outras, como as Três Marias, que, sozinhas, aprendi a ver em grupo.

Este ato escrito em forma de mônada é o modelo que Walter Benjamin propõe para o relato das coisas. Para ele, o importante é que o fenômeno mantenha sua independência e que através de uma forma narrativa de experiência se constitua história. O autor tenta desvelar que o fenômeno não está em continuidade e também não se encontra desvirtuado pelo todo. Os fragmentos, as anotações e os pequenos exemplos tomados da história, de uma forma atemporal, fazem da ciência subjetividade. Assim, as constelações do saber científico que se poderia generalizar a partir daí seriam inúmeras; e talvez cada um de nós construa a sua, reflexo de nossas experiências pessoais. Seria afirmar, então, que cada um põe sua biografia, seus interesses, seus projetos, sua vida em palavras para se fazer galáxia. Porém o fenômeno continua sendo reconhecido por todos, na expressão de um fato, de um acontecimento.

Em voga, a narrativa da experiência. E a pergunta: ela, a narrativa, é válida para o processo divulgação científica? Em uma sociedade da informação, a cada manhã recebemos notícias de todo o mundo. São fatos que já nos chegam com um punhado de explicações plausíveis. Nota-se, no entanto, que tais fatos, quando atrelados à narração, produzem uma historicidade, lugar onde a ciência (e sua divulgação) se contextualiza no tempo e no espaço. Nesta via de se pensar a popularização das informações científicas, a narrativa faz florescer uma forma artesanal de comunicação, interessada em transmitir o “puro da coisa” a partir da descrição das circunstâncias em que foram vivenciadas. Isso porque a linguagem narrativa constrói uma imagem que se fixa aos olhos de quem lê. Uma imagem subjetiva que permite o leitor atingir uma amplitude que não existe na informação.

Se metade da arte da narrativa está em evitar explicações, qual seria, então, sua função em se tratando da divulgação científica? A de inscrever-se no curso da historiografia. Neste caso, à beira, encontra-se o cronista com a outra metade da arte da narrativa: a inclusão do tempo épico na escrita, que, na crônica, é a mais incontestável pelo esforço de se representar os episódios – e por que não dizê-los científicos? – como experiências da história do mundo. E, como diz Benjamin, “seja como for – para cada pessoa há coisas que lhe despertam hábitos mais duradouros que todos os demais”. E o parafraseando: neles são formadas as Três Marias que se tornam decisivas em sua existência única.


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Divulgação Científica 2.0

Um usuário on-line. Há segredos na ciência! O laboratorista tranca portas a sete chaves. Ou porque descobriu uma enzima nova, ou porque mapeou um gene antes do cara do laboratório ao lado. E há séculos que a ciência institucionalizada é pouco colaborativa e está presa a mais-valia. O cabo é de guerra e os dois usuários on-line estão a espreita de verbas, ou em busca de um aceite de seu artigo para publicação naquela revista especializada que irá projetá-lo como o ban-ban-ban da enzima –a ser batizada com seu próprio nome– ou do gene em questão. Não conversam entre si, embora desenvolvam trabalhos complementares.

Cinco usuários on-line. A necessidade faz o ladrão e, de repente, surge um comércio de co-autoria para pesquisadores menos éticos. E na mesma essência da mais-valia, cria-se uma corrente do tipo “me adiciona que eu te adiciono”. Enquanto estes fingem que se ligam uns aos outros, cinco usuários do tipo papers (artigos científicos revistos por pares) desta ou daquela revista não conversam entre si, embora configurem um mesmo centro de pesquisa ou uma mesma editoria, dizem assuntos correlatos e utilizam a mesma bibliografia, quiçá o mesmo método. A revista, em bloco, é segmentada e o artigo é uma unidade. Dez usuários on-line. Isso para não dizer dos autores esconde-esconde. Aqueles que não publicam os dados relevantes de suas pesquisa e que acreditam guardar “o segredo” que lhes garantirão chegarem isolados ao pódio ban-ban-ban. Aí é falácia.

Quinze usuários on-line. Me publica que eu te publico! As instituições de pesquisa perceberam que seus índices de visibilidade crescem na medida em que elas são citadas e aparecem nos periódicos científicos. Vinte usuários on-line.

É claro que se a gente for parar para pensar, nem tudo é tão frio assim, mas trinta usuários on-line e o calor dos corpos revelam que a divulgação científica 1.0, em termos institucionais, pouco mudou com o passar dos tempos. Entra ano, sai ano, a cena se repete: pesquisadores isolados escondendo o jogo em prol da mais-valia. Ouro de tolo? Nem tanto. Quarenta usuários on-line.

Não é de hoje que se questiona a divulgação das informações científicas e se estuda a possibilidade de se fazer da ciência a partir de um movimento aberto, como mostra o artigo publicado na edição de abril da Scientific American “Science 2.0 – Is Open Access Science the Future?” (Ciência 2.0 – A Ciência de Acesso Público será o Futuro?) ao discutir como a web 2.0 pode impactar a forma como se faz e divulga ciência nos dias atuais. Cinqüenta usuários; há novas ferramentas on-line! Para este segmento das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), a idéia é colaborativa.

Cem usuários on-line. Na web 2.0, cujo conteúdo é o produzido pelo próprio usuário, as wikis –ferramenta colaborativa de construção de hipertexto– e os softwares com licença Open Source –cujo código fonte fica disponível na rede– criaram uma nova proposta de gerenciamento da informação, a divulgação científica 2.0.

Duzentos usuários on-line que se entretém, divulgam ou produzem ciência de forma nunca vista anteriormente, seja através de blogs, comunidades como o Orkut, realidades virtuais como a Second Life ou sítios como o YouTube. Quinhentos usuários on-line e uma licença de direitos autorais para conteúdos abertos, a Creative Common. Mil usuários em rede.


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Orkut, Facebook, Flickr, Myspace, Live Journal, Twitter, fotologs e weblogs ou blogs rompem as fronteiras geográficas e conectam pessoas mundo afora. Nesta nova relação do tempo com o espaço, as proximidades intelectuais acompanham uma sociedade em constante, rápida e permanente mudança. Também a Second Life, na onda das realidades virtuais, entra para discutir a dimensão das vidas on e off-line.

Com o avanço ponto.com é fato que a velocidade com que as relações acontecem difere do passado e nem tudo é tão híbrido como nem tudo o que está na rede é, de fato, uma comunidade virtual. Neste aspecto, tanto a vida medida em pixels e bits quanto a vida fora da web entram em acordo: as comunidades, quando deixam de ter um caráter cooperativo calcado em projetos comuns aos participantes ou quando estes não estabelecem um sentimento de pertencimento a elas, tornam-se apenas um agrupamento de pessoas, uma rede de conexões. Precisam estar mais além.

Nos dias de hoje é praticamente indiscutível: o virtual e o real se cruzam a todo instante e a divulgação científica também não está só na interface de lá ou só no lado de cá. Na Web 2.0, cujo conteúdo é o produzido pelo próprio usuário, as wikis – ferramenta colaborativa de construção de hipertexto – e os softwares com licença Open Source – cujo código fonte fica disponível na rede – criaram uma nova proposta de gerenciamento da informação. Para este segmento das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), a idéia é colaborativa. É o caso da plataforma Moodle – um Sistema de Gerenciamento de Aprendizagem (SGA) – e da plataforma S.E.E.R, um Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas. Ambos estão voltados à aprendizagem e pesquisa e encabeçam a lista dos chamados Recursos Educacionais Abertos (REA), mais conhecidos por sua sigla em inglês OER (Open Educacional Resources).

A internet, ao oferecer estas ferramentas e outras como o YouTube – um site que permite que seus usuários carreguem, assistam e compartilhem vídeos em formato digital – cria uma nova forma de divulgação científica na medida em que milhões de pessoas se entretém, educam e se informam de uma maneira como nunca foi vista. A disseminação do movimento Conteúdo Aberto, baseado então no movimento FLOSS (Free Libre and Open Source Software), gera um grande motivador para os avanços da divulgação científica em meio digital.

Para corroborar, surge a Creative Common License, uma licença baseada no conceito de que é preciso criar e disponibilizar uma grande quantidade de informações e conteúdos de forma que assegure e sustente a criatividade e o ineditismo do autor. Com uma rápida aceitação dos internautas que produzem conteúdo diferenciado na web, a licença ganhou os sites pessoais e blogs. Estes últimos, que há muitos anos deixaram de ser um simples diário virtual para se transformarem em local de debate através de conteúdos específicos e temas polêmicos, ganham novo fôlego e impulsionam novos usuários a criarem seus próprios espaços para a veiculação de suas idéias.

Nota-se que ainda compõe o ciberespaço a Comunicação Mediada por Computador (CMC). Trata-se dos usuários emissores e receptores de e-mails, newslatters, fóruns, quadros de avisos ou scrapbooks, salas de bate-papo ou chats, assinantes de feeds que frequentemente comentam em blogs. São redes que se criam e que não se prendem geograficamente já que o internauta escolhe seu grupo pelo conteúdo e raízes. Bom para a divulgação científica, dentre outras coisas.


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