Sobre o Autor
Fernanda Ramirez
 
Uma citação:  

Chocolates, Guloseimas e Divulgação Científica

agosto, 2012

O mercado de produtos tem suas peculiaridades.
Inclusive em relação à Divulgação Científica.

Cromos do Chocolate Surpresa

Cromos do Chocolate Surpresa

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Bola Recuada, Jornalismo Esportivo e Divulgação Científica

junho, 2010

Pois se em Copa do Mundo o tema é recorrente, o jornalismo esportivo anda mesmo muito a desejar. Em informações interessantes, claro. É só ligar a tevê e as reportagens se repetem, e como há quatro anos atrás:

• rivalidade entre Brasil e Argentina. A novidade fica por conta da propaganda de cerveja;
• bate-papos informais com ex-jogadores de futebol e algumas celebridades emergentes. O que será que Bruna Surfistinha tem a dizer?
• filmagens com os estrangeiros e suas colônias. E a saia justa de todo repórter: se o seu país for para a final com o Brasil, pra quem você torcerá?
• mitos pra lá, mitos pra cá. E na história de todas as Copas do Mundo isso, e aquilo, e coisa e tal.
• mais uma vez um jogo de estréia a desejar. Torcedores frustrados.

E se essa Copa do Mundo é aquela que mais investiu em tecnologia – dizem que a FIFA superestimou o poder das vuvuzelas, que atrapalham na recepção de som e, consequentemente, da transmissão televisiva – por que eu sinto falta de matérias mais elaboradas, com conteúdos mais reflexivos?

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A Literatura de Cordel e a Leitura Científica

maio, 2010

As possibilidades da Divulgação Científica são muitas. Algumas tradicionais, outras nem tanto. O fato é que em toda a possibilidade de comunicação há igualmente a possibilidade de divulgação científica. Simples assim. E como bem sabe o marketing e a publicidade, qualquer lugar pode vir a ser um suporte para as estratégias de ação. A mesma coisa se pode dizer da divulgação científica. A diferença é que esta última, em oposição ao marketing e a publicidade, ainda não está na boca do povo. Assume-se por uma distância e pelos esforços de aproximá-la do grande público, em luta de espaço contra o capital tomado pelas mídias de massa. Preferências de um mundo formado por gerações e mais gerações focadas no consumismo e na descartabilidade das coisas e das pessoas.

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A Prenhez Tubária, o Anticoncepcional e a Divulgação Científica

março, 2010

Fornecer informações de um modo acessível à população é o principal objetivo da Divulgação Científica. Digo de se traduzir aquela linguagem técnica, de difícil absorção, cheia de latins e de palavras que passam ao largo do uso cotidiano, como no caso das ciências e suas expressões mais puras. Nelas e nas mais diversas áreas.

E por quê não usar o dicionário?
Divulgação: ato ou efeito de tornar pública alguma coisa; difusão, propagação, vulgarização. (Houaiss)

Repito: difusão, propagação, vulgarização. Três palavras adequadas ao propósito deste texto. E um incômodo. Explico:

Recentemente passei por uma cirurgia para a retirada de um pedaço de uma das trompas, em decorrência de uma gravidez ectópica (quando o feto se desenvolve de forma tubária). Por certo, uma fatalidade. Maior ainda pelo fato de eu estar tomando Mesigyna®, anticoncepcional injetável fabricado pela Bayer do México e comercializado aqui no Brasil pela Schering.

A parte interessante desse tipo de anticoncepcional trata-se do fato dele ser administrado mensalmente por via intramuscular profunda, de forma extremamente lenta e, portanto, há registro de cada dose na farmácia em que a injeção é aplicada. Coisas das legislações, ainda bem, pois assim levanto a possibilidade de entrar com um processo contra o laboratório.

E é aí que encontro o primeiro incômodo e penso no quanto é importante a Divulgação Científica. Afinal, de que se trata aquela porcentagem de ineficácia (geralmente 1%) presente em todas as bulas dos anticoncepcionais?

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A Letra Corrida da Divulgação Científica

dezembro, 2009

É fato existir uma competição científica mundo afora. O laboratório de lá distante do laboratório de cá. Mais vezes uns contra os outros do que todos em prol da ciência. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. No limite, o monopólio químico-farmacológico das descobertas científicas reflete um capitalismo contemporâneo. Uns lutam para serem melhores que os outros. E os estímulos nacionais e mundiais aparecem: Olimpíadas de ciências, de tecnologia, de engenharia e matemática. Por aí afora, qual é a letra da Divulgação Científica?

Por certo que, dentro do contexto, é letra corrida, e armamentista. Letra de capacitações, sistemáticas e feitas para gerarem lucro. Como se as manchetes dos jornais competissem entre si, pelas melhores descobertas, pelo furo, pelo apelo da ciência e, em comum, a esperança de cura para a humanidade. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. E a briga continua entre as ciências naturais e humanas, todas buscando seu lugar ao sol, buscando o estado de dentro, sua tradução em palavras para que chegue até o receptor mais longínquo. Aquele bóia fria que não sabe ler, que vive da tradição oral. Uma metáfora para lembrar que letra não é apenas escrita, posta em papel, mas que há um conjunto de recursos, e são amplos, a disposição da Divulgação Científica.

História oral é letra popular. Independe de ser cursiva, de forma, caixa alta, digital. Letra é signo. É símbolo. É um corpo mudo que pode ser ouvido por alguém. E é aí que entra a ciência, e suas metodologias, para dar forma ao que não se ouve, não se vê com olhos comuns, não se encontra nos paradoxos. É letra corrida, que vai daqui para ali, e dali para acolá. Como os causos, os mitos, as lendas das tradições orais. Quanto de ciência não está dentro delas? Alguém duvida?

Um chopes, dois pastel e ciência por favor!

abril, 2009

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa um choppes, dois pastel e uma ciência que não seja requentada. Um pão bem quente com matemática à beça, um guardanapo e um copo de exatas bem gelado, outro de humanas e um último de biológicas. Aproveita para perguntar ao seu freguês do lado o resultado da palestra, que já está no fim.

Seu garçom feche a porta da direita com muito cuidado que eu estou disposto a ficar exposto a esta forma de divulgação científica. É que a ciência está no bar e se você ficar limpando a mesa, não me levanto e nem pago a despesa. Vá pedir ao seu patrão uma caneta, um tinteiro, um conteúdo científico que semana que vem a gente está de volta.

Seu garçom, você sabia que Brasil adentro tem Cachaça Científica? Já está virando rotina lá na Regional de Pernambuco da Sociedade Brasileira de Progresso à Ciência. E se você pensa que cachaça é água, em 2005 aconteceu na Universidade Federal de Santa Catarina e em 2007 a ciência destilada chegou ao Rio de Janeiro com a Casa da Ciência e o Instituto de Química da Universidade Federal.

Acho que não dá para negar. São eventos inspirados no pioneiro Chopp Científico, ciência com arte e colarinho, que aconteceu pela primeira vez em 2002 no Rio de Janeiro, coordenado pela jornalista Luisa Massarani do Centro de Estudos do Museu da Vida / Fiocruz. Ela, por sua vez, foi inspirada em eventos já existentes na Grã-Bretanha, Austrália e França.

Ah, não se esqueça de me dar palitos. Em várias cidades do mundo tem o Café Scientifique, com temas diversificados, e o SciBar, bastante atual. Já sobre Ciência e Governo, é possível ir ao INSPIRE Science Café. Seu garçom vá dizer ao charuteiro que me empreste umas revistas, um isqueiro e um cinzeiro. É que nossos amigos franceses estão com tudo. Eventos desta natureza acontecem já tem mais de anos, em torno de uma década. Bar des Sciences em Paris, Cafes Sciences e Junior Cafes em Lyon, além de eventos semelhantes em cidades como Marseille e Grenobe.

Seu garçom me empresta algum dinheiro que eu deixei o meu com o bicheiro. Tem Café Scientifique em Marrocos, no Egito, na Dinamarca, na Suíça e no Canadá. Tem em Portugal. Tem aqui, tem ali. Tem Science in the Pub na Austrália, tem Café Científico na Argentina. Vá dizer ao seu gerente que pendure esta despesa no cabide ali em frente, que a divulgação científica está criativa, etílica e saborosa. Uma verdadeira Conversa de Botequim, como bem canta Noel Rosa.

Divulgação Científica, folias, confetes e serpentinas

janeiro, 2009

1ª versão: Revista Vox Science (Núcleo José Reis de Divulgação Científica)
2ª versão, atualizada: Polegar Opositor

Nas ladeiras de Olinda um pierrô apaixonado, que vivia só cantando, acabou chorando quando viu sua colombina no cordão de Albert Einstein, um boneco gigante no meio da multidão. Isso foi em 2005, e foi a primeira vez do bloco “Com Ciência na Cabeça e Frevo no Pé”, fundado pelo Espaço Ciência, pelo Cenine/UFPE e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência de Pernambuco (SBPC-PE). Já em 2006, quanto riso, oh, quanta alegria, mais de mil foliões no maracatu e um arlequim que ficou chorando o amor de colombina, que só tinha asas para um Santos Dumont em comemoração aos 100 anos do vôo do 14 Bis. Ah, se você fosse sincera… No outro ano foi a vez de José Leite Lopes, físico pernambucano, e a colombina dando viva ao maioral. Ela quer um lindo apartamento, com porteiro e elevador. E sob o tema “Evolução e Diversidade”, Charles Darwin foi o escalado para arrasar pierrôs e arlequins em 2008, ano em que o bloco marca a abertura oficial da V Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de Pernambuco.

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Sarau Científico

outubro, 2008

Cena: À direita da porta de entrada, o balcão se fazendo de bar: cachaça de minas, cachaça com canela, vodca, uma garrafa de 51, três garrafas de vinho tinto, frutas vermelhas (morango, framboesa e amora) e limão fatiado para as caipirinhas do tipo faça você mesmo. Compõem a cena uma mesa de salgados, outra de doces do tipo self-service. Na entrada, tocheiros dando as boas vindas, indicam o caminho para o palco: microfone, banquinho, espaço para intervenções. Abre-se o sarau: “queridos amigos, hoje a noite é de muita alegria, pois daremos início ao Primeiro Sarau Científico Polegar Opositor. Como todos sabem, o tema da vez é Evolução. Mas aceitamos vieses, dançarinos de hula-hula e ditadores potenciais do terceiro mundo. Separem seus textos, seus apetrechos que a partir de agora declaro aberto o 1º Sarau Científico Polegar Opositor”.

O texto acima é fictício, mas poderia ter, de fato, acontecido. Lanço aqui a idéia, pois pensar em divulgação científica requer extrapolar os ambientes que são consensualmente comuns à ciência. Tirá-la das salas de aula e dos laboratórios e torná-la mais acessível. Resgatar aquela criança fascinada pelos tubos de ensaios e seus brinquedos alquímicos. Afinal, está lá a Esfinge para nos lembrar. De onde viemos, como funciona o mundo e os feijões que brotam no algodão são questões que facilmente podem ser respondidas num sarau científico. Duvida?

Se fizermos um retrocesso sobre a infância, de quando a rua de cima ficava de rixa com a rua de baixo e as crianças do bairro se organizavam em clubinhos, faziam seus próprios jornaiszinhos e apostavam corrida em carrinhos de rolimã, fica claro que a gente, desde cedo, se organiza em torno de eventos sociais. Então por que nesta gama de possibilidades de se criar e recriar a infância, não apostar que um destes encontros seja um sarau científico? Seria simples. Cada criança ou jovem desenvolveria um pequeno texto de própria autoria ou escolheria algo de agrado, feito por um outro alguém. Haveriam aqueles que levariam uma bússola caseira, outros tentariam por o ovo em pé. Alguns ainda teriam um formigueiro caseiro (pobre de suas mães) enquanto outros se contentariam em usar a espingardinha de chumbo para acertar baratas saída do bueiro da esquina que, divididas em partes, poderiam ser um belo exemplo de dissecação de animais. E como na feira de ciências, o sarau faz da ciência popular e divertida. Uma festa.

Lembro de quando eu era jovem – ou pelo menos mais jovem do que agora – ainda no primeiro ano da faculdade. Bioquímica. Uma prova ferrada no 1º bimestre e uma prova em forma de teatro no 2º bimestre. Meu grupo encenou o Ciclo de Krebs. Perfeito para um sarau científico que, como se pode notar, idade não tem. Só ciência e criatividade.

A Arte da Narrativa na Divulgação Científica

setembro, 2008

ATO: É como se eu pensasse uma Galáxia, em que os fenômenos nebulosos completam-se em si, tampouco estejam em relação direta uns com os outros. De quando eu era criança, nas observações de Sagitário e na procura de um buraco negro que se velava atrás das estrelas, as interpretações científicas eram aquelas oriundas de vozes em planetários. Havia uma auto-suficiência no fenômeno, que o tornava único, mas diluído numa cadeia de experiências de fótons, neutros e prótons. Daí a idéia de constelação. E nas constelações, as estrelas são independentes. Nem por aquelas que tivessem nascido juntas, as estrelas duplas ou triplas, eu poderia estabelecer qualquer relação de encontro. É que, aos meus olhos incompletos, elas surgiam e morriam solitárias. Já a minha “incretude”, ao contrário, sempre me levou a estabelecer inúmeras linhas de união, relacionando-as umas com as outras, uma festa no céu, apesar delas seguirem só. A estrela Dalva, sempre a primeira, sempre única, e outras, como as Três Marias, que, sozinhas, aprendi a ver em grupo.

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Divulgação Científica 2.0

setembro, 2008

Um usuário on-line. Há segredos na ciência! O laboratorista tranca portas a sete chaves. Ou porque descobriu uma enzima nova, ou porque mapeou um gene antes do cara do laboratório ao lado. E há séculos que a ciência institucionalizada é pouco colaborativa e está presa a mais-valia. O cabo é de guerra e os dois usuários on-line estão a espreita de verbas, ou em busca de um aceite de seu artigo para publicação naquela revista especializada que irá projetá-lo como o ban-ban-ban da enzima –a ser batizada com seu próprio nome– ou do gene em questão. Não conversam entre si, embora desenvolvam trabalhos complementares.

Cinco usuários on-line. A necessidade faz o ladrão e, de repente, surge um comércio de co-autoria para pesquisadores menos éticos. E na mesma essência da mais-valia, cria-se uma corrente do tipo “me adiciona que eu te adiciono”. Enquanto estes fingem que se ligam uns aos outros, cinco usuários do tipo papers (artigos científicos revistos por pares) desta ou daquela revista não conversam entre si, embora configurem um mesmo centro de pesquisa ou uma mesma editoria, dizem assuntos correlatos e utilizam a mesma bibliografia, quiçá o mesmo método. A revista, em bloco, é segmentada e o artigo é uma unidade. Dez usuários on-line. Isso para não dizer dos autores esconde-esconde. Aqueles que não publicam os dados relevantes de suas pesquisa e que acreditam guardar “o segredo” que lhes garantirão chegarem isolados ao pódio ban-ban-ban. Aí é falácia.

Quinze usuários on-line. Me publica que eu te publico! As instituições de pesquisa perceberam que seus índices de visibilidade crescem na medida em que elas são citadas e aparecem nos periódicos científicos. Vinte usuários on-line.

É claro que se a gente for parar para pensar, nem tudo é tão frio assim, mas trinta usuários on-line e o calor dos corpos revelam que a divulgação científica 1.0, em termos institucionais, pouco mudou com o passar dos tempos. Entra ano, sai ano, a cena se repete: pesquisadores isolados escondendo o jogo em prol da mais-valia. Ouro de tolo? Nem tanto. Quarenta usuários on-line.

Não é de hoje que se questiona a divulgação das informações científicas e se estuda a possibilidade de se fazer da ciência a partir de um movimento aberto, como mostra o artigo publicado na edição de abril da Scientific American “Science 2.0 – Is Open Access Science the Future?” (Ciência 2.0 – A Ciência de Acesso Público será o Futuro?) ao discutir como a web 2.0 pode impactar a forma como se faz e divulga ciência nos dias atuais. Cinqüenta usuários; há novas ferramentas on-line! Para este segmento das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), a idéia é colaborativa.

Cem usuários on-line. Na web 2.0, cujo conteúdo é o produzido pelo próprio usuário, as wikis –ferramenta colaborativa de construção de hipertexto– e os softwares com licença Open Source –cujo código fonte fica disponível na rede– criaram uma nova proposta de gerenciamento da informação, a divulgação científica 2.0.

Duzentos usuários on-line que se entretém, divulgam ou produzem ciência de forma nunca vista anteriormente, seja através de blogs, comunidades como o Orkut, realidades virtuais como a Second Life ou sítios como o YouTube. Quinhentos usuários on-line e uma licença de direitos autorais para conteúdos abertos, a Creative Common. Mil usuários em rede.