Renato Chaves Azevedo
Quem é?
Entrei no curso de Biologia achando que iria mudar o mundo descobrindo a cura de alguma doença como o câncer ou a AIDS. Lá pro meio do curso, entretanto, descobri que o tipo de mudança que o mundo precisa é de outra natureza e, desde então, passei a me dedicar visceralmente à educação e ao ensino de Ciências.
Contato
alavancabio@gmail.com
8º ICHSSE – Catalisador de revoluções?

Muitas pessoas – e acho que eu arrisco dizer a maioria das pessoas – têm uma dificuldade muito grande para entender e aprender Ciências. Todos aqueles nomes complicados da Biologia, as dezenas de fórmulas da Física e a abstração demasiada da Química dão um verdadeiro nó na cabeça. Por que isso acontece?

Essa é uma pergunta nem um pouco fácil de se responder, e existe uma área de pesquisa relativamente recente que se dedica a responder essa pergunta, entre algumas outras. Esse campo de pesquisa em Ensino de Ciência vem crescendo bastante nos últimos anos, alguns pesquisadores vêm se destacando e, melhor do que isso, começando a ser ouvidos. Como toda área de investigação, ela se divide em sub-áreas, que, por sua vez, também têm suas ramificações, e cada uma dessas “sub-sub-áreas” tenta abordar a questão por uma perspectiva diferente, cada um puxando a sardinha pro seu lado e etc. Enfim, todo aquele ritual que faz o conhecimento crescer.

Dentro da problemática do motivo das pessoas terem tanta dificuldade em entender Ciências, eu simpatizo muito com a idéia de que falta contexto no ensino. Aos alunos chega, via livro didático e professor mal pago, somente o produto acabado da Ciência – como se algum produto da Ciência fosse de fato acabado –, totalmente fora do seu contexto de produção. O rico processo de construção do conhecimento fica obscurecido por trás dos “grandes gênios da Ciência” que “fizeram tudo sozinhos”.

Decore todas as fórmulas e conceitos pra passar nas provas; esse é o nosso ensino de Ciências. Assim fica mesmo difícil aprender alguma coisa. Como aprender um conceito sem ter idéia de sua aplicação e de sua história? Esse ensino que consiste no professor dando respostas prontas pra perguntas que o aluno não fez simplesmente não dá certo. O professor repete as coisas que estão no livro didático, que por acaso são coisas que o aluno não está nem um pouco interessado em aprender.

Por essas e outras razões, acredito que deva haver uma mudança radical no ensino, mas radical em longo prazo; ela na verdade aconteceria aos poucos, um passo de cada vez. E um dos primeiros passos seria a inclusão da História e da Filosofia da Ciência no ensino. Não uma inclusãozinho de leve, com 2 ou 3 aulinhas sobre o tema. Falo de um verdadeiro mergulho na História da Ciência, que iria encharcar todas as aulas com contexto. O problema é que isso que para mim é apenas um primeiro passo já é visto como algo radicalíssimo por muitos, isso sem contar aqueles (que não são poucos), que acham que a História e Filosofia da Ciência não servem pra nada.

Realmente há muitos obstáculos par a implantação dessa idéia, e talvez o principal deles seja a falta de discussão sobre o tema, pelo menos no Brasil. Se a área de pesquisa em Ensino de Ciências é recente, no Brasil ela é ainda mais nova, com pouquíssimos pesquisadores. Dessa forma, esse tipo de discussão caminha em marcha muito lenta por aqui, e eu estou falando da academia. A transposição para a escola é outra história.

Por isso, fiquei muito feliz ao saber que esse ano, em Maresias, ocorrerão dois eventos, um em seguida do outro, que certamente vão catalisar as discussões sobre a inclusão da História e Filosofia da Ciência no ensino por aqui. Os eventos são a 8ª Conferência Internacional para a História da Ciência no Ensino de Ciências (8th ICHSSE) e a 1ª Conferência Latino Americana do Grupo Internacional de História, Filosofia e Ensino de Ciências (1ª HPTS-LA).

Os eventos são só em agosto, mas as expectativas já estão altas. As minhas, pelo menos. Não sei, talvez seja empolgação demais por um congresso que vai ser como qualquer outro, mas não se pode julgar alguém por sonhar, não é? O congresso é em agosto, as eleições em outubro. Quem sabe…

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Dinossauros, penas, insensatez e informação

Na ciência, algumas vezes são propostas idéias que simplesmente não agradam a todos. Seja por motivações ideológicas, religiosas, econômicas ou mesmo pelo gosto de cada um, algumas teorias podem incomodar bastante. A teoria da evolução é um exemplo bem conhecido, e talvez seja um dos melhores que existam. Na época de Darwin, panfletos maliciosos circulavam aos montes. Esses panfletos tentavam enfraquecer a teoria evolutiva não com argumentos científicos, mas pelo apelo às conseqüências da aceitação da teoria: “Se esse cara estiver certo, isso significa que somos parentes dos macacos! Nós não podemos ser parentes dos macacos, então ele só pode estar errado!”.

Na verdade até hoje sites criacionistas proliferam na internet com essa mesma intenção de ridicularizar uma teoria científica com argumentos não científicos. No entanto, essa semana achei na internet algo que me surpreendeu e chocou. Um sujeito leu um artigo da Nature do mês passado que trata de uma pesquisa que descobriu o provável padrão de coloração das penas de uma espécie de dinossauro. Ele não gostou muito. Na verdade ele não gostou nem um pouco. Ele ficou atordoado, mas não por terem descoberto a coloração das penas. O que o incomodou foi a premissa da pesquisa: alguns dinossauros tinham penas.

Ele ficou tão revoltado que começou uma campanha na internet contra a teoria dos dinossauros com penas. O lema de sua campanha é “Dinossauros com penas são uma teoria, não um fato!”, e seu argumento central é o seguinte: “Há alguns dias saiu uma história sobre como ‘cientistas’ estavam orgulhosos de terem descoberto qual a cor exata das penas de um tipo particular de dinossauro, o que é maravilhoso para eles, exceto pelo fato de que toda a idéia de dinossauros com penas é completamente estúpida. Os dinossauros são máquinas mortíferas cobertas de couro. Não são rainhas do Carnaval brasileiro”. Ou seja, como os dinossauros têm que ser malvados, eles não podem ter penas. Um belo argumento!

Uma das características mais legais da Ciência é o fato dela não ser fechada. Todas as teorias estão sempre abertas à discussão. Muito já foi escrito sobre como se dão essas discussões e sobre como uma teoria é substituída por outra. Evidentemente, este sujeito nunca leu nenhum desses escritos. Provavelmente não se informou melhor sobre a própria teoria que está atacando também.

Este é um caso extremo, mas acho que ele traz à luz uma questão bastante comum: a maioria das pessoas não tem a menor idéia de como a ciência funciona! Para esse cidadão não faltou sensatez (tá, talvez um pouco!), mas sim (in)formação. Esse é um caso do qual podemos rir, mas só até cair a ficha de que muitas pessoas só acreditam na Ciência que lhes convém. Foi assim com Darwin e é assim com os dinossauros. Enquanto as pessoas não entenderem como funciona a Ciência, vai ser difícil convencê-las a acreditar em coisas que elas não gostam só porque “é científico”. Kuhn, Popper, Lakatos, Feyerabend e outros filósofos já fizeram a parte deles. Todos sabemos que a escola tem um papel importante a cumprir, mas, para linkar com o texto do Thiago e criar um pouco de polêmica, qual é o papel dos divulgadores da Ciência nessa história? Como cumprir esse papel? Aparentemente, cuspir curiosidades científicas não é o caminho certo. Talvez, inclusive, seja um caminho bastante errado.

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Pra que serve esse bicho?

(I)

Estive no litoral recentemente e, numa conversa com meus amigos, disse que a craca é o animal que tem o maior pênis em relação ao tamanho do corpo. Maior do que a surpresa deles ao ouvir essa curiosidade foi a minha quando uma amiga perguntou: “Mas o que é uma craca?”. No dia seguinte, na praia, havia um galho na areia cheio de cracas, e então peguei o galho e mostrei para ela. Ela, com cara de indignação, disse: “Nossa, ISSO é uma craca? Pra que serve esse bicho?”.

Ela era a única não-bióloga do grupo em que eu estava, e não simpatizou com a idéia de que os bichos não precisam servir pra alguma coisa. Falei que Darwin estudou cracas por muito tempo e que os historiadores acreditam que ele aprendeu muita taxonomia, morfologia e ontogenética em seu trabalho com esses cirripédios, além de ter percebido coisas que o ajudaram mais tarde a escrever sua obra prima, A Origem das Espécies. Mas não adiantou.

(II)

Existe um grupo de seres vivos “conhecido” (entre aspas porque na verdade pouca gente conhece, mesmo entre os biólogos) como slime molds. Sua posição filogenética ainda é controversa; uns acham que eles são um grupo de fungos e outros defendem que eles são um grupo à parte, apenas aparentado aos fungos. De qualquer forma, tem gente que faz pesquisa com eles. E alguns desses pesquisadores fizeram uma descoberta muito interessante recentemente. Em resumo (mas vale a pena ler o artigo), ao estudar o padrão de crescimento e forageio (busca por alimento) de uma espécie de slime, descobriram uma forma de revolucionar os problemas de logística e transporte do Japão (!!).

(III)

Então, pra que servem slime molds? Ora, agora podemos planejar redes de transporte a partir do padrão de crescimento deles. Mas, antes disso, eles não serviam pra nada, assim como o fungo P. notatum não servia pra nada antes de descobrirem a penicilina. Mas e as cracas? E as baratas que nos enojam e os pernilongos que nos estorvam a noite? Pra que servem? No máximo, para manter o equilíbrio ecológico em seus hábitats, de onde extraímos coisas “úteis”. Na verdade, se formos medir o valor das espécies pela serventia que elas podem ter ao homem, é provável que descubramos que boa parte das espécies “não serve pra nada”. Mas, mesmo assim, elas fascinam muita gente, que dedica a vida inteira ao estudo dessas criaturas. Por que?

Cada louco com sua mania, poderíamos dizer. Se tem um cara que quer passar a vida estudando baratas, problema dele. Quem sabe um dia ele descubra uma forma de matar todas elas. Não é bem assim, e por vários motivos. Um deles (a importância do conhecimento básico) é muito bem tratado num texto da Laura, em que ela conta o preconceito que sofre por estudar bichos que “não servem pra nada”. Um outro motivo é que, pelo menos no Brasil, é muito provável que esse louco esteja estudando baratas com o seu dinheiro, já que o Estado financia boa parte das pesquisas no país.

Para finalizar, podemos dizer que quase a totalidade das espécies já existia muito antes do ser humano surgir na face da Terra. Assim, seria muito “especiocêntrico”, para não dizer mesquinho, achar que elas estão aí pra que a gente descubra serventias, como se elas fossem “um presente de Deus” pra gente explorar. Cada espécie tem uma história única, que nunca mais se vai se repetir. Cada espécie tem sua forma especial de se relacionar com as outras e tem um papel no ecossistema. Cada uma delas tem sua estratégia de sobrevivência e seus truques reprodutivos que, mesmo quando não são exclusivos, nos intrigam. Todas elas, desde o ser humano até a mais primitiva arqueobactéria, estão interligadas na sediciosa teia biológica da evolução. Se mergulhar nesse mar de mistérios em busca de respostas que nos deslumbram não bastar para que estudar essas espécies seja importante, eu realmente não sei o que pode ser. No fundo, uma craca, uma serpente ou um ser humano “servem” pra mesma coisa: absolutamente nada. São todos frutos igualmente especiais da grande árvore da vida.

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Fim do essencialismo?

Como se sabe, o essencialismo, uma filosofia creditada a Platão (428 a.C. – 347 a.C.), mas que provavelmente o antecedia, permeou o pensamento científico ocidental por mais de 2000 anos. O essencialismo foi uma das grandes barreiras que Darwin teve que enfrentar quando propôs sua teoria da evolução por seleção natural. Alguns estudiosos de Darwin acreditam que esse paradigma foi um obstáculo mais difícil de transpor do que as próprias idéias religiosas, que já estavam perdendo credibilidade há algum tempo por causa de outras descobertas científicas.

Ás vezes é dito que Darwin acabou com o pensamento essencialista. Ele certamente o abalou, ao demonstrar que essa filosofia não dá conta de explicar a origem e evolução das espécies sem tropeçar nas diversas evidências paleontológicas e geológicas que estavam aflorando em sua época. No entanto, o essencialismo não se restringe à Ciência. Ele é muito mais amplo do que isso.

O essencialismo postula que todas as coisas têm uma essência que é imutável. No campo da Biologia, isso significa que todas as espécies têm uma essência fixa e eterna; todos os coelhos têm a essência do coelho, ou seja, eles têm um conjunto de características que nos permite distingui-los como coelhos, apesar de alguns serem mais peludos ou maiores do que os outros. As pequenas diferenças entre os indivíduos das espécies eram facilmente explicadas porque a “essência ideal” era inalcançável, ela só existia no plano das idéias (de Deus), de forma que cada coelho seria apenas uma representação imperfeita desse modelo ideal. Cada indivíduo tinha uma imperfeição diferente em relação à essência perfeita (de Deus), logo, os indivíduos podem ser diferentes mesmo tendo todos a mesma essência. Darwin quebrou esse pensamento ao demonstrar que as espécies mudam ao longo do tempo. Se as essências são fixas, como poderiam as espécies mudar?

No entanto, o essencialismo continua aí. Essa história toda de “essência ideal” feita por Deus pode parecer meio absurda nos dias de hoje, mas para esclarecer as coisas basta pegarmos um exemplo mais próximo, como, por exemplo, uma cadeira.

Todas as cadeiras têm uma mesma essência: são objetos elaborados para nos sentarmos. Existe uma grande variedade de cadeiras. Desde banquinhos de plástico até poltronas reclináveis, desde assentos num ônibus até cadeiras de dentista, não importa, todas elas servem para a mesma coisa. Todas têm a mesma “essência ideal”, criada pelo homem, mesmo que difiram na cor, no tamanho ou no revestimento. Dessa forma, quando eu falo “cadeira”, todo mundo entende do se trata.

Sim, eu sou essencialista, e você também é. Toda vez que pegamos um conjunto de características e o extrapolamos, criando uma categoria onde inserimos coisas ou pessoas, somos essencialistas. Somos essencialistas quando falamos sobre “os muçulmanos”, “as pessoas de esquerda” ou até mesmo “a minha família”, pois ao fazer isso, estamos criando categorias a partir de características que acreditamos compartilhar com nosso interlocutor e estamos incluindo muitas pessoas nessa categoria, mesmo sem conhecer todas elas. “Os corintianos são bandidos” é uma típica frase essencialista – e preconceituosa.

E ser essencialista é ruim? Bom, se você estiver tentando entender a teoria da evolução, isso pode te atrapalhar. Mas parece que o essencialismo faz parte da lógica de nosso pensamento. Tente raciocinar sem criar categoria; é impossível! O pensamento tipológico é uma materialização da filosofia essencialista. Claro que essa tendência a pensar criando categorias (tipos) também favorece o desenvolvimento de preconceitos, já que “os negros”, “os judeus” e “as mulheres” formam categorias tão bem quanto “os talheres”, “os vizinhos”, “os países industrializados” ou “os meus amigos”.

Algumas pessoas defendem que a religião é um “contra” da nossa capacidade de imaginação. Talvez os preconceitos contra grupos inteiros que mal conhecemos sejam um “contra” da nossa forma lógica de raciocinar. Não sei, isso é só especulação, mas, ironicamente, parece que a única coisa imutável no essencialismo é ele mesmo. Talvez pensar de forma essencialista esteja na essência do homem.

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“Spider sense is tingling”

Certa vez, um velhinho muito sábio disse a seu sobrinho que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Tudo bem, tudo bem, esse velhinho é um personagem de quadrinhos, mas ele sabia do que estava falando. Esse é um texto sobre como a máxima do sr. Ben Parker pode se aplicar à Ciência.

O grande poder da legitimação

Não é novidade pra ninguém que a Ciência, na forma que tem hoje, é uma grande legitimadora de conhecimento. O conhecimento científico é visto como muito mais acurado e muito melhor do que os outros tipos de conhecimento, mesmo por aqueles que nada sabem sobre o processo de construção dos conhecimentos científicos. Ou seja, mesmo quem não sabe como funciona a construção de saberes na Ciência julga que esses saberes são mais válidos do que os seus próprios, adquiridos a partir de suas vivências. A Ciência tornou-se inquestionável, mesmo que seu pressuposto básico seja o questionamento e a busca pelo conhecimento. Por sinal, quando uma pessoa ouve uma explicação científica para um fenômeno qualquer, ela deixa de buscar esse conhecimento, pois, afinal, ele já está “pronto”. Se a Ciência falou, tá falado.

Em miúdos: atualmente a Ciência tem o poder de decidir qual conhecimento é válido e qual não é. É quase como poder de decidir o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é ruim (por exemplo, de uma semana para a outra a Ciência pode transformar o ovo de vilão a herói de nossa saúde, e seu parecer será definitivo, enquanto a opinião dos ruralistas que criam as galinhas de nada vale, afinal, o que eles podem saber sobre ovos?).

A grande responsabilidade da universalização

Se por um lado a Ciência nos permite feitos incríveis como chegar a Marte ou seqüenciar o DNA dos bichos, por outro ela marginaliza todas as pessoas que não entendem como esses feitos são possíveis, assim como todas as formas de pensar que não concordam com “o progresso da Ciência” – estas são vistas como reacionárias. Ela cria analfabetos, analfabetos científicos. Isso acontece porque, coincidentemente ou não, o conhecimento que a Ciência cria e valoriza é um que a grande maioria da população não tem acesso.

Existem dezenas de motivos pelos quais devemos defender a universalização do conhecimento científico, já que uma população alfabetizada cientificamente só traz desvantagens àqueles que dela querem se aproveitar. E é esse o ponto que levanto aqui; um ponto ideológico: é muito mais fácil convencer uma pessoa de que você está certo se ela não entender nada do que você está falando (os editores de Sokal que o digam!). Assim, uma população analfabeta cientificamente continuará a acreditar cegamente em tudo o que a Ciência disser, enquanto uma população alfabetizada iria se posicionar, questionar, criticar, etc.

Se a Ciência que se deseja é uma que se afasta da sociedade e se envolve numa áurea para parecer imaculada e neutra, então estamos no caminho certo. Mas sabemos que as coisas não são bem assim.A Ciência cresce na medida que mais e mais pessoas são capazes de entendê-la para questioná-la e, assim, alavancar seu desenvolvimento. Além disso, se todos entendessem a Ciência, a população iria assegurar que a Ciência vai concentrar esforços e verbas em áreas pertinentes para toda a sociedade, e não somente para os grupos dominantes.

A idéia central é que, se a Ciência têm o poder de decidir o que é verdade e o que é mentira, então ela tem a responsabilidade de validar verdades que sejam do interesse de todos, e a única maneira disso acontecer é garantindo que todos tenham acesso ao conhecimento que é produzido por ela. Limitar o privilégio do acesso ao conhecimento apenas às “mentes brilhantes” que freqüentam as universidades pode custar muito caro. Mais caro do que qualquer agência financiadora pode pagar. “Spider sense is tingling”.

“O aspecto mais triste da vida de hoje é que a Ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria” (Isaac Asimov).

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Pra quê?

José Oliveira se prepara para uma grande festa que ele vai dar. Essa festa simboliza uma grande mudança em sua vida, já que após três anos de cursinho ele foi finalmente aprovado no vestibular e irá cursar Economia numa das melhores universidades do país. Ele está muito aliviado porque nunca mais na vida vai ter que ouvir falar em isótopos, complexo de Golgi ou leis de Kepler. Ele odeia Ciências, e acha que todas as aulas de Ciências que teve na vida foram uma perda de tempo. “Nunca usei a Ciência que aprendi na escola. Não é preciso saber conteúdos científicos para entender o cotidiano”, diz.

As alegações de José são contundentes, e devem ser levadas a sério. Ele diz que saber ou não saber Ciências dá na mesma. Ele não precisa saber o que são pontes de hidrogênio para saber que a água demora mais pra ferver do que o leite, não precisa saber o que é índice de refração para usar óculos e lava louça tranqüilamente sem saber o que é uma molécula polar ou apolar.

José certamente não está sozinho. Muita gente concorda com ele, e a discussão que eles levantam é interessante e não trivial. Por que as pessoas têm que saber Ciências se, ao contrário de Línguas ou Matemática, muito pouco desse conhecimento é de fato aplicável ao dia-a-dia? José não vai mudar o jeito de viver se descobrir que uma dia existiu um tal de Trilobita ou que a água tem densidade máxima a 4ºC.

Poderíamos dar a José o argumento de Sagan, de que “a Ciência é como uma vela num mundo assombrado por demônios”, mas ele não aceita argumentos assim abstratos. Ele quer coisas concretas, aplicáveis, palpáveis. Pra que serve saber as partes de um átomo e tantas outras besteiras que os profs de Ciências insistem em dizer?

Há várias maneiras de retrucar José. Escolherei uma e convidarei os leitores a pensem (e, de preferência, comentarem) em outras.

Talvez José esteja certo em dizer que as aulas de Ciências que ele teve na vida foram uma perda de tempo. Sabemos que o modelo de aula e a concepção de educação que permeia nossas escolas estão muito ultrapassados. Mas o fato da aula ser ruim não significa que o conteúdo não seja importante. Existem professores péssimos de Matemática, mas isso não significa que não é importante saber contar. Talvez se José tivesse tido bons professores de Ciências, ele entenderia o argumento de Sagan, e gostasse de Ciência nem que fosse pelo exercício intelectual. Mas ele não teve, e não engole esse argumento.

Ora, se José é tão espertalhão e só quer saber das coisas concretas, então ele não pode negar que a tecnologia, uma das facetas da Ciência, interfere diretamente em sua vida. Mesmo assim, ele poderia argumentar que ele não precisa saber como funciona um pen drive para usar um. Correto. Mas e se formos para assuntos mais polêmicos, como clonagem humana, alimentos transgênicos, células tronco, créditos carbono ou robôs que tiram o emprego de centenas de homens?

José quer saber das coisas paupáveis, mas, por não gostar de Ciência, não a vê como empreendimento humano. Não entende que a Ciência e a sociedade estão altamente interligadas, e que se ele não souber um mínimo de Ciência (que não é tão pouco assim) ele vai ser só mais uma ovelha no rebanho. José quer ser questionador, mas como vai questionar a Ciência se não a conhecê-la?

Grande parte do financiamento para pesquisa é feita com dinheiro público – o dinheiro do José de todas as outras pessoas. Isso significa que o Governo, ao invés de ampliar as vagas nas Universidades públicas, está investindo milhões para sequenciar DNA de cana. Se fosse diferente, José não precisaria ter feito três anos de cursinho. Mas se ele não souber o que é DNA e não souber o que a cana tem de tão especial, ele nunca vai entender onde estão gastando o seu dinheiro.

Reações de combustão, fotossíntese e comprimentos de onda parecem coisas abstratas. Mas dinheiro, emprego e tempo de cursinho são bastante concretos. A relação entre essas coisas só será visível para José se ele entender um pouquinho de Ciência. Cidadania tem tudo a ver com Ciência, mas infelizmente pouca gente sabe disso.

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Fatos fatídicos

“Helado”, em Espanhol, não significa “gelado”. “Bixa”, em português de Portugal, não significa “gay”. De forma semelhante, existem alguns termos que são utilizados em Ciência que têm significados muito diferentes do que parecem ter. Dois desses termos merecem atenção especial: “teoria” e “fato”.

Na linguagem do dia-a-dia, dizer “eu tenho uma teoria” é o mesmo que dizer “eu acho que”, ou seja, as teorias carregam um alto grau de incerteza. Em contrapartida, na Ciência as teorias são hipóteses altamente corroboradas e bem fundamentadas. Atentaremos-nos a isso em algum outro texto. Este aqui tratará da diferença entre um fato do dia-a-dia e um fato científico. Para isso, peço que o leitor considere os dois grupos de afirmações a seguir:

Grupo 1: “Joãozinho andou de bicicleta ontem”. “A filha de Maria nasceu dia 5/12”. “O Flamengo ganhou o Brasileirão”.

Grupo 2: “A Terra gira em torno do Sol”. “Todas as espécies têm um ancestral comum”. “A Terra tem 6 bilhões de anos”.

Quais as diferenças entre os dois grupos de sentenças? O Grupo 2 contêm apenas afirmações científicas que são bastante aceitas atualmente, enquanto o Grupo 1 consiste de afirmações sobre acontecimentos cotidianos. Se olharmos um pouco mais a fundo, podemos perceber que as diferenças não param por aí, e passam pela questão fundamental que diferencia um acontecimento científico de um não-científico. Para perceber essa diferença, analisemos os grupos separadamente:

Grupo 1: O Flamengo ganhou o Brasileirão. Ponto. É um fato. Se você torce por outro time e não gostou do resultado, azar o seu! Não há nada que você possa fazer, pois esse fato é imutável. Por toda a eternidade ficará constado que o campeão brasileiro de 2009 foi o Mengão. Da mesma forma, a filha da Maria nasceu dia 5 de dezembro. Ponto. Pelo resto da vida, é nesse dia que ela comemorará seu aniversário. Nada pode mudar o dia em que ela nasceu.

Grupo 2: A Terra tem 6 bilhões de anos. Pelo menos até encontrarem uma rocha mais antiga que isso. Além disso, não faz muito tempo que esse fato (?) foi aceito. Na verdade, existem pessoas – e não são poucas – que acreditam que o mundo não tem mais do que 6 mil anos. De forma semelhante, as voltas que a Terra dá em torno do Sol nem sempre foram um fato. Antes era fato que o Sol girava em torno da Terra.

Percebe-se que os fatos do Grupo 1 têm duas características bem claras: são inquestionáveis e imutáveis. A mãe do Joãozinho pode não gostar nem um pouco do fato dele ter andado de bicicleta ontem, mas ele andou, e acabou. Ela pode deixar ele de castigo, mas não pode mudar o fato. Já no Grupo 2, os fatos tem propriedades bem diferentes: estão sempre abertos à discussão e podem mudar.

Essa análise simples nos permite perceber uma propriedade importante dos fatos científicos: ao contrário dos fatos do cotidiano, eles nunca são verdades por si mesmos, mas dependem do que vai acontecer com eles nas mãos dos outros. Não existem “verdades absolutas”. Um fato é apenas alguma coisa que uma grande quantidade de pessoas da área aceita como verdadeira, e essas coisas são negociáveis, e mudam ao longo do tempo.

Isso é um pouco difícil de enxergar quando olhamos para fatos já bastante consolidados como a ancestralidade das espécies ou a heliocentricidade do sistema solar, mas fica fácil se olharmos para um fato que está em construção. Peguemos o exemplo do ovo. Comer ovo faz bem ou faz mal? Uma semana é “fato” que ovo aumenta o colesterol e faz um grande estrago no corpo, na outra, é “fato” que ele é um alimento muito rico que pode ser consumido sem restrições.

Na Ciência os fatos mudam porque eles não são nada por si mesmos, mas dependem da quantidade de pessoas que acreditam nele. Na medida em que os cientistas vão coletando mais e mais evidências para defender o seu ponto de vista, eles vão puxando o fato mais para o seu lado, mas isso não os torna mais verdadeiros, apenas mais aceitos. Uma nova descoberta ou uma nova estrutura conceitual (Revolução Científica) pode mudar a veracidade de muitos fatos. Assim, quando falamos de fatos cotidianos, estamos falando de acontecimentos, mas quando falamos de fatos científicos, estamos falando de pessoas e de suas “crenças”, por mais bem embasadas que essas “crenças” possam estar. Pessoas podem duvidar que o mundo tenha 6 bilhões de anos, mas ninguém pode duvidar que o Flamengo ganhou o campeonato.

Como conseqüência, temos que se um cientista faz uma pesquisa e propõe um novo fato que outro cientista não gostou, esse outro cientista pode contra argumentar, e, se vitorioso, mudar o fato. Isso abre margem para que interesses externos manipulem os fatos científicos. Fritjof Capra já dizia que boa parte dos fatos na área médica está permeada por interesses das indústrias farmacêuticas.

Essa negociabilidade dos fatos científicos pode parecer bem esquisita para quem é de fora, mas, em contrapartida, é uma das características que torna a Ciência tão interessante, e que fez pensadores como Kuhn e Popper fritarem os neurônios para tentar entender como se dão essas negociações e como os fatos são construídos e desconstruídos ao longo do tempo.

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Doutrina Monroe na Ciência

Os leitores desse blog devem saber bem que os cientistas são pessoas tão normais quanto qualquer outra. Eles não carregam nada de especial ou de sobrenatural; são apenas pessoas que têm um trabalho, que porventura é o de cientista. Assim como as pessoas normais, os cientistas têm interesses pessoais que eles muitas vezes colocam à frente dos interesses da coletividade, e esses interesses muitas vezes se deixam transparecer nas posições que eles assumem dentro da Ciência.

Mais do que isso, muitas vezes os cientistas tentam utilizar a própria Ciência para legitimar o seu ponto de vista pessoal sobre determinado assunto. Certa vez escrevi um texto que tangia essa questão ao falar de tempos não tão remotos assim em que a teoria da evolução de Darwin foi distorcida para “provar cientificamente” que os ricos são mais inteligentes que os pobres. “Doutrina Monroe na Ciência” é um texto sobre um outro grupo de cientistas tendenciosos que acham que a idéia de tornar a Ciência acessível a todos não é muito boa. Para eles, a Ciência deve ser deixada para os cientistas, os únicos capazes de entendê-la de verdade.

“América para os americanos”

O final do séc. XVIII e início do XIX foi um período bastante conturbado na América Latina, e em especial na América Central. Vários países que até então ainda eram colônias conquistaram a independência política de suas metrópoles européias, que desde o início do séc. XVI exploravam e extorquiam essas terras e esse povo.

Enquanto as ex-metrópoles européias calculavam o rentável saldo de 300 anos de exploração, uma emergente potência da América do Norte viu nessa situação uma possibilidade de se dar muito bem. A estratégia era simples, e deu muito certo. Ela consistia basicamente em se “fazer de bonzinho” e ficar do lado das ex-colônias, defendendo-as de possíveis re-colonizações européias. Seu elaborador, o então presidente dos Estados Unidos James Monroe, a divulgou numa mensagem mandada ao congresso dos EUA em 1823:

“Julgamos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência européia”.

Por trás do discurso, uma mensagem clara: “Sai pra lá, Europa! Agora é nossa vez de colonizar!” Os países latino-americanos trocaram (sem muita escolha, na verdade) um colonizador por outro, por quem são explorados até hoje.

“Ciência para os cientistas”

Em 1995, Morris Shamos escreveu o livro “The Myth of Scientific Literacy”, em que defende que a idéia de que toda a população pode ser alfabetizada cientificamente é um mito. Segundo ele, a Ciência é difícil e complexa demais para que as pessoas comuns consigam entendê-la o suficiente para participar das discussões científicas que afligem a sociedade nos dias de hoje. Assim, questões como o aquecimento global, o uso de células tronco, a destruição de florestas, a extinção de espécies, a clonagem humana, etc., não devem ser discutidas pelas pessoas comuns, por que, afinal, são assuntos da Ciência, e os assuntos da Ciência são complicados demais para que as pessoas entendam o que está em jogo. O julgamento delas é inútil, já que elas não têm, e nunca terão, nem o conhecimento técnico nem as capacidades intelectuais que os cientistas têm.

Já que a “Ciência de verdade” é inatingível para a maioria das pessoas, o autor defende a idéia de que a educação das massas deveria conter não um ensino de Ciências, mas um “curso de apreciação da Ciência”, parecido com os cursos de apreciação musical que alguns colégios têm. O objetivo desses cursos seria a diversão e o entretenimento, uma vez que investir numa formação científica para a cidadania é perda de tempo. Ele diz que a educação científica como existe hoje é penosa e ineficaz para os estudantes, e que as coisas não precisam ser assim. Já que ninguém vai aprender nada mesmo, que pelo menos eles se divirtam. Já aqueles que têm “o dom para ser cientistas” deveriam receber uma educação tradicional, com aulas expositivas e práticas, como as que existem hoje em dia.

Os argumentos levantados pelo Sr. Shamos são altamente polêmicos e questionáveis (tenho certeza que o leitor deve ter encontrado vários furos), mas isso de forma alguma o torna  um maluco que escreveu um livro infeliz. Ele é apenas um dos muitos cientistas que defendem uma linha de pensamento elitista e reacionária que, obviamente, está pautada em escolhas e interesses políticos.

Se levarmos a cabo as idéias desses de cientistas, teremos um cenário em que um pequeno grupo de pessoas “abençoadas com o dom para serem cientistas”, que – olha só que coincidência! – são quase todas das classes mais ricas, discutem a Ciência e tomam decisões que vão atingir toda a sociedade, enquanto as pessoas mais pobres (que são a imensa maioria da população) são iludidas com uma Ciência lúdica, sensacionalista e falsa. Essa Ciência “divertida” seria um verdadeiro presente para as classes mais pobres, que não precisariam mais ser massacradas pelo árduo conhecimento científico que são obrigadas a engolir nas escolas.

James Monroe manteve a Europa longe da América Latina para que os EUA pudessem se banquetear nos recursos desses países pobres. Shamos e seus colegas gostariam de manter a Ciência autêntica longe do “povão” para que as classes mais ricas possam continuar se banqueteando nos recursos que uma população alienada tem para oferecer. Tudo isso é só uma resposta das amedrontadas elites aos movimentos progressistas na educação científica. A idéia de uma população letrada não interessa muito a eles.

“Julgamos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses das classes dominantes, que o conhecimento científico, em virtude das condições elitizadas que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetível de ser acessado por nenhuma pessoa de baixa renda”.

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Como fabricar um quebra-cabeça impossível

Um aspecto interessante da Ciência é que para cada pergunta que é respondida, várias outras são feitas, o que, em teoria, torna o processo de investigação infinito. Dessa forma, a cada dia que passa, assuntos cada vez mais específicos vão sendo pesquisados e descobertos. Quando essas novas descobertas são divulgadas para a comunidade científica nas revistas especializadas, os títulos dos artigos até assustam, como por exemplo, ABA-Activated SnRK2 Protein Kinase is Required for Dehydration Stress Signaling in Arabidopsis”.

Arabidopsis é o “apelido” da espécie Arabidopsis thaliana, uma planta muito famosa entre os geneticistas por que ela foi a primeira planta que teve o genoma seqüenciado. Assim, um número muito grande de pesquisadores trabalha com essa planta, mas não por que ela seja especialmente interessante ou bonita ou importante. Escolhem-na por que ela já tem o genoma seqüenciado, e é isso.

Tá…Então os cientistas que fizeram essa pesquisa (que, se você quiser, pode tentar ler aqui) descobriram que para que o processo de sinalização de stress por desidratação dessa planta ocorra, um tipo específico de proteína Kinase é ativado pelo hormônio vegetal ABA (Ácido abscísico). Para isso, eles utilizaram métodos extremamente complexos e máquinas que ninguém sabe que existem. É necessário muito treino para saber mexer nessas máquinas e muito estudo – muito mesmo! – para entender os processos que estão envolvidos nesse tipo de pesquisa, ou seja, pesquisar isso não é pra qualquer um; é preciso ser um especialista na área.

Aí entra uma questão fundamental para a Ciência. É muito provável que os pesquisadores que fizeram essa descoberta não façam a menor idéia de onde essa planta vive, de suas estratégias reprodutivas, de suas relações com os outros seres vivos de seu habitat, etc. Em momento algum da pesquisa esses “detalhes” foram importantes. Esses pesquisadores se especializam tanto na área da Biologia Molecular que não conseguem mais ver as coisas de uma forma ampla.

Isso não acontece só na área da Biologia Molecular. Acontece em todas as áreas de todas as Ciências. Quanto mais a pesquisa sobre determinado assunto avança, mais especialista tem que ser o sujeito que vai dar prosseguimento a essas pesquisas. Dessa forma, não existem mais “físicos”; existem físicos especialistas em física nuclear, físicos especialistas em transmissões de alta freqüência, e assim por diante. Esses profissionais, no processo de sua formação altamente especializada, acabam deixando de estudar outras coisas importantes, e muitas vezes “de propósito”. Quem estuda abelhas acha que as abelhas são os bichos mais legais do mundo e não está nem aí pros ursos ou pras bactérias. Já quem estuda gimnospermas não quer nem saber das abelhas, e muito menos dos fungos ou das andorinhas. É criado um vínculo forte com a área de estudo, como se ela fosse mais importante do que todas as outras, e os cientistas não se interessam mais em estudar coisas que não sejam de sua área – e pior, isso é valorizado, porque quanto mais especialista for o cara, melhor.

Como atualmente a maioria das áreas de pesquisa já está bem desenvolvida, a maior parte dos cientistas de hoje são especialistas. A questão é: para onde isso vai nos levar? Os cientistas que têm um conhecimento amplo e uma visão integrada estão dando lugar à “Zé Bitolas” tolos o suficiente para achar que uma área do conhecimento é mais importante do que outra.

Enquanto por um lado a especialização é necessária para que a Ciência continue progredindo, os cientistas que se especializam perdem a capacidade de integrar o conhecimento que eles mesmo produzem com o conhecimento que o resto da humanidade já construiu historicamente, porque para eles não é interessante estudar esse “resto”. Hoje temos uma quantidade absurdamente enorme de artigos publicados sobre coisas altamente específicas. Amanhã pode ser que essa infinidade de artigos se transforme num quebra-cabeça impossível, não porque os artigos não têm conexão entre si, mas porque não vai ter mais ninguém capaz de perceber que eles formam uma figura; cada um vai estar preocupado apenas com a sua pecinha.

Auguste Conte, em seu Curso de Filosofia Positiva, já em 1830 previa esse momento. Ele dizia que a Ciência é como uma árvore: ela vai se ramificando em vários galhos, que vão se ramificando em galhos cada vez menores e menores, mas todos os galhos estão de alguma forma conectados ao tronco principal, e ele advertia fortemente para que isso nunca fosse esquecido.

Nem 200 anos se passaram e agora parece que estamos tentando plantar uma árvore para cada área do conhecimento. É preciso que a formação polivalente dos cientistas seja valorizada e que a Ciência ande mais devagar para o seu próprio bem.

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Um pequeno mal entendido. Ou não.

O naturalista britânico Charles Darwin foi imortalizado pelo livro que publicou em 1859, “A Origem das Espécies por meio da Seleção Natural”. Nesse livro ele faz uma grande síntese de várias idéias sobre evolução biológica que estavam borbulhando em sua época e propõe um mecanismo pelo qual a evolução poderia ocorrer: a seleção natural. A idéia básica é a de que existem muito mais indivíduos nas populações do que a quantidade que os recursos do ambiente dão conta de sustentar (idéia que ele emprestou de Malthus) e, sendo assim, vários indivíduos morrem. Quais indivíduos? Darwin acreditava, embora não soubesse explicar, que existiam variações entre os indivíduos de uma mesma espécie e que essas diferenças tornavam alguns indivíduos mais aptos do que outros a sobreviver em determinado ambiente. Assim, os indivíduos que tivessem características que os favorecessem a conseguir mais alimento, gastar menos energia, etc., teriam uma chance muito maior de sobreviver do que os que não tivessem essas características ou a tivessem num nível menos eficiente. É importante ressaltar que o que define se uma característica é vantajosa ou não é o ambiente; ter respiração branquial pode ser uma ótima estratégia se você for um ser aquático, mas provavelmente vai te matar se você for terrestre.

A idéia parece simples, mas não é tão fácil assim entende-la, e as tentativas de simplificação da teoria de Darwin dificilmente são bem sucedidas. Duas frases ficaram muito famosas e são sempre lembradas quando se fala de evolução: (1) “Os mais fortes sobrevivem” e (2) “A sobrevivência dos mais aptos”, e muita gente acha que a evolução é simples assim.

No séc. XIX, um grupo bastante parcial utilizou a teoria da evolução de Darwin para justificar as desigualdades sociais e para propor uma forma “científica” de acabar com ela. Esse movimento ficou conhecido como Darwinismo Social, e a idéia era bem clara: “Se são os mais aptos que sobrevivem, e os pobres não conseguem sobreviver direito, então eles não estão bem adaptados à vida na sociedade. Eles devem ser eliminados”. É isso mesmo que você leu. Se existem ricos e pobres, é por que os ricos devem ter alguma característica intrínseca que os favorece, e essa característica é boa para a espécie humana. Os pobres, por sua vez, são pobres por que devem ter alguma característica intrínseca (incompetência, vagabundagem, etc.) que os desfavorece, e essas características são ruins para a espécie humana. Sendo assim, se a gente matar todos os pobres, vamos eliminar os indivíduos que têm características ruins para a nossa espécie e, dessa forma, vamos contribuir para a evolução humana. Mãos a obra!

De fato, colocaram as mãos pra trabalhar. A idéia de melhoramento da espécie humana, conhecida como Eugenia, mobilizou muitas pessoas. Essas pessoas se organizavam em instituições (Sociedades Eugênicas) e faziam intervenções na sociedade como, por exemplo, programas de castração de pobres. No séc. XX, Hitler, um grande camarada eugênico, utilizou esse mesmo ideário para dizer que os judeus e os negros eram inferiores e para justificar que a raça ariana era a melhor. No Brasil existia o Comitê Central de Eugenismo, que propunha a proibição da imigração de não brancos e medidas para impedir a miscigenação. Dizem as más línguas que Monteiro Lobato, o renomado escritor infantil, fazia parte desse comitê (Jeca Tatu e Tia Nastácia que o digam!).

Darwin não tinha a menor intenção de que nada disso ocorresse, e inclusive dedicou um livro inteiro à evolução humana (“The Descent of Man”, de 1869) para deixar claro que há diferenças entre a seleção natural e a seleção em humanos. Mas isso não adiantou muito; seu próprio filho (um dos 10) foi um dos primeiros cérebros do movimento eugênico na Inglaterra.

Foi tudo isso um grande mal entendido dos escritos de Darwin ou será que distorceram propositalmente a teoria do grande naturalista para justificar genocídios e campos de concentração? No final das contas, não importa muito. Esse movimento, embora enfraquecido, ainda está vivo, e tomou outras formas. Enquanto muita gente acha que evolução se resume a pescoços de girafa tentando alcançar as folhas mais altas das árvores, negros e outras minorias ainda sofrem intensa discriminação, e de vez em quando ainda aparecem alguns cientistas falando das vantagens do “embranquecimento da população mundial”.

O fato é que é preciso entender muito bem a teoria evolutiva para desconstruir esses argumentos tendenciosos e perceber que não é bem assim que as coisas funcionam. “Os mais fortes sobrevivem” é uma simplificação ingênua demais de uma teoria altamente complexa, principalmente quando aplicada a uma espécie que não tem apenas diferenças morfológicas e comportamentais, mas também culturais.

Se alguém achava que a Ciência só faz interface com a sociedade quando aplicada à tecnologia ou à saúde, espero ter dado um bom exemplo para mostrar que essa relação é muito mais íntima do que parece, como bem podem dizer os judeus, ou os negros, ou os pobres.

Para saber mais, leia esse texto aqui:

Bizzo, 1995 – Eugenia: Quando a Biologia faz falta ao cidadão.

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