Ricardo S. Reis dos Santos
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Podem os vírus ter-nos tornado humanos? – Parte I

A questão começou por ser filosófica. Numa sessão da American Philosophical Society de 15 de Novembro de 2003, o virologista Luis P. Villarreal, director do Centro de Investigação em Vírus da Universidade da Califórnia em Irvine perguntava: «Can Viruses Make Us Human? A ciência tinha uma resposta objectiva. Não. Os vírus, que nem sequer seres vivos são considerados, são parasitas moleculares cujo interesse primordial consiste em induzir doenças no seu hospedeiro. Neste sentido, os vírus são qualquer coisa de maléfico. Veja-se o caso do VIH causador da SIDA que todos os anos ceifa milhares de vida em todo o mundo. Ou o vírus H1N1 que ameaçava dizimar populações inteiras. Ou ainda o temível vírus Ébola que nos filmes é-nos apresentado como uma espécie de assassino em série. Ou então o mais contido vírus da gripe sazonal que todos os anos faz com que milhões de pessoas passem os seus dias a espirrar. Para tornar tudo isto ainda mais grave, não há forma de os combater. Por conseguinte, como podem os vírus ter-nos tornado humanos? Não, para nós, o grande plano dos vírus sempre foi exterminar os humanos. Acontece que, além da objectividade pura não existir, a resposta da ciência a esta questão está profundamente afectada por uma subjectividade. Na verdade, alguns cientistas têm sido de tal modo convincentes que nós acreditámos sem qualquer resistência nos seus delírios. Estamos pois todos dentro ou fora da realidade, como acontece nos chamados delírios partilhados. Provavelmente, mais fora do que dentro. Talvez aqui a filosofia possa dar uma ajuda. Por exemplo, segundo Peirce, a realidade é tudo aquilo que nos provoca resistência. Quer isto dizer que se há qualquer coisa que cause resistência à nossa expectativa, então é provável que essa qualquer coisa seja real. A ciência é uma incessante busca pela realidade. E é escrita a lápis de carvão. Porque a ciência vive na eminência de ter de ser rescrita uma vez, e outra vez, e ainda mais outra. Aliás, a história da ciência é um livro rasurado em todas as suas páginas. O caso dos vírus é um exemplo bastante eloquente. Investigações recentes têm defraudado persistentemente as nossas expectativas. O que significa que, por certo, nos aproximamos cada vez mais da realidade.

Para hoje vejamos apenas o caso dos retrovírus endógenos. Em 2003 foi publicado um artigo muito interessante nos Proceedings of The National Academy of Sciences. Nele se falava sobre a capacidade que estes retrovírus apresentam na regulação do crescimento e diferenciação da placenta em ovelhas. Quer isto dizer que as ovelhas contém no seu genoma aproximadamente 20 cópias de um retrovírus endógeno altamente relacionado com o retrovírus exógeno e patogénico Jaagsiekte. Sendo endógeno e abudantemente expresso no tracto genital das ovelhas, ele não vai causar doença mas antes dar um contributo decisivo na morfogénese da placenta. E de tal forma que se for inactivado, então o desenvolvimento embrionário torna-se inviável. Ou seja, sem este vírus as ovelhas depressa deixavam de ser ovelhas.

Mas não se pense que isto é uma aberração da natureza sem qualquer significado. Na verdade, os retrovírus endógenos abundam nos genomas dos vertebrados, incluindo os humanos. Estima-se que 10% do nosso genoma contém sequências de origem retroviral muito diferentes entre si mas englobadas na denominação genérica de retrovírus endógenos humanos. E, espantem-se, pouco tempo depois de ter sido detectado nas ovelhas o tal retrovírus endógeno com funções na morfogénese da placenta, o mesmo retrovírus foi detectado por uma equipa de investigadores no útero de uma mulher justamete com as mesmas funções.

(continua)

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Com o coração do lado direito

Há dias, estava eu a tentar por ordem nas dezenas de ficheiros que flutuam no ambiente de trabalho do meu notebook, quando de repente me salta aos olhos um artigo sobre competição espermática. Ah, os espermatozóides! Lembrei-me logo de uma história que eu costumo sempre contar quando pretendo mostrar a alguém como a lógica da vida nos prega uma valente rasteira de cada vez que julgamos saber tudo. 

Woddy Allen

Os espermatozóides, como todos sabem, têm uma cauda. E é precisamente essa cauda que lhes permite moverem-se com todo aquele vigor olímpico merecedor de uma ode pítica. Os biólogos chamam-lhe flagelo. A sua construção inicia-se com uma proteína chamada tubulina, que se organiza em longas estruturas tubulares, formando microtúbulos, que por sua vez se organizam em pares e se dispõem em círculo. Entre cada par, uma outra proteína chamada dineína põe ordem no sítio. Surge então o flagelo em todo o seu esplendor. Mas os espermatozóides não têm o exclusivo comercial destas estruturas. Os cílios, por exemplo, estruturalmente semelhantes aos flagelos mas mais curtos, batem aos molhos no nosso tubo respiratório, com a função de escoarem o muco e de filtrar e aquecer o ar inspirado. Os lagos e os mares estão cheios de microorganismos feitos de uma célula só rodeada por eficientes cílios e flagelos que lhes permitem mover-se de um lado para o outro. Os flagelos e os cílios são uma espécie de invenção mirabilis da Natureza. Mas como não há bela sem senão, é por causa deles que algumas pessoas têm o coração do lado direito. Pois. Do lado direito.

Como dizia há pouco, a dineína é a proteína que põe ordem no sítio e, mais importante ainda, gera a força mecânica necessária ao movimento dos cílios e dos flagelos. O que significa que, quando há uma falha na sua produção, instala-se um verdadeiro caos. Os flagelos e os cílios não batem e, por conseguinte, as células não podem cumprir a sua missão. A desordem instala-se. E se os espermatozóides não nadam então os homens afectados são estéreis. E se os cílios do tubo respiratório não batem então surgem as bronquites recorrentes e as sinusites e otites crónicas e aqueles narizes sistematicamente atolados em ranhoca e cheios de pólipos no seu interior. E se os flagelos e os cílios não batem então o coração fica do lado direito. Cinquenta por cento dos indivíduos que sofrem de síndrome da imotilidade ciliar sofre também de situs inversus com dextrocardia. Quer isto dizer que a assimetria corporal, definida pelas posições descentradas de órgãos ímpares como o coração, o intestino, o fígado e o apêndice, se encontra invertida e dá origem a pessoas simétricas das pessoas normais. É como se a imagem do espelho tomasse vida. Os que padecem conjuntamente dos três problemas, espermatozóides imóveis, cílios imóveis e situs inversus, dizem-se afectados pela síndrome de Kartagener, um subgrupo da síndrome da imotilidade ciliar. Kartagener porque foi precisamente este senhor que em 1933 fez com que este síndrome passa-se a letra impressa nos livros de medicina.

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Uma nota breve sobre a adaptação das espécies II

Mas afinal o que é que faz com que haja tanta variedade? Para os neodarwinistas, essa variedade resulta fundamentalmente das mutações e da recombinação génica. Mas há um outro mecanismo de produção da variação que é a simbiose e a transferência horizontal de genes. Por exemplo, quando começámos a sequenciar o genoma humano, ficámos surpreendidos pela quantidade de DNA que aparentemente não tinha qualquer utilidade. Era referido como junk DNA. Hoje sabemos que esse lixo é afinal informação genética de vírus e bactérias que a determinada altura integraram o genoma humano. Por exemplo, porque razão a nossa flora intestinal se mantém ordenadamente dentro de certos parâmetros fisiológicos e apenas com aquelas variedades de bactérias? Certamente porque houve transferência horizontal de genes. Um outro exemplo bastante paradigmático é o caso da lesma Elysia chlorotica que ao alimentar-se da alga Vaucheria litorea tem a capacidade de incorporar no seu epitélio intestinal os cloroplastos desta, e apenas desta, alga, mantendo-os viáveis por um período de cerca de 8 meses. No final desse período, ingere e integra novos cloroplastos. Ora, para isto acontecer, teve que haver uma transferência horizontal de genes por forma a que esses cloroplastos se mantenham viáveis. Na verdade, foram identificados no genoma da E.chlorotica genes – por exemplo, rbcL, rbcS, psaB, psbA – da alga V.litorea que possibilitam que haja uma tradução e transcrição activa de genes cloropastidiais dentro do animal hospedeiro. O que é, digamos assim, algo de absolutamente surpreendente. Por conseguinte, mutações, recombinação génica e simbiose são os grandes produtores de variedade contribuindo assim para uma maior possibilidade de adaptação por parte das espécies aos múltiplos desafios ecológicos.  

Será que é mesmo assim? Dawkins dirá que sim, que somos escravos de genes egoístas. Mas o conceito de adaptação também pode ser discutido noutra dimensão. Eu comecei por dizer que a adaptação é apenas aparente, o que na verdade acontece é que é a diversidade de características que possibilita a adaptação. No entanto, há casos em que a adaptação é comportamental e até mesmo cultural e tecnológica. Por exemplo, o engarrafamento do oxigénio permitiu-nos explorar novos mundos. Ou então coisas tão simples como a invenção de fatos térmicos que nos permitem aguentar temperaturas negativas que em condições normais seriam fatais. Até mesmo nas relações sociais nós desenvolvemos estratégias comportamentais de adaptação. E não se pense que isto é um exclusivo dos humanos. Muitos outros animais desenvolvem estratégias comportamentais, muitas delas adquiridas pela transmissão cultural. Por exemplo, os chimpanzés que fabricam instrumentos, as garças de Trinidad que usam um isco para capturaram peixes na superfície do lago, o abutre do Egipto que recorre a pedras para quebrar a casca dos ovos capturados, estorninhos que se esfregam com formigas porque o ácido fórmico elimina os parasitas, etc. Ou seja, a adaptação não é exclusivamente genética, isto é, ao nível dos genes, mas é também cultural.

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Uma nota breve sobre a adaptação das espécies I

É frequente dizer-se que as espécies se adaptam. Por exemplo, mamíferos como os golfinhos, adaptaram-se às circunstâncias da vida marinha. Os bicos dos tentilhões das Galápagos adaptaram-se às características peculiares de cada uma das ilhas. Os membros do morcego adaptaram-se ao voo. Em teoria, perante os novos cenários climáticos é provável que muitas espécies se adaptem às novas circunstâncias ecológicas. É provável que o urso polar reduza a espessura da sua camada de gordura, ou então que as orelhas dos elefantes se tornem maiores para uma mais eficaz dissipação do calor. A adaptação das espécies é para nós quase uma banalidade. Em diferentes contextos, as espécies adaptam-se. Ponto final.

A adaptação das espécies é pensada ao jeito lamarckiano, isto é, a adaptação das espécies é vista como um esforço intencional de conformar a sua morfologia e a sua fisiologia a um determinado contexto. Como se a adaptação fosse uma resposta a um estímulo do meio envolvente. Quando, na verdade, ela é espontânea. Por exemplo, a girafa bem pode esticar o pescoço que ele não vai crescer mais por isso. A possibilidade de adaptação está na diversidade genética. Fazendo referência a um exemplo clássico, não é pelo facto de a poluição industrial ter enegrecido os troncos que fez com que a espécie Biston betularia se tornasse de repente de cor escura. Não, o que aconteceu foi que essa possibilidade de adaptação já existia. Traças de cor escura já existiam na população embora  em muito menor número. No entanto, a nossa interpretação vai no sentido de achar que aquela espécie fez um esforço estoico para sobreviver.

Adaptar significa qualquer coisa como “tornar apto”. Neste sentido, quando se diz que uma espécie se adapta, então estamos a dizer que uma espécie está a tornar-se apta. E, como nos ensinou Darwin, apenas os mais aptos são seleccionados, sobrevivem e se reproduzem. No entanto, aqui o verbo “tornar” alude à ideia de “mudar para”. Ou seja, as espécies ao adaptarem-se, estão ao fim e ao cabo a mudar para uma condição que as torne mais aptas naquele contexto. E essa condição agora pode ser morfológica ou fisiológica ou até comportamental. E no entanto, fica a ilusão que essa adaptação é intencional e em resposta a um estímulo quando na verdade ela é casual e estritamente espontânea.

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Ciência e a utopia da imortalidade

Escrito muito antes da Ilíada e da Odisseia, a Epopeia de Gilgamesh conta-nos a história de um homem que toma a consciência de si próprio e descobre o medo da morte através da perda trágica daquele que ama, levando-o a iniciar uma busca desperada pela imortalidade. Depois de ter falhado todas as tentativas, sobretudo devido à impossibilidade de dominar o tempo, o homem regressa à cidade de Uruk, onde toma a decisão de escrever a sua epopeia, mesmo sem se aperceber que ao fazê-lo está a imortalizar a sua memória, que é a única que nos convém e que nos é possível. Em certo sentido vai ser este o corolário lógico das epopeias modernas na busca por uma imortalidade. Já esquecido do que o levou a ter vontade de viver para sempre, o homem moderno, digamos assim, procura materializar os seus sentimentos de terror e de perda, transformando-os em obstáculos transponíveis pela técnica. A manipulação genética, e todas as suas derivações mais ou menos sofisticadas, surge assim como uma espécie de epifenómeno de uma doença que, precisamente por ter momentos felizes, é levada a esquecer-se de si.

O espinho essencial de ser consciente
É normal que não estejamos atentos à vida porque habitualmente estamos entretidos com o que ela nos oferece. A vida tem manha. Distrai-nos com muitos problemas para que ela própria não se torne num problema. A vida tem um aspecto doentio. Que a vida é uma frenética correria para a morte é o seu sintoma mais óbvio. Aliás, correria essa que nega o sintoma precisamente porque acha que a morte está no fim da vida, quando na verdade a vida gasta-se e consome-se. A morte é então encarada como um abismo e enquanto assim for, a vida será sempre uma piada sem graça. Uma correria sem sentido mas com a aparência de sentido. Uma ilusão de haver mais qualquer coisa à nossa frente mas insconscientes do simples facto de estarmos vivos. A lucidez perante a vida, ou como dizia Álvaro de Campos, «o espinho essencial de ser consciente, a vaga náusea, a doença incerta, de me sentir», arrastaria consigo a angústia. Salva-nos a miopia de não nos enxergarmos com clareza. Salva-nos também os estratagemas hábeis que vamos impregnando no nosso modo de viver por forma que tudo isto não se transforme numa mais ou menos lenta agonia.

A ideia de imortalidade enquanto estratagema que nos distrai da vida
A ideia de imortalidade, ou melhor, a vontade de viver para sempre, surge então como uma utopia edificante cujo representante mais eloquente é o cristianismo. A matriz é universal. Há sempre alguém a mandar os outros fazer qualquer coisa em troca da vida eterna. Quando na verdade o embuste é evidente. Um pouco como no tempo em que diziam aos judeus que iam tomar banho, e lhes pediam inclusivé que decorassem o número do cabide onde tinham pendurado as suas roupas, quando na verdade, sem saberem, estavam voluntariamente a entrar numa câmara de gás. A promessa de vida eterna, ou até de um simples banho, são assim estratagemas que nos permitem acordar, viver e dormir tranquilos sem pensar nisso.

Porque o desespero paralisar-nos-ia por completo.A parábola do jardim do Éden é exemplar da necessidade que o homem tem em dominar o tempo. Porque ser imortal é precisamente isso, é exercer um domínio autoritário e totalitário sobre o tempo. É manipulá-lo ao seu jeito. É jogar com ele mas tomando como certeza que no final ele acaba sempre por perder. Nesse jardim havia duas árvores – a árvore da ciência do bem e do mal, e a árvore da vida. Da primeira o homem comeu o fruto e por isso foi expulso do jardim, que é agora guardado por querubins armados de espada flamejante para que o homem não se aproprie também da árvore da vida. Porque a imortalidade só pode ser alcançada pela redenção. E não uma imortalidade do corpo mas sim da alma. Aliás, uma imortalidade da alma que se faz à custa da mortalidade do corpo. O que, no imediato, quer dizer que esta vida que temos, feita de carne e osso, e que é única, não tem qualquer valor.

A vontade de viver para sempre resulta assim de uma inquetação humana profunda: a consciência de si. Esta consciência é como um espinho profundamente entranhado e que nos causa uma dor persistente e aguda. Aliás, uma dor que nos faz suplicar pelo seu fim. A dor é em grande parte dos casos o limite. E um limite que pode levar ao suicídio como um acto de desespero mas também de sobrevivência. Quando se quer a verdade, tortura-se, provoca-se dor. Ninguém a suporta. Ninguém a quer. Todos a evitam. Estar doente é ter dor. Quando dói queremos que essa dor termine o mais rapidamente possível. A imortalidade surge assim na forma de promessa. Na verdade, ela funciona como um potente analgésico. Elimina a dor.

Ciência e a promessa de imortalidade
Vivemos hoje tempos difíceis. Diz-se por aqui à boca cheia que as sociedades ocidentais vivem tempos de descrença. Não um tempo em que os homens não acreditam num deus, mas antes um tempo em que os homens deixaram simplesmente de acreditar. Seria então de esperar que, em consequência desta descrença, em grande parte devido a uma inesperada lucidez perante a corrupção dos valores dentro da própria Igreja, os homens caissem numa situação de uma angustiante solidão espiritual. Mas não é bem assim. É claro que tudo isto teve consequências. O capitalismo é necessariamente uma sociedade de violência, que corrompe as pessoas e as torna violentas. E uma violência que não é apenas física mas também, e sobretudo, psicológica, evidenciada naquilo que o filósofo León Rozitchner define como uma «violência normal», aquela que resulta da «vontade dos outros».

Porém, o homem moderno é incapaz de viver no vazio existencial. O sentido da vida é algo que lhe é ontológico e do qual depende como de pão para a boca se tratasse. Surpreendentemente, ou não, a ciência tem vindo a assumir esse papel. Com as suas promessas de cura e de alívio da dor, e sobretudo de imortalidade, a ciência, tal e qual a conhecemos hoje, tem vindo a assumir o aspecto de uma crença. Começou com o milagre dos antibióticos que iriam de uma vez por todas livrar-nos das doenças terríveis que ceifavam massivamente as vidas alheias. Começou com a penicilina, depois a estreptomicina. Vieram depois os anti-maláricos, os anti-depressivos, os anti-inflamatórios, os anti-piréticos, sempre os anti-qualquer coisa. O caso da raiva é eloquente da forma como uma descoberta científica pode santificar o seu descobridor. Louis Pasteur viveu num tempo em que a raiva matava milhares de pessoas. A Europa viva com muito medo de algo que não sabia combater. E ninguém suporta viver com tanto medo.

Neste contexto, a descoberta da cura para a raiva surgiu assim como uma espécie de milagre. Em todos os casos, o corolário era o mesmo. Íamos deixar de estar doentes. E se íamos deixar de estar doentes, então isso significava que íamos viver para sempre. Hoje, as promessas de cura são agora sintetizadas em fórmulas mais sofisticadas próprias do nosso tempo como seja a manipulação genética, a clonagem terapêutica de células estaminais ou a cirurgia fetal, ou ainda o advento da biónica, berradas todos os dias na televisão e nos jornais.

Nalguns casos estas promessas surgem disfarçadas de artigos científicos publicados em revistas altamente credíveis. O efeito mais imediato é que as pessoas passam a acreditar na ciência porque ela é a solução para todos os nossos problemas. Não interessa que mais de cinquenta anos depois ainda não tenhamos descoberto a cura para a SIDA. O que interessa é a promessa. Porque é ela que nos acalma a nossa dor e nos permite viver uma vida sem angústia. Os cientistas prometem que dentro de algum tempo vamos ser imortais.

E apesar da ideia ser entusiasmante, sobretudo porque confere ao cientista um poder imenso, ela não passa de uma mentira. Não sabemos tudo nem nunca vamos saber tudo. Porque a natureza é um alvo em movimento. Porque a natureza está constantemente a desafiar-nos. Ela resiste (veja-se o caso da resistência aos antibióticos, assunto cada vez mais sério). Ela resiste sempre.

Em 2006, a revista científica Nature publicou um artigo do biólogo franco-croata Miroslav Radman onde se descrevia o mecanismo de ressurreição da bactéria Deinococcus radiodurans que mesmo depois de morta é capaz de voltar à vida em poucas horas. E isto graças à capacidade genial e única de regenerar o seu material genético mesmo quando este se encontra fragmentado. Logo depois da publicação deste artigo, o senhor foi entrevistado por múltiplos órgãos de comunicação social, sempre tendo como epíteto que agora é que a medicina regenerativa ia vingar e que este era apenas o primeiro passo para a reconstituição neuronal e cardíaca e, claro está, para a imortalidade dos humanos.

Numa entrevista ao jornal La Nacion, este mesmo senhor esgrima argumentos, cria cenários, repete até à exaustão que tudo é possível, mas sobretudo faz promessas. E promessas com destinatários muito específicos. Porque não é ingenuamente que surge no meio de tudo isto a palavra ressurreição.

Aliás, é estratégico. Ainda na mesma entrevista, quando o jornalista o questiona se o instituto que acaba de fundar – Instituto Mediterrânico para as Ciências da Vida - irá trabalhar na ressurreição humana, o senhor responde que pediu inclusivé um financiamento ao Vaticano para trabalhar sobre a base molecular da ressurreição. Ora, estas patetices, que enchem as pessoas de expectativas, não passam de estratégias com vista a impressionar potenciais investidores. Além do mais, isto está de tal modo enviesado que ninguém é capaz de debater estas questões de um modo sério. Nestes tempos ndamos assim. De um lado, prometem a imortalidade daqui a não sei quantos anos. Do outro lado, por causa do aquecimento global e da predação assaz dos ecossistemas, anunciam o fim do mundo também daqui a não sei quantos anos. Ai eu!

O processo de santificação da ciência é uma ilusão perigosa. Como dizia François Jacob, «nada é mais perigoso do que a certeza de se ter razão». Porque com ela se pode manipular muito para além de gâmetas ou embriões. Pode-se inclusivamente manipular sociedades e implementar vontades. E ganhar muito dinheiro. Ou já se esqueceram dos tempos em que a ciência era usada com fins sociais absolutamente perniciosos? Lembram-se dos pressupostos da eugenia? Eu não me esqueço. E a gente não se pode esquecer. Porque se nos esquecermos disto, se aceitarmos tudo isto com uma passividade crítica própria de um homem térmita, se deixarmos que a ciência seja abusivamente mostrada ao grande público como uma espécie de Boa Nova, então será o fim da ciência. É por isso que hoje, agora, já, é urgente que se advirta as pessoas para não acreditarem em tudo aquilo que lêem ou que ouvem. Até mesmo quando é escrito ou dito por cientistas.

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