Thiago Henrique Santos
Quem é?
Minha mãe conta, e eu tenho alguns lampejos de memória, que quando eu tinha lá meus seis ou sete anos eu queria voar. Eu vestia minha roupa de super-homem e esticava os braços para o alto na tentativa de alçar vôo. Nunca funcionou, claro, e eu estava certo de que o problema era a capa. Passei boa parte da minha infância tentando resolver o problema da capa sem sucesso. O processo era simples, eu assistia um episódio do desenho “Super Amigos”, observava o Super-homem voar e criava uma hipótese nova. O que na época eu não sabia é que já estava entregue ao método cientifico. Como um verdadeiro discípulo de Karl Popper lá ia eu todos os dias falsear minha mais nova teoria sobre o vôo livre com capas vermelhas e roupas colan azul. A televisão, o cinema e a literatura continuariam me influenciando. Conheci a teoria da relatividade de Einstein pesquisando sobre viagens no tempo depois de assistir De volta para o futuro. Jurassic Park me apresentaria à paleontologia e à teoria da evolução. Julio Verne me levaria a uma viagem ao centro da Terra e à Lua, dando origem ao meu interesse pela astronomia. Eventualmente acabaria entrando para a faculdade de Biologia, passando a ser parte integrante do mundo científico que sempre me seduziu. O amor pela biologia foi imediato, eu precisei apenas de uma semana de aulas para descobrir que era isso que eu queria pelo resto de minha vida. Dentro da biologia descobri ainda minha outra paixão, a teoria da evolução. Foi durante a faculdade que me aprofundei na filosofia da ciência e suas implicações. Popper e Kuhn se transformaram em ídolos, assim como Dawkins e Jay Gould. Mas foi um astrônomo quem me daria a inspiração necessária para partir para o campo da divulgação cientifica. Carl Sagan dedicou sua vida à ciência e a sua divulgação. O Polegar Opositor nasceu da vontade de divulgar a ciência e, quem sabe um dia, servir de guia para os muitos garotos e garotas que hoje tentam voar com suas capas vermelhas e colan azul.
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O Universo de Ptolomeu: 2ª parte.

Como vimos no texto anterior, Ptolomeu em seu livro Almagesto, propõe um modelo bastante rigoroso de Universo geocêntrico. E o começa fazendo listando uma série de argumentos, empiricamente suportados, descrevendo uma terra em forma de esfera e fixa. Partindo daí, passa à teoria do Sol.

A teoria do Sol de Ptolomeu é basicamente uma transcrição das idéias de Hiparco. Pelos dados empíricos da época, Hiparco (e portanto Ptolomeu) conseguia prever com certa acuidade quanto tempo o Sol levava para dar uma volta à Terra (e portanto, a duração de 1 ano), bem como sua posição relativa em datas futuras ou passadas.

Já nesta época se sabia que um ano durava em média 365 dias. O cálculo era muito simples, imaginando que o Sol descreve uma orbita circular ao redor da terra, podemos dividir esta orbita em graus. Como sabemos, um círculo possui 360° e, por medições relativamente simples, era possível saber que o Sol se deslocava aproximadamente 1° por dia. Dividindo este círculo em 4 partes iguais, podíamos distribuir as estações do ano por este círculo.

Mas como sabemos, as estações do ano não possuem a mesma duração em dias. Ptolomeu resolvia este problema deslocando o centro da orbita solar, também conhecida como epiciclo solar. Uma vez que sua teoria do Sol estava descrita, Ptolomeu partiu para a descrição do resto do Universo.

Embora eu tenha abordado o trabalho de Ptolomeu de forma bastante simplificada, com estes dados fica fácil combater as críticas feitas ao homem. As acusações de adulteração dos dados empíricos, são respondidas facilmente quando sabemos que todos os sistemas astronômicos clássicos lidavam sempre com anomalias regulares.

No caso do sistema ptolemaico, esta anomalia estava justamente na previsão futura ou passada da posição do Sol. Os cálculos feitos sempre se enganavam em um índice frequente. De forma que era possível prever o erro com certa acuidade e integrar esse valor no cálculo. Esse tipo de “jeitinho brasileiro” não é exclusividade de Ptolomeu ou Hiparco. Foi usado pelos egípcios para corrigir seus calendários, é usado até hoje pra corrigir nosso calendário e mesmo Einstein chegou a fazer algo parecido criando a constante cosmológica.

A crítica sobre o uso de múltiplos epicíclos para descrever o movimento dos planetas é válida. No entanto, o recurso foi igualmente usado por Copérnico, de maneira ainda mais grosseira, mais de mil anos depois de Ptolomeu, em um modelo de Universo que supostamente era mais correto. Na verdade não era, o grande mérito de Copérnico foi postular que a Terra não era o centro do Universo e, como qualquer outro planeta, se movia ao redor do Sol. O sistema de Copérnico era tão problemático que durou parcos 50 anos, sendo logo substituído pelo modelo de Kepler.

Embora eu pudesse seguir argumentando contra as muitas críticas feitas à Ptolomeu, prefiro passar para uma questão mais relevante. É o que faremos no próximo texto.

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O Universo de Ptolomeu: 1ª parte.

A um certo tempo me envolvi em uma controvérsia com um texto do G1 que fazia, digamos assim, uma pequena injustiça com Cláudio Ptolomeu. Discussões a parte, só hoje, estudando melhor a figura de Ptolomeu, é que me ocorreu que o trabalho do matemático carrega em si questões mais profundas.

Primeiro precisamos contextualizar. Ptolomeu viveu aproximadamente no ano de 160 d.C. Aparentemente passou toda sua vida em Alexandria e desenvolveu grandes trabalhos em astronomia, astrologia, geografia e etc. Sua obra mais conhecida, o “Almagesto”, é um livro constituído de 13 volumes que tem a difícil tarefa de descrever o universo.

É no 1º volume do Almagesto que Ptolomeu faz algumas proposições que hoje parecem ingênuas. Entre estas, a de que a Terra esta fixa no centro do Universo, enquanto o Sol, os planetas conhecidos à época e a Lua descrevem orbitas ao redor de nosso planeta. Sobre estas idéias, precisamos recuar um pouco na história.

O modelo geocêntrico de Universo remonta a Aristóteles. O grande filósofo grego, por conseqüência de sua teoria do movimento que será melhor explorado em outra oportunidade, propõe que a Terra ocupa um lugar ao centro do Universo, com todo o resto orbitando ao seu redor. Sua idéia é reafirmada com Hiparco, em 160 a.C. É de Hiparco que Ptolomeu parte para sua descrição de Universo.

Assim como Aristóteles, Ptolomeu fornece uma série de dados empíricos para comprovar que a Terra se encontra fixa no centro do Universo. Por exemplo, um objeto em queda livre caí, a não ser por ação do vento, invariavelmente em linha reta. Pode parecer um argumento ingênuo e, hoje sabemos, incorreto. No entanto, é preciso lembrar que se não tínhamos conhecimento sobre inércia ou gravidade em 400 a.C. com Aristóteles, também não tínhamos esse conhecimento em 160 d.C.

Partindo da premissa de que era o Sol que orbitava a Terra, e fazendo algumas medições como o movimento do Sol pelo céu em um período de um ano, Ptolomeu constrói todo um modelo bastante rigoroso de Universo. Veremos este modelo com mais detalhe no próximo texto.

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Refutação, correção e verdades na ciência.

O Carlos, lá do Lablogatórios, escreveu por estes dias um texto que trata do ego dos cientistas. No texto ele levanta duas questão que, para mim, são muito interessantes e permitem boas reflexões. Coloco abaixo a parte central das duas questões (mas por favor, NÃO deixem de ler o texto integral).

A primeira questão diz: “…O bom disso é que a Ciência possui mecanismos de auto-correção, e que são usados freqüentemente…”. E a segunda: “…se um cientista vir uma oportunidade de destruir uma verdade científica, ele o fará imediatamente e com prazer…”.

Vamos começar de trás pra frente, tratando primeiro da questão sobre verdade científica e refutação. Me é um pouco estranho o uso do termo “verdade científica” pra se referir a uma proposição, ou teoria. Talvez por causa do meu pé atrás com a palavra “verdade”. É um termo filosoficamente tão controverso, que o evito sempre que posso. Mas pra além disso, ainda temos a questão de que essencialmente a ciência não pode ser feita de verdades.

Quer dizer, ela pode tentar pra valer. Mas como sabemos, a verdade é um objetivo inalcançável. E não podia ser diferente, todo conhecimento científico é passageiro. O que nos leva ao segundo ponto desta questão, a refutação. É verdade (ops, olha a verdade ai!) que cientistas tem o ego inflado. Alguns mais que outros. E não há verdadeiramente nada de errado com isso.

A ciência ganha muito com grandes controvérsias e brigas de ego. São inúmeros os casos na história de grandes “pendengas” científicas que, de uma forma ou de outra, levaram ao desenvolvimento de novas teorias, ou a popularização de teorias menos comentadas. Já recomendei um livro que trata de forma bastante boa esse tema. O caso é que é de se esperar que qualquer bom cientista tenha uma posição questionadora. E isso não significa dizer que se deve questionar tudo de forma cega e irracional.

O questionamento tem um papel fundamental no primeiro ponto. Quando o Carlos fala em “mecanismos de auto-correção”, suponho que ele esteja se referindo ao peer review, ou revisão por pares. Em termos mais simples, todo trabalho científico deve passar por um processo de revisão feito por colegas de área do cientista que publicou o artigo. Além do peer review, é suposto que existam métodos eficientes de se investigar qualquer teoria científica de forma mais cuidadosa. E em geral há mesmo.

Mas isso não significa que a ciência se “auto-corrija”. Na verdade, existem muitos casos aonde anomalias detectadas em teorias científicas são resolvidas com argumentos ad hoc, ou são muitas vezes ignoradas. Quando confrontada com uma anomalia, a comunidade científica parece agir de forma arbitrária, escolhendo para cada caso um tipo diferente de tratamento.

É mais ou menos o que o filósofo da ciência Imre Lakatos defende, embora de certa forma ele salve a ciência do relativismo completo, alegando que há regras para a aceitação de teorias ad hoc. Kuhn, como se sabe, não é tão “bonzinho”, e alega com todas as letras que a ciência tem mesmo uma base relativesca.

Em outros termos a ciência não parece se auto-corrigir, mas se auto-valida de maneiras nem sempre tão objetivas quanto gostamos de pensar.

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O problema da Terra chata.

Aprendemos logo cedo na escola que um dos problemas que assustavam os navegadores de antigamente, era a idéia de que a Terra era chata. O mito de que era possível navegar até a borda do planeta, se cristalizou no senso-comum e é constantemente usado para simbolizar a ingenuidade dos antigos.

Mas o que dizem os historiadores da ciência é que esta história não passa de mito. A idéia de uma Terra chata existe na mitologia oriental. No entanto, para os povos da Europa ocidental, o planeta sempre teve formato esférico. O que, mantendo as devidas correções modernas, é relativamente correto.

O mapa atual da Terra em sua versão "chata".

O mapa atual da Terra em sua versão

Com efeito, os primeiros mapas celestes sempre colocavam a Terra representada como uma esfera, rodeada pela abóboda celeste. Mas se não era o medo de “cair” pela borda do planeta, existia afinal algo que assustava os antigos navegadores?

Na verdade, sim. Uma pequena observação empírica levou à criação de uma teoria equivocada. Não é preciso ter aparelhos científicos rebuscados para saber que, quanto mais nos dirigimos em direção ao equador, mais quente fica o clima.

Esta constatação deu origem a idéia de que o equador do planeta fosse tão absolutamente quente, que nada poderia sobreviver ali. Era como uma espécie de barreira intransponível, e embora fosse possível navegar até lá, era bastante provável que a tripulação fosse incapaz de sobreviver às temperaturas elevadas. A região foi chamada de “zona tórrida”.

A representação da "zona tórrida" no mapa atual da Terra.

A representação do que seria a "zona tórrida" em um mapa mundi atual.

A “parte de baixo” da Terra foi chamada de “antípoda“, que é uma variação de uma expressão grega que significa “pés opostos”. A expressão se deve ao fato de que acreditava-se que se existissem pessoas na outra metade da Terra, elas caminhariam literalmente de ponta cabeça.

O mito só foi derrubado completamente quando a nova rota comercial para as Índias foi estabelecida. Evidente que o conhecimento sobre a possibilidade de se atravessar a linha do equador já existia, de outra forma, a expedição de Vasco da Gama jamais teria sido aprovada.

É importante notar que, por mais ingênuas que estas idéias nos pareçam, para a época elas eram fruto de observação empírica do dia a dia. O que no entanto é ingênuo, é ainda hoje o mito da Terra chata continuar sendo usado para demonstrar o quão primitivo eram os povos antigos.

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Aristóteles e a ciência de todos os tempos.

Vivemos em um mundo moderno, ou ao menos é o que gostamos de dizer. Temos carros, computadores, celular, internet e estações espaciais. Todos símbolos da grande capacidade inventiva humana. Todos fruto do desenvolvimento acelerado do empreendimento científico.

Mesmo a ciência é normalmente referenciada como “ciência moderna”. O que nem sempre nos lembramos é que a base de sustentação dessa modernidade é uma idéia antiga. Muito antiga. Popularizada por um homem que viveu a mais de 300 anos antes de Cristo.

Aristóteles foi, e ainda é, um dos maiores gigantes do intelecto humano. Foi discípulo de Platão, mas desenvolveu uma filosofia curiosamente divergente da de seu mestre. E a divergência era a forma de encarar o mundo. Para Platão, o mundo físico era uma espécie de “sombra” de um outro mundo. Um lugar em que todas as coisas do plano físico existiam em sua versão real. O mundo platônico das idéias não podia ser atingido pelos sentidos humanos.

Platão, de vermelho e Aristóteles de azul.

Platão, de vermelho e Aristóteles de azul.

Essa particularidade impedia que o homem soubesse as causas reais sobre qualquer fenômeno natural. De modo que para Platão, devíamos nos ater à descrição dos fenômenos físicos. Aristóteles trabalha sob um ponto de vista completamente oposto. Para ele, todo fenômeno da natureza deve ter uma causa natural. De modo que se quisermos saber mais a cerca de algum efeito natural, só precisamos observá-lo.

Esse pressuposto simples, conhecida como empirismo, é a base de toda a ciência moderna. A idéia de que os fenômenos físicos não são fruto de forças sobrenaturais, ou da ação de Deus, ou de qualquer outro tipo de entidade mágica ou mística, mas sim da interação de objetos físicos com o próprio meio físico nos colocou aonde estamos hoje.

Além disso, Aristóteles teve grande influência em ciências como astronomia e biologia. As descrições biológicas do filósofo são de uma qualidade inacreditável e, para o leitor desavisado, se confundem facilmente com descrições que biólogos modernos fariam. Duvida? Basta dar uma olhada nos “historia animalium (em inglês) para tirar a prova.

Poucos homens tiveram a versatilidade de Aristóteles. Seu modo de olhar para o mundo, bem como seu trabalho descritivo da natureza, é além de muito interessante, bastante complexo. Além de evidentemente ter sobrevivido aos milênios e estar presente em nosso dia a dia.

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Viva la revolución! A explosão cambriana do conhecimento científico.

A explosão cambriana é um período curioso da história da vida na Terra. Quando olhamos para o registro fóssil do período anterior, notamos que a diversidade biológica não era lá muito grande. Ou talvez as condições não fossem as melhores para o processo de fossilização. O caso é que na passagem do pré-cambriano para o cambriano, a biodiversidade do planeta da um salto incrível. Uma espécie de “explosão” de tipos de seres vivos. A ciência teve um período similar, conhecido como Revolução Científica.

Aconteceu entre os séculos XVI e XVII. Até então o empreendimento científico existia de forma tímida, e se perdia dentro de atividades como a alquimia ou astrologia. Mas de maneira semelhante à biodiversidade, durante o período de transição entre a Idade Média e o Renascimento, a ciência ganhou corpo e começou sua trajetória meteórica até o ponto em que se encontra hoje.

E assim como a explosão cambriana, o período da Revolução Científica é coberto de controvérsias. Provavelmente a maior delas seja a explicação para a revolução ter se passado na Europa Ocidental. O fato é que em termos de avanço do conhecimento, a China e os povos islâmicos, em muitos aspectos, eram tão, ou talvez mais, avançados que os europeus.

Mas tanto os islâmicos quanto os chineses, em algum ponto, pararam de avançar enquanto a Europa prosseguiu. O resultado foi que a ciência, até então um desdobramento da filosofia, ganhou autonomia. Se institucionalizou e cresceu vertiginosamente. Em quatro séculos, avançou mais do que nos quase dois mil anos anteriores.

Grandes nomes da história da ciência, como Galileu Galilei, Kepler e Descartes tiveram muita influência neste período. Assim como o pensamento positivista, que logo iria estabelecer o rumo do pensamento científico dos próximos anos.

A ciência atual se consolidou como a conhecemos no final do século XIX. Apesar de essencialmente ser diferente daquela proto-ciência do período da Revolução, ainda traz a herança positivista. Mesmo assim, muito se discute sobre o que é a ciência e como ela se posiciona na sociedade.

São discussões relevantes e que em geral questionam fortemente o modelo atual. Não sabemos em qual direção a ciência irá seguir nos próximos quatro séculos, mas talvez estejamos às beiras de uma nova revolução.

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A história escrita pelos cientistas.

A história da ciência, enquanto disciplina, é bastante recente. E seu surgimento se relaciona com a maneira como a ciência ganhou status a partir do século XVII. Há algumas questões relevantes  para a disciplina. Por exemplo, o historiador da ciência deve ser um cientista de formação? Os núcleos de história da ciência devem estar atrelados aos departamentos de ciência ou de história?

São problemas que podem ajudar a compreender os rumos da disciplina até aqui, bem como tentar prever qual será o seu futuro. E existem partidários para todos os gostos. O fato é que os primeiros historiadores da ciência foram mesmo cientistas. O que parece ser um movimento natural, afinal ninguém é mais interessado em ciência do que o cientista.

Mas daí podem decorrer alguns problemas. O cientista provavelmente irá estudar a história de sua especialização. E ao se deparar com o passado, pode tentar compreendê-lo usando os conceitos presentes. Se assim o for, é quase certo que o cientista-historiador vai acabar “viciando” sua análise.

Esta é ao menos a opinião do historiador da ciência Kostas Gavroglu. Para ele, os primeiros historiadores da ciência cometeram o engano de narrar a ciência como uma iniciativa excepcional para o gênio humano. Desta forma, acabaram por criar uma série de mitos históricos que são tido como verdade, não só pelo senso-comum, como pela própria comunidade científica desavisada.

Um destes mitos é a clássica experiência de Galileu, que teria arremessado dois objetos de pesos diferentes ao mesmo tempo, de cima da torre de Pisa, pra testar algumas previsões aristotélicas sobre o movimento. O caso é que não existem dados históricos que indiquem que Galileu realizou qualquer experiencia na torre de Pisa, embora seja fato que ele tenha experimentado algumas das idéias de Aristóteles.

O clássico experimento que nunca ocorreu.

O clássico experimento que nunca ocorreu.

Embora existam outros exemplos emblemáticos de mitos sobre a história da ciência, todos eles seguem mais ou menos o mesmo padrão. Transformam a figura do cientista em um herói, capaz de resolver os problemas do mundo valendo-se unicamente de sua assombrosa capacidade intelectual.

Por outro lado, a perspectiva de que o historiador da ciência não seja um cientista não parece muito melhor. Embora aqui também hajam opiniões divergentes, sem a carga de conhecimento técnico científico o historiador pode não realizar o melhor dos trabalhos. Ou talvez seja o inverso, e seu afastamento da ciência lhe permita uma visão mais ampla da história da atividade.

O próprio Thomas Kuhn se deparou com estas questões ao estudar o passado da física. Como resultado de suas reflexões, acabou formulando a idéia sobre a incomensurabilidade. Mas esta, é outra história.

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A ilusão da verdade.

Lidar com a ciência experimental é provavelmente um dos trabalhos mais difíceis de se fazer. O pesquisador precisa de paciência não só pra desenvolver sua teoria, mas encontrar as formas corretas de se testar as preposições e descobrir se está no caminho certo.

O problema esta justamente na experimentação. Há objetos de estudo que permitem experimentações simples. Por exemplo, se eu tenho a teoria de que todos os cisnes são brancos, a experimentação consiste na simples observação destes animais.

Mas nem sempre é assim. Como experimentar a existência de uma partícula quântica? Ou experimentar o processo de especiação? Embora seja possível, a realização esta longe de ser trivial. Essa dificuldade pode se transformar em uma armadilha para o cientista.

Se nos iludimos com uma pintura, o que pensar quando olhamos para o Universo?

Se nos iludimos com uma pintura, o que pensar quando olhamos para o Universo?

Por vezes estamos tão compenetrados em nosso trabalho, e não raro ele se torna tão desgastante, que podemos incorrer em um erro de interpretação e tomarmos um resultado qualquer como verdadeiro. O famoso “falso positivo”. É claro que a rotina de laboratório estabelece uma espécie de “sistema anti erros”, a repetição do experimento diversas vezes em geral evita que o erro permaneça.

Mas na história da ciência existem alguns casos de cientistas que, na obstinação de se provarem corretos, muitas vezes acabavam por não tomarem o cuidado de verificar seus resultados. Veja, não se trata em geral de casos de desonestidade, embora eles tenham existido. É antes de tudo a vontade embriagante de compreender o mundo que.

Há ainda um outro problema. Dependendo da dificuldade experimental, podemos descobrir em algum ponto que o conhecimento humano e a tecnologia simplesmente não conseguem atingir determinados níveis de complexidade. Mas neste caso, o que nos faz convivermos com a ilusão é a incapacidade de lidar com a verdade.

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A ciência e seu próprio vale da estranheza.

Seja nos filmes de Hollywood, seja em laboratórios de robótica, as tentativas de se construir uma réplica artificial de seres humanos não são novidade. Existe um efeito bastante curioso relacionado a este fato, conhecido como “vale da estranheza”.

Proposto em 1970 por Masahiro Mori, o conceito diz que quando uma tentativa de produzir uma pessoa artificial chega próximo à perfeição, sem atingí-la de fato, o resultado gera uma espécie de estranhamento. A foto abaixo demonstra bem o efeito.

Estranha? Eu?

Estranha? Eu?

O que acontece é que nascemos com uma espécie de “instinto”, uma capacidade intrínseca de reconhecermos nossos “iguais”. Quando nos deparamos com robôs como o da foto acima, algo em nossos cérebros sinaliza que “há algo errado ali”.

Por estes dias, refletindo um pouco sobre algumas idéias de Kant, divulgação científica e sobre  ciência moderna, tive uma espécie de insight. E se for o caso de a ciência se encontrar em uma situação similar à causada pelo vale da estranheza? Explico do início.

Para Kant, o homem vê o mundo através de uma “moldura” criada por nossos sentidos. Não só os físicos, como a visão, tato e olfato. Mas também por nossos sentidos intelectuais, nossa capacidade de abstração e de compreensão. Partindo deste pressuposto, podemos dizer que qualquer atividade humana esta inerentemente atrelada aos indivíduos e seus valores.

Se assim o é, então a ciência não é exceção. Como empreendimento humano, ela esbarra em questões de valores, moral e política. Mas não é esta a idéia que se “vende”. Com efeito, é costume usar aquela velha máxima positivista de que a ciência é imparcial, neutra e autônoma.

A questão é que quando postulamos que um dos maiores esforços coletivos da história da humanidade não possui em sua constituição características tão humanas, condenamos a ciência ao seu próprio vale da estranheza. Afinal, é um construto humano que carece de humanidade.

E é aí que o problema se agrava. Se de fato a ciência esta situada em seu próprio vale da estranheza, então é natural que as pessoas que não trabalham diretamente no meio científico sintam uma determinada repulsa, uma desconfiança ou algum tipo de receio. Eu até poderia argumentar que isso explica a facilidade que as pessoas tem pra criticar a ciência, mas a dificuldade em que estas mesmas pessoas tem em reconhecer seus méritos. Mas é claro, seria especular demais, pra não dizer inconsistente.

Em todo caso, o trabalho de divulgação científica sofreria um golpe razoável. Afinal, divulgação científica é feita, partindo do pressuposto de que o problema do cidadão médio em compreender a ciência esta na complexidade e quantidade da informação produzida. E o problema pode ser ainda pior.

Além da complexidade e quantidade da informação produzida, poderia existir ainda uma má vontade natural, e subconsciente, em aceitar o empreendimento científico. O que seria muito complicado de se resolver.

Evidente que estou sendo completamente especulativo. Provavelmente bastante exagerado e potencialmente apocalíptico. Mas seria bom refletir se a ciência quer mesmo ser isenta de características humanas, e se a divulgação científica não aposta fichas demais em um pressuposto que pode parecer óbvio, mas que talvez seja só a ponta de um iceberg.

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Kuhn e sua grande descoberta.

Quando falamos em descobertas científicas, logo imaginamos novos planetas, partículas quânticas, eventualmente algum vírus ou bactéria e, com maior frequência, algum aparelho ou aplicação nova. Nada essencialmente errado com isso. O que poucas vezes consideramos como legítimas descobertas, são as abstrações que acabam por produzir novas tendências na ciência.

É o caso das revoluções científicas de Thomas Kuhn. Não, não estou ficando maluco. Estou atestando que uma idéia filosófica é uma das grandes descobertas científicas já feitas. Mas explico melhor.

Antes de Kuhn, o estudo da ciência se dividia em filosofia da ciência e história da ciência. Dois processos separados, sendo investigados de formas distintas e em departamentos distintos. Kuhn, enquanto estudava para realizar um seminário sobre filosofia da ciência teve um insight. Percebeu que era muito mais simples entender a filosofia da ciência quando se compreendia o contexto histórico em que ela se desenvolvia.

Em seu livro de 1962, A Estrutura das Revoluções Científicas, além de propor a idéia de revoluções e criar o conceito original da incomensurabilidade, Kuhn sugere que não faz sentido estudar filosofia da ciência ignorando a história. São dois processos de relações muito estreitas e melhor compreendidos quando estudados juntos.

O livro em si criou uma série de polêmicas. A maioria delas tratava da idéia de revoluções científicas, algumas sobre incomensurabilidade. Mas praticamente ninguém questionou a noção de se estudar ciência e filosofia da ciência como uma coisa só. Daí por diante a idéia se sedimentou.

Na Universidade de Lisboa isso pode ser notado de forma bastante didática. Antes existiam os cursos de pós-graduação em história da ciência, pelo departamento de história e o curso de filosofia da ciência, pelo departamento de filosofia. Hoje, o mestrado e doutorado na área é oferecido pela Secção Autônoma de História e Filosofia da Ciência.

Uma idéia simples, mas que modificou pra sempre a maneira como estudamos e tentamos compreender a ciência e sua influência na sociedade.

Este texto faz parte da Blogagem Coletiva sobre Descobertas Científicas. Para saber mais a respeito e ler os outros textos, visite o site do Raio-X, dos nossos amigos do Lablogatórios.

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