Thiago Henrique Santos
Quem é?
Minha mãe conta, e eu tenho alguns lampejos de memória, que quando eu tinha lá meus seis ou sete anos eu queria voar. Eu vestia minha roupa de super-homem e esticava os braços para o alto na tentativa de alçar vôo. Nunca funcionou, claro, e eu estava certo de que o problema era a capa. Passei boa parte da minha infância tentando resolver o problema da capa sem sucesso. O processo era simples, eu assistia um episódio do desenho “Super Amigos”, observava o Super-homem voar e criava uma hipótese nova. O que na época eu não sabia é que já estava entregue ao método cientifico. Como um verdadeiro discípulo de Karl Popper lá ia eu todos os dias falsear minha mais nova teoria sobre o vôo livre com capas vermelhas e roupas colan azul. A televisão, o cinema e a literatura continuariam me influenciando. Conheci a teoria da relatividade de Einstein pesquisando sobre viagens no tempo depois de assistir De volta para o futuro. Jurassic Park me apresentaria à paleontologia e à teoria da evolução. Julio Verne me levaria a uma viagem ao centro da Terra e à Lua, dando origem ao meu interesse pela astronomia. Eventualmente acabaria entrando para a faculdade de Biologia, passando a ser parte integrante do mundo científico que sempre me seduziu. O amor pela biologia foi imediato, eu precisei apenas de uma semana de aulas para descobrir que era isso que eu queria pelo resto de minha vida. Dentro da biologia descobri ainda minha outra paixão, a teoria da evolução. Foi durante a faculdade que me aprofundei na filosofia da ciência e suas implicações. Popper e Kuhn se transformaram em ídolos, assim como Dawkins e Jay Gould. Mas foi um astrônomo quem me daria a inspiração necessária para partir para o campo da divulgação cientifica. Carl Sagan dedicou sua vida à ciência e a sua divulgação. O Polegar Opositor nasceu da vontade de divulgar a ciência e, quem sabe um dia, servir de guia para os muitos garotos e garotas que hoje tentam voar com suas capas vermelhas e colan azul.
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Galileu, matemático , cortesão e desonesto?

A Nature publicou ontem um pequeno texto (ao qual tive conhecimento pelo colega blogueiro Rafael do RNAm e que também escreveu um texto sobre o assunto) dizendo que evidencias recentes mostram que Galileu defendeu o sistema heliocêntrico apesar de suas observações não sustentarem tal sistema.

Tenho uma novidade pra Nature, tal fato já é sabido pela história da ciência a muito mais tempo. Aliás, o artigo em si é bastante estranho, e não estivesse publicado no site da Nature, eu ia dizer que era obra do G1. Mas vamos ao que interessa.

Galileu, Matemático.
Todo mundo sabe que Galileu foi um matemático. Deu aulas na universidade de Pádua, até ser escolhido como matemático oficial da corte dos Médici. O que pouca gente sabe é que a matemática não tinha o estatuto social que tem hoje.

Platão, de vermelho e Aristóteles de azul.

À época, a filosofia natural era a grande disciplina e tinha como modelo central a física aristotélica e a descrição celeste de Ptolomeu. Aristóteles classificava o universo em um mundo sublunar, ou seja, tudo aquilo que fica disposto “abaixo” da Lua (incluindo a própria Lua), e o mundo supralunar, ou tudo aquilo que fica disposto acima da Lua.

Em tal sistema, a Terra fica ao centro do Universo com a Lua, os planetas e todas as estrelas orbitando ao seu redor. Embora pareça favorecer a importância de nosso planeta no Universo, a verdade é que a justificativa de Aristóteles para isso é precisamente a inversa. Para o grego, o mundo supralunar era perfeito, existia desde sempre e continuaria existindo de maneira imutável. Os planetas e estrelas não tinham imperfeições, eram esferas perfeitas, se movendo em orbitas circulares ao redor da Terra em um mundo incorruptível.

O mundo sublunar por sua vez se situava no centro do Universo justamente por ser composto por uma substância comum, que não se “misturava” ao mundo supralunar. Na época de Galileu, este sistema era aceito da mesma maneira que aceitamos hoje um universo cheio de planetas que nada se parecem com esferas perfeitas.

Mas divago. Tudo isso era pra dizer que a filosofia natural possuía um estatuto social superior ao da matemática por exemplo. E Galileu era um homem que queria combater o aristotelismo. Não por birra, mas por acreditar que a matemática tinha grande papel no entendimento do mundo sublunar e supralunar. Para Galileu, era preciso matematizar o universo, unificando estes dois mundos.

O problema todo era justamente que para discutir em pé de igualdade com os aristotélicos Galileu precisava ter um status social compatível com seus interlocutores e ser um matemático de Pádua não era o suficiente.

Galileu Galileu.

Galileu, cortesão.
Na época de Galileu, a ciência como a conhecemos hoje ainda não existia. Por isso mesmo, não havia periódicos, sociedades científicas ou peer-review. Em outras palavras, os mecanismos atuais de validação ainda não tinham se estabelecido. Sem estes mecanismos, a validação era feita por um complexo sistema de mecenato.

Galileu sabia muito bem disso e já estava acostumado com as intrincadas regras de etiqueta das cortes italianas. Tentou por alguns anos se tornar o matemático filósofo da corte dos Médici, mas tal feito só seria conseguido quando da publicação de seu famoso Siderius Nuncius.

Como se sabe, Galileu melhorou sensivelmente a qualidade dos telescópios da época. De início, o telescópio de Galileu foi usado como um instrumento militar, mas em dado momento, o italiano teve a brilhante idéia de apontar sua lente para o céu. O resultado deste fato veio mais tarde, em seu livro que descrevia as descobertas feitas, como as crateras lunares e as luas de Júpiter.

Ao publicar o livro, Galileu o ofereceu aos Médici. Mais do que isso, nomeou as quatro luas de Júpiter que havia observado com o nome de altos membros da poderosa família italiana. Por regra da corte, ao ser presenteado, um mecenas deveria responder à altura, o que na época rendeu a Galileu o cargo de filósofo e matemático do Príncipe Cósimo II de Médici.

Ao manobrar sua aceitação na corte do grande mecenas, o matemático italiano finalmente adquiriu o estatuto social necessário para dialogar em igual nível com os aristotélicos.

Copérnico Vs Tycho Brahe.
A pergunta de por que Galileu era copernicano não encontra muita resposta. É sabido que ele chegou a defender o sistema ptolomaico, mas mudou de idéia quando ainda dava aulas em Pádua. Uma das explicações sugeridas é a de que o italiano percebeu em Copérnico um sistema mais elegante. Elegante não em termos estéticos, mas em termos matemáticos.

Via de regra, o modelo heliocêntrico de Copérnico, em termos de predição do movimento dos astros, não era muito melhor do que o de Ptolomeu. No entanto, era matematicamente mais coerente. Com efeito, os historiadores concordam que nesta época, poucos cientistas eram capazes de entender Copérnico. Galileu e Kepler foram dois destes privilegiados.

O caso é que o sistema de Ptolomeu só começou a cair quando o próprio aristotelismo passou a ser contestado. Como eu já disse mais acima, para Aristóteles o mundo supralunar era perfeito e imutável. Mas em 1572 uma supernova pode ser observada a olho nu, brilhou no firmamento como se fosse uma nova estrela para desaparecer por completo duas semanas depois.

Alguns anos depois um cometa pode ser observado por Tycho Brahe que, com os instrumentos de precisão mais potentes da época, calculou que tal cometa estava se deslocando no espaço, não sendo assim um fenômeno atmosférico como antes se acreditava. Galileu também ajudou no processo ao observar as luas de Júpiter e as manchas solares.

Em 1618 três cometas puderam ser observados. Tal fato atraiu a atenção dos mecenas que passaram a se interessar por explicações sobre o fenômeno. Galileu foi um dos interpelados sobre os cometas, bem como os jesuítas. Um dos membros da Companhia de Jesus, Orazio Grassi produziu uma conferência pública que resultou em um texto sobre os cometas. Neste texto, Grassi usa o sistema tychonico, que coloca a Terra no centro do Universo, o Sol a orbitar ao redor da Terra e todo o resto a orbitar ao redor do Sol, como parte da explicação sobre os cometas.

Nicolau Copérnico.

Galileu não pode se ausentar à disputa. Não produzir uma resposta à Grassi seria o mesmo que apoiar o sistema de Tycho. A esta altura o sistema de Copérnico já havia sido proibido pela igreja, o que deixou a Galileu uma única opção: Desacreditar o sistema tychonico.

Atacar tal sistema trazia para Galileu dois benefícios. O primeiro era impedir que o sistema de Tycho fosse aceito como o novo modelo canônico. O segundo era garantir a si próprio a imagem de grande autoridade astronômica, impedindo assim que os jesuítas assumissem tal papel. Foi durante toda a disputa que o cardeal Barberini, amigo de Galileu, foi eleito como novo Papa. A conjuntura foi tão boa que, se usando da mesma tática que havia usado para ser aceito na corte dos Médici, o italiano dedicou seu livro O Ensaiador ao novo Papa de modo a receber a proteção de um mecenas ainda mais poderoso que Cósimo.

Embora em nenhum momento Galileu tenha defendido Copérnico de forma aberta, O Ensaiador era um livro com duras críticas ao aristotelismo, e gozava da aceitação do Príncipe maior da Igreja Católica.

Galileu e a Inquisição.

A queda do favorito.
Na boa conjuntura em que se encontrava, Galileu pediu permissão à Urbano VIII para escrever um livro aonde defenderia o heliocentrismo de Copérnico. O Papa permitiu que Galileu assim o fizesse, mas não de forma a apresentar uma nova teoria, apenas como um exercício hipotético. Urbano VIII chegou mesmo a dar algumas sugestões sobre o conteúdo do livro.

Galileu, seguro de sua proteção, escreveu o livro na forma de diálogo, não só defendendo o copernicianismo abertamente e não de forma velada como sugerira o Papa, mas colocando na voz de Simplício, o personagem tacanho e ignorante de seu diálogo, algumas frases que o próprio Urbano teria proferido.

O Diálogo Sobre os Dois Sistemas do Mundo caiu como uma bomba. Urbano já se encontrava em posição difícil, sofrendo ameaças dos espanhóis que durante a guerra dos 30 anos começaram a acusar o Papa de ajudar os franceses, e ameaçaram uma invasão a Roma. Além disso, muitos dos críticos de Urbano diziam que ele protegia os hereges e pecadores.

Galileu foi a gota d’água. Ao ver suas próprias palavras reproduzidas no livro e precisando demonstrar seu pulso firme, Urbano iniciou o processo que levou Galileu à sua prisão perpétua domiciliar. O processo de abandono do cliente pelo seu mecenas é conhecido por “queda do favorito”. Galileu, no final, sofreu pelo mesmo sistema que o havia lhe dado tudo o que tinha.

Corroboração sem dados.
Eu sei que a história é longa, mas necessária para entender o porquê o artigo da Nature não só não traz nenhuma novidade para a história da ciência, como é permeado por anacronismos que não deveriam ser feitos de forma alguma.

O fato é que Galileu já era copernicano antes mesmo de ter criado seu famoso telescópio. Ao contrário do que o artigo faz parecer, não foram suas observações que o levaram a defender o heliocentrismo. Da mesma forma, as observações feitas por Galileu também não poderiam levá-lo a defender o sistema tychonico.

Isso por que ambos os modelos, o de Copérnico e o de Tycho Brahe, eram equivalentes e resolviam os grandes “buracos” do sistema de Ptolomeu. Com efeito, com os dados adquiridos na época, seja lá por qual meio, não era possível escolher qualquer um dos dois modelos como correto.

Para piorar, Tycho Brahe era considerado o maior astrônomo da época, com um castelo construído em uma ilha recheado de aparelhos de precisão para estudar os movimentos dos astros. Copérnico era só um padreco muito pouco conhecido.

A despeito disso, não podemos ser anacrônicos e olhar para uma época pré-ciência usando a metodologia moderna. Os dados que confirmavam o heliocentrismo pouco importavam para Galileu. O que ele buscava era a unificação entre o céu e a Terra. Seus trabalhos em mecânica, de longe as maiores contribuições que ele deu para a ciência, estão em completa harmonia com o fato, haja vista o método que ele usou para levá-los a cabo, completamente incompatível com os métodos aristotélicos da época.

Dizer que Galileu escondeu os problemas do heliocentrismo, ou que defendia Copérnico apesar de suas observações não corroborarem com o sistema não é só errado, é grosseiramente errado.

Bibliografia

Biagioli, Mario. Galileo, Courtier: The Practice of Science in the Culture of Absolutism. Chicago: University Of Chicago Press, 1993.

Biagioli, Mario. “Galileo the Emblem Maker”. Isis, vol. 81, no. 2, 1990, p. 230-258.

Gingerich, Owen. ” ‘Crisis’ versus aesthetic in the Copernican Revolution”. Vistas in astronomy, vol. 17, 1975, p.855, reprinted in The eye of heaven: Ptolemy, Copernicus, Kepler (New York, American Institute of Physics, 1993.

Moss, Jean Dietz. “Galileo’s Letter to Christina: Some Rhetorical Considerations”. Renaissance Quarterly, vol. 36, no. 4, 1983, p. 547-576.

Pedersen, Olaf, “Galileo and the Council of Trent: The Galileo Affair revisited”, Journal for the History of Astronomy, 14 (1983) 1-29.

Segre, Michael. “The Role of Experiment in Galileo’s Physics”. Archive for History of Exact Sciences, 1980, vol. 23, no. 3, p. 227-252.

Westfall, Richard S. “Galileo and the Telescope. Science and Patronage”. Isis, 76 (1985) 11-30.

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Divulgação Científica: Uma atividade sem conceito?

Não acredito que haja hoje um só cientista que não defenda a prática da divulgação científica, ainda que muitos deles não se dêem ao trabalho de produzir uma só linha de texto com este fim. Ainda assim, não da pra ignorar que o passado da atividade é cheio de louros e heróis.

Isaac Asimov, Stephen Jay Gould, Carl Sagan, Julian Huxley, Richard Dawkins e nossos brasileiríssimos Marcelo Gleiser e o pai da divulgação científica tupiniquim José Reis, só pra citar os mais conhecidos. Todos eles lembrados como homens incansáveis no trabalho de popularização da ciência.

Foram estes nomes que inspiraram uma série de novos indivíduos a continuarem seus trabalhos e, graças ao advento da internet e da web, o que vimos nos últimos tempos é a proliferação de blogs e sites preocupados em levar a ciência ao público por vezes referido como leigo. Este blog, claro, não é diferente e eu, como tantos outros, também tenho minhas dívidas com estes grandes divulgadores.

Daí que com tantas boas inspirações, a nova geração de divulgadores científicos já nasceu com uma ideia pré-formatada de modus operandi do divulgador e as vezes nos esquecemos de parar um minuto para pensarmos, o que é, de fato, a divulgação científica.

Público alvo não é conceito.
Por vezes vejo o conceito de divulgação científica se confundindo com a definição de seu público alvo. Isso por que cada vez que nos deparamos com um texto que fale de ciência para “não cientistas”, o classificamos imediatamente como divulgação científica.

Mas “não cientista” ou “público leigo” são definições generalistas demais, que acabam por esconder um problema que é óbvio para quase todos os tipos de ferramentas de comunicação. Quando dizemos “não cientistas” incluímos aí um espectro de público de múltiplas idades e níveis educacionais. Fazemos pior até, excluímos o próprio cientista.

Pode parecer bobagem imaginar que o cientista é alvo da divulgação científica. Mas não da pra negar o fato de que já a um bom tempo a ciência vem exigindo que seu praticante seja cada vez mais especialista, ao passo que a produção científica cresce de maneira assustadora. É evidente então que um biólogo não consiga acompanhar o que acontece na física. Com efeito, um biólogo especializado em comportamento reprodutivo de tubarões pode não estar em dia com as novidades de, digamos, áreas como a entomologia.

Como classificar então este cientista? Como “leigo”? Mas é um leigo igual a dona de casa? Se não é, então quais os tipos de leigos? E os tipos de não cientistas? Pior ainda é quando usamos o termo “divulgação para um público mais geral”, como eu, talvez erroneamente, muitas vezes cansei de fazer.

Vemos então a divulgação científica que dificilmente pode ser definida como “ciência traduzida para não cientistas”. Temos um público em potencial grande demais para definirmos toda a atividade de forma tão simplória.

Apesar disso, a ideia de “tradução” não é exatamente ruim. Mas é preciso considerar a diversidade de público para o qual tentamos comunicar uma atividade que é igualmente diversificada.

Uma narrativa autoritária?
Passando do conceito ao conteúdo, escrevi em outro texto que a divulgação científica atual consiste muito mais em explicar conceitos e teorias. Vou além, o grosso do conteúdo de divulgação científica produzido desde sempre, segue esta mesma métrica.

Não questiono a validade deste tipo de conteúdo, especialmente em um país com graves problemas educacionais. O problema é que a ciência é muito mais do que a teoria da evolução, ou o big bang, ou mesmo o conjunto completo de todas as teorias e conceitos já formulados.

Uma divulgação científica preocupada exclusivamente em ser explicativa não cumpre o papel básico de divulgar. E não o faz por que explicar uma teoria qualquer não basta. É preciso explicar o que é uma teoria, divulgar o dia a dia do cientista, explicar os processos internos de validação da ciência, e por aí vai.

Quando deixamos esta parte de fora, criamos uma narrativa autoritária, mesmo sabendo que na ciência o questionamento tem papel central. Blindamos a atividade, apresentando apenas um produto final que pode ser menos interessante do que o processo que nos levou até ele.

É preciso sujar um pouco a ciência. Mostrar que, assim como em qualquer atividade humana, também nela se erra. Mostrar que cientistas também tem problemas com seus egos. Mostrar que também sofremos com as mazelas políticas. Enfim, mostrar que não somos esta torre branca de onde verdades e coisas boas saem, ainda que ninguém entenda como.

Mas e o conceito?
Desculpem, vou ficar devendo. Acredito que a divulgação científica, embora não seja exatamente nova, ainda tem muito o que caminhar. Além disso, o papel deste texto é provocar algumas reflexões e discussões, bastante necessárias ultimamente.

É importante discutirmos sobre blogs de ciência e assuntos similares? Sem dúvida. Mas não podemos deixar de também discutirmos as bases da atividade. Andamos tão preocupados em discutir sobre os meios que esquecemos de olhar para a mensagem.

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Creation: uma crítica

Quando li a notícia de que estavam fazendo um filme sobre como Darwin escreveu o Origem das Espécies fiquei bastante empolgado. Primeiro por que qualquer um que leu o livro biográfico escrito por Adrian Desmond e James Moore sabe que esta é uma excelente história a ser contada. Segundo por que o ator encarregado de interpretar o naturalista inglês é o Paul Bettany que já tinha interpretado um outro naturalista, fictício é verdade mas tremendamente inspirado em Darwin, no filme Mestre dos Mares.

Tive a oportunidade de assistir ao filme ontem que, numa tentativa infeliz de ironia, foi chamado de Creation. Tenho más notícias. Vou resumir o assunto já que os próximos parágrafos vão conter algum spoiler e eu não quero estragar nada para ninguém. O filme não se sustenta nem como filme, nem como cinebiografia. Aviso novamente, como reforço, OS PRÓXIMOS PARÁGRAFOS PODEM CONTER SPOILERS, portanto, siga por própria conta e risco.

Esteriótipos e Exageros

Antes de mais nada devo reforçar que toda a crítica que faço é, sobretudo, por oposição ao livro do Desmond e Moore. Obra que não tem relação direta com o filme, que foi baseado no livro Annie’s Box, de Randal Keynes que é também tataraneto de Darwin.

O filme se divide em duas linhas de tempo. A primeira tem como ponto central a figura de Anne Darwin, mostrando a relação privilegiada entre Charles e sua segunda, e preferida, filha até sua devastadora morte aos 10 anos de idade. A segunda linha de tempo mostra Darwin lutando contra sua doença e sua tentativa de terminar o Origem das Espécies para publicação.

A primeira coisa que me incomodou bastante é a maneira como tudo é construído. Tudo muito exagerado, tudo muito esteriotipado. Darwin é o gênio indomável que tenta conter a si próprio em respeito ao amor que sente por sua esposa, Emma, a beata que em nome da religião vê, sem reclamar, sua filha sendo torturada, ao mesmo tempo em que suprime os impulsos do marido na busca de salvação para sua alma. Anne é a criança gênio, feita à imagem e semelhança do pai.

E por exagerar transforma o “naturalista atormentado” de Desmond e Moore em um “naturalista alucinado”. Darwin passa metade do filme tendo visões do fantasma de sua filha, em uma crise existencial que relaciona o Origem das Espécies com a morte de Anne, com as dificuldades do casamento, com a doença misteriosa.

Para o filme, o “Origem” não é um livro científico, mas um livro destinado a matar Deus, que só vê a luz do dia quando seu autor finalmente faz as pazes consigo mesmo, com sua esposa beata, com sua filha morta e com seu ateísmo latente. E é essa preocupação em a todo instante colocar a ciência em contraposição com a religião me leva a um segundo ponto.

Quando não se tem conteúdo, apele para a polêmica.

Creation faz exatamente isso. O filme não consegue prender o expectador pela força da história de como Darwin escreveu seu famoso livro. Ao invés disso, aposta todas as fichas em polêmicas rasas e que estão na moda. Não há uma só oportunidade de reforçar a briga entre ciência e religião que seja perdida. Darwin é retratado como um ateu enrustido, mesmo antes da morte de sua filha. A própria Anne é mostrada como uma criança que não acredita nos ensinamentos da bíblia, sendo penalizada e torturada por seu tutor religioso.

O nome do filme, como já disse anteriormente, é um trocadilho barato feito exclusivamente com o intuito de provocar polêmica. Nem mesmo o caso Darwin x Wallace passa batido.

Por fim, fiquei excepcionalmente desapontado. Não é de hoje que espero um bom filme sobre Darwin e, quando ele finalmente chega, é feito nas coxas. Por outro lado, Charles é uma figura tão rica em termos de história que o melhor seria uma série de TV. Em todo caso, não assistam, a não ser a título de curiosidade.

O duro é ver uma excelente idéia ser tão ridiculamente mal aproveitada. No final das contas, não temos nem 10 minutos de cenas que são ativamente relacionadas com a “criação” do Origem das Espécies. Nem mesmo a presença da lindíssima Jennifer Connelly salva. Aliás, se você quer ver Jennifer Connelly como esposa de um cientista, uma opção muito melhor é assistir ao Uma mente brilhante que, ao menos como filme, supera e muito essa aberração chamada Creation.

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Quem governa o 3º Mundo?

Não, não me refiro aos chamados países em desenvolvimento. O 3º mundo ao qual estou me referindo é aquele proposto pelo grande filósofo Karl Popper. Já escrevi sobre o assunto neste blog antes mas, tendo em vista que o texto não foi lá muito claro, faço uma nova tentativa.

Em seu livro Conhecimento Objetivo, Popper propõem uma divisão tripla do mundo. O 1º mundo é aquele que contém objetos físicos ou estados materiais. O 2º mundo é composto por estados de consciência ou mentais. E por fim o 3º mundo, habitado por conteúdos objetivos de pensamento, em especial pensamentos científicos, poéticos e de outras obras de arte.

Vemos então que no 2º mundo estão os pensamentos subjetivos, ou o ato de pensar em si, enquanto no 3º mundo estão os pensamentos objetivos, ou o conteúdo destes pensamentos. Livros, artigos e obras de arte são a representação física dos habitantes deste último.

Mas este não é um texto sobre Karl Popper, ou mesmo sobre considerações a respeito da validade ou implicações da divisão proposta pelo filósofo. A introdução sobre o 3º mundo popperiano me serve apenas para dar maior materialidade ao fato de que, por mais que vivamos em um mundo mergulhado em informação (ou em pensamentos objetivos), há, e talvez sempre houve, uma disputa constante para determinar quem governa isso tudo.

A cobra que engole o próprio rabo.
Os periódicos científicos nasceram com uma missão honrosa. Facilitar a difusão da produção científica entre a comunidade. Hoje mais atrapalham do que ajudam. O Renato abordou o tema em um de seus textos, mas aproveito pra dar meu pitaco.

E começo pelo problema mais fundamental que se pode imaginar. A produção científica já a algum tempo supera, e muito, a capacidade de publicação dos periódicos. Fato posto, os periódicos tiveram que encontrar uma solução para escolher o que deveria ser publicado. E a solução foi o peer-review. Afinal, quem melhor que a própria comunidade científica para decidir o que quer ler?

Embora o peer review resolva o problema dos publhishers, acaba por criar muitos outros para a própria comunidade. O expoente mais clássico disso é o já velho conhecido “publique ou pereça” e sua versão remodelada “seja citado ou pereça”. O ponto principal aqui é notar que uma dúzia de indivíduos não são representativos o suficiente para decidir o que é que uma comunidade inteira deve ler.

Outro problema com este sistema é que ele é caro. Uma assinatura de um publisher qualquer pode, e em geral ultrapassa, facilmente os US$ 10.000,00 por ano, o que o torna muitas vezes proibitivo. Mesmo para as instituições de ensino e bibliotecas. O custo elevado de acesso também dificulta o trabalho de pesquisadores autônomos, desvinculados de instituições de pesquisa.

No final das contas, temos um sistema que se mantém com conteúdo gerado pela comunidade científica, mas que dificulta o acesso da própria comunidade. A situação toda não fica menos bizarra ao notarmos que, embora os publishers cobrem pelo acesso, não pagam ao cientista pelo trabalho publicado.

O circo de Alexandria.
Em 2004 o Google começou a digitalizar livros para torná-los indexáveis pelo seu buscador. A iniciativa virou caso de tribunal quando, em 2005, o Authors Guild e a Association of American Publishers decidiu entrar com uma ação na justiça por se sentir prejudicada pela iniciativa.

O caso está prestes a ser resolvido com um acordo entre as partes, aonde o Google passa a ter a permissão legal para digitalizar e fornecer acesso em troca da cobrança de uma taxa, que será em parte repassada aos autores. O problema é que, se o acordo for homologado da forma que está, irá tornar outras iniciativas de digitalização que já existem (e tantas outras que poderão vir a existir) ilegais (nos Estados Unidos, que fique claro).

Os detalhes do acordo me são obscuros, mas é curioso ver como os concorrentes do Google, como a Microsoft e o Yahoo, estão tão ferozmente tentando expandir os termos do acordo para que eles também estejam legalmente cobertos. Em termos gerais a briga é para impedir que o Google monopolize o mercado de livros digitalizados.

Não menos curioso é ver o artigo de opinião da autoria de Sergey Brin, co-fundador do Google, publicado no The New York Times. No texto em questão ele alega que o interesse do gigante de buscas não é meramente comercial. Não. O objetivo é impedir que desastres, como os diversos incêndios da biblioteca de Alexandria, voltem a destruir por completo a produção intelectual do mundo.

O que o Google quer, segundo seu fundador, não é produzir a maior loja virtual de livros do mundo, mas sim a maior biblioteca da história da humanidade. É claro que fica difícil de engolir o argumento quando um acordo judicial sobre o caso prevê a cobrança de uma taxa que, ainda que em parte, termina nos bolsos do Google.

É da natureza das bibliotecas fornecer acesso à livros e artigos sem cobrar seus utilizadores. Se era de fato o interesse do Google construir uma biblioteca virtual, por que não buscar parcerias com o governo e outras entidades para arcar com os custos exigidos pela indústria de livros dos Estados Unidos?

Quem governa o 3º mundo?
A pergunta que serve de título a este texto não possuí uma resposta fácil. Talvez nem possua uma resposta. Ainda assim darei meu ponto de vista. Quando Popper propôs o 3º mundo fez questão de sublinhar sua independência, no sentido de que um conhecimento objetivo não depende de seu criador para continuar a existir.

Popper chega mesmo a sugerir um exemplo aonde toda a humanidade foi devastada, deixando para trás apenas seus livros e obras de arte. Em tal cenário, uma outra civilização inteligente poderia entrar em contato com este conhecimento perdido e aprender com o nosso legado.

O que Popper talvez tenha ignorado é que para tal, o 3º mundo precisa estar manifestado em algum tipo de mídia e, a história mostra, todas as mídias que conhecemos são controladas por alguém. Podemos dizer então que, pelo bem ou pelo mal, a indústria do entretenimento e os publishers governaram o 3º mundo na medida em que eram elas quem forneciam acesso a ele através de suas mídias.

Por outro lado o cenário atual é muito mais otimista. O advento da internet permitiu que conteúdo fosse produzido e distribuído de maneira mais econômica, por vezes a custo zero. Isso evidentemente enfraquece um modelo e negócio que se sustentava justamente na dificuldade que um autor tinha em se fazer lido. Ou de um músico em ser ouvido.

O controle do 3º mundo se diluiu de tal forma que, podemos dizer, ele esta muito próximo de governar a si próprio. As brigas judiciais pela distribuição de livros digitais só demonstra o óbvio. O papel de mediador que as editoras possuíam esta deixando de fazer sentido. É o fim agonizante de um modelo de negócios que não soube se reinventar.

E o que isso significa para o cientista? A própria metodologia de validação do conhecimento produzido pela ciência acaba por garantir aos grandes publishers mais alguns anos de sobrevivência tranqüila. Tradicionalistas que somos, nos acostumamos com a economia do “publique ou pereça”, nos acostumamos ao sistema de peer-review, nos acostumamos a depender de um periódico para termos acesso às novidades de nossas áreas.

Mas até quando esse cenário irá durar? As desvantagens são evidentes e, tão logo começarmos a perceber que este sistema, ao invés de facilitar o acesso ao conhecimento, cria barreiras cada vez maiores, passaremos a buscar novas alternativas.

O que precisamos ter em mente é que o cientista, em última análise, não se difere de um escritor de romances ou de um músico. Nós, assim como eles, queremos ver nosso trabalho circulando pelo maior número possível de indivíduos da comunidade. A comunidade, por sua vez, quer ter acesso a este conteúdo todo.

Temos a fome e a vontade de comer, e os publishers são como um caríssimo restaurante francês. Embora eventualmente possamos pagar um pouquinho a mais para comer algo diferente, é o feijão com arroz diário que nos mantém em pé.

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Kepler, o salvador.

Galileu Galilei é sempre lembrado como um dos maiores cientistas da história. Suas contribuições para a física foram importantíssima, assim como sua habilidade de artesão. Não raro se atribui a ele a construção do primeiro telescópio, o que não é bem verdade.
Na realidade o instrumento em si já existia.

O que Galileu fez foi aperfeiçoar e, em um pensamento muito feliz, apontá-lo para o céu. Ao fazê-lo, acabou por observar três das quatro luas de Júpiter. A quarta só pode ser observada um pouco mais tarde.

Com estas observações feitas Galileu escreveu seu livro Siderius Nuncius, oferecendo a descoberta ao seu futuro mecenas, Cosimo de Medici. O que nem sempre se divulga desta história é que pouca gente acreditou que as luas de Júpiter realmente existiam.

O ato de usar um instrumento para observar o céu era, na época, uma ideia estranha demais. Além disso, nem todos que tiveram acesso a um dos telescópios de Galileu conseguiram fazer as mesmas observações que ele. Mesmo os que conseguiam, por vezes, acreditavam que as luas não passavam de um truque visual produzido pelo aparelho.

A ajuda que Galileu precisava veio de um outro matemático. Kepler, que recebeu um telescópio e uma cópia do Siderius Nuncius, não pode deixar de ficar maravilhado. Escreveu Dissertatio cum Nuncio Sidereo, um comentário sobre as descobertas das luas de Júpiter e as implicações que isso trazia. Mas ainda mais importante, escreveu o Dioptrice.

Neste livro Kepler formula toda a base teórica que Galileu precisava para a legitimação do telescópio. É nesta obra que ele estuda lentes divergentes, convexas e côncavas, além de melhorar o instrumento propondo o uso de duas lentes convexas. Curiosamente Galileu nunca retribuiu o favor comentando qualquer trabalho de Kepler, ainda que o alemão tenha tido o cuidado de enviar suas obras ao italiano.

O caso é curioso no entanto para demonstrar que, em determinadas ocasiões, é preciso mais do que ver o fenômeno para acreditar nele. São os raros casos aonde a imagem vale menos do que mil palavras.

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Observação, teoria e experiência.

Alexandre Koyré foi um dos gigantes da história e filosofia da ciência. Seu trabalho foi fundamental para a estabelecer a revolução científica com o ponto central da história da ciência, além de romper com a narrativa positivista da primeira geração de historiadores.

Um dos pontos curiosos do trabalho de Koyré é a radical importância que ele dá à precedência da teoria sobre a experiência. Com efeito, Koyré chegou a afirmar que face ao papel da teoria, a experiência é inútil.

Essa posição é particularmente notável em seus trabalhos sobre Galileu, e desencadeou uma série de outros tantos trabalhos por outros tantos pesquisadores que passaram a averiguar se os experimentos descritos por cientistas do passado eram de fato possíveis de serem feito à época, ou apresentavam os resultados descritos.

Alexandre Koyré

Alexandre Koyré

A relação entre teoria e experiência é sempre complexa, especialmente quando tentamos estabelecer uma “sequência” entre uma e outra, como fez Koyré. Gostamos de pensar que a ciência é feita seguindo um script comum. Observamos um fato, produzimos uma teoria e testamos esta teoria através de uma experiência qualquer.

Mas em geral as coisas não são tão esquemáticas assim. Estas três etapas da ciência se misturam de formas nem sempre claras. Por vezes a observação depende de um objeto que só pode ser construído por conta de uma teoria. Por vezes teorias são feitas a partir de experimentos. Por vezes, pulamos completamente a observação, teorizando estruturas que não podem ser observadas por nenhum meio conhecido.

A história da ciência mostra que Koyré acertou algumas vezes. De fato, alguns experimentos descritos jamais poderiam ter sido feitos ou apresentado os resultados pelos quais são conhecidos.

Mas será que a ciência moderna, com todo o seu pretendido rigor, está livre de teorias fundamentadas unicamente por experimentos mentais? E se este não for o caso, será que devemos considerar tais experimentos prejudiciais?

Talvez estas respostas só possam ser dadas no futuro, quando a ciência moderna já tiver virado história.

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Os mistérios da ciência.

Recentemente li dois artigos que, embora já tenham uma certa idade, possuem um conteúdo bastante interessante. Os artigos que podem ser encontrados aqui e aqui tratam basicamente sobre a imagem pública da ciência. O que me chamou a atenção é que ambos, em algum momento, alegam que a ciência construiu pra si mesma uma aura mística.

A afirmação me causou imediato espanto. Sempre ouvi que é próprio da ciência tentar se afastar do místico, buscando sempre a verdade. Com efeito, a ciência de fato alega que trabalha com o mundo real, com fatos, com verdades que podem ser alcançadas sem artifícios mágicos ou sobrenaturais.

Mas pensando bem sobre o assunto, será que a ciência passa mesmo esta imagem de trabalhar sobre um “mundo real”? Ora, qualquer cientista sabe e sustenta que a ciência não vive de dogmas, ou seja, todo o conhecimento científico esta sujeito a revisão. Embora isso seja completamente compatível com a idéia de um “mundo real” para o cientista, para o público em geral talvez não seja bem assim.

Quantas vezes não vemos pessoas reclamando sobre as constantes mudanças no conhecimento científico? Seja pela cafeína que hora faz bem, hora faz mal. Seja por planetas que deixam de ser planetas. Seja pelo aquecimento global que hora existe, hora deixa de existir.

Me parece real a idéia de que a ciência opera de formas misteriosas. E o que estamos fazendo a este respeito? Muito pouco acredito eu. A divulgação científica hoje em dia consiste muito mais em explicar conceitos e teorias, e muito menos em explicar a própria ciência e seu fincionamento.

Se é papel da divulgação científica diminuir o hiato entre ciência e sociedade, por que nos esforçamos tanto em explicar conhecimentos que, sabemos todos, são passageiros? Talvez fosse mais produtivo dedicar mais tempo e esforço explicando o que é ciência e como ela funciona. O problema, e pra mim isto é bastante óbvio, é que é muito mais difícil explicar a ciência.

A dificuldade esta relacionada, claro, com a natureza extremamente complexa da própria atividade científica. Mas não só. Quantos são os cientistas que param um só segundo para pensar sobre seu próprio trabalho? Quantos se interessam em estudar, ainda que sem muito rigor, a história de sua própria atividade? Há ainda os tantos e tantos cientistas que, inflados pela sensação de serem mais importantes do que realmente são, se recusam a aceitar que a ciência é uma expressão cultural como outra qualquer.

Fazer divulgação científica apenas trabalhando com conceitos e teorias, é o mesmo que esperar que alguém que só teve contato com meia dúzia de letras produza um livro completo.

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Este blog não morreu.

Não, este blog não morreu. É verdade que já estamos um bom tempo sem atualizações. Minha culpa, é verdade.

Nos últimos meses venho correndo com o final do primeiro ano do meu mestrado. E não é pouca coisa. Neste tempo, até o aniversário de segundo ano deste blog eu deixei passar em branco, sem nem mesmo uma comemoraçãozinha ou agradecimentos.

Para os que nos acompanham, peço imensas desculpas. Acreditem, deixar o Polegar Opositor tanto tempo sem atualizações me dói muito. Mas espero que em breve esta faze atribulada passe e eu volte a me dedicar ao blog e aos podcasts. Enquanto isso, deixo vocês com um texto novo e a promessa de que volto logo e com novidades.

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O joio e o trigo.

Quem acompanha este blog a mais tempo sabe que o debate entre evolucionismo e criacionismo sempre foi um tema recorrente, ao menos no primeiro ano de vida. Gradativamente o debate em si foi sendo deixado de lado, e isso se deve ao fato de que, ao meu ver, falta nos dois lados da polêmica o refinamento necessário para uma discussão saudável.

Normalmente vemos textos e mais textos, os deste blog incluídos, que funcionam basicamente na refutação de contra-argumentos do adversário. Nesta troca desmedida de refutações, o que pouca gente se dá ao trabalho de fazer é separar o joio do trigo. A começar pela unidade fundamental do que se está debatendo: Teoria evolutiva ou teoria da evolução?

Ao observador desatento, ao dogmático mais ferrenho e ao cientista  epistemologicamente pobre, ambas as coisas podem parecer iguais. A simples compreensão desta diferença pode evitar uma série de discussões inúteis e erros de interpretação.

Quando nos referimos à realidade (ou não) da evolução dos seres vivos, estamos falando da teoria evolutiva. Qualquer querela neste nível deve se ater à discussão sobre se a biodiversidade do planeta existe como a vemos hoje desde “sempre” ou foi mudando ao decorrer do tempo. A questão básica aqui é, as espécies são fixas no tempo ou variam?

Já por teoria da evolução entendemos os mecanismos propostos para a variação das espécies no tempo. É aqui que entram Lamarck, Darwin, Neodarwinistas e por aí a fora. A diferença é sutil, mas bastante clara: Uma coisa é saber se as espécies mudam, outra é COMO mudam.

Um cientista bem preparado, e que responde “qual delas?” para a pergunta “você acredita na teoria da evolução?”, tenho certeza, acaba com a maioria dos debates antes mesmo deles começarem.

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Nota de falecimento: Crodowaldo Pavan

Em 2007, quando comecei a fazer a pós em Divulgação Científica do Núcleo José Reis de Divulgação Científica, tive o prazer de conhecer pessoalmente o professor Crodowaldo Pavan (1/12/1919 – 03/04/2009). Aquele senhorzinho franzino, conservava um cérebro afiadíssimo. Sempre simpático com os alunos, sempre  disposto a conversar com todos.

Era conhecido pela força de suas opiniões, frequentemente polêmicas. Era, afinal, um grande exemplo de como um cientista deve realmente ser. Até os últimos dias questionador, curioso, engajado. Muito diferente da maioria dos cientistas de hoje, sempre preocupados demais com seus egos e currículo Lattes para poderem realizar um trabalho científico realmente interessante.

Pavan foi um dos maiores cientistas Brasileiros. Como ele, restam muito poucos. Sentiremos saudade do homem que sempre empolgado contava em como deu a volta ao mundo três vezes divulgando seu trabalho.

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