Thiago Henrique Santos
Quem é?
Minha mãe conta, e eu tenho alguns lampejos de memória, que quando eu tinha lá meus seis ou sete anos eu queria voar. Eu vestia minha roupa de super-homem e esticava os braços para o alto na tentativa de alçar vôo. Nunca funcionou, claro, e eu estava certo de que o problema era a capa. Passei boa parte da minha infância tentando resolver o problema da capa sem sucesso. O processo era simples, eu assistia um episódio do desenho “Super Amigos”, observava o Super-homem voar e criava uma hipótese nova. O que na época eu não sabia é que já estava entregue ao método cientifico. Como um verdadeiro discípulo de Karl Popper lá ia eu todos os dias falsear minha mais nova teoria sobre o vôo livre com capas vermelhas e roupas colan azul. A televisão, o cinema e a literatura continuariam me influenciando. Conheci a teoria da relatividade de Einstein pesquisando sobre viagens no tempo depois de assistir De volta para o futuro. Jurassic Park me apresentaria à paleontologia e à teoria da evolução. Julio Verne me levaria a uma viagem ao centro da Terra e à Lua, dando origem ao meu interesse pela astronomia. Eventualmente acabaria entrando para a faculdade de Biologia, passando a ser parte integrante do mundo científico que sempre me seduziu. O amor pela biologia foi imediato, eu precisei apenas de uma semana de aulas para descobrir que era isso que eu queria pelo resto de minha vida. Dentro da biologia descobri ainda minha outra paixão, a teoria da evolução. Foi durante a faculdade que me aprofundei na filosofia da ciência e suas implicações. Popper e Kuhn se transformaram em ídolos, assim como Dawkins e Jay Gould. Mas foi um astrônomo quem me daria a inspiração necessária para partir para o campo da divulgação cientifica. Carl Sagan dedicou sua vida à ciência e a sua divulgação. O Polegar Opositor nasceu da vontade de divulgar a ciência e, quem sabe um dia, servir de guia para os muitos garotos e garotas que hoje tentam voar com suas capas vermelhas e colan azul.
Contato
thenriques45@gmail.com
O joio e o trigo.

Quem acompanha este blog a mais tempo sabe que o debate entre evolucionismo e criacionismo sempre foi um tema recorrente, ao menos no primeiro ano de vida. Gradativamente o debate em si foi sendo deixado de lado, e isso se deve ao fato de que, ao meu ver, falta nos dois lados da polêmica o refinamento necessário para uma discussão saudável.

Normalmente vemos textos e mais textos, os deste blog incluídos, que funcionam basicamente na refutação de contra-argumentos do adversário. Nesta troca desmedida de refutações, o que pouca gente se dá ao trabalho de fazer é separar o joio do trigo. A começar pela unidade fundamental do que se está debatendo: Teoria evolutiva ou teoria da evolução?

Ao observador desatento, ao dogmático mais ferrenho e ao cientista  epistemologicamente pobre, ambas as coisas podem parecer iguais. A simples compreensão desta diferença pode evitar uma série de discussões inúteis e erros de interpretação.

Quando nos referimos à realidade (ou não) da evolução dos seres vivos, estamos falando da teoria evolutiva. Qualquer querela neste nível deve se ater à discussão sobre se a biodiversidade do planeta existe como a vemos hoje desde “sempre” ou foi mudando ao decorrer do tempo. A questão básica aqui é, as espécies são fixas no tempo ou variam?

Já por teoria da evolução entendemos os mecanismos propostos para a variação das espécies no tempo. É aqui que entram Lamarck, Darwin, Neodarwinistas e por aí a fora. A diferença é sutil, mas bastante clara: Uma coisa é saber se as espécies mudam, outra é COMO mudam.

Um cientista bem preparado, e que responde “qual delas?” para a pergunta “você acredita na teoria da evolução?”, tenho certeza, acaba com a maioria dos debates antes mesmo deles começarem.

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Nota de falecimento: Crodowaldo Pavan

Em 2007, quando comecei a fazer a pós em Divulgação Científica do Núcleo José Reis de Divulgação Científica, tive o prazer de conhecer pessoalmente o professor Crodowaldo Pavan (1/12/1919 – 03/04/2009). Aquele senhorzinho franzino, conservava um cérebro afiadíssimo. Sempre simpático com os alunos, sempre  disposto a conversar com todos.

Era conhecido pela força de suas opiniões, frequentemente polêmicas. Era, afinal, um grande exemplo de como um cientista deve realmente ser. Até os últimos dias questionador, curioso, engajado. Muito diferente da maioria dos cientistas de hoje, sempre preocupados demais com seus egos e currículo Lattes para poderem realizar um trabalho científico realmente interessante.

Pavan foi um dos maiores cientistas Brasileiros. Como ele, restam muito poucos. Sentiremos saudade do homem que sempre empolgado contava em como deu a volta ao mundo três vezes divulgando seu trabalho.

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Ciência em fase beta.

Publicar um artigo científico é, em geral, um processo laborioso e até certo ponto burocrático. Além do evidente trabalho de escrever o artigo, é preciso submetê-lo a uma revista apropriada e torcer por uma resposta positiva. Daí até a publicação efetiva o artigo ainda passa pela peer review e etc.

O caso é que na maioria das revistas, da aceitação do artigo à publicação, existe um hiato de, em geral, um ano. Dependendo da revista, esse período pode aumentar ainda mais, eventualmente, chegando a três anos.

Disso resulta que é muito comum ver os pesquisadores distribuindo seus trabalhos entre seus colegas antes de ele ser publicado. A questão que podemos levantar disso tudo é, até quando tal situação vai se manter?

Quer dizer, é compreensível a importância do artigo publicado em uma revista científica. Tem a ver com a famosa “auto-validação” da comunidade. Quando um artigo é publicado, significa que esta validado. Por outro lado, tal artigo já estava “nas mãos” da comunidade antes disso, e em alguns casos, já poderia estar sendo usado como conhecimento validado.

Se assim o é, podemos dizer que o artigo já estava validado pela comunidade, embora não pelo método “oficial”. Extrapolando um pouco a situação toda, e fazendo um monte de especulações, podemos imaginar um cenário futuro curioso.

E se os pesquisadores começassem a disponibilizar seus artigos em seus blogs ou sites pessoais? E mais, e se isso fosse o suficiente para o trabalho ser reconhecido pela comunidade? Afinal, por mais referree’s que uma revista possa arranjar para avaliar seu artigo, eles ainda seriam menos do que os que poderiam potencialmente realizar a mesma atividade caso o artigo estivesse amplamente disponível na internet.

De fato, é possível dizer que desta forma, toda a comunidade de pares poderia, em última análise, avaliar um artigo qualquer. Mais ainda, o pesquisador em questão poderia ir modificando seu artigo conforme fosse recebendo críticas ou sugestões, além de poder constantemente atualizá-lo conforme fosse desenvolvendo a pesquisa.

Isso produz um efeito semelhante ao que vemos hoje em dia com os softwares disponíveis pelas grandes empresas de internet. Eles estão sempre em fase beta, por que estão sempre sendo modificados pra atender o feedback dos usuários.

Será este o destino da ciência 2.0? Estar em fase beta? E com uma comunidade capaz de validar os trabalhos científicos sem que eles sejam publicados em revistas de renome, qual seria o destino destas publicações?

É um cenário extremo, mas não de todo impossível.

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Pós em Divulgação Científica

Antes que as pedras voem, aviso: Este não é um post pago.

A divulgação científica no Brasil não é um fenômeno recente. Que o diga o grande divulgador-cientista-jornalista José Reis. Mas apesar de não ser novidade alguma, é impossível negar que a atividade como um todo vem, nos últimos tempos, ganhando ainda mais importância, relevância e maturidade.

A internet tem grande responsabilidade neste movimento, e apesar disso é estranhamente negligenciada na maior parte dos cursos que tratam sobre o tema.Foi pensando sobre isso, em um brainstorm regado a pizza e vinho, que a Andréa, a Fernanda e eu desenvolvemos o projeto de um curso de Divulgação Científica que dê a devida importância à internet.

Foi durante o brainstorm que pensamos: Se estamos aqui dando tanta importância para a internet, por que não fazer o curso em Educação a Distância? Com isto em mente, não só decidimos que o curso seria em EAD, como também decidimos organizá-lo todo à distância. Tirando aquele primeiro brainstorm, todo o resto foi feito através da internet.

Com o projeto todo pronto, e com a Andréa trabalhando na parte burocrática, o projeto foi aprovado pela Universidade Gama Filho e se transformou no primeiro (até aonde me consta, embora exista um curso em jornalismo científico em EAD) curso de pós-graduação lato senso em Divulgação Científica à distância destas terras tupiniquins.

Eu poderia ficar aqui discursando o quanto estou feliz com este projeto e etc, mas é melhor pular a parte sentimental e irmos diretamente ao que interessa:

O curso tem carga horária de 340 horas e mais 20 presenciais (presenciais? Sim, por determinações burocráticas a legislação atual exige que determinados cursos em EAD tenham horas presenciais obrigatórias. Mais detalhes aqui e aqui. E meu obrigado ao Sérgio Lima pelo toque). Pode ser feito por qualquer pessoa de qualquer lugar do Brasil, e as inscrições são, evidentemente, feitas através do site.

As disciplinas são divididas em 4 módulos:

- História e Filosofia da Ciência
Introdução à Divulgação Científica;
História e Filosofia da Ciência;
Tópicos em Ciência;
Metodologia da Pesquisa;

- Divulgação Científica
História e Filosofia da Divulgação Científica;
Ética em Divulgação Científica;
Tópicos em Divulgação Científica;
Tecnologia da Informação na Divulgação Científica;

- Meios de Divulgação Científica
Documentação e Informação em Ciências;
Jornalismo Científico;
Ferramentas Virtuais: Mídias;
Ferramentas Virtuais: Objetos de Mídias;
Comunicação Visual;

- Práticas de Divulgação Científica
Escrita Criativa;
Escrita Crítica;
História em Quadrinhos;
Fotografia Digital;
Podcast e Videocast;
Blogs;

Outros informações como preços e a data do início das aulas podem ser consultadas no site do curso. Divulguem, twittem, espalhem.

Obs: Embora o curso esteja classificado como pós-graduação em ciências biológicas, é aberto a todos os interessados, de qualquer área.

Panfleto de Divulgação. Clique para ampliar.

Panfleto de Divulgação. Clique para ampliar.

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Divulgando o estranho mundo da ciência.

Acredito que exista um problema básico para a divulgação científica que poucas vezes é posto em evidência. O problema em questão é aceitar o fato de que o mundo em que o cientista vive, não é o mesmo mundo que as pessoas em geral vivem. Pode parecer uma idéia ingênua, mas o caso é que o mundo explicado pela ciência, não é de modo algum, o mundo do dia-a-dia. E este aspecto influencia diretamente na capacidade de um texto de divulgação científica cumprir o seu papel.

Há algo no treinamento do cientista que torna noções como o heliocentrismo, ou inércia, ou evolução biológica, tão naturais que são, de certa forma, aceitos a priori. Embora de alguma maneira as bases para isso estejam no nosso sistema educacional, nenhum destes conceitos são naturais para o senso-comum.

Alguém pode achar absurdo eu estar defendendo que em pleno século XXI, as pessoas não achem natural a Terra estar se movendo ao redor do Sol, mas o ponto que quero defender é que ninguém acreditaria que a Terra é quem se move não fosse o caso de dizermos isso a elas desde crianças.

E assumir isso não significa considerar que as pessoas, com exceção dos cientistas, sejam todas intelectualmente inferiores. Não é preciso sequer fazer um exercício mental para entendermos esta noção. Se tomarmos a física de Aristóteles como exemplo, vamos compreender perfeitamente que ela era, basicamente, uma tentativa elegante de explicar o que o senso comum daquela época, e das épocas anteriores a ela, e de muitas outras épocas posteriores, via.

Qualquer indivíduo nascido na Grécia antiga olhava para o céu, e observava que em um período relativamente regular de tempo uma enorme esfera luminosa ia de um ponto a outro do céu, desaparecendo completamente por outro período relativamente regular. Não há nada neste tipo de observação que nos diga intuitivamente que estamos viajando ao redor desta esfera luminosa. Antes disso, é perfeitamente natural supor que é a dita esfera quem atravessa o nosso céu e que, portanto, esta girando ao redor do lugar aonde vivemos.

Isso evidentemente não impediu que, na mesma Grécia antiga, alguns indivíduos considerassem que era o Sol quem estava fixo e a Terra é que se movia ao seu redor. Mas essa não é uma noção natural, e como tal foi amplamente refutada por uma série de argumentos que, sob nossa perspectiva atual, estão errados.

Um destes argumentos é que se a Terra estivesse se movendo, isso resultaria em uma espécie de “força contrária”, que iria arrastar tudo o que estivesse em sua superfície na direção oposta ao movimento. Essa noção é, mais uma vez, perfeitamente natural. Vemos isso desde crianças, quando colocamos algum objeto em cima de um carrinho de brinquedo, por exemplo, e o empurramos. Se o objeto não estiver de alguma forma preso, irá, dependendo da força com a qual o empurramos, cair.

A experiência nos diz que é o Sol quem se move ao redor da Terra por que é isso o que vemos, e é isso que sentimos. E embora o mundo moderno nos diga o contrário, passamos a maior parte da vida assumindo essas noções tão antinaturais por mera argumentação de autoridade. Pergunte a uma criança se é a Terra ou o Sol quem está se movendo, e ela vai dizer que é a Terra. Pergunte o motivo, e ela vai dizer que foi o professor quem disse.

Pode-se argumentar que com a progressão pelo sistema educacional, as pessoas passam dos conceitos simples para conceitos mais complexos, compreendendo finalmente o heliocentrismo, e o motivo de não estarmos todos voando para fora da Terra, a despeito da velocidade com que ela se move. Mas ainda assim, meu ponto persiste, as pessoas eventualmente aprendem o conceito, mas continuam vivendo em um mundo aonde eles não são naturalmente intuitivos.

De certa maneira, é como se os cientistas vivessem em um planeta vizinho ao das pessoas que não estão envolvidas diretamente com a atividade científica. E ao mesmo tempo, os diferentes tipos de cientistas vivem em continentes separados em seu próprio mundo.

Fazer divulgação científica é, seguindo na metáfora do parágrafo anterior, como oferecer material “turístico”. Mostramos imagens do nosso mundo, dizemos como ele se parece, seus cheiros, suas cores, as diversões e as partes ruins. Convencemos as pessoas de que aquele lugar existe, e é, apesar dos problemas, um bom lugar para se visitar.

O divulgador de ciência deve ter em mente essa separação. Não podemos ser ingênuos ou arrogantes a ponto de pensarmos que se uma pessoa não acredita em evolução das espécies, por exemplo, o faça por ser dogmática ou por não compreender o processo, ou por desonestidade. Por vezes, aceitar qualquer teoria científica pode significar uma transformação mais profunda, uma mudança de mundo.

Divulgação científica feita sem a noção de que seu trabalho é, por vezes, apresentar um mundo estranho, pode acabar não atingindo seu objetivo e, por vezes, pode ser até prejudicial.

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Polegarcast #5: 200 anos de Charles Darwin

Polegar Cast está de volta para comemorar uma data muito especial. 200 anos do nascimento de Charles Darwin, o naturalista inglês que mudou de forma determinante a maneira como estudamos os seres vivos.

Neste podcast você vai ouvir:

00:00 Abertura, introdução e apresentação dos participantes;
01:50 Um pouco do background familiar de Charles Darwin;
06:00 Darwin e seu talento científico precoce;
07:00 A influência das irmãs de Darwin;
08:00 Darwin, química e a faculdade de medicina;
10:40 Uma desgraça para toda a sua família;
12:30 A viagem no Beagle;
15:30 Fritzroy e Darwin, uma amizade improvável;
16:00 O guia de sobrevivência da mulher no mar;
16:45 Darwin, uma moça no mar?
19:00 As coleções de Darwin;
22:32 A vida atribulada de Darwin;
24:30 Thomas Malthus e o insigth final;
25:00 Das influências que levaram à teoria evolutiva;
31:30 Darwin e suas ervilhas;
34:00 Darwin não vai pro céu;
35:00 A polêmica carta de Wallace;
35:40 Darwin, o idiota;
38:50 A origem das espécies;
40:00 O descendente do macaco;
41:00 Eventos em comemoração à Darwin.
42:00 “?”

Comentado durante o programa:
Revista Scientia Studia
Paper em portugues de Alfred Russel Wallace

Links para obras de Darwin:
Darwin’s Correspondence Project
The Complete Work of Charles Darwin Online
Darwin200

Links para as comemorações:
Dia de Darwin no Museu de Zoologia da USP
A evolução de Darwin (Calouste Gulbenkian – Portugal)

Para ouvir use o player abaixo ou faça o download deste episódio. A duração deste programa é de 43 minutos.

 

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Kepler, misticismo e a ciência asséptica

Johannes Kepler foi um grande gênio matemático. Deu fim a dois mil anos de astronomia, quando se valendo da idéia heliocêntrica de Copérnico e dos dados de posição dos astros de Tycho Brahe, postulou a orbita elíptica dos planetas. Além de se preocupar com a questão sobre o motivo dos planetas se moverem. Kepler também fundou a ótica moderna, e fez mais uma série de contribuições importantes para a ciência do século XVII.

Apesar de ser, a rigor, um cientista, seu “ethos” nada tinha de similar ao que se vê hoje em dia. Kepler era um homem de grande fé, e que se interessava por astrologia e qualquer outra atividade relacionada à matemática. Seus livros misturam todo o tipo de interesse que o alemão pudesse ter. É comum olhar para suas obras e ver asserções astrológicas, poemas, filosofia e etc.

Horóscopo feito por Kepler. Cloque para ampliar.

Mapa astral feito por Kepler. Clique para ampliar.

O curioso é ver como estas atividades que estão completamente afastadas da ciência moderna, por vezes banidas, com a exceção da filosofia, afetavam de forma positiva o desenvolvimento intelectual de Kepler. Sua famosa terceira lei, por exemplo, vem do livro A Harmonia do Mundo, aonde Kepler usa música pra determinar matematicamente o movimento dos planetas. Em determinada passagem ele chega a dizer que “a Terra canta Mi, Fá, Mi”, em uma clara sugestão à antiga idéia de que os planetas emitem sons.

Página do livro Harmonice Mundi. Clique na imagem para ampliar ou aqui para ir ao livro completo.

Página do livro Harmonice Mundi. Clique na imagem para ampliar.

Se tentasse publicar hoje em dia, Kepler seria ridicularizado. Teria que retrabalhar todo o seu texto para que ele não contivesse nem uma única vírgula sobre astrologia, ou mesmo música… O caso é que em dado momento, a ciência moderna se tornou um ambiente asséptico.

Há algo na formação do cientista que produz uma espécie de blindagem contra qualquer coisa que pareça minimamente mística, ou sem relação evidente com a ciência. Eventualmente essa atitude resulta, por parte do cientista, em um ranço exacerbado sob estas áreas. A justificativa usual é a de que não vale a pena perder tempo com bobagens sem sentido.

Mas o caso é que talvez essa blindagem seja mais prejudicial do que benéfica para a ciência. Vamos considerar por um instante que o trabalho do cientista seja, como proposto por Thomas Kuhn, o de resolução de problemas levantados pelas teorias. Tal atividade exige, com frequência, soluções criativas e, eventualmente, pouco usuais.

Um cientista despido de preconceitos certamente possui mais recursos cognitivos para atingir uma determinada solução. Não estou aqui dizendo que a ciência deva buscar soluções em atividades místicas ou religiosas. Estou dizendo que o contato com estas atividades pode levar o cientista a olhara para seus problemas sob novas perspectivas, antes inatingíveis por conta do preconceito.

Era o que Kepler fazia. Ao tentar ouvir a música dos planetas, viu que a razão entre o quadrado do período pelo cubo da distância é uma constante. O cientista que fecha seus ouvidos e seus olhos por um preconceito desnecessário, pode acabar mudo.

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Salvem os fenômenos, salvem o mundo.

Platão e Aristóteles influenciaram de maneira determinante todo o desenvolvimento científico do período anterior à revolução científica. Platão, com seu mundo das ideias, acreditava que o homem não era capaz de encontrar as causas por trás dos acontecimento naturais. Defendia que era preciso “salvar os fenômenos”, ou seja, descrevê-los.

Já Aristóteles por outro lado acreditava que fenômenos naturais tinham causas naturais. E que portanto era possível encontrar estas causas, observando os fenômenos. Aristóteles também fez uma grande descrição o mundo celeste.

Ambos os homens condicionaram a prática da astronomia antiga. O modelo aristotélico do mundo celeste se tornou o grande paradigma astronômico. O filósofo grego postulou que toda a região “supralunar”, ou seja, tudo que fica “acima” da lua, era constituída de uma matéria diferenciada.

Para ele, o mundo supralunar era perfeito, existia desde sempre e continuaria existindo de maneira imutável. Os planetas e estrelas não tinham imperfeições, eram todos esferas perfeitas, se movendo em orbitas circulares ao redor da Terra. Era um mundo incorruptível.

A Terra era posicionada no centro do Universo por sua condição imperfeita, e não por privilégio. Todo o mundo “sublunar” era constituído de uma substância material comum. Essa condição nada celestial justificava as inúmeras imperfeições da superfície da Terra, bem como sua característica mutacional. A Terra não era como sempre foi, e continuaria a mudar no futuro.

Estre grande modelo astronômico se unio ao projeto metodológico platônico. De modo que não era papel dos astrônomos procurar as causas para, digamos, o movimento dos planetas. O papel destes homens era o de salvar os fenômenos, criando para tal hipóteses. Hipótese no caso da astronomia antiga significa produzir modelos descritivos.

Mesmo Copérnico, que criou seu modelo astronômico tirando a Terra do centro do Universo, seguia esse paradigma. Acreditava, como todos à época, que o mundo celeste era mesmo feito de uma substância diferenciada, aristotélica. E seu livro não se ocupa, em momento nenhum, em procurar causas para os fenômenos celestes.

O aristotelismo só começou a ruir em 1572, quando o que acreditava-se ser uma estrela apareceu no céu, visível a olho nu, com uma intensidade maior do que as outras tantas estrelas visíveis, e desapareceu por completo duas semanas depois. Era uma supernova, hoje bastante famosa, e que foi o primeiro passo para a refutação de Aristóteles.

A supernova de 1572. Clique para ampliar.

A supernova de 1572. Clique para ampliar.

O segundo veio alguns anos depois, em 1577, quando um cometa cruzou os céus. Um astrônomo famoso da época, Tycho Brahe, fez medições precisas sobre a distância do cometa e concluiu que ele não podia ser um fenômeno atmosférico, como se acreditava até então. Era antes um objeto que estava cruzando o mundo celeste.

Com a incorruptibilidade dos céus posta em causa, não demorou para que a presença aristotélica e platônica fossem abaladas. Galileu deu o passo final, não só com seu trabalho sobre a queda dos corpos, mas também com sua metodologia de estudar a natureza isolando um fenômeno de sua condição natural, em laboratório.

Galileu deixou de salvar os fenômenos, preocupado em descobrir suas causas. Mas para tal, os isolava da natureza, indo contra a filosofia natural aristotélica. É uma mudança de atitude impressionante, entendida até hoje como uma das causas da revolução científica.

*Edit: Aonde estava escrito “…não só com seu trabalho sobre o movimento dos corpos…” foi modificado para “…não só com seu trabalho sobre a queda dos corpos…”. Apesar do seu trabalho vanguardista, quem mais se ocupou com a origem do movimento dos corpos celestes foi Kepler, homem que Galileu admirava e que se correspondia com frequência. Kepler também é responsável pelo modelo atual do sistema solar, o tema vai ser abordado melhor em outros textos.

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O terceiro mundo de Karl Popper

Karl Popper foi um grande filósofo austríaco bastante conhecido por sua contribuição para a filosofia da ciência. Foram suas idéias que fundaram o racionalismo crítico, que estabelece como critério de demarcação o princípio da falseabilidade. Em uma de suas contribuições mais geniais para a epistemologia, Popper comenta um pouco sobre seu conceito de conhecimento objetivo, e o terceiro mundo.

No texto clássico de seu livro de 1972 “Conhecimento Objetivo: Uma abordagem evolucionista”, Popper faz um exercício interessante. Propõe a existência de três mundos. O primeiro mundo é habitado por todas as coisas físicas, vivas ou não vivas. O segundo mundo é habitado pela consciência humana, “é o mundo da consciência ou dos estados mentais”, nas palavras do próprio Popper.

O terceiro mundo é habitado por conteúdos objetivos. Por conteúdo objetivo, podemos entender todo pensamento objetivo sobre algo, obras de arte, poesia, livros, conhecimento científico e por aí vai. Deste ponto em diante, é possível não só diferenciar um pensamento subjetivo de um pensamento objetivo, mas é também possível concluir uma independência do terceiro mundo.

Karl Popper

Karl Popper

Para Popper, um pensamento subjetivo é aquele ligado à estados mentais ou uma determinada disposição de agir. São, portanto, habitantes do segundo mundo. No terceiro mundo estão os problemas, teorias e similares. Uma vez propostos, este conhecimento objetivo ganha materialidade através de alguma mídia, como livros, e isso garante a eles sua independência.

Se pensarmos na situação hipotética de uma catástrofe mundial, ou um holocausto, destruir todos os seres humanos, todas as nossas máquinas, cidades e traços de nossa civilização, sobrando no entanto nossas bibliotecas, é possível prever que uma futura civilização, não importando sua origem, poderia em tese ser capazes de decifrar nossos livros, acessando o terceiro mundo.

Veja que neste sentido, Popper considera muito mais importante a capacidade que um livro, ou um vídeo, ou um áudio, tem de ser interpretado do que o fato de ele ser realmente interpretado. Com efeito, ele defende que a maioria das pessoas não é capaz de fazer uma correta interpretação de um texto, seja o conteúdo deste texto ficcional ou não. É uma afirmação o bocado forte, e potencialmente verdadeira até hoje.

A beleza nesta idéia do filósofo austríaco é a maneira como o conhecimento, que as vezes nos é tão etéreo, ganha uma substancialidade quase real. Na analogia em que ele mesmo faz, assim como as aranhas produzem sua teia e as abelhas sua colméia, assim também produz o homem o conhecimento.

E quando não mais houver abelhas, ou aranhas, ou o homem, ainda haverá o traço de sua existência. Seja pela teia, pela colméia ou pelo terceiro mundo.

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Deus e o Diabo na terra da ciência.

Existia um debate polêmica em história da ciência sobre a forma de se estudar o passado. Os primeiros historiadores, comprometidos com o projeto positivista, não demoraram a fazer da ciência uma narração de conquistas e vitórias quase heroicas.

A história da ciência era narrada como uma sucessão de fatos que se seguiam gradativamente até chegar a um ponto de excelência e modernidade. E para cada passo, alguns homens eram definidos como os grandes bastiões do desenvolvimento científico. O problema com esse tipo de narração é que, com frequência, ela esta errada.

Sabemos que a ciência se desenvolve em caminhos tortuosos, as vezes damos passos para trás, as vezes abandonamos teorias que estavam bem estabelecidas a bastante tempo e por aí vai. A ciência moderna não é a uma coleção de sucessivos acertos, ou mesmo um empreendimento de grandes glórias.

Mas há algo nessa narrativa que a faz persistir, não mais na história da ciência, aonde essa discussão já foi superada a uns 80 anos, mas na divulgação científica. A questão é que “desenhar” um caminho indubitavelmente progressivo e de grandes realizações é extremamente sedutor. E isso aplicado à divulgação científica resulta na conquista praticamente sem esforço da atenção do leitor.

O problema é ganhar a atenção do leitor em troco de uma divulgação equivocada. Grande parte dos problemas do entendimento público da ciência estão, de certa forma, relacionados com a maneira como a ciência é “vendida”. A noção de progresso e modernidade as vezes são rapidamente incorporadas pelos textos científicos, e não me refiro aqui apenas aos textos de divulgação, mas também os textos escolares, e acabam por dar sequência à mazela positivista.

Não faltam exemplos neste sentido. A maçã de Newton, o experimento de Galileu na Torre de Pisa, os tentilhões que provocaram o grande insight de Darwin, só pra citar as mais comuns. Sabemos que todas elas possuem o seu bocado de verdade, mas sobram exageros.

É verdade que Darwin teve ajuda da observação dos mais variados tipos de tentilhões nas Galapagos. Mas também contou com seu histórico familiar no que diz respeito à evolução, e sofreu influência das obras de Charles Lyell e Thomas Malthus. Da mesma forma que Galileu provavelmente fez experimentos com a queda dos corpos, mas não há nada que nos leve a crer que tais experimentos foram feitos na Torre de Pisa. E Newton, até aonde se sabe, apenas se perguntou se a força que faz as maçãs caírem, também afeta os planetas.

Argumenta-se que é preciso conquistar o leitor de ciência, se possível, inspirar o leitor de ciência. Não discordo do argumento. Mas é preciso tomar cuidado. As vezes, na tentativa de agradar, transformamos a ciência em uma aventura empolgante, quando na maior parte do tempo não há nada de exatamente fantástico no trabalho científico. Sem tomar o devido cuidado, “vendemos Deus e entregamos o Diabo”.

É claro que a beleza esta nos olhos de quem vê. Há algo de belo e poético na simples ideia de se investigar o mundo que nos cerca. E sendo este o objetivo da ciência, não é preciso criar pirotecnias ou contos de fadas a respeito da atividade. A ciência é ontologicamente bonita.

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