Thiago Henrique Santos
Quem é?
Minha mãe conta, e eu tenho alguns lampejos de memória, que quando eu tinha lá meus seis ou sete anos eu queria voar. Eu vestia minha roupa de super-homem e esticava os braços para o alto na tentativa de alçar vôo. Nunca funcionou, claro, e eu estava certo de que o problema era a capa. Passei boa parte da minha infância tentando resolver o problema da capa sem sucesso. O processo era simples, eu assistia um episódio do desenho “Super Amigos”, observava o Super-homem voar e criava uma hipótese nova. O que na época eu não sabia é que já estava entregue ao método cientifico. Como um verdadeiro discípulo de Karl Popper lá ia eu todos os dias falsear minha mais nova teoria sobre o vôo livre com capas vermelhas e roupas colan azul. A televisão, o cinema e a literatura continuariam me influenciando. Conheci a teoria da relatividade de Einstein pesquisando sobre viagens no tempo depois de assistir De volta para o futuro. Jurassic Park me apresentaria à paleontologia e à teoria da evolução. Julio Verne me levaria a uma viagem ao centro da Terra e à Lua, dando origem ao meu interesse pela astronomia. Eventualmente acabaria entrando para a faculdade de Biologia, passando a ser parte integrante do mundo científico que sempre me seduziu. O amor pela biologia foi imediato, eu precisei apenas de uma semana de aulas para descobrir que era isso que eu queria pelo resto de minha vida. Dentro da biologia descobri ainda minha outra paixão, a teoria da evolução. Foi durante a faculdade que me aprofundei na filosofia da ciência e suas implicações. Popper e Kuhn se transformaram em ídolos, assim como Dawkins e Jay Gould. Mas foi um astrônomo quem me daria a inspiração necessária para partir para o campo da divulgação cientifica. Carl Sagan dedicou sua vida à ciência e a sua divulgação. O Polegar Opositor nasceu da vontade de divulgar a ciência e, quem sabe um dia, servir de guia para os muitos garotos e garotas que hoje tentam voar com suas capas vermelhas e colan azul.
Contato
thenriques45@gmail.com

O filme Contato, adaptação da obra de mesmo nome escrita por Carl Sagan, tem uma sequência inicial memorável.

Basicamente vemos a Terra do espaço e ouvimos todo o caos das transmissões de rádio e televisão vindo do planeta. A imagem então começa a se afastar do planeta e a medida em que vamos viajando através do sistema solar, vamos também viajando através do tempo, ouvindo transmissões cada vez mais antigas até que tudo o que nos resta é o silêncio absoluto de um universo que não faz a menor ideia de que na terceira pedra depois de uma inexpressiva estrela, existe um monte de criaturinhas bípedes que  escutam o espaço na esperança de ouvir a história de outra civilização com o mesmo habito dionísico de gravar os próprios ruídos para que outros o apreciem.

No filme esta cena tem o papel fundamental de explicar para o espectador em três minutos que 1- transmissões de rádio e televisão feitas na Terra viajam para fora do planeta, 2- estes sinais viajam próximo à velocidade da luz e 3- é possível acompanhar toda a história televisionada ou radiodifundida da humanidade caso você possa se mover mais rápido do que estes sinais ou viva em um planeta que esteja no meio do caminho deles.

Este conceito é importante pro filme por que no final do primeiro ato ele é invertido, somos nós que recebemos um sinal alienígena (com um pequeno plot twist que eu não vou estragar dando spoilers, vá correndo assistir Contato).

 

Doctor Who?

Acontece que em 2009 algo muito semelhante aconteceu na vida real mesmo, o que torna o caso todo muito mais interessante. Não, não recebemos sinais alienígenas, embora existam alienígenas nos sinais.

Explico. O radiotelescópio de Arecibo (que é o mesmo radiotelescópio que aparece no começo do filme Contato) começou a detectar sinais de VHF vindos do espaço. Segundo o Dr. Venn, que é o radioastrônomo que detectou tais sinais, eles eram claramente sinais antigos de tv aqui da Terra mesmo, mas estranhamente estavam vindo de um ponto no espaço.

Para o Dr. Venn era evidente o que estava acontecendo, sinais com quase 50 anos de idade viajaram 25 anos luz para longe da Terra e rebateram em algo que os mandou de volta para nós.

Ninguém sabe ao certo o que estava no caminhos dos sinais. Na época até a Nasa apontou o Hubble para o local, sem sucesso em obter qualquer dica do que está refletindo os sinais de volta para nós. A teoria é a de que existe uma nuvem de asteroides funcionando como uma espécie de espelho.

Ah sim! Já ia me esquecendo da parte alienígena nessa história toda. Acaba que os sinais de televisão detectados eram da programação de 50 anos atrás da BBC inglesa e, entre outras coisas, o sinal continha episódios perdidos da série Doctor Who.

O caso é que por alguma razão as redes de televisão não pensavam na possibilidade de fazer reprise de seus programas e uma série de conteúdo se perdeu, incluindo episódios antigos de  uma série de televisão sobre um alienígena com dois corações que viaja no tempo em uma cabine de polícia azul que, graças à um pouco de ciência, um radiotelescópio e um cientista com um nome maneiríssimo, foram recuperados e digitalizados.

Só eu me divirto com a ironia dessa história?

 

Bow ties are cool!!


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Antes de mais nada leiam este texto…

Não leu? Não sabe inglês? Eu resumo rapidinho. Basicamente o texto chama atenção para um artigo que relata a pratica de alguns periódicos de pedir para autores de artigos aceitos para publicação citarem outros artigos publicados no mesmo periódico.

O título do texto do Ben Goldacre resume bem a situação: “nós aceitamos seu artigo para publicação mas… ééé… Você poderia citar outros artigos de nosso periódico?”.

Absurdo? Uma ofensa? Violação ética? Sim, todas as anteriores e, mais do que isso, completamente esperado.

 

Ciência e periódicos BFF’s.
A primeira coisa que precisamos entender sobre os periódicos é que eles eram necessários, MUITO necessários, no século XIX. Ok, muito necessários por mais tempo do que isso. O caso é que inicialmente eles surgiram para resolver o problema de comunicar para a comunidade os trabalhos sendo apresentados nas sociedades científicas de modo a ampliar o diálogo.

Tudo ia bem, ciência e periódicos viraram melhores amigos para sempre. A comunidade foi depositando cada vez mais sua confiança nestes nem sempre pequenos amontoados de papel e letras com ideias tão incríveis e que mudaram o mundo. Mas acaba que os periódicos são daqueles amigos interesseiros que só temos quando estamos bem. Eles não estão lá por que gostam de nós e se preocupam com o nosso futuro, não, eles só estão lá por que esperam lucrar com a relação de amizade.

 

It’s a trap!
Óh comunidade científica, você não aprendeu nada com O Retorno do Jedi? Acaba que a Estrela da Morte não só está operacional como tem seu escudo de força funcionando a todo vapor. E a culpa é só nossa, por termos permitido que o lado negro nos seduzisse.

Fomos nós, enquanto comunidade, que demos aos periódicos a capacidade de ditar nossa posição profissional, a qualidade do nosso trabalho acadêmico, se nossa produção científica vale a pena ser publicada, se podemos ou não ter acesso aos trabalhos uns dos outros…

Sim, tivemos um ou outro Almirante Ackbar nos avisando “é uma armadilha”, sim temos um ou outro Han Solo e Princesa Léia tentando contornar o problema do escudo de força (PLoS?), mas ainda estamos parados dentro de uma arma de destruição em massa ouvindo palavras sedutoras ao pé do ouvido de um velho caquético.

 

À ciência o que sobrar.
E é por isso que não devia ser surpresa para ninguém atitudes como a do periódico comentado no artigo indicado pelo Goldacre. Os periódicos não fazem caridade, não estão a serviço da ciência, não se sentem compelidos a seguir regras éticas caso violá-las seja mais rentável.

Periódicos e revistas científicas são, essencialmente, um modelo de negócio que vem dando certo a despeito de não fazerem mais sentido. A favor deles está a narrativa de que o processo de peer-review só é válido quando feito de forma “casada” à publicação do artigo, de que o fator de impacto diz qualquer coisa a respeito da qualidade do periódico, de que os melhores cientistas (ou ao menos os que valem a pena receber atenção do grande público e governo) são os que publicam em periódicos com alto fator de impacto.

Narrativas que a comunidade científica não só aceita de bom grado como não se preocupa em discutir muito. Sim, há vozes dissonantes. Sim, há gente preocupada com o cenário atual, mas em sua maior parte a ciência está preocupada demais com aceleradores de partículas e formas de vida sintéticas para se importar com questões tão menos exotéricas.

O que me deixa mais triste é que a discussão que irá surgir por conta do artigo, prevejo eu querendo muito estar errado, é sobre o que fazer com o periódico X ou Y, ou sobre como modificar o fator de impacto para ficar menos suscetível a “gaming”. Discutir toda a cadeia de produção, validação e publicação de artigos? Pffff, pra que?

Para uma comunidade feita de mentes tão brilhantes, capazes de moldar o futuro da sociedade e os rumos da humanidade, fica difícil entender e aceitar que estamos presos a um modelo que foi criado no século XIX. Nós sequer estamos seguindo aquele modelo que, pelo menos, estava a serviço da ciência.

É inacreditável que o mundo todo esteja passando por uma verdadeira revolução na maneira como as pessoas se comunicam e interagem e que a ciência ainda se deixe constrangir pelos limites do papel (ainda que ele seja um papel digital), dos bloqueios de acesso à produção intelectual (que, é preciso lembrar sempre, é comercializada sem que parte dos lucros reverta ao cientista) e da burocracia do peer-review (que poderia ser feito de uma maneira bem mais eficiente em um sistema mais aberto).

Enquanto o mundo se democratiza, a ciência continua reforçando um modelo aristocrático. Em épocas de Twitter e Facebook, de blogs e Wikipédia, ainda temos que pagar para ler o artigo que pautou este texto e o do Goldacre.

É como se o Mestre Yoda cobrasse do Luke (por mês ou por dica recebida) para alertar sobre os perigos do lado negro da força, e ele pagasse sem questionar.


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No dia 02 de outubro o blog de ciências da Folha, o Laboratório, soltou um post chamado Educar para não plagiar. O texto chama atenção para um congresso sobre plágio e má conduta científica e aponta algumas conclusões tiradas durante o evento.

A primeira conclusão é a de que hoje em dia, por conta da facilidade de acesso à informação, está mais fácil plagiar. A segunda conclusão, que de acordo com o texto é mais filosófica, diz que a facilidade de acesso à informação científica não deveria justificar o aumento do número de casos de plágio (o texto original da Folha diz “fraude” e não plágio neste ponto específico, mas fraude segundo o dicionário Aulete quer dizer falsificação de uma forma geral o que, acredito eu, não tem relação direta com a facilidade de acesso à informação, neste caso plágio parece-me ser o mais correto). Uma última conclusão argumenta que estudantes e pesquisadores mais novos não foram ensinados a lidar com toda essa informação e plagiam por pura ignorância.

Curioso ver que nos comentários do texto da Folha alguém que assina como Roberto faz uma pergunta simples mas que está no centro desta questão: “Afinal a internet ajuda ou atrapalha a ciência”?

 

Duas culturas.

Então, depende… Eu sei que parece papo de filósofo mas é preciso levar em consideração que a ciência moderna nasceu no século XIX e deste herdou uma série de valores e regras e convenções. Valores e regras e convenções que diziam respeito a uma cultura construída com papel, tinta e tipos (McLuhan chamava de Cultura Tipográfica)

Valores e regras e convenções que estavam intimamente ligados não à dificuldade de acesso à informação, mas ao meio rígido e pouco interativo de um mundo impresso no papel. Vejam, o que mudou de lá pra cá nada tem a ver com o acesso facilitado à informação. Sim, é mais fácil conseguir informação hoje do que era antes, mas esta é a consequência da mudança e não a mudança em si.

O que a cultura digital trouxe para o mundo é a democratização da comunicação em massa, antes restrita a um grupo de privilegiados. Essa democratização não tem a ver unicamente com a facilidade de acesso. Uma sociedade com a cesso facilitado à informação ainda é uma sociedade “read-only”, ou seja, de consumidores passivos de um produto acabado. Os primórdios da Internet e a Web 1.0 estão aí pra provar meu ponto.

Democratizar* é fornecer os meios para o desenvolvimento de uma sociedade “read/write”, ou seja, de indivíduos capazes também de contribuir, de lidar com a informação como se ela fosse um pedaço de argila esperando para ser moldado em algo que transcenda o valor de si própria.

E é justamente aqui que se encontra a maior diferença entre a cultura tipográfica e a digital. A primeira valoriza muito mais autoria e produção (o texto sobre a salami science da Veronica é bastante certeiro neste ponto), a segunda colaboração e mash-up’s.

 

Plágio e Remix.

O texto da Folha, bem como este outro do New York Times, reforça a ideia de que estudantes estão plagiando por ignorância de como lidar com informação digital. Talvez o problema não seja este, talvez nós é que somos ignorantes em entender como a geração nascida no meio da cultura digital lida com informação.

O artigo do New York Times chega mesmo a dizer que “muitos alunos simplesmente não compreendem que usar palavras que não foram escritas por eles é um crime grave,” e que a maioria dos casos de plágio nas escolas tem a ver justamente com este fato.

Nestes casos, aquele que copia sem dar os devidos créditos à fonte não está assumindo a autoria pelo que copiou. Está meramente distribuindo uma informação que já está disponível livremente na internet ou em livros ou em artigos científicos.

Para a geração da cultura digital informação tem um valor tão baixo que receber os créditos pela autoria de algo, assim como reconhecer a autoria de algo, é desimportante e desinteressante e efetivamente não acrescenta absolutamente nada no valor daquela informação.

Para a cultura digital, informação é a matéria prima usada para construir redes de interação entre pessoas e ideias. Isso significa que um artigo ou texto ou livro pode sim ser importante, mas pela mensagem que ele transmite e pela capacidade que ele tem de promover a formação dessas redes. Pouco importa aqui se o artigo ou texto ou livro (ou, claro, música ou vídeo ou qualquer material áudio visual) é a voz única e singular de seu autor ou se é uma colagem de frases de vários autores.

Na cultura digital do remix e do mash-up, o foco está na rede e não no indivíduo e é por isso que o plágio é mais um problema de choque de gerações do que um problema ético.

 

Educar para não plagiar

O texto da Folha, diferente do texto do New York Times, aborda essa questão do plágio de um só prisma. Deixa clara a mensagem de que trata-se de um problema educacional que precisa ser corrigido.

Mas será mesmo preciso reforçar no processo educacional valores que talvez estejam desconectados da realidade presente das novas gerações de alunos e pesquisadores ainda em formação? É preciso mesmo usar o processo educacional como um meio de impor regras e valores “de cima para baixo”?

A questão ética existe, claro. É preciso combater o plágio intencional e feito de maneira desonesta, que é realmente prejudicial e deletério para qualquer atividade intelectual. É preciso sim mostrar para as novas gerações que existe valor no esforço intelectual, sem reduzir este esforço a uma maneira particular de organizar palavras em um “papel em branco.”

É fundamental entender que existem regras e valores emergentes da cultura digital e que estas regras e valores não são piores ou melhores do que os valores sociais tradicionais, são apenas diferentes. Tentar sufocar estes valores através da educação não vai ajudar na formação de cientistas melhores ou mais honestos.

Criminalizar a maneira que uma cultura em particular achou para se expressar certamente não vai resolver o problema do plágio, assim como não resolveu o problema da pirataria, que é análogo.

Para a ciência fica a oportunidade de se transformar e entender essa nova expressão cultural, encontrar um meio termo entre o velho e o novo e se reinventar para continuar progredindo. Não se pode esquecer que há séculos atrás era a ciência que estava do outro lado da moeda, desafiando a tradição e sendo criminalizada por isso.

 

*Para entender melhor esse processo de democratização (ou descentralização) leia os 10 escritos sobre redes sociais de Augusto de Franco gratuitamente.


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As duas últimas semanas vêm sendo bastante agitadas para a Física moderna. A razão é a alegação feita por um grupo de cientistas europeus de que neutrinos foram pegos em flagrante se movendo 0.00025% mais rápido do que a velocidade da luz.

Como bem lembra o colega blogueiro Dulcidio Braz, partículas que se movem mais rápido que a luz não são exatamente novidade, nem resultam em grande polêmica. O que realmente surpreendeu os cientistas é que tais neutrinos parecem estar se movendo mais rápido que a luz NO VÁCUO, o que cria uma situação um tanto embaraçosa.

Embaraçosa por que de acordo com a teoria da relatividade, que é a pedra fundamental de toda a física moderna, NADA deveria se mover mais rápido do que a luz no vácuo, o que nos deixa com duas possibilidades plausíveis: 1) as medições estão incorretas e os neutrinos estavam se movendo a velocidades esperadas ou 2) Albert Einstein está ENGANADO.

Apesar da minha ênfase no “enganado” na frase anterior, não há de fato nada de surpreendente em nenhuma das duas alternativas. Medições erradas acontecem com frequência e cientistas famosos (ou mesmo os não tão famosos), em geral, não sobrevivem ao teste do tempo. Enfim, não sou físico e vocês deveriam ler uma seleção melhor de artigos de divulgação  sobre o assunto e seus possíveis desdobramentos.

O que eu quero de fato é aproveitar a oportunidade pra abordar essa questão toda do ponto de vista da filosofia de Thomas Kuhn e mostrar que a despeito das críticas que Kuhn sofreu e ainda sofre, sua filosofia pode sim ser usada para melhor compreender a comunidade científica e, em muitos casos, prever o comportamento que está irá tomar.

Vocês não conseguem ver, mas há um neutrino se movendo mais rápido que a luz nesta imagem.

 

Kuhn 101
Antes de tudo é preciso lembrar rapidamente a essência da filosofia de Kuhn. Thomas Kuhn era americano e físico. Após o doutorado ainda em física, se viu dando aulas em história da ciência. O contato com a ciência sob uma perspectiva histórica, sobretudo com a influência dos trabalhos de Alexandre Kouré, acabou por levar Kuhn a interpretá-la não como uma atividade estritamente racional, mas sim como uma atividade permeada por contextos sociais que acabavam por influenciar a pretendida racionalidade científica.

Em outras palavras, o que Kuhn acabou por defender é que a tese de que a ciência se fazia através de um método rígido, racional, incondicionalmente neutro e asséptico não se sustentava historicamente. O que acontece de fato é que há toda uma dinâmica social subjetiva muito presente nas comunidades científicas, e essa dinâmica esta intimamente ligada com o desenvolvimento científico.
Kuhn então formulou seu famoso conceito de revoluções científicas (e que não está diretamente ligado à grande Revolução Científica do século XVII). Para Kuhn a ciência passa por fases cíclicas (por isso o termo revoluções, de revolver, dar uma volta) e que pode resultar na substituição de uma teoria por uma nova, ou na mudança fundamental da própria ciência.

A estrutura proposta por Kuhn para as revoluções científicas (ahá!) é a seguinte: a ciência em geral se encontra em um período conhecido como ciência normal, aonde um paradigma (que em sua forma mais básica é o equivalente a uma teoria, mas também pode ser todo o conjunto de metodologia de trabalho e linguagem, um modelo de mundo, de uma comunidade científica) é tido como bem estabelecido e usado amplamente, ainda que tenha certos limites para a sua aplicação.

Historicamente, todo paradigma passa, com o tempo, a acumular resultados e evidências que o contradizem, as chamadas anomalias. Eventualmente as anomalias afetam a credibilidade do paradigma vigente, o que resulta na proposta de novos paradigmas para substituí-lo. Neste ponto entramos na fase de ciência extraordinária, em que a comunidade científica em questão entra em uma espécie de crise de meia idade e passa a rediscutir a si própria. Por fim, temos a substituição do paradigma antigo pelo novo e o estabelecimento de uma nova identidade para aquela comunidade científica, o que encerra o período de ciência extraordinária e marca o retorno do período da ciência normal.

Esta revolução em geral leva algum tempo (gerações por vezes) e levanta grandes disputas e controvérsias. É um processo doloroso por resultar no abandono de parte do conhecimento tido como adquirido em prol da possibilidade de se encontrar soluções para mais problemas ou para problemas mais fundamentais. É também um processo historicamente inevitável.

Thomas Kuhn se movendo mais rápido que a luz na foto???

 

O que aconteceu ao paradigma mais famoso do mundo?
Voltemos ao neutrino mais veloz que a luz no vácuo. No dia em que as primeiras notícias apareceram o Renato me escreveu sugerindo a pauta para este texto e durante nossa breve conversa eu disse pra ele que era fácil saber qual seria a primeira reação da comunidade científica em face a descoberta: Negar, negar até a morte.

Isso não pressupõe desonestidade, o caso é que em vista de uma anomalia tão relevante, a comunidade científica tende a adotar uma postura protecionista do paradigma vigente. Ou seja, é muito mais provável que os cientistas tentem por em cheque a validade dos resultados ao invés de questionar o modelo teórico em risco.

Isso significa que até que novas medições sejam feitas por outros laboratórios, ninguém (a não ser os mais sensacionalistas) vai apostar que a teoria da relatividade está errada e que Einstein cometeu um engano. Nem mesmo o próprio grupo de cientistas europeus que trouxe a público as tais medições se arriscou a por em cheque uma das teorias científicas mais famosas da história. Limitaram-se a dizer que fizeram as medições, refizeram as medições, tentaram descobrir algum erro ou engano e por fim passaram a bola à comunidade para que ela procure confirmar os dados, contestá-los, desmenti-los ou reinterpretá-los.

O caso é que de uma perspectiva kuhniana, estamos vendo uma anomalia gravíssima (ou nem tão grave assim, físicos por favor se manifestem nos comentários) atingindo gravemente as bases de um paradigma importantíssimo (desculpem os superlativos a lá José Dias). Mas ainda estamos longe de ver a física entrar na fase de ciência extraordinária.

É preciso ainda que os dados anômalos sejam de fato comprovados independentemente por outros laboratórios. E mesmo que o sejam, é mais provável vermos o surgimento de novas teorias e explicações que buscam não substituir a teoria da relatividade, mas blindar ela dos efeitos negativos da descoberta de partículas mais velozes que a luz no vácuo.

Com efeito, o próprio texto do Dulcidio (li outros artigos que levantam a mesma possibilidade) diz que pode ser o caso de os neutrinos estarem pegando um atalho extradimensional, o que dá a impressão de que eles estão se movendo mais rápido quando na verdade estão percorrendo um caminho menor do que o esperado. Não que esta não seja uma explicação possível, mas é de fato uma explicação que até ser propriamente investigada e confirmada ou descartada, serve bem ao propósito de amenizar o impacto da anomalia gravíssima no paradigma importantíssimo.

Quero reiterar que não sou físico e qualquer suposição que eu faça neste campo deve ser vista com total parcimônia, meu ponto é que a despeito de muitas vezes ser completamente ignorada pelos cientistas, a filosofia da ciência pode ser muito útil para entendermos o comportamento da comunidade, e também para termos uma visão mais honesta de que a racionalidade cientifica existe, mas está longe de ser tão rígida e relevante como nós cientistas as vezes acreditamos.

No mais, leiam Kuhn mesmo que para depois criticá-lo. Sua contribuição para o estudo social da ciência é de grande importância, além de ser um bom ponto de partida para, quem sabe, passarmos por nossa própria revolução.


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No meu texto anterior chamei a atenção (de forma bastante superficial é verdade) para a questão de como o paper científico transposto do meio físico para o meio digital traz consigo todos os problemas do paper físico aproveitando muito pouco das qualidades do meio digital.
Também chamo atenção para o fato de que Stephen Wolfram também reconhece parte destes problemas e, na tentativa de encontrar alguma solução, criou o formato CDF. Recomendo que assistam ao vídeo do Wolfram apresentando o formato, caso ainda não tenham assistido.

Reparem que ele começa argumentando que os documentos online de hoje são como o papel físico, “monótonos, sem vida, inertes” são as três características que ele nomeia. Vejam, é importante notar que o Wolfram está se referindo especificamente à documentos que podem ser baixados (ou visualizados pelo navegador com a ajuda de um plugin), muito embora faça referência à “documentos online”. Trata-se de uma crítica direta ao formato PDF, que é o mais utilizado para distribuição de arquivos digitais. Acontece que arquivos PDF’s podem estar online, mas não são documentos online, são documentos disponíveis na internet, mas que mesmo abertos via plugin no browser, são lidos localmente na máquina do usuário. Estão, portanto, longe de serem documentos online.

O problema seguinte para o qual o Wolfram chama atenção é que estes documentos disponíveis online não costumam carregar em si uma série de informações relevantes (como, nos exemplos do Wolfram, os dados sem tratamento, algoritmos, instruções para re-execução de código). Este problema esta relacionado, normalmente, ao limite de páginas imposto por alguns periódicos para a publicação de artigos. O vídeo segue mostrando que problemas similares acontecem com apresentações profissionais e livros didáticos. Todos sofrem por serem, mais uma vez citando o próprio Wolfram, “documentos mortos”.

Como o Wolfram pretende solucionar estes problemas? Surpreendentemente, criando mais um formato proprietário (o próprio CDF), que só pode ser gerado por um outro software proprietário (o Mathematica) que custa US$ 2.495,00, e que impõe restrições na maneira como você vai distribuir o conteúdo que gerou. Se você distribuir gratuitamente é obrigado a deixar a marca d’água e logo do Wolfram aparecendo o tempo todo na sua apresentação ou artigo (parte do branding obrigatório da licença gratuíta de uso e distribuição), se comercializar seu conteúdo, é preciso pagar uma taxa para a Wolfram. Todas estas informações (com exceção do valor do Mathematica que pode ser consultado aqui) estão no FAQ na página oficial do CDF.

Em outras palavras, o CDF até pode ser interativo e conter dados que não seriam facilmente distribuídos de outra maneira, mas o faz de forma a ser ainda mais restritivo do que o formato que ele crítica, o PDF.

Com efeito, é possível até questionar se o CDF é tão interativo quanto o Wolfram deseja que ele seja. Sim, é possível ter toda uma gama de dados disponíveis no documento e que podem ser retrabalhados de forma dinâmica, mas por outro lado, estes dados continuam encapsulado, inacessíveis, desconectados. Eles não podem ser acessados por outros CDF’s, não podem receber imput dinâmico de outras fontes de dados, não podem ser atualizados sem que um novo CDF seja gerado.

A ciência precisa sim de uma maneira mais dinâmica de ser apresentada, o cientista precisa sim de mais liberdade na maneira em que expõe seu trabalho e seus resultados. O que a ciência e os cientistas precisam é da plasticidade da Web 2.0, e não de um documento que simula a Web à maneira que o PDF simula o papel.

Isso significa que existe um nicho no mercado para a construção de uma ferramenta capaz de criar documentos, apresentações, artigos e livros didáticos que sejam compatíveis com uma variedade crescente de dispositivos (smartphones, tablets, computadores com diferentes sistemas operacionais e tamanhos de tela). Uma ferramenta capaz de fazer uso, por exemplo, de web standards (HTML, CSS, XML, arquivos de imagens PNG ou arquivos vetoriais SVG além de formatos de vídeo e audio ainda por serem padronizados), além de uma API de acesso padronizada para que os dados contidos nestes documentos verdadeiramente online possam ser extraídos, atualizados, remodelados da maneira como o autor E O leitor/usuário quiserem.

Esta é,  na minha visão, o caminho em que a comunicação da ciência deve seguir. Adoção das práticas cada vez mais consolidadas da Web 2.0 para não só comunicar seus resultados, mas para permitir que eles sejam reinterpretados livremente, acessados sem restrições, incrementados colaborativamente.

Se eu estiver com alguma razão, fica fácil entender por que acredito no fim dos papers científicos como os conhecemos. Eles representam um processo que teve começo, meio e fim, sendo o paper a síntese deste processo. Se a ciência caminha em direção à Web 2.0, então podemos esperar que ela seja levada a cabo de forma mais orgânica e contínua, sem pontos claros de interrupção, sem estar centrada nos resultados finais mas sim num processo contínuo de desenvolvimento. Uma ciência em fase beta, pouco preocupada com sua versão final.

Vejam que não acredito que TODA a ciência irá seguir por este caminho. Mas acredito que boa parte dela irá se dar conta de que está presa em um mundo feito de papel, ainda que este só exista na tela de um computador.


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Para a lata do lixo seria a resposta mais evidente, não estivessem todos eles se transformando em arquivos digitais que, bem, por enquanto até podem ir para a lixeira… Mas até quando? Essa pergunta também tem uma resposta simples: Até quando o paper científico fizer sentido e continuar importante para uma ciência que, queiram os mais apaixonados ou não, está caminhando na direção de uma profunda reformulação de si mesma.

Eu sei, eu sei. Estou como um profeta do apocalipse segurando uma placa “prepare-se, o fim dos papers esta próximo” e, como qualquer profeta do apocalipse, posso estar parecendo um pouco fora da minha sanidade mental. Mas se pararmos um segundo para olhar para a história da comunicação da ciência, chegaremos à conclusão de que o fim do modelo atual de comunicação de resultados e validação da própria atividade científica não é tão absurda assim.

Livros são tão século XVI…
A ciência (e qualquer outra atividade intelectual na verdade) depende da capacidade de poder registrar a si própria em um meio que possa sobreviver à passagem do tempo e de seus praticantes. Foi a invenção da escrita que permitiu que a filosofia surgisse, e que depois desse frutos na forma da filosofia natural, que iria resultar numa sementinha que começou a crescer no século XVI com a Revolução Científica e terminou virando esta árvore que é a ciência moderna e todas as suas ramificações tão especializadas.

O grande salto para a escrita foi a invenção da imprensa de tipos móveis no século XIII, seguido da constituição de um dos mais antigos meios de comunicação, o livro. Até pouco mais da metade do século XVII os livros eram a forma usual de se comunicar ciência*, mas eram custosos demais (tanto do ponto de vista financeiro quanto do ponto de vista do tempo investido em garantir uma impressão de qualidade). O crescimento da comunidade e de sua produção acabou por deixar claro que o livro de ciência já não era a solução ideal para a comunicar resultados e estabelecer o diálogo entre os cientistas.

A solução veio através do Philosophical Transactions (cuja primeira edição é de 1666) da Royal Society of London, que copiou o modelo usado na época pelos folhetins, mas para distribuir de forma ampla novidades científicas ligadas aos membros da sociedade. Nascia assim o periódico científico, mas não o paper propriamente dito. Levaria ainda bons dois séculos para a ciência encontrar seu próprio estilo de escrita e, com efeito, o paper científico como conhecemos hoje só foi se estabelecer na segunda década do século XX**.

O problema do papel digital…
Não quero entrar na discussão sobre a função do paper e sua validade enquanto meio principal de comunicar avanços científicos. Basta saber que se a invenção do periódico e do paper foi importante pra viabilizar a ampla comunicação da ciência num século em que era extremamente complicado manter o diálogo entre comunidades científicas espalhadas pelas mais diversas localizações geográficas, hoje percorremos o caminho inverso. Os periódicos e o paper dificultam o diálogo da comunidade científica, diminuem a velocidade em que novas descobertas se tornam públicas, limitam o acesso ao conhecimento por um público ampliado (e que paga as contas da ciência) além de esconderem a maior parte do processo científico envolvido na produção do próprio documento.

Pode parecer exagero, mas me arrisco a afirmar que o paper científico, ao menos no que diz respeito à ciência de hoje, tem muito pouco valor informativo, revelando quase nada sobre a verdadeira natureza da atividade científica e de seus processos. É mais fácil aprender “do que a ciência é feita” no Google do que no documento oficialmente utilizado pelos cientistas como meio de contarem uns aos outros sobre o resultado de seus trabalhos.

É claro que se pode argumentar que o paper não precisa ser muito mais do que um “resumão” de meia dúzia de páginas sobre o trabalho de anos de um grupo de cientistas, e se concordo com isso olhando pra uma época que era majoritariamente analógica, discordo completamente quando vivemos em um mundo digital.

Ficam de fora do paper não só os dados detalhados recolhidos durante os anos em que a pesquisa foi levada à cabo, como também toda a série de erros e percalços encontrados no caminho em que o cientista trilhou. Todas estas informações possuem um valor que acaba desprezado na medida em que o paper precisa ter um tamanho redusido para ser publicado. Mas, como sabemos, esta é essencialmente uma limitação do meio impresso e que é reproduzida artificialmente no meio digital.

Infelizmente, temos ainda de lidar com outras tantas limitações que não tem razão de ser no meio digital, mas que foram herdadas de um modelo já bem estabelecido no meio impresso. Ainda precisamos lidar com a dificuldade em se atualizar ou corrigir papers que foram aceitos mesmo em periódicos que só existem online, ou a limitação para o uso de hyperlinks e elementos multimídia como vídeos e trilhas de audio e mesmo imagens animadas.

É ingênuo dizer que não há razão para a ciência não abandonar de vez o pdf (ou qualquer outro formato que limite o uso dos recursos disponíveis em um ambiente digital), estou certo que existem razões. O fato é que a cultura do paper impresso vai mais além do que o simples meio em que se está comunicando ciência. Como McLuhan cansou de nos alertar meio é mensagem, e a própria ciência foi construída em valores que muitas vezes só fazem sentido em um meio impresso. Perdem sua razão de ser em um meio digital  (discuto esse assunto mais a fundo no capítulo 4.2 da minha tese de mestrado, que pode ser acessada livremente). Meu ponto é que seja lá quais forem estas razões, é preciso colocá-las à prova contra a gama de possibilidades que se abre em passar a usar o ambiente digital em sua totalidade, e não como forma de emular uma tecnologia nascida antes da própria ciência.

Críticas ao modelo atual de publicação e sugestões sobre como o ambiente virtual pode ser usado para melhorar estes problemas existem aos montes e eu deixo abaixo algumas sugestões de artigos interessantes neste sentido, além de recomendar meu grupo de Ciência 2.0 no Mendeley.

Seja como for, uma das alternativas ao modelo atual de publicação foi recentemente proposta pelo Stephen Wolfram. A alternativa do Wolfram pode ser vista em mais detalhes no vídeo abaixo, mas volto em breve com um texto novo só para discutir melhor se a solução do Wolfram é ideal***.

Referências e artigos recomendados:
Antelman, K. (2004). Do open-access articles have a greater research impact? College & Research Libraries, 65(5), 372-382. ASSOC COLL RESEARCH LIBRARIES. Retrieved from http://apps.isiknowledge.com/CitedFullRecord.do?product=UA&db_id=WOS&SID=V1@kc79NaoCc98onfd@&search_mode=CitedFullRecord&isickref=136742423

Breivik, M., Hovland, G., & From, P. J. (2009). Trends in Research and Publication: Science 2.0 and Open Access. Modeling, Identification and Control: A Norwegian Research Bulletin, 30(3), 181-190. MIC. doi:10.4173/mic.2009.3.8

Odlyzko, A. (2000). The future of scientific communication. Access to Publicly Financed Research: The Global, 53(1), 13-5. Retrieved from http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.32.3333&rep=rep1&type=pdf

Waldrop, M. (2008). Science 2.0: Great New Tool, or Great Risk? Retrieved April 22, 2010, from http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=science-2-point-0-great-new-tool-or-great-risk

Young, N. S., Ioannidis, J. P. A., & Al-Ubaydli, O. (2008). Why current publication practices may distort science. PLoS medicine, 5(10), e201. Public Library of Science. doi:10.1371/journal.pmed.0050201

 

*Me refiro aqui aos grandes tratados científicos (lembrando que o termo “ciência” e “científico” estão sendo usados de forma anacrônica, à época a ciência ainda não era chamada assim).

**Montgomery, S. “Scientific discourse and its history.” In: Communicating Science, por Eileen Scanlon,Roger Hill e Kirk Junker, 315. Inglaterra: The Open University, 1999.

***Dica: Não é.


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Há pouco mais de dois anos eu decidi atravessar o Atlântico em direção à Lisboa com o intuito de fazer um mestrado em História e Filosofia das Ciências, na Secção Autónoma de História e Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. na época em que fui, imaginava fazer algo relacionado à divulgação científica, mas não tinha uma ideia muito clara ainda.

É curioso pra mim falar sobre esse processo agora sem me recordar de um vídeo muito interessante em que o cocriador da Apple, Steve Jobs, fala como experiências de vida aparentemente sem relação qualquer o ajudaram depois a revolucionar o próprio conceito de computador pessoal que ele próprio havia criado anos antes.

Não estou me comparando de modo algum ao Steve Jobs, evidente, mas acredito que passei por um processo similar. Com dezesseis anos comecei a trabalhar em uma gráfica como artefinalista. Por conta disso passei a me interessar por comunicação visual e design, o que me levou anos depois a fazer o curso de design gráfico da Escola Panamericana de Artes.

Terminado o curso, decidi entrar em uma faculdade. Fiz vestibular pra direito e passei mas, por uma série de complicações, acabei trocando pra ciências biológicas, sem muita vontade de seguir com o curso. Bastou-me uma semana de aulas pra eu ficar apaixonado pelo curso e seguir até o fim.

Entre o curso de design e a faculdade de biologia, eu que já era um viciado em computadores e tinha acesso à internet desde 1996, passei a me interessar por blogs. Comecei, como todo mundo que conheço, com um blog sobre coisas pessoais e fui mudando gradativamente até que 2007 comecei este singelo blog de divulgação científica. No ano seguinte, justamente por causa do blog, acabaria por me inscrever no curso de divulgação científica do Núcleo José Reis de Divulgação Científica.

E daí volto à minha tese. Estávamos lá eu e minha orientadora, a professora Olga Pombo, olhando para todo este meu background quando ouvimos, os dois, quase que ao mesmo tempo, o “clic” característico das engrenagens se encaixando e botam tudo pra funcionar. Decidimos que o tema da minha tese seria “Comunicação da Ciência e Web 2.0”.

Ora, trata-se de um tema mais que pertinente para mim. Eu poderia usar minha bagagem na comunicação visual, minha graduação em uma disciplina científica, meu interesse pela Web e meu trabalho de divulgação científica para tratar de um tema tão recente e tão importante não só para a ciência enquanto atividade, mas também para a filosofia das ciências como disciplina.

O processo do mestrado me tomou mais tempo, energia e dedicação do que eu jamais poderia prever. Como consequência, este pobre blog que foi tão importante pra que tudo isso acontecesse, acabou ficando negligenciado por este que voz escreve. Negligenciado por mim, mas não abandonado, e aqui fica meu agradecimento público, pelos meus tão queridos amigos e colaboradores que continuaram doando um pouco de seu tempo e intelecto para este singelo sítio.

Enfim, o mestrado está praticamente no fim* finalmente concluído. A tese já foi terminada e estou aguardando a defesa que deverá ocorrer nas próximas semanas e* já foi defendida, no melhor espírito Web 2.0, gostaria de compartilhar o fruto deste trabalho que tomou conta dos últimos dois anos e pouco da minha vida. Disponibilizo então, para leitura online ou download, a minha querida tese.

O título é, como já ficou evidente, COMUNICAÇÃO DA CIÊNCIA E WEB 2.0. Pro caso do título sozinho não chamar a sua atenção, deixo abaixo o índice e o resumo. Feedbacks são SEMPRE bem vindos, nem que forem só pra criticar o trabalho (desde que respeitosos, é claro).

Mas chega desse papo furado e conversa fiada e vamos de uma vez ao que interessa…

 

COMUNICAÇÃO DA CIÊNCIA E WEB 2.0

 

Resumo: Os processos comunicativos estão na base da construção da própria Ciência. Como tal, segundo a teoria de McLuhan, estão sujeitos à mudança dos meios pelos quais esta comunicação é feita, o que acaba por alterar a própria comunicação em si. Meio é mensagem, e nos últimos anos estamos acompanhando a solidificação de um novo meio digital, a Web 2.0, que permite novas formas de interação e provoca mudanças na forma como a Ciência é feita, seja ao nível horizontal da comunicação legitimadora entre os pares, seja ao nível vertical da comunicação entre as gerações (ensino), seja ao nível transversal da comunicação entre Ciência e sociedade. O que vemos hoje é a constituição de uma nova cultura acostumada à abundância e livre acesso à informação, que está no centro de uma revolução cultural e comunicativa que afeta diretamente a maneira como produzimos e comunicamos a Ciência.

Índice:

  • 1- Introdução
  • 2- Da tribo ao livro, da tinta ao pixel
  • 3- Conceitos de Comunicação da Ciência
  • 3.1- Comunicação e Construção do Conhecimento
  • 3.1.1- Comunicação horizontal entre pares
  • 3.1.2- Comunicação transversal entre a Ciência e a Sociedade
  • 3.1.3- Comunicação vertical entre Gerações
  • 3.2- Comunicação da Ciência, agentes comunicadores e comunicação transdisciplinar
  • 3.2.1- Do caráter multiplo do agente comunicador
  • 3.2.2- Divulgação Transdisciplinar
  • 4- Ciência 2.0: Comunicação horizontal da ciência em um ambiente aberto
  • 4.1- Investigação 2.0
  • 4.2- Publicação em um ambiente digital
  • 4.3- Ciência e a cultura do remix
  • 5- Divulgação Científica: A comunicação transversal da ciência

 

PS1: Como a tese foi feita em Portugal, o texto por vezes sofreu modificações para evitar possíveis confusões. É o exemplo do uso da palavra “investigação”, quando no Brasil usaríamos “pesquisa”. Em todo caso, são poucas as vezes em que esse tipo de “correção” foi empregado e o texto não sofre em clareza por conta disso.

PS2: Subi para o Google Docs uma versão em PDF para evitar a perda da formatação do texto em geral. Se vocês acham que o formato dificulta a leitura de alguma forma, aceito sugestões de opções melhores para a disponibilização da tese.

*UPDATE: A tese foi defendida no final de maio, muitas questões relevantes foram abordadas durante a defesa e eu gostei muito do processo como um todo, embora ele não deixe de ser um pouco assustador no começo. Seja como for, a nota final ficou em 17 valores, ou no esquema de notas brasileiro, 8,5 :)


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Uma pequena nota.

Apesar de o blog andar desatualizado (culpa da vida atribulada de todos nós), é válido lembrar que dia 17 deste mês o Polegar Opositor fez três aninhos.

Honestamente? Quando comecei este projeto não achei que ele fosse durar tanto e, coisas da vida, ele é hoje parte fundamental dos caminhos que decidi tomar no meu mestrado. O Polegar Opositor é de uma importância sem tamanho para mim, e me custa muito ficar tão distante dele quanto ando nos últimos meses. Mas prometo que assim que terminar o mestrado, por volta de Setembro deste ano, volto a me dedicar mais ao blog.

Como sempre, o blog também não seria o que é sem a ajuda dos meus queridos colaboradores. Portanto, um obrigado a todos vocês por acreditarem no Polegar e por terem dedicado um pouco o tempo de vocês para alimentarem o blog.

Que venha o quarto ano :)


Categoria: blog

Não há dúvidas de que Galileu é uma das figuras mais importantes da ciência moderna. Aqui mesmo neste blog não são poucos os textos sobre ele e, evidente, por razões mais do que justificadas.

Galileu é uma das figuras centrais da Revolução Científica. Fez contribuições importantíssimas para a mecânica e astronomia além de ser sido um artesão bastante competente. Mas Galileu vai além.

Representa para a ciência moderna o “espírito” do verdadeiro cientista. É tido como o questionador por excelência. O rebelde que desafiou costumes, leis e arriscou a própria vida em prol da defesa de um conhecimento científico que combatia o obscurantismo medieval. É, mais do que todos, o gigante que apoiou em seus ombros tantos outros gigantes.

É claro que quem estudou a história do matemático sabe que essa imagem heróica atribuída a ele é, antes de qualquer coisa, uma interpretação da figura histórica de Galileu. Ainda assim, é uma interpretação conveniente. Ainda que não seja verdadeira, transmite para os jovens iniciados na ciência o tipo de atitude que se espera deles.

Mas será que é isso mesmo que a ciência quer? Será que a ciência moderna premia seus “rebeldes”? Se Galileu estivesse vivo hoje, veria seus trabalhos publicados pela Science ou pela Nature?

O subversivo método científico.
Alexandre Koyré cunhou o termo Revolução Científica, assim mesmo em maiúsculas, pra se referir à mudança que ocorreu na forma como a ciência passou a ser conduzida no século XVII. Com efeito, é até difícil de chamar o que veio antes da Revolução Científica de ciência.

O fato é que houve uma mudança drástica, e uma das características dessa mudança foi o abandono do aristotelismo como metodologia. Isso significa que noções como a divisão do Universo em mundo sublunar e supralunar deixou de existir, assim também como toda a física aristotélica foi aos poucos sendo derrubada. Galileu era neste sentido um subversivo completo.

Mesmo o uso de seu famoso telescópio como ferramenta de investigação não era permitida pelos aristotélicos. Para eles, era preciso estudar a natureza sem inteferências e o telescópio era exatamente isso, um objeto que se colocava entre a natureza e seu observador.

O instrumento era, antes de qualquer coisa, considerado uma curiosidade. Para a maioria das pessoas que olhavam pelo telescópio, o que ele fazia era produzir uma ilusão que não tinha qualquer relação com a realidade. Poucos entenderam o valor do famoso objeto. Kepler foi talvez o mais importante, já que vem dele a teoria ótica que explicava com pormenores o funcionamento do telescópio. Em todo caso, os trabalhos em mecânica de Galileu são tão subversivos quanto o próprio telescópio.

Ao realizar experimentos para explicar fenomenos naturais, Galileu podia estar usando uma metodologia que é perfeitamente aceita hoje em dia, mas completamente incompatível com o aristotelismo da época. Ao considerar que as causas por trás dos fenomenos celestes eram as mesmas causas por trás dos fenomenos observados na Terra, Galileu só reafirmava sua subversão.

Quando obstruir virou sinônimo de comunicar.
Mas deixemos Galileu de lado só por um momento, em prol da lógica do argumento. O que se viu nos séculos seguintes à Revolução Científica foi o desenvolvimento brutal da prática científica. E uma das características chave nesse sentido foi a institucionalização da ciência e a comunicação de seus avanços.

Começamos com as leituras nas sociedades científicas, passamos para um modelo intermédio aonde a comunicação das novidades era feita nas sociedades e depois distribuídas por periódicos e chegamos aonde estamos hoje.

Embora ainda hoje tenhamos congressos e eventos equivalentes que de certa forma cumprem o mesmo papel da antiga “leitura na sociedade”, é certo que o principal meio de comunicação da ciência seja através da publicação em periódicos.

O problema é que esse modelo se consolidou antes do advento da internet. Foi preciso criar mecanismos de filtrar o que seria publicado, já que não era, e ainda não é, comercialmente possível publicar tudo o que era submetido aos periódicos.

Podemos achar que o filtro criado é o processo de revisão por pares, mas o fato é que pelo menos para a Nature, isso não é bem verdade. O processo de peer review é secundário no que diz respeito ao que vai ser publicado neste periódico, como eles deixam bem claro em sua página na internet:

“O julgamento sobre quais artigos interessam para um público mais geral é feito pelos editores da Nature, não pelos referees.”

Em outras palavras, os editores da Nature julgam que tipo de artigos devem atrair um público mais generalizado, e não os representantes da comunidade científica. O que me faz questionar como é que a Nature se transformou em um dos periódicos mais importantes para a comunidade…

É claro que se pode argumentar que os editores da Nature são também cientistas, embora eu não tenha encontrado essa informação no site da revista. O caso é que o peso da decisão sobre qual artigo deve ser publicado parece ser mais mercadológico do que pelo interesse da comunidade.

Um caso emblemático neste sentido foi a publicação do artigo sobre clonagem humana na Science de junho de 2007. A despeito do alegado rigor com que estes periódicos alegam tratar o conteúdo a ser publicado, o artigo fraudulento foi publicado com grande pompa e anúncio em todos os meios de comunicação.

Posteriormente a culpa recaiu sobre o sistema de revisão por pares, mas é de se questionar se a culpa foi exclusivamente dos referres como ficou sugerido. O fato é que criou-se uma economia aonde a autoridade e importância do periódico esta relacionada com a quantidade de artigos que ele rejeita, e não na qualidade dos artigos que ele publica.

O curioso é notar que segundo este artigo publicado na PLoS, a maior parte dos artigos são rejeitados por falta de espaço para publicação. Ainda assim, tanto a Nature quanto a Science propagandeiam os altos índices de rejeição como resultado de sua seleção rigorosa, ainda que o peer review esteja claramente em segundo plano.

A ciência moderna segue assim nessa situação. Embora a comunicação seja um dos pilares fundamentais do processo de desenvolvimento da ciência, o que vemos é a dificuldade em ter acesso ao conteúdo submetido aos periódicos. Seja pela não publicação de artigos por questões mercadológicas nas versões impressas, seja pela obrigatoriedade de pagamento de taxas altíssimas para acesso das versões digitais.

Por que Galileu não seria publicado na Nature (nem na Science).
Mas voltemos a Galileu. Afinal, Galileu estivesse vivo hoje e o carater de seu trabalho tivesse o mesmo significado que teve em sua época, seria ele publicado em algum periódico? Sou obrigado a concluir que não.

Galileu rompeu com a tradição metodológica da época e seus trabalhos só são considerados importantes por que toda a ciência criada nos séculos após o matemático seguiu pelo mesmo caminho que ele.

Se fosse vivo hoje e trabalhasse com uma metodologia completamente diferente da que estamos acostumados, Galileu sequer seria considerado para publicação, seja por falta de espaço, seja por não poder passar pelo processo de revisão por pares.

No final das contas, nossa ciência que tanto diz gostar de ser desafiada e questionada, que elege como heróis homens que eram rebeldes metodológicos, dificilmente vai aceitar com alegria um Galileu moderno, um Kepler do século XXI.

Mesmo com essa constatação talvez pessimista, gosto de pensar que temos uma oportunidade de ouro hoje em dia. A web 2.0 pode mudar completamente a forma como a ciência se comunica e talvez permitir que a nova geração de cientistas possa ser um pouco mais rebelde.

Acredito que estamos em um ponto aonde o sistema de publicação e revisão por pares vai inevitavelmente sofrer alterações drásticas. O quão interessante seria poder ver um artigo que não fosse um conteúdo estático, preso à sua data de publicação?

Um artigo de conteúdo dinâmico, que pudesse ser melhorado gradativamente com o passar dos anos e por meio de uma revisão por pares à posteriori? Uma revisão por pares que não fosse levada a cabo por um pequeno colégio de especialistas, mas por toda a comunidade interessada?

Um artigo deste tipo não precisaria ser absolutamente rejeitado. Poderia ser aceito pela comunidade como um “projeto em andamento”, sendo pouco a pouco delapidado e transformado, mais ou menos como no desenvolvimento de softwares de código aberto que temos hoje.

Posso apenas imaginar esse tipo de mudança, nunca prever. Mas em minha opinião uma coisa é certa, ou mudamos nossa forma de comunicar e validar a ciência, ou corremos o risco de ignorarmos de forma injusta o nosso próximo Galileu.


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Alexandre Koyré

Aproveitando o embalo do texto anterior sobre Galileu, volto a abordar um dos historiadores fundamentais para qualquer um que pretenda estudar com mais detalhe a o matemático italiano.

Alexandre Koyré nasceu em 1892 na Russia, mas cresceu na França. Estudou em Göttingen, na Alemanha, com David Hilbert e Edmund Husserl. Teve a sua tese rejeitada por Husserl, o que o fez retornar a França.

Quando a 1ª grande guerra veio, Koyré se alistou no exército frances por sua própria vontade e acabou indo servir na Russia. Ao final da guerra passou a se dedicar à filosofia. Estudou os trabalhos de Descartes e Santo Anselmo sobre Deus, completando seu doutorado em filosofia da religião pela faculdade de letras de Paris.

É um homem de história curiosa, sem dúvida. De soldado a filósofo da religião, de filósofo da religião a historiador da ciência. Mesmo trilhando caminhos tão “divergentes” por assim dizer, é impossível separar a história da ciência de Koyré. Foi ele um dos grandes nomes que cunharam a grande Revolução Científica como o ponto central da disciplina.

Internalismo e externalismo.
Para entendermos a importância de Koyré, é preciso antes entendermos como era a história da ciência antes dele. A primeira geração de historiadores da ciência estava comprometida com os ideais positivistas, buscando na filosofia de Comte uma abordagem metodológica capaz de superar os limites da história convencional e produzir uma narrativa adequada para a história da ciência.

Neste projeto a ciência era estudada como um empreendimento isolado, ou seja, levava em consideração apenas os processos internos da atividade, ignorando completamente o contexto social de seus praticantes ou da própria prática.

Em 1930 os historiadores passaram a abandonar gradativamente esta abordagem. A historigrafia atual assume que é muito difícil compreender a história da ciência sem considerar seu contexto social. Um exemplo disso é o livro Galileu Cortesão, de Mario Biagioli, que foi usado no texto anterior sobre Galileu. Biagioli constrói sua narrativa mostrando que as práticas cortesãs influenciaram diretamente a ciência de Galileu.

Koyré não era exatamente um externalista, mas também não pode ser chamado de internalista. Kuhn chega mesmo a dizer que nenhum destes rótulos se aplica a ele. Koyré não se importava em usar fatores extracientíficos e demonstrar sua importância no desenvolvimento da ciência, mas não produziu nada que fosse estritamente externalista.

Koyré platônico.
A despeito da discussão sobre internalismo e externalismo, o que realmente importa é a influência que a formação filosófica teve sobre sua carreira de historiador. Koyré era um platônico e, como tal, se interessou em estudar a história das ideias científicas.

E foi como platônico que ele interpretou Galileu. Seus Estudos Galileanos mostram um Galileu que da enfase na experiência mental, um Galileo que já sabe o resultado da experiência antes mesmo de a realizar. Com efeito, Koyré se apegou tanto a esta metodologia que em certo ponto chegou a dizer que “a boa física é feita a priori, teoria precede o fato, a experiência é inútil por que antes de qualquer experiência já estamos de posse do conhecimento que estamos buscando”.

A alegação de que a experiência é inútil é um tanto forte, mas é curioso ver como nem Galileu nem Kepler precisaram da observação das luas de Júpiter ou os dados de Tycho Brahe para aceitarem o heliocentrismo. Alguns historiadores, por influência de Koyré, acabariam por reconstituir determinados experimentos a fim de descobrir se de fato eles haviam sido feitos.

No caso específico de Galileu, descobriu-se que muitos dos experimentos que ele descrevera simplesmente não apresentavam os resultados que o italiano descrevia. Tal conclusão vai de encontro com o que Koyré dizia. Galileu de fato conduzia experimentos mentais e estava tão seguro de seus resultados que os apresentava sem realizar alguns experimentos de fato.

Koyré também fez grandes contribuições para o estudo do período da Revolução Científica. Foi ele quem interpretou o período como o abandono do aristotelismo e a mudança para uma metodologia mais arquimediana. A geometrização do universo e a infinitização do espaço, como ele mesmo colocou.

Era, em outras palavras, a racionalização da ciência, que passa a ser capaz de tirar conclusões e fazer previsões sobre o mundo físico mesmo que determinado fenômeno previsto não tenha sido observado por uma razão qualquer. Para o historiador, Galileu era o grande exemplo dessa mudança metodológica.

Antes de falecer em 1964 Koyré se dedicou a estudar outro grande cientista, Isaac Newton. Seu trabalho rendeu uma nova tradução do Principia e mais um sem número de artigos que demonstravam a influência de Descartes no pensamento newtoniano, além de abordarem a relação entre os trabalhos de Newton e Leibiniz.

Koyré era ele próprio o grande exemplo de uma mudança metodológica. Um platônico por excelência que mudou, de forma determinante, o desenvolvimento da história da ciência nos anos vindouros.

Bibliografia.

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Cohen, Bernard and Marshall Clagett. “Alexandre Koyré (1892-1964): Commemoration,” Isis (2), (1966), 157-166.

Elkana, Yehuda. “Alexandre Koyré: between the history of ideas and sociology of knowledge,” History and Technology (1987), 111-144.

Gavroglu, Kostas. O Passado das Ciências como História. Porto: Porto Editora, 2007.

Herivel, John. “Obituary: Alexandre Koyré (1892-1964),” The British Journal for the History of Science (3), (1965), 257-259.

Koyré, Alexandre. “Galileo and Plato”, Journal of the History of Ideas (4), (1943), 400-428.

Koyré. Alexandre. “Galileo and the Scientific Revolution of the Seventeenth Century”, The Philosophical Review (4), (1943), 333-348.

Koyré, Alexandre. “Influence of Philosophic Trends on the Formulation of Scientific Theories”, The Scientific Monthly (2), (1955), 107-112.

Kuhn, Thomas S. “Mathematical versus Experimental Traditions”, Journal of Interdisciplinary History (1976), 1-31.

MacLachlan, James. “A Testofan ‘Imaginary’ Experiment of Galileo’s”, Isis (3), (1973), 374-379.

MacLachlan, James. “Experimenting in the History of Science”, Isis (1), (1998), 90-92.


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