Thiago Henrique Santos
Quem é?
Minha mãe conta, e eu tenho alguns lampejos de memória, que quando eu tinha lá meus seis ou sete anos eu queria voar. Eu vestia minha roupa de super-homem e esticava os braços para o alto na tentativa de alçar vôo. Nunca funcionou, claro, e eu estava certo de que o problema era a capa. Passei boa parte da minha infância tentando resolver o problema da capa sem sucesso. O processo era simples, eu assistia um episódio do desenho “Super Amigos”, observava o Super-homem voar e criava uma hipótese nova. O que na época eu não sabia é que já estava entregue ao método cientifico. Como um verdadeiro discípulo de Karl Popper lá ia eu todos os dias falsear minha mais nova teoria sobre o vôo livre com capas vermelhas e roupas colan azul. A televisão, o cinema e a literatura continuariam me influenciando. Conheci a teoria da relatividade de Einstein pesquisando sobre viagens no tempo depois de assistir De volta para o futuro. Jurassic Park me apresentaria à paleontologia e à teoria da evolução. Julio Verne me levaria a uma viagem ao centro da Terra e à Lua, dando origem ao meu interesse pela astronomia. Eventualmente acabaria entrando para a faculdade de Biologia, passando a ser parte integrante do mundo científico que sempre me seduziu. O amor pela biologia foi imediato, eu precisei apenas de uma semana de aulas para descobrir que era isso que eu queria pelo resto de minha vida. Dentro da biologia descobri ainda minha outra paixão, a teoria da evolução. Foi durante a faculdade que me aprofundei na filosofia da ciência e suas implicações. Popper e Kuhn se transformaram em ídolos, assim como Dawkins e Jay Gould. Mas foi um astrônomo quem me daria a inspiração necessária para partir para o campo da divulgação cientifica. Carl Sagan dedicou sua vida à ciência e a sua divulgação. O Polegar Opositor nasceu da vontade de divulgar a ciência e, quem sabe um dia, servir de guia para os muitos garotos e garotas que hoje tentam voar com suas capas vermelhas e colan azul.
Contato
thenriques45@gmail.com
Uma pequena nota.

Apesar de o blog andar desatualizado (culpa da vida atribulada de todos nós), é válido lembrar que dia 17 deste mês o Polegar Opositor fez três aninhos.

Honestamente? Quando comecei este projeto não achei que ele fosse durar tanto e, coisas da vida, ele é hoje parte fundamental dos caminhos que decidi tomar no meu mestrado. O Polegar Opositor é de uma importância sem tamanho para mim, e me custa muito ficar tão distante dele quanto ando nos últimos meses. Mas prometo que assim que terminar o mestrado, por volta de Setembro deste ano, volto a me dedicar mais ao blog.

Como sempre, o blog também não seria o que é sem a ajuda dos meus queridos colaboradores. Portanto, um obrigado a todos vocês por acreditarem no Polegar e por terem dedicado um pouco o tempo de vocês para alimentarem o blog.

Que venha o quarto ano :)

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Por que Galileu não seria publicado na Nature (nem na Science).

Não há dúvidas de que Galileu é uma das figuras mais importantes da ciência moderna. Aqui mesmo neste blog não são poucos os textos sobre ele e, evidente, por razões mais do que justificadas.

Galileu é uma das figuras centrais da Revolução Científica. Fez contribuições importantíssimas para a mecânica e astronomia além de ser sido um artesão bastante competente. Mas Galileu vai além.

Representa para a ciência moderna o “espírito” do verdadeiro cientista. É tido como o questionador por excelência. O rebelde que desafiou costumes, leis e arriscou a própria vida em prol da defesa de um conhecimento científico que combatia o obscurantismo medieval. É, mais do que todos, o gigante que apoiou em seus ombros tantos outros gigantes.

É claro que quem estudou a história do matemático sabe que essa imagem heróica atribuída a ele é, antes de qualquer coisa, uma interpretação da figura histórica de Galileu. Ainda assim, é uma interpretação conveniente. Ainda que não seja verdadeira, transmite para os jovens iniciados na ciência o tipo de atitude que se espera deles.

Mas será que é isso mesmo que a ciência quer? Será que a ciência moderna premia seus “rebeldes”? Se Galileu estivesse vivo hoje, veria seus trabalhos publicados pela Science ou pela Nature?

O subversivo método científico.
Alexandre Koyré cunhou o termo Revolução Científica, assim mesmo em maiúsculas, pra se referir à mudança que ocorreu na forma como a ciência passou a ser conduzida no século XVII. Com efeito, é até difícil de chamar o que veio antes da Revolução Científica de ciência.

O fato é que houve uma mudança drástica, e uma das características dessa mudança foi o abandono do aristotelismo como metodologia. Isso significa que noções como a divisão do Universo em mundo sublunar e supralunar deixou de existir, assim também como toda a física aristotélica foi aos poucos sendo derrubada. Galileu era neste sentido um subversivo completo.

Mesmo o uso de seu famoso telescópio como ferramenta de investigação não era permitida pelos aristotélicos. Para eles, era preciso estudar a natureza sem inteferências e o telescópio era exatamente isso, um objeto que se colocava entre a natureza e seu observador.

O instrumento era, antes de qualquer coisa, considerado uma curiosidade. Para a maioria das pessoas que olhavam pelo telescópio, o que ele fazia era produzir uma ilusão que não tinha qualquer relação com a realidade. Poucos entenderam o valor do famoso objeto. Kepler foi talvez o mais importante, já que vem dele a teoria ótica que explicava com pormenores o funcionamento do telescópio. Em todo caso, os trabalhos em mecânica de Galileu são tão subversivos quanto o próprio telescópio.

Ao realizar experimentos para explicar fenomenos naturais, Galileu podia estar usando uma metodologia que é perfeitamente aceita hoje em dia, mas completamente incompatível com o aristotelismo da época. Ao considerar que as causas por trás dos fenomenos celestes eram as mesmas causas por trás dos fenomenos observados na Terra, Galileu só reafirmava sua subversão.

Quando obstruir virou sinônimo de comunicar.
Mas deixemos Galileu de lado só por um momento, em prol da lógica do argumento. O que se viu nos séculos seguintes à Revolução Científica foi o desenvolvimento brutal da prática científica. E uma das características chave nesse sentido foi a institucionalização da ciência e a comunicação de seus avanços.

Começamos com as leituras nas sociedades científicas, passamos para um modelo intermédio aonde a comunicação das novidades era feita nas sociedades e depois distribuídas por periódicos e chegamos aonde estamos hoje.

Embora ainda hoje tenhamos congressos e eventos equivalentes que de certa forma cumprem o mesmo papel da antiga “leitura na sociedade”, é certo que o principal meio de comunicação da ciência seja através da publicação em periódicos.

O problema é que esse modelo se consolidou antes do advento da internet. Foi preciso criar mecanismos de filtrar o que seria publicado, já que não era, e ainda não é, comercialmente possível publicar tudo o que era submetido aos periódicos.

Podemos achar que o filtro criado é o processo de revisão por pares, mas o fato é que pelo menos para a Nature, isso não é bem verdade. O processo de peer review é secundário no que diz respeito ao que vai ser publicado neste periódico, como eles deixam bem claro em sua página na internet:

“O julgamento sobre quais artigos interessam para um público mais geral é feito pelos editores da Nature, não pelos referees.”

Em outras palavras, os editores da Nature julgam que tipo de artigos devem atrair um público mais generalizado, e não os representantes da comunidade científica. O que me faz questionar como é que a Nature se transformou em um dos periódicos mais importantes para a comunidade…

É claro que se pode argumentar que os editores da Nature são também cientistas, embora eu não tenha encontrado essa informação no site da revista. O caso é que o peso da decisão sobre qual artigo deve ser publicado parece ser mais mercadológico do que pelo interesse da comunidade.

Um caso emblemático neste sentido foi a publicação do artigo sobre clonagem humana na Science de junho de 2007. A despeito do alegado rigor com que estes periódicos alegam tratar o conteúdo a ser publicado, o artigo fraudulento foi publicado com grande pompa e anúncio em todos os meios de comunicação.

Posteriormente a culpa recaiu sobre o sistema de revisão por pares, mas é de se questionar se a culpa foi exclusivamente dos referres como ficou sugerido. O fato é que criou-se uma economia aonde a autoridade e importância do periódico esta relacionada com a quantidade de artigos que ele rejeita, e não na qualidade dos artigos que ele publica.

O curioso é notar que segundo este artigo publicado na PLoS, a maior parte dos artigos são rejeitados por falta de espaço para publicação. Ainda assim, tanto a Nature quanto a Science propagandeiam os altos índices de rejeição como resultado de sua seleção rigorosa, ainda que o peer review esteja claramente em segundo plano.

A ciência moderna segue assim nessa situação. Embora a comunicação seja um dos pilares fundamentais do processo de desenvolvimento da ciência, o que vemos é a dificuldade em ter acesso ao conteúdo submetido aos periódicos. Seja pela não publicação de artigos por questões mercadológicas nas versões impressas, seja pela obrigatoriedade de pagamento de taxas altíssimas para acesso das versões digitais.

Por que Galileu não seria publicado na Nature (nem na Science).
Mas voltemos a Galileu. Afinal, Galileu estivesse vivo hoje e o carater de seu trabalho tivesse o mesmo significado que teve em sua época, seria ele publicado em algum periódico? Sou obrigado a concluir que não.

Galileu rompeu com a tradição metodológica da época e seus trabalhos só são considerados importantes por que toda a ciência criada nos séculos após o matemático seguiu pelo mesmo caminho que ele.

Se fosse vivo hoje e trabalhasse com uma metodologia completamente diferente da que estamos acostumados, Galileu sequer seria considerado para publicação, seja por falta de espaço, seja por não poder passar pelo processo de revisão por pares.

No final das contas, nossa ciência que tanto diz gostar de ser desafiada e questionada, que elege como heróis homens que eram rebeldes metodológicos, dificilmente vai aceitar com alegria um Galileu moderno, um Kepler do século XXI.

Mesmo com essa constatação talvez pessimista, gosto de pensar que temos uma oportunidade de ouro hoje em dia. A web 2.0 pode mudar completamente a forma como a ciência se comunica e talvez permitir que a nova geração de cientistas possa ser um pouco mais rebelde.

Acredito que estamos em um ponto aonde o sistema de publicação e revisão por pares vai inevitavelmente sofrer alterações drásticas. O quão interessante seria poder ver um artigo que não fosse um conteúdo estático, preso à sua data de publicação?

Um artigo de conteúdo dinâmico, que pudesse ser melhorado gradativamente com o passar dos anos e por meio de uma revisão por pares à posteriori? Uma revisão por pares que não fosse levada a cabo por um pequeno colégio de especialistas, mas por toda a comunidade interessada?

Um artigo deste tipo não precisaria ser absolutamente rejeitado. Poderia ser aceito pela comunidade como um “projeto em andamento”, sendo pouco a pouco delapidado e transformado, mais ou menos como no desenvolvimento de softwares de código aberto que temos hoje.

Posso apenas imaginar esse tipo de mudança, nunca prever. Mas em minha opinião uma coisa é certa, ou mudamos nossa forma de comunicar e validar a ciência, ou corremos o risco de ignorarmos de forma injusta o nosso próximo Galileu.

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Alexandre Koyré: Soldado, filósofo, historiador.

Alexandre Koyré

Aproveitando o embalo do texto anterior sobre Galileu, volto a abordar um dos historiadores fundamentais para qualquer um que pretenda estudar com mais detalhe a o matemático italiano.

Alexandre Koyré nasceu em 1892 na Russia, mas cresceu na França. Estudou em Göttingen, na Alemanha, com David Hilbert e Edmund Husserl. Teve a sua tese rejeitada por Husserl, o que o fez retornar a França.

Quando a 1ª grande guerra veio, Koyré se alistou no exército frances por sua própria vontade e acabou indo servir na Russia. Ao final da guerra passou a se dedicar à filosofia. Estudou os trabalhos de Descartes e Santo Anselmo sobre Deus, completando seu doutorado em filosofia da religião pela faculdade de letras de Paris.

É um homem de história curiosa, sem dúvida. De soldado a filósofo da religião, de filósofo da religião a historiador da ciência. Mesmo trilhando caminhos tão “divergentes” por assim dizer, é impossível separar a história da ciência de Koyré. Foi ele um dos grandes nomes que cunharam a grande Revolução Científica como o ponto central da disciplina.

Internalismo e externalismo.
Para entendermos a importância de Koyré, é preciso antes entendermos como era a história da ciência antes dele. A primeira geração de historiadores da ciência estava comprometida com os ideais positivistas, buscando na filosofia de Comte uma abordagem metodológica capaz de superar os limites da história convencional e produzir uma narrativa adequada para a história da ciência.

Neste projeto a ciência era estudada como um empreendimento isolado, ou seja, levava em consideração apenas os processos internos da atividade, ignorando completamente o contexto social de seus praticantes ou da própria prática.

Em 1930 os historiadores passaram a abandonar gradativamente esta abordagem. A historigrafia atual assume que é muito difícil compreender a história da ciência sem considerar seu contexto social. Um exemplo disso é o livro Galileu Cortesão, de Mario Biagioli, que foi usado no texto anterior sobre Galileu. Biagioli constrói sua narrativa mostrando que as práticas cortesãs influenciaram diretamente a ciência de Galileu.

Koyré não era exatamente um externalista, mas também não pode ser chamado de internalista. Kuhn chega mesmo a dizer que nenhum destes rótulos se aplica a ele. Koyré não se importava em usar fatores extracientíficos e demonstrar sua importância no desenvolvimento da ciência, mas não produziu nada que fosse estritamente externalista.

Koyré platônico.
A despeito da discussão sobre internalismo e externalismo, o que realmente importa é a influência que a formação filosófica teve sobre sua carreira de historiador. Koyré era um platônico e, como tal, se interessou em estudar a história das ideias científicas.

E foi como platônico que ele interpretou Galileu. Seus Estudos Galileanos mostram um Galileu que da enfase na experiência mental, um Galileo que já sabe o resultado da experiência antes mesmo de a realizar. Com efeito, Koyré se apegou tanto a esta metodologia que em certo ponto chegou a dizer que “a boa física é feita a priori, teoria precede o fato, a experiência é inútil por que antes de qualquer experiência já estamos de posse do conhecimento que estamos buscando”.

A alegação de que a experiência é inútil é um tanto forte, mas é curioso ver como nem Galileu nem Kepler precisaram da observação das luas de Júpiter ou os dados de Tycho Brahe para aceitarem o heliocentrismo. Alguns historiadores, por influência de Koyré, acabariam por reconstituir determinados experimentos a fim de descobrir se de fato eles haviam sido feitos.

No caso específico de Galileu, descobriu-se que muitos dos experimentos que ele descrevera simplesmente não apresentavam os resultados que o italiano descrevia. Tal conclusão vai de encontro com o que Koyré dizia. Galileu de fato conduzia experimentos mentais e estava tão seguro de seus resultados que os apresentava sem realizar alguns experimentos de fato.

Koyré também fez grandes contribuições para o estudo do período da Revolução Científica. Foi ele quem interpretou o período como o abandono do aristotelismo e a mudança para uma metodologia mais arquimediana. A geometrização do universo e a infinitização do espaço, como ele mesmo colocou.

Era, em outras palavras, a racionalização da ciência, que passa a ser capaz de tirar conclusões e fazer previsões sobre o mundo físico mesmo que determinado fenômeno previsto não tenha sido observado por uma razão qualquer. Para o historiador, Galileu era o grande exemplo dessa mudança metodológica.

Antes de falecer em 1964 Koyré se dedicou a estudar outro grande cientista, Isaac Newton. Seu trabalho rendeu uma nova tradução do Principia e mais um sem número de artigos que demonstravam a influência de Descartes no pensamento newtoniano, além de abordarem a relação entre os trabalhos de Newton e Leibiniz.

Koyré era ele próprio o grande exemplo de uma mudança metodológica. Um platônico por excelência que mudou, de forma determinante, o desenvolvimento da história da ciência nos anos vindouros.

Bibliografia.

Beltrán, Antonio. “Wine, Water and Epistemological Sobriety: A Note on the Koyré-MacLachlan Debate”, Isis (1), (1998), 82-89.

Cohen, Bernard and Marshall Clagett. “Alexandre Koyré (1892-1964): Commemoration,” Isis (2), (1966), 157-166.

Elkana, Yehuda. “Alexandre Koyré: between the history of ideas and sociology of knowledge,” History and Technology (1987), 111-144.

Gavroglu, Kostas. O Passado das Ciências como História. Porto: Porto Editora, 2007.

Herivel, John. “Obituary: Alexandre Koyré (1892-1964),” The British Journal for the History of Science (3), (1965), 257-259.

Koyré, Alexandre. “Galileo and Plato”, Journal of the History of Ideas (4), (1943), 400-428.

Koyré. Alexandre. “Galileo and the Scientific Revolution of the Seventeenth Century”, The Philosophical Review (4), (1943), 333-348.

Koyré, Alexandre. “Influence of Philosophic Trends on the Formulation of Scientific Theories”, The Scientific Monthly (2), (1955), 107-112.

Kuhn, Thomas S. “Mathematical versus Experimental Traditions”, Journal of Interdisciplinary History (1976), 1-31.

MacLachlan, James. “A Testofan ‘Imaginary’ Experiment of Galileo’s”, Isis (3), (1973), 374-379.

MacLachlan, James. “Experimenting in the History of Science”, Isis (1), (1998), 90-92.

Leia também:


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Galileu, matemático , cortesão e desonesto?

A Nature publicou ontem um pequeno texto (ao qual tive conhecimento pelo colega blogueiro Rafael do RNAm e que também escreveu um texto sobre o assunto) dizendo que evidencias recentes mostram que Galileu defendeu o sistema heliocêntrico apesar de suas observações não sustentarem tal sistema.

Tenho uma novidade pra Nature, tal fato já é sabido pela história da ciência a muito mais tempo. Aliás, o artigo em si é bastante estranho, e não estivesse publicado no site da Nature, eu ia dizer que era obra do G1. Mas vamos ao que interessa.

Galileu, Matemático.
Todo mundo sabe que Galileu foi um matemático. Deu aulas na universidade de Pádua, até ser escolhido como matemático oficial da corte dos Médici. O que pouca gente sabe é que a matemática não tinha o estatuto social que tem hoje.

Platão, de vermelho e Aristóteles de azul.

À época, a filosofia natural era a grande disciplina e tinha como modelo central a física aristotélica e a descrição celeste de Ptolomeu. Aristóteles classificava o universo em um mundo sublunar, ou seja, tudo aquilo que fica disposto “abaixo” da Lua (incluindo a própria Lua), e o mundo supralunar, ou tudo aquilo que fica disposto acima da Lua.

Em tal sistema, a Terra fica ao centro do Universo com a Lua, os planetas e todas as estrelas orbitando ao seu redor. Embora pareça favorecer a importância de nosso planeta no Universo, a verdade é que a justificativa de Aristóteles para isso é precisamente a inversa. Para o grego, o mundo supralunar era perfeito, existia desde sempre e continuaria existindo de maneira imutável. Os planetas e estrelas não tinham imperfeições, eram esferas perfeitas, se movendo em orbitas circulares ao redor da Terra em um mundo incorruptível.

O mundo sublunar por sua vez se situava no centro do Universo justamente por ser composto por uma substância comum, que não se “misturava” ao mundo supralunar. Na época de Galileu, este sistema era aceito da mesma maneira que aceitamos hoje um universo cheio de planetas que nada se parecem com esferas perfeitas.

Mas divago. Tudo isso era pra dizer que a filosofia natural possuía um estatuto social superior ao da matemática por exemplo. E Galileu era um homem que queria combater o aristotelismo. Não por birra, mas por acreditar que a matemática tinha grande papel no entendimento do mundo sublunar e supralunar. Para Galileu, era preciso matematizar o universo, unificando estes dois mundos.

O problema todo era justamente que para discutir em pé de igualdade com os aristotélicos Galileu precisava ter um status social compatível com seus interlocutores e ser um matemático de Pádua não era o suficiente.

Galileu Galileu.

Galileu, cortesão.
Na época de Galileu, a ciência como a conhecemos hoje ainda não existia. Por isso mesmo, não havia periódicos, sociedades científicas ou peer-review. Em outras palavras, os mecanismos atuais de validação ainda não tinham se estabelecido. Sem estes mecanismos, a validação era feita por um complexo sistema de mecenato.

Galileu sabia muito bem disso e já estava acostumado com as intrincadas regras de etiqueta das cortes italianas. Tentou por alguns anos se tornar o matemático filósofo da corte dos Médici, mas tal feito só seria conseguido quando da publicação de seu famoso Siderius Nuncius.

Como se sabe, Galileu melhorou sensivelmente a qualidade dos telescópios da época. De início, o telescópio de Galileu foi usado como um instrumento militar, mas em dado momento, o italiano teve a brilhante idéia de apontar sua lente para o céu. O resultado deste fato veio mais tarde, em seu livro que descrevia as descobertas feitas, como as crateras lunares e as luas de Júpiter.

Ao publicar o livro, Galileu o ofereceu aos Médici. Mais do que isso, nomeou as quatro luas de Júpiter que havia observado com o nome de altos membros da poderosa família italiana. Por regra da corte, ao ser presenteado, um mecenas deveria responder à altura, o que na época rendeu a Galileu o cargo de filósofo e matemático do Príncipe Cósimo II de Médici.

Ao manobrar sua aceitação na corte do grande mecenas, o matemático italiano finalmente adquiriu o estatuto social necessário para dialogar em igual nível com os aristotélicos.

Copérnico Vs Tycho Brahe.
A pergunta de por que Galileu era copernicano não encontra muita resposta. É sabido que ele chegou a defender o sistema ptolomaico, mas mudou de idéia quando ainda dava aulas em Pádua. Uma das explicações sugeridas é a de que o italiano percebeu em Copérnico um sistema mais elegante. Elegante não em termos estéticos, mas em termos matemáticos.

Via de regra, o modelo heliocêntrico de Copérnico, em termos de predição do movimento dos astros, não era muito melhor do que o de Ptolomeu. No entanto, era matematicamente mais coerente. Com efeito, os historiadores concordam que nesta época, poucos cientistas eram capazes de entender Copérnico. Galileu e Kepler foram dois destes privilegiados.

O caso é que o sistema de Ptolomeu só começou a cair quando o próprio aristotelismo passou a ser contestado. Como eu já disse mais acima, para Aristóteles o mundo supralunar era perfeito e imutável. Mas em 1572 uma supernova pode ser observada a olho nu, brilhou no firmamento como se fosse uma nova estrela para desaparecer por completo duas semanas depois.

Alguns anos depois um cometa pode ser observado por Tycho Brahe que, com os instrumentos de precisão mais potentes da época, calculou que tal cometa estava se deslocando no espaço, não sendo assim um fenômeno atmosférico como antes se acreditava. Galileu também ajudou no processo ao observar as luas de Júpiter e as manchas solares.

Em 1618 três cometas puderam ser observados. Tal fato atraiu a atenção dos mecenas que passaram a se interessar por explicações sobre o fenômeno. Galileu foi um dos interpelados sobre os cometas, bem como os jesuítas. Um dos membros da Companhia de Jesus, Orazio Grassi produziu uma conferência pública que resultou em um texto sobre os cometas. Neste texto, Grassi usa o sistema tychonico, que coloca a Terra no centro do Universo, o Sol a orbitar ao redor da Terra e todo o resto a orbitar ao redor do Sol, como parte da explicação sobre os cometas.

Nicolau Copérnico.

Galileu não pode se ausentar à disputa. Não produzir uma resposta à Grassi seria o mesmo que apoiar o sistema de Tycho. A esta altura o sistema de Copérnico já havia sido proibido pela igreja, o que deixou a Galileu uma única opção: Desacreditar o sistema tychonico.

Atacar tal sistema trazia para Galileu dois benefícios. O primeiro era impedir que o sistema de Tycho fosse aceito como o novo modelo canônico. O segundo era garantir a si próprio a imagem de grande autoridade astronômica, impedindo assim que os jesuítas assumissem tal papel. Foi durante toda a disputa que o cardeal Barberini, amigo de Galileu, foi eleito como novo Papa. A conjuntura foi tão boa que, se usando da mesma tática que havia usado para ser aceito na corte dos Médici, o italiano dedicou seu livro O Ensaiador ao novo Papa de modo a receber a proteção de um mecenas ainda mais poderoso que Cósimo.

Embora em nenhum momento Galileu tenha defendido Copérnico de forma aberta, O Ensaiador era um livro com duras críticas ao aristotelismo, e gozava da aceitação do Príncipe maior da Igreja Católica.

Galileu e a Inquisição.

A queda do favorito.
Na boa conjuntura em que se encontrava, Galileu pediu permissão à Urbano VIII para escrever um livro aonde defenderia o heliocentrismo de Copérnico. O Papa permitiu que Galileu assim o fizesse, mas não de forma a apresentar uma nova teoria, apenas como um exercício hipotético. Urbano VIII chegou mesmo a dar algumas sugestões sobre o conteúdo do livro.

Galileu, seguro de sua proteção, escreveu o livro na forma de diálogo, não só defendendo o copernicianismo abertamente e não de forma velada como sugerira o Papa, mas colocando na voz de Simplício, o personagem tacanho e ignorante de seu diálogo, algumas frases que o próprio Urbano teria proferido.

O Diálogo Sobre os Dois Sistemas do Mundo caiu como uma bomba. Urbano já se encontrava em posição difícil, sofrendo ameaças dos espanhóis que durante a guerra dos 30 anos começaram a acusar o Papa de ajudar os franceses, e ameaçaram uma invasão a Roma. Além disso, muitos dos críticos de Urbano diziam que ele protegia os hereges e pecadores.

Galileu foi a gota d’água. Ao ver suas próprias palavras reproduzidas no livro e precisando demonstrar seu pulso firme, Urbano iniciou o processo que levou Galileu à sua prisão perpétua domiciliar. O processo de abandono do cliente pelo seu mecenas é conhecido por “queda do favorito”. Galileu, no final, sofreu pelo mesmo sistema que o havia lhe dado tudo o que tinha.

Corroboração sem dados.
Eu sei que a história é longa, mas necessária para entender o porquê o artigo da Nature não só não traz nenhuma novidade para a história da ciência, como é permeado por anacronismos que não deveriam ser feitos de forma alguma.

O fato é que Galileu já era copernicano antes mesmo de ter criado seu famoso telescópio. Ao contrário do que o artigo faz parecer, não foram suas observações que o levaram a defender o heliocentrismo. Da mesma forma, as observações feitas por Galileu também não poderiam levá-lo a defender o sistema tychonico.

Isso por que ambos os modelos, o de Copérnico e o de Tycho Brahe, eram equivalentes e resolviam os grandes “buracos” do sistema de Ptolomeu. Com efeito, com os dados adquiridos na época, seja lá por qual meio, não era possível escolher qualquer um dos dois modelos como correto.

Para piorar, Tycho Brahe era considerado o maior astrônomo da época, com um castelo construído em uma ilha recheado de aparelhos de precisão para estudar os movimentos dos astros. Copérnico era só um padreco muito pouco conhecido.

A despeito disso, não podemos ser anacrônicos e olhar para uma época pré-ciência usando a metodologia moderna. Os dados que confirmavam o heliocentrismo pouco importavam para Galileu. O que ele buscava era a unificação entre o céu e a Terra. Seus trabalhos em mecânica, de longe as maiores contribuições que ele deu para a ciência, estão em completa harmonia com o fato, haja vista o método que ele usou para levá-los a cabo, completamente incompatível com os métodos aristotélicos da época.

Dizer que Galileu escondeu os problemas do heliocentrismo, ou que defendia Copérnico apesar de suas observações não corroborarem com o sistema não é só errado, é grosseiramente errado.

Bibliografia

Biagioli, Mario. Galileo, Courtier: The Practice of Science in the Culture of Absolutism. Chicago: University Of Chicago Press, 1993.

Biagioli, Mario. “Galileo the Emblem Maker”. Isis, vol. 81, no. 2, 1990, p. 230-258.

Gingerich, Owen. ” ‘Crisis’ versus aesthetic in the Copernican Revolution”. Vistas in astronomy, vol. 17, 1975, p.855, reprinted in The eye of heaven: Ptolemy, Copernicus, Kepler (New York, American Institute of Physics, 1993.

Moss, Jean Dietz. “Galileo’s Letter to Christina: Some Rhetorical Considerations”. Renaissance Quarterly, vol. 36, no. 4, 1983, p. 547-576.

Pedersen, Olaf, “Galileo and the Council of Trent: The Galileo Affair revisited”, Journal for the History of Astronomy, 14 (1983) 1-29.

Segre, Michael. “The Role of Experiment in Galileo’s Physics”. Archive for History of Exact Sciences, 1980, vol. 23, no. 3, p. 227-252.

Westfall, Richard S. “Galileo and the Telescope. Science and Patronage”. Isis, 76 (1985) 11-30.

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Divulgação Científica: Uma atividade sem conceito?

Não acredito que haja hoje um só cientista que não defenda a prática da divulgação científica, ainda que muitos deles não se dêem ao trabalho de produzir uma só linha de texto com este fim. Ainda assim, não da pra ignorar que o passado da atividade é cheio de louros e heróis.

Isaac Asimov, Stephen Jay Gould, Carl Sagan, Julian Huxley, Richard Dawkins e nossos brasileiríssimos Marcelo Gleiser e o pai da divulgação científica tupiniquim José Reis, só pra citar os mais conhecidos. Todos eles lembrados como homens incansáveis no trabalho de popularização da ciência.

Foram estes nomes que inspiraram uma série de novos indivíduos a continuarem seus trabalhos e, graças ao advento da internet e da web, o que vimos nos últimos tempos é a proliferação de blogs e sites preocupados em levar a ciência ao público por vezes referido como leigo. Este blog, claro, não é diferente e eu, como tantos outros, também tenho minhas dívidas com estes grandes divulgadores.

Daí que com tantas boas inspirações, a nova geração de divulgadores científicos já nasceu com uma ideia pré-formatada de modus operandi do divulgador e as vezes nos esquecemos de parar um minuto para pensarmos, o que é, de fato, a divulgação científica.

Público alvo não é conceito.
Por vezes vejo o conceito de divulgação científica se confundindo com a definição de seu público alvo. Isso por que cada vez que nos deparamos com um texto que fale de ciência para “não cientistas”, o classificamos imediatamente como divulgação científica.

Mas “não cientista” ou “público leigo” são definições generalistas demais, que acabam por esconder um problema que é óbvio para quase todos os tipos de ferramentas de comunicação. Quando dizemos “não cientistas” incluímos aí um espectro de público de múltiplas idades e níveis educacionais. Fazemos pior até, excluímos o próprio cientista.

Pode parecer bobagem imaginar que o cientista é alvo da divulgação científica. Mas não da pra negar o fato de que já a um bom tempo a ciência vem exigindo que seu praticante seja cada vez mais especialista, ao passo que a produção científica cresce de maneira assustadora. É evidente então que um biólogo não consiga acompanhar o que acontece na física. Com efeito, um biólogo especializado em comportamento reprodutivo de tubarões pode não estar em dia com as novidades de, digamos, áreas como a entomologia.

Como classificar então este cientista? Como “leigo”? Mas é um leigo igual a dona de casa? Se não é, então quais os tipos de leigos? E os tipos de não cientistas? Pior ainda é quando usamos o termo “divulgação para um público mais geral”, como eu, talvez erroneamente, muitas vezes cansei de fazer.

Vemos então a divulgação científica que dificilmente pode ser definida como “ciência traduzida para não cientistas”. Temos um público em potencial grande demais para definirmos toda a atividade de forma tão simplória.

Apesar disso, a ideia de “tradução” não é exatamente ruim. Mas é preciso considerar a diversidade de público para o qual tentamos comunicar uma atividade que é igualmente diversificada.

Uma narrativa autoritária?
Passando do conceito ao conteúdo, escrevi em outro texto que a divulgação científica atual consiste muito mais em explicar conceitos e teorias. Vou além, o grosso do conteúdo de divulgação científica produzido desde sempre, segue esta mesma métrica.

Não questiono a validade deste tipo de conteúdo, especialmente em um país com graves problemas educacionais. O problema é que a ciência é muito mais do que a teoria da evolução, ou o big bang, ou mesmo o conjunto completo de todas as teorias e conceitos já formulados.

Uma divulgação científica preocupada exclusivamente em ser explicativa não cumpre o papel básico de divulgar. E não o faz por que explicar uma teoria qualquer não basta. É preciso explicar o que é uma teoria, divulgar o dia a dia do cientista, explicar os processos internos de validação da ciência, e por aí vai.

Quando deixamos esta parte de fora, criamos uma narrativa autoritária, mesmo sabendo que na ciência o questionamento tem papel central. Blindamos a atividade, apresentando apenas um produto final que pode ser menos interessante do que o processo que nos levou até ele.

É preciso sujar um pouco a ciência. Mostrar que, assim como em qualquer atividade humana, também nela se erra. Mostrar que cientistas também tem problemas com seus egos. Mostrar que também sofremos com as mazelas políticas. Enfim, mostrar que não somos esta torre branca de onde verdades e coisas boas saem, ainda que ninguém entenda como.

Mas e o conceito?
Desculpem, vou ficar devendo. Acredito que a divulgação científica, embora não seja exatamente nova, ainda tem muito o que caminhar. Além disso, o papel deste texto é provocar algumas reflexões e discussões, bastante necessárias ultimamente.

É importante discutirmos sobre blogs de ciência e assuntos similares? Sem dúvida. Mas não podemos deixar de também discutirmos as bases da atividade. Andamos tão preocupados em discutir sobre os meios que esquecemos de olhar para a mensagem.

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Creation: uma crítica

Quando li a notícia de que estavam fazendo um filme sobre como Darwin escreveu o Origem das Espécies fiquei bastante empolgado. Primeiro por que qualquer um que leu o livro biográfico escrito por Adrian Desmond e James Moore sabe que esta é uma excelente história a ser contada. Segundo por que o ator encarregado de interpretar o naturalista inglês é o Paul Bettany que já tinha interpretado um outro naturalista, fictício é verdade mas tremendamente inspirado em Darwin, no filme Mestre dos Mares.

Tive a oportunidade de assistir ao filme ontem que, numa tentativa infeliz de ironia, foi chamado de Creation. Tenho más notícias. Vou resumir o assunto já que os próximos parágrafos vão conter algum spoiler e eu não quero estragar nada para ninguém. O filme não se sustenta nem como filme, nem como cinebiografia. Aviso novamente, como reforço, OS PRÓXIMOS PARÁGRAFOS PODEM CONTER SPOILERS, portanto, siga por própria conta e risco.

Esteriótipos e Exageros

Antes de mais nada devo reforçar que toda a crítica que faço é, sobretudo, por oposição ao livro do Desmond e Moore. Obra que não tem relação direta com o filme, que foi baseado no livro Annie’s Box, de Randal Keynes que é também tataraneto de Darwin.

O filme se divide em duas linhas de tempo. A primeira tem como ponto central a figura de Anne Darwin, mostrando a relação privilegiada entre Charles e sua segunda, e preferida, filha até sua devastadora morte aos 10 anos de idade. A segunda linha de tempo mostra Darwin lutando contra sua doença e sua tentativa de terminar o Origem das Espécies para publicação.

A primeira coisa que me incomodou bastante é a maneira como tudo é construído. Tudo muito exagerado, tudo muito esteriotipado. Darwin é o gênio indomável que tenta conter a si próprio em respeito ao amor que sente por sua esposa, Emma, a beata que em nome da religião vê, sem reclamar, sua filha sendo torturada, ao mesmo tempo em que suprime os impulsos do marido na busca de salvação para sua alma. Anne é a criança gênio, feita à imagem e semelhança do pai.

E por exagerar transforma o “naturalista atormentado” de Desmond e Moore em um “naturalista alucinado”. Darwin passa metade do filme tendo visões do fantasma de sua filha, em uma crise existencial que relaciona o Origem das Espécies com a morte de Anne, com as dificuldades do casamento, com a doença misteriosa.

Para o filme, o “Origem” não é um livro científico, mas um livro destinado a matar Deus, que só vê a luz do dia quando seu autor finalmente faz as pazes consigo mesmo, com sua esposa beata, com sua filha morta e com seu ateísmo latente. E é essa preocupação em a todo instante colocar a ciência em contraposição com a religião me leva a um segundo ponto.

Quando não se tem conteúdo, apele para a polêmica.

Creation faz exatamente isso. O filme não consegue prender o expectador pela força da história de como Darwin escreveu seu famoso livro. Ao invés disso, aposta todas as fichas em polêmicas rasas e que estão na moda. Não há uma só oportunidade de reforçar a briga entre ciência e religião que seja perdida. Darwin é retratado como um ateu enrustido, mesmo antes da morte de sua filha. A própria Anne é mostrada como uma criança que não acredita nos ensinamentos da bíblia, sendo penalizada e torturada por seu tutor religioso.

O nome do filme, como já disse anteriormente, é um trocadilho barato feito exclusivamente com o intuito de provocar polêmica. Nem mesmo o caso Darwin x Wallace passa batido.

Por fim, fiquei excepcionalmente desapontado. Não é de hoje que espero um bom filme sobre Darwin e, quando ele finalmente chega, é feito nas coxas. Por outro lado, Charles é uma figura tão rica em termos de história que o melhor seria uma série de TV. Em todo caso, não assistam, a não ser a título de curiosidade.

O duro é ver uma excelente idéia ser tão ridiculamente mal aproveitada. No final das contas, não temos nem 10 minutos de cenas que são ativamente relacionadas com a “criação” do Origem das Espécies. Nem mesmo a presença da lindíssima Jennifer Connelly salva. Aliás, se você quer ver Jennifer Connelly como esposa de um cientista, uma opção muito melhor é assistir ao Uma mente brilhante que, ao menos como filme, supera e muito essa aberração chamada Creation.

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Quem governa o 3º Mundo?

Não, não me refiro aos chamados países em desenvolvimento. O 3º mundo ao qual estou me referindo é aquele proposto pelo grande filósofo Karl Popper. Já escrevi sobre o assunto neste blog antes mas, tendo em vista que o texto não foi lá muito claro, faço uma nova tentativa.

Em seu livro Conhecimento Objetivo, Popper propõem uma divisão tripla do mundo. O 1º mundo é aquele que contém objetos físicos ou estados materiais. O 2º mundo é composto por estados de consciência ou mentais. E por fim o 3º mundo, habitado por conteúdos objetivos de pensamento, em especial pensamentos científicos, poéticos e de outras obras de arte.

Vemos então que no 2º mundo estão os pensamentos subjetivos, ou o ato de pensar em si, enquanto no 3º mundo estão os pensamentos objetivos, ou o conteúdo destes pensamentos. Livros, artigos e obras de arte são a representação física dos habitantes deste último.

Mas este não é um texto sobre Karl Popper, ou mesmo sobre considerações a respeito da validade ou implicações da divisão proposta pelo filósofo. A introdução sobre o 3º mundo popperiano me serve apenas para dar maior materialidade ao fato de que, por mais que vivamos em um mundo mergulhado em informação (ou em pensamentos objetivos), há, e talvez sempre houve, uma disputa constante para determinar quem governa isso tudo.

A cobra que engole o próprio rabo.
Os periódicos científicos nasceram com uma missão honrosa. Facilitar a difusão da produção científica entre a comunidade. Hoje mais atrapalham do que ajudam. O Renato abordou o tema em um de seus textos, mas aproveito pra dar meu pitaco.

E começo pelo problema mais fundamental que se pode imaginar. A produção científica já a algum tempo supera, e muito, a capacidade de publicação dos periódicos. Fato posto, os periódicos tiveram que encontrar uma solução para escolher o que deveria ser publicado. E a solução foi o peer-review. Afinal, quem melhor que a própria comunidade científica para decidir o que quer ler?

Embora o peer review resolva o problema dos publhishers, acaba por criar muitos outros para a própria comunidade. O expoente mais clássico disso é o já velho conhecido “publique ou pereça” e sua versão remodelada “seja citado ou pereça”. O ponto principal aqui é notar que uma dúzia de indivíduos não são representativos o suficiente para decidir o que é que uma comunidade inteira deve ler.

Outro problema com este sistema é que ele é caro. Uma assinatura de um publisher qualquer pode, e em geral ultrapassa, facilmente os US$ 10.000,00 por ano, o que o torna muitas vezes proibitivo. Mesmo para as instituições de ensino e bibliotecas. O custo elevado de acesso também dificulta o trabalho de pesquisadores autônomos, desvinculados de instituições de pesquisa.

No final das contas, temos um sistema que se mantém com conteúdo gerado pela comunidade científica, mas que dificulta o acesso da própria comunidade. A situação toda não fica menos bizarra ao notarmos que, embora os publishers cobrem pelo acesso, não pagam ao cientista pelo trabalho publicado.

O circo de Alexandria.
Em 2004 o Google começou a digitalizar livros para torná-los indexáveis pelo seu buscador. A iniciativa virou caso de tribunal quando, em 2005, o Authors Guild e a Association of American Publishers decidiu entrar com uma ação na justiça por se sentir prejudicada pela iniciativa.

O caso está prestes a ser resolvido com um acordo entre as partes, aonde o Google passa a ter a permissão legal para digitalizar e fornecer acesso em troca da cobrança de uma taxa, que será em parte repassada aos autores. O problema é que, se o acordo for homologado da forma que está, irá tornar outras iniciativas de digitalização que já existem (e tantas outras que poderão vir a existir) ilegais (nos Estados Unidos, que fique claro).

Os detalhes do acordo me são obscuros, mas é curioso ver como os concorrentes do Google, como a Microsoft e o Yahoo, estão tão ferozmente tentando expandir os termos do acordo para que eles também estejam legalmente cobertos. Em termos gerais a briga é para impedir que o Google monopolize o mercado de livros digitalizados.

Não menos curioso é ver o artigo de opinião da autoria de Sergey Brin, co-fundador do Google, publicado no The New York Times. No texto em questão ele alega que o interesse do gigante de buscas não é meramente comercial. Não. O objetivo é impedir que desastres, como os diversos incêndios da biblioteca de Alexandria, voltem a destruir por completo a produção intelectual do mundo.

O que o Google quer, segundo seu fundador, não é produzir a maior loja virtual de livros do mundo, mas sim a maior biblioteca da história da humanidade. É claro que fica difícil de engolir o argumento quando um acordo judicial sobre o caso prevê a cobrança de uma taxa que, ainda que em parte, termina nos bolsos do Google.

É da natureza das bibliotecas fornecer acesso à livros e artigos sem cobrar seus utilizadores. Se era de fato o interesse do Google construir uma biblioteca virtual, por que não buscar parcerias com o governo e outras entidades para arcar com os custos exigidos pela indústria de livros dos Estados Unidos?

Quem governa o 3º mundo?
A pergunta que serve de título a este texto não possuí uma resposta fácil. Talvez nem possua uma resposta. Ainda assim darei meu ponto de vista. Quando Popper propôs o 3º mundo fez questão de sublinhar sua independência, no sentido de que um conhecimento objetivo não depende de seu criador para continuar a existir.

Popper chega mesmo a sugerir um exemplo aonde toda a humanidade foi devastada, deixando para trás apenas seus livros e obras de arte. Em tal cenário, uma outra civilização inteligente poderia entrar em contato com este conhecimento perdido e aprender com o nosso legado.

O que Popper talvez tenha ignorado é que para tal, o 3º mundo precisa estar manifestado em algum tipo de mídia e, a história mostra, todas as mídias que conhecemos são controladas por alguém. Podemos dizer então que, pelo bem ou pelo mal, a indústria do entretenimento e os publishers governaram o 3º mundo na medida em que eram elas quem forneciam acesso a ele através de suas mídias.

Por outro lado o cenário atual é muito mais otimista. O advento da internet permitiu que conteúdo fosse produzido e distribuído de maneira mais econômica, por vezes a custo zero. Isso evidentemente enfraquece um modelo e negócio que se sustentava justamente na dificuldade que um autor tinha em se fazer lido. Ou de um músico em ser ouvido.

O controle do 3º mundo se diluiu de tal forma que, podemos dizer, ele esta muito próximo de governar a si próprio. As brigas judiciais pela distribuição de livros digitais só demonstra o óbvio. O papel de mediador que as editoras possuíam esta deixando de fazer sentido. É o fim agonizante de um modelo de negócios que não soube se reinventar.

E o que isso significa para o cientista? A própria metodologia de validação do conhecimento produzido pela ciência acaba por garantir aos grandes publishers mais alguns anos de sobrevivência tranqüila. Tradicionalistas que somos, nos acostumamos com a economia do “publique ou pereça”, nos acostumamos ao sistema de peer-review, nos acostumamos a depender de um periódico para termos acesso às novidades de nossas áreas.

Mas até quando esse cenário irá durar? As desvantagens são evidentes e, tão logo começarmos a perceber que este sistema, ao invés de facilitar o acesso ao conhecimento, cria barreiras cada vez maiores, passaremos a buscar novas alternativas.

O que precisamos ter em mente é que o cientista, em última análise, não se difere de um escritor de romances ou de um músico. Nós, assim como eles, queremos ver nosso trabalho circulando pelo maior número possível de indivíduos da comunidade. A comunidade, por sua vez, quer ter acesso a este conteúdo todo.

Temos a fome e a vontade de comer, e os publishers são como um caríssimo restaurante francês. Embora eventualmente possamos pagar um pouquinho a mais para comer algo diferente, é o feijão com arroz diário que nos mantém em pé.

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Kepler, o salvador.

Galileu Galilei é sempre lembrado como um dos maiores cientistas da história. Suas contribuições para a física foram importantíssima, assim como sua habilidade de artesão. Não raro se atribui a ele a construção do primeiro telescópio, o que não é bem verdade.
Na realidade o instrumento em si já existia.

O que Galileu fez foi aperfeiçoar e, em um pensamento muito feliz, apontá-lo para o céu. Ao fazê-lo, acabou por observar três das quatro luas de Júpiter. A quarta só pode ser observada um pouco mais tarde.

Com estas observações feitas Galileu escreveu seu livro Siderius Nuncius, oferecendo a descoberta ao seu futuro mecenas, Cosimo de Medici. O que nem sempre se divulga desta história é que pouca gente acreditou que as luas de Júpiter realmente existiam.

O ato de usar um instrumento para observar o céu era, na época, uma ideia estranha demais. Além disso, nem todos que tiveram acesso a um dos telescópios de Galileu conseguiram fazer as mesmas observações que ele. Mesmo os que conseguiam, por vezes, acreditavam que as luas não passavam de um truque visual produzido pelo aparelho.

A ajuda que Galileu precisava veio de um outro matemático. Kepler, que recebeu um telescópio e uma cópia do Siderius Nuncius, não pode deixar de ficar maravilhado. Escreveu Dissertatio cum Nuncio Sidereo, um comentário sobre as descobertas das luas de Júpiter e as implicações que isso trazia. Mas ainda mais importante, escreveu o Dioptrice.

Neste livro Kepler formula toda a base teórica que Galileu precisava para a legitimação do telescópio. É nesta obra que ele estuda lentes divergentes, convexas e côncavas, além de melhorar o instrumento propondo o uso de duas lentes convexas. Curiosamente Galileu nunca retribuiu o favor comentando qualquer trabalho de Kepler, ainda que o alemão tenha tido o cuidado de enviar suas obras ao italiano.

O caso é curioso no entanto para demonstrar que, em determinadas ocasiões, é preciso mais do que ver o fenômeno para acreditar nele. São os raros casos aonde a imagem vale menos do que mil palavras.

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Observação, teoria e experiência.

Alexandre Koyré foi um dos gigantes da história e filosofia da ciência. Seu trabalho foi fundamental para a estabelecer a revolução científica com o ponto central da história da ciência, além de romper com a narrativa positivista da primeira geração de historiadores.

Um dos pontos curiosos do trabalho de Koyré é a radical importância que ele dá à precedência da teoria sobre a experiência. Com efeito, Koyré chegou a afirmar que face ao papel da teoria, a experiência é inútil.

Essa posição é particularmente notável em seus trabalhos sobre Galileu, e desencadeou uma série de outros tantos trabalhos por outros tantos pesquisadores que passaram a averiguar se os experimentos descritos por cientistas do passado eram de fato possíveis de serem feito à época, ou apresentavam os resultados descritos.

Alexandre Koyré

Alexandre Koyré

A relação entre teoria e experiência é sempre complexa, especialmente quando tentamos estabelecer uma “sequência” entre uma e outra, como fez Koyré. Gostamos de pensar que a ciência é feita seguindo um script comum. Observamos um fato, produzimos uma teoria e testamos esta teoria através de uma experiência qualquer.

Mas em geral as coisas não são tão esquemáticas assim. Estas três etapas da ciência se misturam de formas nem sempre claras. Por vezes a observação depende de um objeto que só pode ser construído por conta de uma teoria. Por vezes teorias são feitas a partir de experimentos. Por vezes, pulamos completamente a observação, teorizando estruturas que não podem ser observadas por nenhum meio conhecido.

A história da ciência mostra que Koyré acertou algumas vezes. De fato, alguns experimentos descritos jamais poderiam ter sido feitos ou apresentado os resultados pelos quais são conhecidos.

Mas será que a ciência moderna, com todo o seu pretendido rigor, está livre de teorias fundamentadas unicamente por experimentos mentais? E se este não for o caso, será que devemos considerar tais experimentos prejudiciais?

Talvez estas respostas só possam ser dadas no futuro, quando a ciência moderna já tiver virado história.

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Os mistérios da ciência.

Recentemente li dois artigos que, embora já tenham uma certa idade, possuem um conteúdo bastante interessante. Os artigos que podem ser encontrados aqui e aqui tratam basicamente sobre a imagem pública da ciência. O que me chamou a atenção é que ambos, em algum momento, alegam que a ciência construiu pra si mesma uma aura mística.

A afirmação me causou imediato espanto. Sempre ouvi que é próprio da ciência tentar se afastar do místico, buscando sempre a verdade. Com efeito, a ciência de fato alega que trabalha com o mundo real, com fatos, com verdades que podem ser alcançadas sem artifícios mágicos ou sobrenaturais.

Mas pensando bem sobre o assunto, será que a ciência passa mesmo esta imagem de trabalhar sobre um “mundo real”? Ora, qualquer cientista sabe e sustenta que a ciência não vive de dogmas, ou seja, todo o conhecimento científico esta sujeito a revisão. Embora isso seja completamente compatível com a idéia de um “mundo real” para o cientista, para o público em geral talvez não seja bem assim.

Quantas vezes não vemos pessoas reclamando sobre as constantes mudanças no conhecimento científico? Seja pela cafeína que hora faz bem, hora faz mal. Seja por planetas que deixam de ser planetas. Seja pelo aquecimento global que hora existe, hora deixa de existir.

Me parece real a idéia de que a ciência opera de formas misteriosas. E o que estamos fazendo a este respeito? Muito pouco acredito eu. A divulgação científica hoje em dia consiste muito mais em explicar conceitos e teorias, e muito menos em explicar a própria ciência e seu fincionamento.

Se é papel da divulgação científica diminuir o hiato entre ciência e sociedade, por que nos esforçamos tanto em explicar conhecimentos que, sabemos todos, são passageiros? Talvez fosse mais produtivo dedicar mais tempo e esforço explicando o que é ciência e como ela funciona. O problema, e pra mim isto é bastante óbvio, é que é muito mais difícil explicar a ciência.

A dificuldade esta relacionada, claro, com a natureza extremamente complexa da própria atividade científica. Mas não só. Quantos são os cientistas que param um só segundo para pensar sobre seu próprio trabalho? Quantos se interessam em estudar, ainda que sem muito rigor, a história de sua própria atividade? Há ainda os tantos e tantos cientistas que, inflados pela sensação de serem mais importantes do que realmente são, se recusam a aceitar que a ciência é uma expressão cultural como outra qualquer.

Fazer divulgação científica apenas trabalhando com conceitos e teorias, é o mesmo que esperar que alguém que só teve contato com meia dúzia de letras produza um livro completo.

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