Sobre o Autor
Thiago Henrique Santos é biólogo por acidente, divulgador de ciência por paixão, filósofo da ciência por opção. Atualmente é editor chefe do blog de divulgação científica Polegar Opositor. Também acabou de concluir o mestrado em História e Filosofia das Ciências pela Universidade de Lisboa. Tem por interesse mais recente a chamada Ciência 2.0 e de que maneira ela afeta essa atividade apaixonante que é a ciência.
 
Uma citação:  "Torna-te quem tu és" - Nietzsche, F.

Procura-se colaboradores

março, 2008

Com a finalidade de diversificar o conteúdo de divulgação científica do site, o Polegar Opositor convida a todos os interessados a fazerem parte da equipe.

Procuramos pessoas interessadas e comprometidas, que tenham uma boa escrita e boa vontade. Pensamento crítico é pr-e-requisito, bem como a capacidade de avaliar os mais diferentes temas por diversos pontos de vista. O trabalho, ao menos por enquanto, não é remunerado.

No entanto, o site é uma vitrine razoável. Em seus 9 meses de vida já passou das 6.000 visitas, tendo uma média diária de mais de 200 visitas.

Os interessados devem enviar uma mensagem via tentilhões.

A evolução da cultura.

março, 2008

É bastante evidente que a cultura humana se modifica com o decorrer dos séculos. A priori esse movimento pode parecer natural, talvez até esperado. No entanto alguns cientistas acreditam que algumas dessas mudanças se deram por um processo semelhante à seleção natural, ou seja, traços culturais que de alguma maneira beneficiam determinada população sobrevivem e são passadas para a próxima geração.

Richard Dawkins é um dos que defendem essa visão. Mais do que isso, ele é praticamente o pai de uma idéia muito controversa mas extremamente interessante, a memética. Para Dawkins , os traços culturais podem ser classificados em unidades menores similares aos genes. Essas unidades de cultura, chamadas de memes, podem sofrer um processo de seleção natural na medida em que o traço cultural expressado pelo meme é de certa forma importante para determinada população. Podemos tomar como exemplo a higiene. É bastante evidente os benefícios que a higiene trás. Manter hábitos como tomar banho com regularidade, lavar as mãos antes de se alimentar e medidas similares, evitam uma série de problemas com contaminação por agente nocivos ao homem.

Não é de se impressionar portanto, que nos primórdios das sociedades humanas, tribos que mantinham hábitos higiênicos prosperassem mais do que outras tribos que não tinham uma cultura similar. Os benefícios óbvios desse traço cultural beneficiavam aquela tribo, garantindo sua sobrevivência e, por conseqüência, garantindo a sobrevivência do próprio meme. De forma análoga, um traço cultural altamente prejudicial poderia levar determinada população a deixar de existir, levando consigo o meme responsável. É uma idéia, como eu disse, bastante controversa. Seus opositores apontam que não é possível reduzir traços culturais a pequenas unidades auto-replicantes, de modo a não ser possível rastrear ou averiguar a mudança evolutiva de um traço cultural e da população que a exibe.

No entanto, se fosse possível estabelecer termos evolutivos para a mudança cultural, talvez o processo lamarckiano fizesse mais sentido. Ao menos é o que advoga Stephen Jay Gould, outro evolucionista renomado e desafeto de Dawkins. Para Gould , e essa visão me agrada muito mais, traços culturais sofrem influencias do meio, sofrendo mudanças que depois são passadas para a próxima geração. Gould sustenta seu argumento alegando que um processo evolutivo darwiniano, como o da memética , demanda um tempo muito grande para resultar em algo “perceptível”. Nossa cultura parece se modificar muito rapidamente, efeito que poderia ser melhor explicado em um processo evolutivo lamarckista.

Gould tem um bom argumento. Nossa cultura costuma se modificar radicalmente em um período extremamente curto, basta observar as mudanças entre as décadas de 50, 60, 70 e por aí vai. Se fosse possível afirmar que a cultura sofre um processo evolutivo qualquer, eu tiraria minha boina ao lamarckismo.

Para saber mais:

Stephen Jay Gould
Richard Dawkins
Cultura

Evolução vs Criação: Três erros básicos.

março, 2008

Segundo Kuhn, paradigmas concorrentes normalmente implicam em uma visão de mundo distinta, de modo que os paradigmas se tornam incompatíveis. Esse processo resulta na chamada “incomensurabilidade”, ou seja, na incapacidade que os defensores de cada paradigma tem em conversarem entre si justamente por lidarem com visões de mundo incompatíveis. Cada paradigma se sustenta por si só, valendo-se de seus próprios pressupostos. Disso resulta que confrontar paradigmas concorrentes não é possível, já que o conjunto de pressupostos de cada um inviabiliza o paradigma oposto.

Se tal processo ocorre entre teorias científicas concorrentes, é de se imaginar que possa ocorrer entre questões não necessariamente científicas. Por vezes penso que é exatamente isso que se passa na velha briga entre a teoria evolucionista e o criacionismo. Trata-se de uma teoria científica baseada nos pressupostos básicos da ciência, contra uma visão de mundo completamente diferente. O resultado do embate é uma série de erros que poderiam ser interpretados tomando como base o pressuposto acima, de que tanto a evolução quanto a criação são paradigmas incomensuráveis.

1º erro: incomensurabilidade epistemológica.

Evolução e criação se sustentam por bases epistêmicas evidentemente diferentes. É de se estranhar portanto a forma como alguns argumentos de ambos os lados são colocados. Neste caso em particular, acredito que o discurso criacionista é o mais incoerente. Em alguns casos a evolução é acusada de ser “apenas uma teoria”. Teoria aqui é utilizada de maneira a sugerir que não existe comprovação da existência real de um processo evolutivo. Curiosamente, alguns criacionistas preferem dizer que a evolução “não é sequer uma teoria”. Neste caso, o argumento aceita a teoria como tendo um “peso” considerável, mas não atribui esse peso à evolução.

O problema é evidente. No primeiro caso, a palavra teoria se baseia em uma epistemologia diferente da empregada na ciência. O termo é mais parecido com o utilizado pelo senso comum, atribuindo um valor de “dúvida” e “incerteza”. Essa argumentação foi utilizada a pouco tempo nos Estados Unidos, quando alguns livros educacionais traziam em suas capas um selo com a mensagem de que a teoria da evolução “é apenas uma teoria”, não tendo sido confirmada. No segundo caso o termo “teoria” é usado de maneira epistemologicamente compatível com a ciência, ou seja, considera-se que o “status” de “teoria” é conferido a uma hipótese compatível com o rigor imposto pelo método científico. No entanto, é negada à evolução o rigor esperado pela ciência. Aqui o erro se encontra no uso de pressupostos criacionistas, e portanto incompatíveis com a epistemologia científica, para desclassificar a evolução.

Do lado evolucionista o erro é, ao menos, consistente. Alega-se que o criacionismo não atende os pré-requisitos necessários para poder ser considerado como uma teoria científica. Embora o argumento esteja essencialmente correto, o criacionismo de fato não pode ser considerado uma teoria científica, o erro está em ignorar que ciência e religião estão fundamentadas em pressupostos incompatíveis. Curiosamente alguns criacionistas tentam realizar o processo inverso, procurando meios de afirmar que o criacionismo é uma teoria científica.

2º erro: realidades incomensuráveis.

Alguns filósofos acreditam que a realidade esta condicionada pela maneira como a sentímos. Em outras palavras, nossos sentidos filtram o mundo com o qual interagimos, tornando a realidade uma espécie de experiência particular. Eu entendo que esse argumento não deve ser extrapolado a extremos. Com efeito alguns fenômenos em particular se repetem com uma freqüência relevante, a ponto de podermos afirmar com certeza absoluta de que aquilo é real. Não da pra questionar a verdade dos movimentos de translação e rotação terrestres, ou a força da gravidade. No entanto, nem tudo é assim.

Os filósofos da ciência em geral aceitam que, por mais que uma teoria resista ao teste dos anos e pareça indicar uma realidade palpável, a possibilidade de estarmos ignorando algum elemento qualquer sobre essa realidade aparente sempre vai existir. Um bom exemplo aqui é pensar no universo relativesco de Einstein, hoje amplamente aceito, mas que se contrapõe diretamente com o universo absoluto de Newton, que era tido como uma realidade factual a alguns séculos.

O erro aqui é buscar uma realidade absoluta por parte de ambos os grupos. O mundo governado por entidades divinas defendido pelos criacionistas, é tão real quanto o mundo extremamente materialista da ciência moderna. Ambos são reflexos da interpretação de mundo condicionada pelos sentidos de grupos de pessoas em particular. Portanto, argumentações que se justifiquem pela existência de Deus, evidentemente são incompatíveis com argumentações de um mundo independente de uma força direcionadora sobrenatural.

3º erro: esferas incomensuráveis.

Tanto a evolução quanto a criação, possuem esferas (ou nichos) particulares de ação. O conhecimento de ambos os paradigmas, bem como todos os pressupostos envolvidos, não é necessariamente um pré-requisito da vida moderna. Com efeito, é possível abdicar completamente da esfera religiosa ou científica, dependendo dos objetivos de vida que se pretende levar. Posso escolher ser um padre e viver em minha paróquia, para tal não preciso necessariamente ter conhecimentos muito específicos sobre ciências. Da mesma forma, um cientista não precisa ter uma vida religiosa.

É claro que ter contato com ambas as esferas, é ideal para um ser humano que deseja ter um conhecimento mais preciso da época em que vive. Conhecer a esfera religiosa não implica em aceitá-la, mas é no mínimo de bom tom ter noção das implicações que esta esfera trás para a sociedade na qual estamos inseridos. Da mesma forma, um religioso convicto deveria ter um conhecimento razoável de ciência.

Neste ponto, o erro é acreditar que qualquer uma dessas esferas não é fundamental para a sociedade ou, por vezes, até prejudicial. Nenhum empreendimento humano é a prova de erros e enganos. Sabemos que tanto a ciência quanto a religião podem beneficiar ou prejudicar as populações humanas. Exemplos não faltam: inquisição, bombas nucleares, antibióticos e recuperação de viciados são exemplos claros dos efeitos adversos do desenvolvimento de ambos os campos do conhecimento.

Se faz igualmente importante respeitar os nichos de cada campo. Criacionismo não deve ser incluído em aulas ou livros de biologia (ou mesmo no currículo escolar), assim como não se espera que teorias evolucionistas passem a fazer parte dos rituais eclesiásticos, de algum evangelho da bíblia ou de algum sermão do pastor. Cada esfera deve se ater ao seu campo específico, cabendo ao indivíduo escolher o quanto experimentar de cada uma.

O assunto é longo e complexo. É muito fácil cometer qualquer um dos erros acima, eu mesmo assumo que já incorri em todos eles. Mas se faz necessário compreender que o debate entre evolução e criação, ou ciência e religião, é um mero capricho do ego de cada grupo. Trata-se da tentativa infeliz de se impor uma visão particular de como o mundo deveria funcionar, sem questionar para todos os que vivem nele se é assim que se deseja que ele seja.

Eu posso afirmar, prefiro um mundo diversificado, a um passeio chato por uma existência monotemática e monoteísta.


Para saber mais sobre:

Evolução
Criação
Método Científico
Thomas Kuhn

Antropomorfismo e antroponegação.

março, 2008

“Uma nova pesquisa sugere que as formigas são traiçoeiras, egoístas e corruptas, contrariando a imagem de insetos de convivência harmoniosa e com pré-disposição para colocar o bem da comunidade acima de preocupações pessoais”. Este é o primeiro parágrafo da notícia veiculada via G1. A despeito das informações referentes à pesquisa desenvolvida com as formigas, a reportagem incorre em um erro bastante comum. O chamado antropomorfismo.

O antropomorfismo consiste no ato de atribuir características humanas a qualquer animal. Usando o próprio texto do G1 como exemplo, podemos observar que o autor acusa as formigas de serem “traiçoeiras”, “egoístas” e “corruptas”, valores humanos criados para definir traços comportamentais típicos de nossa espécie. A questão é que, apontar traços humanos como resultado de uma pesquisa sobre formigas não é correto.

Observar o comportamento animal não é exatamente uma novidade. Por vezes eles se comportam de maneira muito semelhante à nossa, advém disso usarmos características humanas para nomear determinados comportamentos em animais. No entanto, não se pode afirmar que um animal esteja sendo “corrupto”, só porque determinado comportamento se parece com a corrupção na humanidade.

Paradoxalmente existe um outro princípio conhecido por antroponegação. Este princípio atesta, que não podemos negar aos animais características humanas. Ou seja, não podemos dizer que os animais não possuem comportamentos egoístas, ou de corrupção. Mas, se não podemos negar uma característica humana nem podemos atribuir características humanas, como resolvemos?

A resolução é simples. Cabe a nós apenas observar o comportamento e deixar de lado qualquer interpretação sobre a natureza deste comportamento. Se observamos formigas operárias beneficiando seus próprios ovos em detrimento dos ovos da rainha, devemos nosater à descrição do comportamento sem que nenhuma interpretação seja realizada. Em verdade, só podemos interpretar o comportamento em um nível básico, na tentativa de compreender a importância evolutiva que ele possui.

O Planeta dos Macacos

março, 2008

O filme “O Planeta dos Macacos” de 1968, é um clássico do cinema que levanta algumas questão absolutamente relevantes sobre ciência, religião e o desenvolvimento da sociedade. O enredo simples, astronautas que chegam a um planeta governado por macacos inteligentes, é enriquecido com todo tipo de crítica e análise da sociedade humana da época. O curioso é o filme continua atual, especialmente na abordagem que faz de ciência versus religião, demonstrando que por mais que a sociedade humana tenha avançado tecnológicamente, as discussões sociais seguem inalteradas.

A religião científica do Planeta dos Macacos.

No filme, religião e ciência são tomadas por atividades entrelaçadas. Há um motivo evidente, a religião preocupa-se com a manutenção da sociedade dos macacos, guiando a ciência de maneira a permitir o avanço tecnológico sem a perda dos valores sociais. Um movimento religioso que controla a ciência com mãos de ferro a ciência, é certamente a vontade de muitas religiões existentes hoje.

No entanto, a religião é desenvolvida como uma forma de controle totalitário. Sob os olhares da fé, humanos passam por testes e experimentos científicos cruéis. São tratados como escravos que não possuem uma alma a ser preservada. Curiosamente, pesquisas que tentam desvendar a história perdida da origem dos macacos, são mal vistas e consideradas heréticas. A ciência, antes de qualquer coisa, deve respeitar as escrituras.

A evolução no Planeta dos Macacos.

Este é um dos pontos fortes do filme. Um macaco paleontólogo desenvolve uma teoria da evolução , atestando que todos eles são descendentes dos humanos primitivos. A inversão de papéis no roteiro do filme, não inverte o impacto da teoria na sociedade símia em relação a nossa. De maneira idêntica, a religião não aceita a teoria e condena o o macaco por heresia. No entanto, diferente do que as religiões humanas pregam, a dos macacos sabia exatamente sua origem e evolução.

Os macacos não evoluíram do homem. São fruto de uma sociedade humana falida, cujos poucos exemplares restantes “involuíram” em formas primitivas, permitindo então o avanço evolutivo dos macacos. Uma vez que os macacos atingiram sua maturidade intelectual, perceberam os motivos do fim da sociedade humana, desenvolvendo então um agente de controle com o objetivo de frear a ciência e evitar um fim trágico parecido.

Uma análise do Planeta dos Macacos.

É evidente que o filme toma a sociedade de 1968 e extrapola seus receios. O medo de um planeta Terra destruído e a redução drástica das sociedades humanas, era fruto da uma recém terminada guerra fria. As duas grandes guerras ainda estavam vivas no consciente coletivo, e os Estados Unidos se lançavam em guerra com o Vietnã. No mesmo período, a ciência se desenvolveu rapidamente, impulsionada pelos investimentos militares.

Era um mundo caótico e perigoso, refletido de maneira bastante inteligente no filme. A decisão de tornar os macacos tecnológicamente inferiores à sociedade humana que os precedeu, joga no colo da ciência a responsabilidade pelo uso incorreto do conhecimento. Por outro lado, atrelar a ciência a uma religião moralmente discutível e que reflete a organização social da idade média, reforça que nem mesmo a religião pode salvar a humanidade.

É um filme pessimista. Que atesta que o mal da humanidade são os próprios humanos. Hoje em dia é difícil acreditar em uma guerra catastrófica que culminará no fim quase que completo de nossa espécie, no entanto, podemos imaginar uma série de eventos naturais igualmente catastróficos. Todos possivelmente produzidos pela maneira leviana como tratamos os recursos naturais deste planeta.

Talvez não estejamos tão longe assim do Planeta dos Macacos

Um pouco de fé na ciência.

março, 2008

Com determinada freqüência, algumas pessoas costumam dizer que acreditar na ciência é um ato de fé. Um ato de fé talvez comparado ao ato de acreditar em um Deus, ou um santo. O curioso é constatar que este pode ser um pensamento comum mesmo aos cientistas. Não tão curioso é o uso do termo fé de maneira pejorativa, muitas vezes até por pessoas religiosas, de modo a diminuir a importância da ciência.

Segundo o dicionário, o termo fé poderia ser utilizado em ciência em pelo menos duas acepções. Como em confiança absoluta em alguém ou algo, ou como comprovação de um fato. Embora o próprio método científico evite “confianças absolutas”, com efeito é possível atestar esse tipo de fé para alguns casos em particular. Por exemplo, no que diz respeito à gravidade, quem seria capaz de questionar que ao soltar uma pedra no ar ela vai, irremediavelmente, cair ao chão? Ainda tomando a gravidade como base, é possível estabelecer a velocidade de queda dessa pedra, bem como sua trajetória. A mecânica clássica é um campo científico capaz de prever esse tipo de informação com uma precisão tão assustadora, que podemos confiar em seus resultados de maneira absoluta.

De maneira análoga, e partindo dos mesmos princípios, muitos são os casos aonde é possível comprovar um fato. Embora neste sentido de fé as ressalvas sejam maiores, alguns fenômenos são tão bem conhecidos e estudados que, de certa forma, é possível dizer que foram comprovados. As ressalvas ficam por conta da impossibilidade de se dizer que sabemos tudo a respeito de um objeto de estudo.

O que me intriga de verdade é o uso da palavra fé, em sua forma pejorativa. É estranho observar que muitas vezes, essa fé pejorativa se sustenta no conceito de “fé cega”. Ou seja, de uma fé que se sustenta pela força da crença do fiel, ainda que não possa ser respaldada por qualquer tipo de observação ou teste. Com efeito, esse tipo de fé é melhor observado em pessoas religiosas, e neste contexto, eu nem atribuiria uma forma pejorativa para essa fé.

No entanto, essa fé religiosa é usada com certa regularidade para atingir o empreendimento científico. Neste contexto pode-se dizer que ela passa a ser pejorativa, já que deprecia a qualidade investigativa da ciência. É importante lembrar que a ciência não é feita de dogmas imutáveis, produzidos de maneira arbitrária e sem qualquer rigor. O que não falta à ciência é rigor, seja pelo racionalismo de Descartes, seja pelo empirismo de Locke, Berkeley e Hume.

Diminuir a ciência a uma atividade guiada pela crença irresponsável, ou que não necessita de bases sólidas, é ignorar tudo o que foi construído desde o renascimento.

Células tronco: Um breve comentário.

março, 2008

E a votação ficou pra depois. Não acompanhei o caso com detalhes, mas gostei do que andei lendo.

As argumentações foram sérias. Gostei da proposta de usar embriões que estão congelados a mais de três anos e somente com a autorização dos pais(?). É uma saída digna e protege o direito das pessoas que são contra a destruição dos embriões para obtenção das células tronco.

Vamos esperar e torcer, a liberação do uso de células tronco embrionárias em pesquisas pode ser de importância crucial para o Brasil.

O pulmão das baleias.

março, 2008

Algumas espécies de animais são particularmente interessantes no que diz respeito a demonstrar características da seleção natural. Dentre os muitos exemplos, as baleias são as que mais me chamam a atenção. Não pra menos, é curioso imaginar um animal que vive na água mas precisa voltar à superfície para respirar. Por que a evolução simplesmente não se encarregou de dar brânquias para as baleias?

Esta é uma ótima pergunta e que ilustra bem a característica não guiada da seleção natural. Como eu já havia dito em textos anteriores, a evolução não tem um fim, um sentido, um objetivo para cumprir. Trata-se de um processo lento e gradual, que seleciona características que aumentam o sucesso reprodutivo e a expectativa de vida dos seres em determinados ambientes. Existe um grande obstáculo para esse processo, ele só pode trabalhar em estruturas que já existem. Em outros termos, o processo de evolução não “constrói” nenhuma estrutura nova, a não ser por modificação das estruturas que já existem.

Uma característica muito marcante deste processo é que ele passa a ser irreversível. Quando uma estrutura é modificada, as chances de ela voltar a ser o que era originalmente são praticamente inexistentes. Essa particularidade nos fornece uma dica sobre o pulmão da baleia. Acredita-se que os ancestrais dos tetrápodes sejam peixes pulmonados, animais que possuem sua origem em peixes de respiração por brânquias. Imaginemos então que, em algum momento da história da vida na Terra, algumas espécies de peixes sofreram um processo evolutivo que culminou na formação de um pulmão primitivo em detrimento das brânquias.

Ora, as baleias são mamíferos e estão classificadas como tetrápodes. Se assim o é, tiveram como descendente mais distante peixes que já não possuíam brânquias. Portanto, os passos evolutivos que resultaram nas baleias não possuíam mais a opção de trabalhar com brânquias, a solução mais simples era modificar as estruturas atuais para permitirem longos períodos de submersão. O problema foi resolvido com modificações no metabolismo e ampliação do tamanho do pulmão.

Uma outra característica das baleias que demonstra esse processo é a maneira como elas nadam. Em geral, os peixes possuem uma barbatana caudal, que impulsiona o animal realizando movimentos horizontais. Nas baleias o movimento da cauda é feito verticalmente, uma modificação diretamente ligada ao modo de vida terrestre de seus ancestrais quadrúpedes.

Como já havia observado o mestre Stephan Jay Gould, a evolução não se prova na formação de órgãos perfeitos e formas bem trabalhadas. Sua verdadeira beleza se encontra na maneira improvisada de solucionar grandes problemas.

Os 22 paradigmas de Thomas Kuhn.

fevereiro, 2008

Muitas vezes pode parecer incongruente, mas a ciência muda. Não são raros os momentos em que teorias muito bem estabelecidas, são completamente abandonadas em detrimento de outra. Da mesma forma, outras tantas teorias são fortemente modificadas com o decorrer dos anos, de modo que tornam-se substancialmente diferentes do que eram originalmente. Essa aparente falta de firmeza nas idéias científicas, contrasta diretamente com a visão popular de que a ciência é um empreendimento de verdades e certezas. Não é.

O físico Thomas Kuhn dedicou parte de sua vida tentando entender esse movimento transformador da ciência. Em 1962 Kuhn publicou “A Estrutura das Revoluções Científicas”, um ensaio polêmico que usava uma abordagem histórica para defender que a ciência gera paradigmas que, eventualmente, são substituídos por outros no decorrer do desenvolvimento científico. Mas vamos entender melhor essa questão.

A definição de paradigma de Kuhn gerou confusão quando da publicação da primeira versão do livro. Com efeito, uma leitora chegou a dizer que o termo é usado de 22 maneiras diferentes. Kuhn no entanto só admitia dois significados principais. Neste texto iremos abordar apenas um significado. O paradigma é um modelo de mundo que compreende o conjunto de teorias que buscam explicar os fenômenos estudados.

Neste caso o que um paradigma faz é estabelecer algumas questões sobre o mundo físico que são então investigadas na tentativa de se encontrar respostas. No entanto, um paradigma parece nunca conseguir responder todas as questões que propõe. A ciência não é um empreendimento de respostas. Quanto mais sabemos sobre determinado fenômeno, mais questões surgem. Isso não é exatamente um problema, ao menos não inicialmente. Esse processo investigativo é o que Kuhn chamou de “ciência normal”, ou seja, o período aonde determinados paradigmas são aceitos e investigados.

O que se passa é que o número de questões, ou anomalias, que não podem ser resolvidas com o paradigma estabelecido atinge níveis críticos, é o início do período conhecido por “crise”, aonde novos paradigmas tentam responder de maneira mais eficiente as questões que o paradigma aceito não consegue responder.  O período de crise é marcado pela divisão da comunidade científica entre o paradigma aceito e o paradigma em ascensão. Eventualmente o paradigma em ascensão ganha a preferência e substitui o antigo, é o momento que Kuhn chamou de “revolução científica”.

É evidente que eu resumi bem o núcleo do trabalho de Kuhn. Em geral o processo de ascensão e queda de um paradigma é complicado, leva tempo e gera discussões infindáveis. Quando um novo paradigma é proposto, em geral não é bem aceito pela comunidade científica. A razão, segundo Kuhn, é o comprometimento com o paradigma estabelecido. Quando anomalias são detectadas, os cientistas não tendem a considerar a questão como um problema no paradigma. Buscam adequar a anomalia ou simplesmente a ignoram como um fator que não pode ser melhor estudado no momento. No entanto, o acumulo constante dessas anomalias podem gerar o descrédito do paradigma, o que em geral ocorre nos cientistas mais jovens e menos comprometidos com o modelo de mundo estabelecido.

Kuhn ainda defende o que ele chamou de “princípio da incomensurabilidade”. O princípio define que paradigmas diferentes estabelecem uma visão muito distinta de mundo, de modo que não podem ser comparados. Isso não significa que o novo paradigma é melhor que o anterior, apenas estabelece que eles são em geral incompatíveis. No entanto, se o paradigma em ascensão não é necessariamente melhor que o paradigma já estabelecido, qual a justificativa para a substituição do velho paradigma pelo novo?

As razões são as mais variadas. Eventualmente o novo paradigma pode responder com mais eficiência um número de questões maior que o anterior, ainda que não responda parte das questões já resolvidas pelo velho paradigma. É um processo curioso, aonde parte do conhecimento já conquistado é abandonado. O novo paradigma, ainda que não resolva tantas questões quanto o anterior, pode responder questões que tenham maior prioridade para a ciência. Essas prioridades mudam de acordo com a sociedade e época, de modo que o novo paradigma pode ser substituído no futuro por um velho paradigma.

É justamente este ponto das idéias de Kuhn que provoca desconforto em alguns membros da comunidade científica. É possível imaginar que o empreendimento científico é arbitrário, escolhendo seus modelos de mundo não por sua capacidade em explicar os fenômenos estudados, e sim por conveniência ou por interesses. Mas isso não é bem verdade, mudar de paradigma não é como trocar de posição política.

Uma analogia melhor seria dizer que mudar de paradigma é como escolher uma nova ferramenta para realizar um velho trabalho.

Evolução: O sucesso de uma teoria.

fevereiro, 2008

Não foi de imediato que a teoria evolutiva darwiniana foi aceita. Muito pelo contrário, Darwin foi muito discutido e questionado até atingir seu status atual de teoria bem estabelecida. Não poderia ser diferente, é assim que a ciência funciona. Teorias tão revolucionárias ganham crédito com o tempo, demonstrando seu incrível poder preditivo e respondendo o máximo de questões possíveis para os problemas que a própria teoria levanta.

Nos séculos seguintes, a seleção natural ganhou suporte da genética, especialmente com os trabalhos do mestre Dobzhansky. É a teoria evolucionista moderna, conhecida como neodarwinismo, que compreendeu pela primeira vez  o valor evolutivo das mutações e os mecanismos pelo qual eles ocorrem. Ao mesmo tempo, a evolução continuou gerando desafetos. Basta lembrar de alguns casos mais extremos, como o de pessoas vinculadas a movimentos religiosos tentando banir a teoria evolutiva dos currículos escolares dos Estados Unidos.

Por vezes os argumentos contra a evolução são  pouco fundamentados. Já sofreu a acusação de ser “apenas uma teoria”. Nada mais ingênuo. A evolução, o processo que modifica  geneticamente os seres vivos, é um fato inegável.  A teoria consiste na explicação de como esse processo se dá, bem como suas implicações. Ainda assim, para a ciência, teoria é o maior status que uma idéia pode ter. Também já se tentou argumentar que a evolução vai contra uma das leis da física, mais especificamente contra a termodinâmica. Mais uma vez, trata-se de um argumento pouco fundamentado. Fora a hipótese do Design Inteligente, que se pretende a substituir a evolução darwiniana sem jogar nas mesmas regras, as regras do método científico.

O fato é que a teoria da evolução é um dos grandes pilares da ciência. Um assunto tão complexo não pode ser esgotado em uma série de textos, muitos outros virão. No entanto, espero ter conseguido transmitir ao menos o básico do assunto, e que tenha sido o suficiente para desfazer alguns mitos e dúvidas a respeito do assunto. Se não foi o caso, não hesitem em deixar as dúvidas, críticas e sugestões na caixa de comentário ou por email.