Sobre o Autor
Thiago Henrique Santos é biólogo por acidente, divulgador de ciência por paixão, filósofo da ciência por opção. Atualmente é editor chefe do blog de divulgação científica Polegar Opositor. Também acabou de concluir o mestrado em História e Filosofia das Ciências pela Universidade de Lisboa. Tem por interesse mais recente a chamada Ciência 2.0 e de que maneira ela afeta essa atividade apaixonante que é a ciência.
 
Uma citação:  "Torna-te quem tu és" - Nietzsche, F.

O assassinato de uma teoria.

junho, 2008

Eventualmente eu gosto de pegar notícias de ciências publicadas nos grandes portais e comentá-las aqui. Em geral meu principal alvo é o G1, mas até pra não dizerem que é algo pessoal, vou pegar uma notícia do Jornal Terra. A notícia foi publicada no dia 29 de maio com o título “Pegada encontrada pode mudar teoria da evolução“. O título sugere uma reportagem bombástica, que exibe fatos contundentes, até arqueológicos, para o fim da tão incompreendida teoria da evolução.

O problema é que quando lemos a notícia não é bem isso que encontramos. Na verdade trata-se da descoberta de uma pegada de 15 milhões de anos que pode ter sido feita por um animal bípede. Se essa suposição for comprovada, a pegada pode sugerir que os ancestrais do homem evoluíram muito antes do que se pensava (por exemplo, acredita-se que o homem e os chimpanzés e bonobos se separaram de seu ancestral comum a aproximadamente 6,5 milhões de anos). É perceptível portanto de que se trata de uma descoberta potencialmente importante.

O fato é que, confirmando-se ou não o significado desta pegada para o conhecimento científico atual, a teoria geral da evolução não é afetada em nenhum nível. O motivo é simples, a teoria da evolução, embora seja em grande parte sustentada pelo registro fóssil, não depende em momento algum de qualquer registro mais específico, sejam eles fósseis de animais bípedes ou qualquer outro fóssil que se possa imaginar.

O que a reportagem provavelmente deveria ter dito (e de fato o fez, ainda que discretamente) é que a teoria da evolução humana pode sofrer alguma revisão por conta desta descoberta. A reportagem do Terra ainda reproduz a frase de um dos autores da descoberta: “A teoria da evolução teria muitas dificuldades com esta evidência que estamos mostrando agora”. Desta frase podemos tirar algumas conclusões. A primeira é que o cientista pode ter cometido um engano de formulação da frase, suprimindo a palavra “humana” após “teoria da evolução”. A outra conclusão é que o Terra, ou a agência de notícia que liberou a notícia, podem ter reduzido a frase cortando a informação mais importante. Uma outra possibilidade é o erro de tradução da notícia original para o português.

O fato é que independente de quem cometeu o engano, a frase da forma como se encontra é completamente equivocada. A teoria da evolução não teria dificuldade alguma com esta evidência, em verdade, essa evidência sequer é relevante para a teoria da evolução em geral. Volto a bater na mesma tecla. O jornalismo científico, da maneira como vem sendo feito, presta um desserviço imenso a ciência e à sociedade.

Ciência: Desde o séxulo XVII controlando a natureza próxima a você

maio, 2008

Muitos filósofos concordam que a ciência moderna se caracteriza pela tentativa de controlar a natureza. Esta premissa do controle de certa forma justifica o cenário atual, para se controlar algo é preciso antes compreender razoavelmente este algo. Desta forma não é de se espantar a velocidade em que novas pesquisas aparecem e informações são somadas ao patrimônio mundial científico. Vivemos na era do publique ou pereça. É claro esse ritmo acelerado de publicação de novos “papers” levanta uma questão quase evidente. Qual é a qualidade destes artigos e qual a relevância deles para o paradigma de controle da ciência moderna?

Recentemente ouvi um professor abordando este tema. Uma das observações que ele fez foi de que “existe aquele cientista espetacular, que publica uma série de papers por ano e todos eles de qualidade, mas este cientista é a exceção e não a regra”. Tem lá o seu sentido. A quantidade de informação hoje em dia é tão grande e dispersa que não é raro pesquisadores de países diferentes, estarem trabalhando em um mesmo tema, publicarem seus artigos, e nunca chegarem a entrar em contato um com o outro. Mais ainda, a possibilidade de que estes pesquisadores cheguem a conclusões diferentes ou mesmo conclusões incompatíveis não é nula. Neste caso, como proceder? Ou ainda, quanto tempo levaríamos para descobrir dois artigos incompatíveis sobre o mesmo tema, analisá-los e tentar encontrar uma maneira de resolver o problema?

Acredito que a ciência chegou a um ponto crítico de sua prática. Na tentativa desesperada de controlar o mundo, perdeu-se o controle da ciência. E este controle se perdeu em vários níveis. Por exemplo, um outro professor alegou por esses dias que com o fim da credibilidade da igreja, a morte do socialismo e a crise capitalista, a ciência é a última fábula capaz de fazer o homem acreditar em algo. A justificativa era de que em um mundo cada vez mais individualista, a ciência com seu argumento de ser a detentora última de verdade ainda era capaz de unificar grupos e levar esperança aos mais céticos.

O argumento é de um absurdo exemplar. Mas é fruto da apropriação que se faz de uma idéia ingênua da ciência. Oras, qualquer filósofo da ciência sabe que a verdade, embora deva ser sempre o objetivo final da ciência, nunca poderá ser desvendada. A partir deste pressuposto, construiu-se as mais variadas teorias sobre como a ciência deve funcionar para tentar, sempre, minimizar as chances de erro e maximizar as possibilidades de correção dos eventuais erros. Não importa se defendemos o racionalismo crítico popperiano, os paradigmas de Kuhn ou o cinturão de proteção de Lakatos. Por mais que estes modelos sejam diferentes, todos tratam do mesmo assunto. Minimizar os erros e maximizar as possibilidades de corrigir eventuais erros. E todos eles partem do pressuposto de que a verdade é um valor importante, mas inalcançável.

Se a afirmação de que a verdade última é inalcançável esta presente nos pilares epistemológicos da ciência, de onde vem o discurso de que a ciência pode não ter a resposta para tudo, mas um dia terá? Como eu disse antes, vem da apropriação indevida da ciência como discurso ideológico. Um discurso ideológico bastante sedutor, mas mentiroso. Um discurso ideológico que ignora o que é a ciência de verdade, popularizando uma visão errada de uma atividade incolor, inodora e insípida e, por isso mesmo, capaz de ir além do bem e do mal em seu desenvolvimento.

Pior para o cientista que com frequência é acusado de brincar de Deus, ou culpado pelas mazelas da África. Não que essas acusações as vezes não estejam certas, mas é fato que em geral estão completamente enganadas. Esse cenário caótico de controle, não mais da natureza (ou não mais só da natureza) mas também das vidas humanas, desafia a divulgação científica. É preciso ter cuidado, a divulgação científica é antes uma ferramenta de informação e educação. Embora seja possível usá-la como arma ideológica, realizar tal ação é de uma desonestidade que mal pode ser descrita.

Evolution DMD: Uma análise filosófica.

maio, 2008

Este texto é uma continuação do “Evolution DMD: Uma análise biológica”. Se você não o leu, clique no link

e leia antes de prosseguir com este. Embora o texto do Scott Adams seja uma brincadeira, ele parte do pressuposto básico de que os sentimentos e aspirações possuem uma relação direta com a química do organismo. De fato conhecemos uma porção de substâncias que afetam a química cerebral, os chamados neuroestimulantes, e que provocam reações diversas no indivíduo. Da mesma forma, sabemos que sentimentos específicos também produzem respostas químicas. O que dificilmente alguém pode afirmar é que os sentimentos, desejos e aspirações tenham a sua gênese unicamente como produto da química do organismo.

A despeito desta discussão sobre a origem dos sentimentos, existe uma questão ainda mais profunda e complexa sobre a estratégia adotada pela ciência moderna, e que permite conclusões mecanicistas sobre o funcionamento do mundo. Tentar explicar a consciência, bem como desejos e aspirações, por interações químicas é uma característica típica da estratégia reducionista. Explica-se um objeto de estudo complexo tentando isolar suas partes constituintes, estudando-as isoladamente afim de conseguir um melhor entendimento sobre o todo.

Essa característica tão presente na ciência é demonstrada no raciocínio do Adams. Imaginar que os desejos, um reflexo químico de uma máquina de pensar, afeta os genes, outra porção química que constituí a máquina maior, é de um mecanicismo reducionista exemplar. Muito embora essa estratégia venha funcionando bem, basta observar os avanços científicos e tecnológicos dos últimos séculos, não podemos deixar de considerar que talvez estejamos perdendo algo. A interação das partes pode ser fundamental no seu entendimento, e não há certeza de que seremos capazes de prever estas interações ainda que saibamos aparentemente tudo sobre as partes envolvidas.

Não estou sugerindo, no entanto, que esta estratégia deve ser abandonada ou substituída por outra. A escolha de uma estratégia supõe a exclusão de parte do conhecimento possível sobre o objeto de estudo. Em termos simples, é como fazer compras em um supermercado. Ninguém compra o supermercado inteiro quando faz compras, pelo contrário, normalmente chegamos ao supermercado com uma lista de itens a serem comprados. Uma estratégia é exatamente isso, uma lista de itens que podem ser estudados e a maneira como este estudo deve proceder.

É preciso lembrar portanto que nem a ciência, nem qualquer outra atividade humana, tem a capacidade para explicar absolutamente tudo sobre o mundo. Cientistas que discordem desta afirmação estão cometendo um engano simples, desconsiderando a natureza de sua atividade.

PS: Por algum motivo que eu ainda não fui capaz de descobrir, o tema do Polegar sofreu algum tipo de mutação qualquer e as cores ficaram um tanto bagunçadas. Já tentei algumas soluções, todas ineficientes. Peço a gentileza de que ignorem a escolha bizarra de cores por enquanto, até eu ser capaz de fazer algo a respeito. Grato.

Evolution DMD: Uma análise biológica.

maio, 2008

Há alguns dias recebi um email do Ogro que basicamente recomendava uma lida em um texto do Scott Adams. À primeira vista pareceu-me um texto simples, sobre uma equivocada hipótese evolutiva. Mas uma posterior leitura mais atenta me revelou algumas características muito interessantes, especialmente no que diz respeito ao funcionamento da ciência moderna. Desta forma, resolvi produzir duas análises deste texto (que segue traduzido abaixo). Esta primeira parte realiza uma análise biológica, desarticulando os argumentos de Adams.

A segunda análise é sobre a filosofia da ciência por trás de um pressuposto quase imperceptível na argumentação de Adams. Vale ressaltar que se tratando de Scott Adams, as chances de o texto dele ser algo relmente sério são mínimas. Em todo caso, o texto é ótimo para abordar algumas características da evolução, falar um mínimo de metabolismo celular e ainda ter um bom tema de discussão sobre filosofia da ciência.  Mas chega de introduções, vamos ao texto.

Para esta crônica, vamos considerar que tudo o que os especialistas dizem sobre evolução seja verdade. Os organismos com maior sucesso reprodutivo passam suas características para a próxima geração, e assim por diante. Mas eu tenho uma outra hipótese que talvez possa ser testada. E se existem outras influências que também contribuem?

Me pergunto se as aspirações dos organismos podem, de alguma forma, causar algum impacto sobre os genes que serão passados para a próxima geração. Nós sabemos que pensamentos estão associados a sentimentos, e sabemos que desejos estão associados à química do organismo. Não seria impossível que desejar algo durante a vida aumentasse a probabilidade de seus descendentes atingirem esse objetivo.

Recentemente eu li que certas condições ambientais podem aumentar as chances da mulher em dar a luz a meninos. Sabemos então que condições externas podem influenciar a química do corpo e, por sua vez, influenciar a genética da criança.

Então me pergunto sobre o pescoço comprido da girafa, só para escolher um exemplo fácil. A explicação clássica é que girafas com pescoços compridos podem alcançar folhas mais altas nas árvores, o que seria uma vantagem em tempos de escassez de alimento. O que me parece bastante razoável. Mas imagino se as girafas que forçavam seu pescoço e desejavam que eles fossem mais longos experimentavam algum tipo de estresse, além de algum tipo de determinação “girafal”, que liberassem uma química capaz de influenciar a probabilidade de produzir filhos com pescoço mais comprido. Em outras palavras, poderiam os organismos guiar a própria evolução através de seus desejos?

Parece bastante improvável que um sistema tão complexo e específico pudesse existir nos organismos. No entanto, tudo em animais com cérebros é ridiculamente complexo, específico e improvável. Parece-me perfeitamente plausível que criaturas com cérebro possam ter desenvolvido uma habilidade ainda desconhecida de tradução de suas aspirações em características físicas em seus filhos.

É possível testar essa hipótese em fêmeas de ratos. Um grupo seria o controle, o outro seria mantido a frustantes um centímetro e meio de um delicioso pedaço de queijo. Ambos os grupos são alimentados o suficiente para garantir condições iguais de sobrevivência, assim o mecanismo evolutivo normal seria “desligado”. Será que os ratos com aspiração de ter um focinho mais longo para poderem alcançar o queijo teriam, em média, uma prole com focinhos mais longos?

Alguém provavelmente já deve ter testado isso em moscas da fruta ou algo do gênero.

Seira interessante não? Se pudéssemos, de alguma forma, guiar nossa evolução por nossos desejos e aspirações. Certamente seríamos uma espécie de unidade morfológica quase que inexistentes. Alguns de nós desenvolveriam asas para satisfazer o desejo de voar (eu estaria entre esses), outros desenvolveriam a capacidade de respirar em baixo da água indefinidamente e assim por diante. Infelizmente (ou felizmente), a evolução parece ignorar nossa vontade, agindo por conta própria.

Existem motivos bastante evidentes pra isso, o principal deles é  que condições externas não podem ser “interpretadas” por nosso material genético, de modo que se algumas destas condições provoca mudanças em nosso DNA, essa mudança é em geral prejudicial. Na verdade, antes de seguirmos precisamos lembrar um pouco de nosso próprio processo reprodutivo.

É amplamente conhecido que os seres humanos possuem 46 cromossomos. Destes, herdamos 23 cromossomos de cada um de nossos pais. O processo de herança destes cromossomos está na base da fecundação por células sexuais. Os espermatozóides carregam 23 cromossomos e o óvulo materno contém os outros 23. Quando espermatozóide e óvulo se unem, formando o embrião, somam seus números cromossômicos totalizando os 46. Esse número varia de animal para animal, mas o processo é mais ou menos o mesmo.

O fato é que uma vez que mutações no material genético das células sexuais em geral levam a resultados desastrosos, mudanças no material genético dos embriões ou de seres já completamente formados resulta, normalmente, em câncer. Ou seja, se nossos desejos fossem capazes de produzir mudanças em nosso material genético, provavelmente isso acarretaria em nossa destruição. O que pode ser interpretado como uma espécie de “lição de vida natural”, temos que nos contentar com o que temos (ou nos submetermos a uma cirurgia estética).

É importante observar que mutações no material genético das células sexuais EM GERAL, levam a resultados desastrosos. No entanto, pequenas mutações ocorrem o tempo todo durante o processo de produção das células sexuais. Para a maioria dos neodarwinistas, é o acumulo destas pequenas mutações que dá o combustível necessário para a evolução acontecer. Essas mutações normalmente resultam em mudanças sutis que eventualmente levam a alguma vantagem condicionada pelo meio ambiente. Um exemplo do que poderia ser uma pequena mutação é o filho alto de um casal de estatura média.

Apesar disso, Adams tem razão ao afirmar que condições externar podem modificar a química do organismo. A questão é que essa mudança se dá por processos de regulação previamente existentes, que não estão relacionados com a mudança do material genético em si. Em termos de metabolismo celular, embora o processo todo seja complexo para ser explicado aqui, a presença de algumas substâncias (como hormônios) pode causar determinadas modificações de produção de proteínas e etc. Isso não significa no entanto que os genes estejam sendo modificados.

Fica claro, portanto, que, por mais que uma aspiração ou desejo produza uma resposta química no organismo, essa resposta química não pode afetar o material genético do pai ou da mãe, e, por conseqüência, não pode ser passado adiante para os filhos.

A evolução não é teleológica, ou seja, não tem um fim determinado e nem pode ser guiada. Uma pena para aqueles que vão ter que continuar usando aviões para voar e submarinos para conhecer o fundo do mar.

PS: Agradeço ao amigo Ogro que além de indicar o texto e estabelecer uma ótima pauta, ainda fez a revisão da tradução. Agradeço também a Laura, que me ajudou na caça aos erros conceituais (e do meu pobre portugues).

O cinturão de proteção de Imre Lakatos

maio, 2008

O processo de formulação, aceitação e testes de uma teoria em geral parece bem estabelecido para o cientista. Mas para os filósofos da ciência, esta é uma questão tão aberta quanto qualquer outro assunto filosófico. Embora, no que diz respeito a questão da teorização, Popper e Kuhn sejam sempre lembrados, tantos outros foram proeminentes e produziram material interessante a este respeito. É o caso de Imre Lakatos.

Lakatos era graduado em física, matemática e filosofia. Depois doutorou-se em filosofia na Inglaterra, aonde permaneceu até o fim da vida. Lakatos, como tantos outros, nunca se deu muito bem com o trabalho de Thomas Kuhn. Publicou mais de um livro para tratar sobre as idéias de Kuhn e forneceu uma série de argumentos contra o sistema de paradigmas. Em seu livro “Falsificação e Metodologia dos Programas de Investigação Científica”, Lakatos desenvolve seu argumento de cinturões de proteção, que iremos ver com um pouco mais de detalhe.

Lakatos formulou que os sistemas teoréticos são formados por um núcleo forte, circundado por um cinturão de teorias de suporte. Quando submetidos aos testes, o núcleo forte da teoria possui mais ou menos o papel de “pressuposto básico”, de modo que é o cinturão, e não a teoria central em si, que passa pelo processo de averiguação. Desta forma, uma anomalia em qualquer teste afeta unicamente o cinturão de proteção e não a teoria central.

A teoria de suporte que acaba sendo refutada pode ser substituída por outro, mas para Lakatos o caso mais comum é o de reforçar a cinta de proteção do núcleo com teorias ad hoc. Ou seja, teorias auxiliares que não possuem propósito algum a não ser o de sustentar o núcleo forte. Um exemplo histórico é a teoria do éter celestial. A história do éter se confunde com o estudo da natureza da luz. No passado se acreditava que a luz era uma onda e, portanto, precisava de um meio de propagação. Era simples encontrar um meio de propagação na Terra, mas o fato é que a luz estava viajando pelo espaço que,acreditava-se, era vazio. Esse problema poderia ter posto em dúvida as idéias sobre a natureza da luz, mas ao invés disso, uma explicação ad hoc foi criada. O espaço deveria ser preenchido por uma substância que não tinha massa e não podia ser detectada, o éter, e era ele quem servia de meio de propagação para a luz.

No exemplo acima podemos observar que a natureza ondulatória da luz era o núcleo forte, quando colocado em dúvida, criou-se uma substância imaginária que não possuía peso, cor, cheiro ou qualquer característica capaz de ser detectada por qualquer experimentação possível. Desta forma, o éter, uma teoria auxiliar, protegia seu núcleo forte, a natureza ondulatória da luz. Desta forma seria possível imaginar que, a priori, nenhuma teoria poderia ser refutada. Lakatos responde a esta conclusão concordando com o argumento, mas observa que para a ciência o acúmulo de teorias ad hoc é desconfortável. Com efeito, é este acúmulo que leva a comunidade científica abandonar uma determinada teoria em detrimento de outra. A nova teoria nem sequer precisa responder a todas as questões que a anterior respondia, é preciso apenas que ela responda um número satisfatório de problemas (dentre esses, alguns que a anterior não conseguia responder) e não ter um número grande de fundamentações ad hoc.

Lakatos pode não ter sido tão “famoso” quanto Kuhn e Popper. Mas certamente teve um papel importante no desenvolvimento da filosofia histórica da ciência.

A incomensurabilidade na divulgação científica.

abril, 2008

Quando fundamentou o princípio da incomensurabilidade, Thomas Kuhn estava pensando nas dificuldades em se estudar a filosofia histórica da ciência e na disputa dos defensores de paradigmas concorrentes. Suas últimas formulações sobre o tema transformaram a incomensurabilidade de maneira surpreendente. Kuhn utilizou princípios da seleção natural darwiniana, bem como estudos sobre filologia e tradução, para melhor compreender a relação entre os diversos paradigmas e a visão de mundo em que eles se inseriam. A conclusão que se chega ao se envolver com o trabalho de Kuhn é que a ciência é um empreendimento humano, que visa a busca pelo conhecimento da natureza física do universo. Mas é também uma linguagem própria e em constante evolução.

Para compreendermos o impacto do trabalho de Kuhn na divulgação científica, é preciso antes abordarmos alguns aspectos específicos. O primeiro aspecto, e provavelmente o mais importante, é o conceito de léxicos kuhnianos. Os léxicos são termos criados para designar um conjunto de observações sobre algo. “Água”, por exemplo, seria um léxico que define o composto químico H2O. Assim como “insetos” seria o léxico para definir animais invertebrados, com três pares de patas e corpo dividido em três tagmas (cabeça, tórax e abdômen).

Sendo os léxicos termos que definem algo de maneira bastante restritiva, eles assumem uma característica similar ao das espécies naturais e, como tais, podem passar por um processo de seleção (natural, artificial ou social embora detalhes sobre esses tipos de seleção não serão abordados). Ainda no exemplo da água, no século XVI acreditava-se que a ela fosse um elemento químico, de modo que o léxico “água” se referia a “qualquer líquido inodoro, insípido e incolor”. Com o avanço das práticas químicas e com a descoberta de que a água era na verdade um composto químico, seu léxico passou por um processo evolutivo e começou a se referir ao H2O. A priori parece uma mudança pouco relevante, mas manter o léxico “água” do século XVI implicaria em assumir que ainda que um elemento ou composto químico seja diferente do H2O, se ele for inodoro, insípido e incolor então deve ser caracterizado como água.

O problema começa justamente neste ponto. Um mesmo léxico pode se referir a coisas diferentes nas mais variadas linguagens. Não estou me referindo exclusivamente a idiomas, embora também possamos considerá-los parte do problema, mas sim aos vocabulários específicos das atividades humanas. Os vocabulários, além de variarem nas atividades (temos um vocabulário próprio da ciência, um vocabulário próprio para o senso comum, outro para as religiões e assim por diante), variam no tempo e no espaço assim como os léxicos. Para Kuhn, a incomensurabilidade surge justamente da incapacidade de compatibilidade dos vocabulários. Usando apenas a ciência como exemplo, se tomarmos o léxico “movimento” da mecânica aristotélica e o léxico “movimento” da mecânica newtoniana, iremos observar que eles são substancialmente diferentes. Comparando o vocabulário todo da mecânica aristotélica com a newtoniana, notaremos que praticamente todos os termos possuem valores lexicais completamente diferentes.

Portanto, estudar uma teoria antiga é o equivalente a aprender uma língua morta. Parte daí que, ainda que o indivíduo compreenda bem a “língua morta” e a “contemporânea”, ele passa a exercer o papel de um bilingue, e não de um tradutor. Embora compreenda bem ambas as teorias, não é capaz de traduzir os termos de uma na outra. É nesta posição que se encontra o divulgador científico, um bilingue tentando traduzir o idioma da ciência para o idioma do “dia-a-dia”.

Não é um papel fácil e, com efeito, não é sequer um papel possível. Como em um processo de tradução normal, o divulgador científico aproxima a ciência da linguagem do dia-a-dia por substituição interpretativa do termo. O léxico “evolução” é um bom exemplo disso. Para a biologia evolução se refere à modificação genética, enquanto para o senso comum significa graduação. Ambos os termos são incompatíveis e não é possível traduzir “evolução” biológica sem se valer de recursos que acabem por se referir a variações do léxico do senso comum. Ou seja, para explicar evolução para um “leigo”, é preciso especificar em quais termos a palavra esta sendo usada. Curiosamente, o léxico evolução da biologia se parece muito mais com o léxico adaptação do senso comum. Fica fácil compreender portanto o motivo da evolução lamarckista ser melhor compreendida por pessoas de fora da ciência.

A despeito da dificuldade do trabalho do divulgador, sua atividade é de vital importância. Assim como uma música em inglês pode provocar o interesse de quem ouve para o estudo da língua, a atividade da divulgação científica é provavelmente a maior responsável por provocar o interesse das mentes jovens (ou nem tão jovens assim) para a atividade científica profissional.

O homem que matou a geração espontânea.

abril, 2008

Embora a ciência seja naturalmente um empreendimento coletivo, a história está repleta de indivíduos notáveis por sua dedicação à ciência e seu empreendorismo único. Esses indivíduos em particular geralmente possuem uma história de transgressões, visionarismo e paixão incondicional por sua atividade. São os responsáveis pela imagem romântica do cientista abnegado, que coloca a ciência acima de si e de sua vida particular. Louis Pasteur foi um desses notáveis cientistas e suas contribuições tiveram impacto nas mais diversas áreas da ciência.

Francês, nascido em 27 de dezembro de 1822 no condado de Dole, teve seu intelecto reconhecido logo cedo, ministrou aulas de física e química em duas universidades. Casou com Marie Lauret, filha do reitor da universidade de Strasbourg. Como químico, seu trabalho com ácido tartárico lhe rendeu a primeira grande contribuição para a ciência. O problema era o seguinte, alguns estudos apontavam que o ácido tartárico produzido por meios naturais influenciava a direção da luz polarizada que passava através dele. Misteriosamente, o ácido tartárico produzido artificialmente, apesar de ser quimicamente idêntico e reagir quimicamente igual ao natural, não produzia nenhum tipo de efeito na luz polarizada. Pasteur propôs o que hoje chamamos de isomeria, ou seja, que compostos químicos podem ter conformações moleculares distintas, apesar de serem quimicamente idênticos.

Mais tarde Pasteur se tornaria um grande defensor da teoria dos germes. Propôs que a causa da fermentação de algumas bebidas era decorrente da existência de microorganismos. Tendo isso mente passou a aquecer leite e vinho lentamente até que atingissem 48ºC. O aquecimento impedia que essas bebidas fermentassem e ficassem impróprias para o consumo. Concluiu portanto que o processo eliminava os microorganismos. A descoberta foi muito importante para os produtores de vinho da região. A pasteurização, como ficou conhecido o procedimento, é usada amplamente hoje em dia.

A pasteurização ajudou Pasteur a propor um experimento que acabaria por refutar a teoria da geração espontânea. Usando um recipiente de vidro especialmente produzido para o experimento, Pasteur conseguiu comprovar que os microorganismos que surgiam em um caldo nutritivo eram fruto de contaminação. Os estudos de Pasteur, bem como os de Robert Koch, deram origem à infectologia, bacterologia, microbiologia e por aí vai.

Na medicina as influencias de Pasteur foram igualmente importantes. Pasteur criou uma vacina para o anthrax que assolava o gado francês no período pós-guerra franco-prussiana. Além disso criou a primeira vacina contra raiva, usando a técnica de aplicar microorganismos enfraquecidos em corpos saudáveis para estimular a produção de anticorpos. Também foi um grande defensor das técnicas de assepsia e chegou a colaborar com Joseph Lister, médico inglês que trabalhou para desenvolver técnicas de anticépticas em cirurgias.

Pasteur morreu em 1895 por consequência de uma série de derrames. Seu antigo laboratório foi transformado no conhecido Instituto Pasteur. O corpo de Pasteur foi enterrado inicialmente na catedral de Notre Dame e depois transferido para uma cripta no próprio Instituto Pasteur. Foi considerado um dos homens mais influentes da humanidade e chegou a ganhar três filmes em sua homenagem.

Educação física, ciência sim senhor.

abril, 2008

Faz parte de nossa tentativa de entender o mundo, criar maneiras simples e generalizadas de classificação. Para um observador minimamente razoável, essas classificações se mostram evidentemente acadêmicas e não refletem necessariamente a complexidade do que se classifica. Podemos tomar como exemplo a classificação das ciências naturais. São assim chamadas, primeiramente, por seu vínculo direto com o estudo aonde as respostas devem vir necessariamente da natureza. Física, biologia e química são grandes exemplos de classificações feitas nas ciências naturais. No entanto, mesmo entre essas três áreas existem campos “cinzas”, ou seja, que parecem se enquadrar em mais de uma dessas classificações, ou talvez em nenhuma delas. Parte daí o motivo de se criar subclassificações, bioquímica e biofísica são bons exemplos.

Embora esse sistema taxonômico em geral funcione, para aqueles observadores que não são tão razoáveis, essas classificações podem dar origem a certos preconceitos. É o que tipicamente ocorre com a educação física. Não raro nos deparamos com seu esteriótipo comum, estudante de educação física é tido como “o vida boa”, sua aplicação última se restringe aos campos de futebol e outros esportes (quando muito) ou às acadêmias de musculação. Pouco, ou nenhum, esforço se faz para entender que a educação física é sim uma ciência.

Não há dúvidas de que a educação física esta intimamente relacionada ao corpo humano. O que se deve notar é que essa relação se estende em níveis mais amplos do que se imagina. A priori podemos tomar o caminho mais simples e pensar na prática de exercícios físicos. É de responsabilidade da educação física estudar e fundamentar corretamente essas práticas, o que por si só já coloca a disciplina em um processo científico de investigação e pesquisa. Tomando esta linha de pensamento como verdadeira, e ela de fato o é, a educação física esta diretamente relacionada com estudos de anatomia, bioquímica, biomecânica, fisiologia humana e tantas outras áreas quanto se possa imaginar. Vale notar que as instituições de fomento a pesquisa brasileiros classificam a educação física como ciências da saúde, bem ao lado da medicina.

Não obstante, a educação física ainda abrange uma série de outras áreas fora das chamadas “hard science”, mas que são igualmente importantes e relevantes. É o caso de seu papel na educação por exemplo. Sua relação com a psicanálise e mesmo com direito, filosofia e ética. Por toda essa desenvoltura com diversos campos do saber humano, é incompreensível os motivos que sustentam o preconceito claramente existente contra esta disciplina tão completa.

É papel do divulgador científico compreender que o conhecimento humano se entrelaça de formas mais complexas do que a taxonomia acadêmica sugere. É igualmente papel do divulgador compreender que a ciência é mais do que a invenção de novos e complexos aparelhos ou de técnicas avançadas de medicina. A ciência é um empreendimento abrangente, que investiga o homem e o mundo que o cerca. Neste sentido, as contribuições da educação física são de grande importância e relevância.

Para saber mais:

Educação física

Resenha: Eu, primata.

abril, 2008

Frans de Waal é um importante e conhecido primatologista holandes vivendo nos Estados Unidos. Formado em biologia e psicologia, se envolveu no estudo de comportamento animal, especialmente de grandes primatas, tornando-se uma das maiores autoridades do mundo neste sentido. Em 2007 esteve listado como uma das 100 pessoas mais influentes pela Times, e já produziu seis livros de divulgação científica. Destes, apenas um foi lançado no Brasil. “Our inner ape – A leading primatologist explains why we are who we are” ou “Eu, primata – Por que somos como somos” em seu título em português é um livro difícil de se classificar.

A dificuldade vem justamente da abordagem estabelecida de uma tentativa em compreender o comportamento humano, tomando como modelo comparativo o comportamento de nossos primos símios, os chimpanzés e os bonobos. A estratégia de Waal, embora possa parecer controversa, faz todo sentido. Os bonobos e os chimpanzés provavelmente evoluíram do mesmo ancestral comum dos humanos, no entanto, as diferenças comportamentais destas três espécies são aparentemente distintas o suficiente para tornar a comparação válida. O que de Waal faz é demonstrar que, em certas áreas “cinzas”, humanos, bonobos e chimpanzés compartilham uma série de características comportamentias.

O resultado é impressionante. Somos apresentados ao mundo extremamente político dos chimpanzés, muito similar ao nosso. Um complexo jogo de alianças e conchavos intrincados que remetem imediatamente à nossa política partidária. Ao mesmo tempo nos vemos no mundo erótico dos bonobos, também similar ao nosso. O autor então lança mão desse processo comparativo para mostrar o ser humano como uma espécie amalgama de nosso primos. Nosso apreço pelo poder, guerra e sexo é a síntese do comportamento dos chimpanzés e bonobos.

O livro é em geral muito bom, embora tenha seus momentos massantes. Mas eles são compreensíveis, o assunto não é simples e a proposta é bastante ousada. Buscar o entendimento sobre as ações do homem tomando a primatologia como base pode não agradar muitas pessoas. Aceitar as proposições de Frans de Waal é o mesmo que aceitar que o homem compartilha seu ancestral com os símios, idéia sabidamente polêmica mas que, a despeito de tudo, tem suporte científico.

Além disso, o autor incorre constantemente no antropomorfismo. O próprio de Waal chama a atenção para essa questão, mas defende que os comportamentos dos bonobos e chimpanzés são de fato muito similares ao nosso. Similares a tal ponto de poderem ser comparados de igual para igual. Exemplos que justifiquem essa afirmativa não faltam por todo o livro, em todo caso, alguns estão mais para a defesa apaixonada do que para a defesa racional. Igualmente compreensível, claro, mas é bom observar estes pequenos momentos de defesa apaixonada com cautela. Em todo caso o livro é ótimo e sua leitura é recomendada.

Citação:
“Este livro analisa os fascinantes e assustadores paralelos entre o comportamento dos humanos e o de outros grandes primatas, com igual consideração para com o bom, o mau e o feio” – Frans de Waal.

Dados gerais:
Eu, primata – Por que somos como somos.
331 páginas
ISBN 978-359-1062-9
Companhia das Letras

Para saber mais:

Bonobos
Chimpanzés
Primatologia
Comportamento animal

A ciência precisa de filósofos?

abril, 2008

Muito se fala sobre filosofia da ciência, mas a relação da disciplina com a ciência do “dia a dia” por vezes não parece ser tão relevante. O cientista, absorto em suas pesquisas, nem sempre encontra tempo em suas atividades mentais para se questionar sobre seus próprios métodos. É provável que tal situação se sustente pelo ensino pouco flexível da ciência. Esta já era uma crítica de Thomas Kuhn , os jovens alunos são apresentados aos manuais criados por seus professores e pelos professores de seus professores. São inseridos nos “paradigmas”, ensinados a trabalhar sob o ponto de vista destes paradigmas. A despeito de como a ciência deveria funcionar, são desencorajados a questionar os paradigmas atuais em detrimento de uma visão progressista, historicamente duvidosa.

Por tudo isso, e por muitos outros motivos, a ciência moderna se fecha sobre si mesma. Os incentivos das instituições de fomento à pesquisa, os olhos da sociedade e até mesmo as premiações parecem valorizar muito mais as ciências aplicadas, relegando à ciência teórica uma visão de excentricidade. A ciência teórica esta mais para um velho hábito romântico, mantido por uns poucos idealistas ingênuos. A ciência moderna assumiu com força seu objetivo de ferramenta que busca as verdades sobre o mundo, deixando em segundo plano seu papel questionador.

A filosofia por outro lado, a despeito das transformações que sofreu nos últimos séculos, manteve sua capacidade questionadora. É por isso que a filosofia da ciência tem importância fundamental na ciência moderna. Por isso a resposta para a pergunta que dá nome a este texto é afirmativa. A ciência precisa de filósofos e da filosofia da ciência. Embora a reflexão crítica sobre seus próprios meios, ações e implicações seja de responsabilidade de todo cientista, é mais próprio da filosofia realizar essa movimento.

Isso não quer dizer, evidentemente, que a filosofia se coloca em uma posição superior à ciência, ou mesmo superior à qualquer atividade humana. Mas sua natureza menos rígida permite uma visão mais ampla sobre o objeto analisado, no caso, a ciência. Se faz necessário para a ciência moderna a recuperação de seus valores questionadores, afinal, foram esses valores que a colocaram em sua posição atual. E neste sentido, a filosofia é uma aliada mais que desejada.

Para saber mais:

Filosofia
Filosofia da ciência
Thomas Kuhn