Institucionalização! Este foi o grande passo dado pela ciência no período da revolução científica. O resultado desse passo foi o surgimento de um dos maiores empreendimentos humanos já vistos. A ciência cresceu, ganhou credibilidade e afeta ativamente o meio de vida da sociedade.
É curioso notar como a institucionalização em geral resulta no crescimento acelerado de uma atividade qualquer. Mais do que isso, faz com que a atividade em questão ganhe respeito e articulação política. As religiões aprenderam isso bastante cedo. A ciência demorou um pouco mais.
Uma das principais características resultantes da institucionalização é a chamada auto-validação. Isso quer dizer basicamente que uma comunidade qualquer é capaz de validar a si própria. Parece estranho? Mas não é.
Se tomarmos a ciência como exemplo, vemos o processo de auto-validação sendo constantemente garantido. Seja na formação de associações científicas, ou na produção de periódicos, congressos científicos, conselhos federais e por aí vai. O próprio processo conhecido como “peer review” é um mecanismo, inserido na própria metodologia científica, de auto-validação.
Não basta desenvolver um experimento científico, ou uma teoria, ou ambos. É preciso a aceitação da comunidade. E a aceitação da comunidade se faz na observação de determinadas regras que a própria comunidade construiu.
Mas afinal, o que tudo isso tem a ver com a blogosfera científica do título? Bom, é notável como a divulgação científica cresceu no último ano no Brasil. Especialmente na chamada blogosfera. Os blogs de ciência se multiplicaram, ganharam destaque, tiveram seu próprio evento e por aí vai.
Acontece que a blogosfera científica encontra-se justamente neste processo, não só de institucionalização, mas de auto-validação. Aliás, me arrisco a dizer que a blogosfera brasileira se encontra neste pé a um bom tempo. Mas eu não sou o maior especialista no caso, me atenho ao grupo do qual faço parte.
O que me deixa bastante preocupado é que neste momento de consolidação dos blogs de ciência, muita gente ainda insista no velho paradigma da “relevância”, seja medida por links, seja medida pelo número de prêmios que o blog eventualmente acumule.
Acho graça quando vejo blogueiros defendendo que um blog é tanto mais relevante quanto tanto maior for o número de links em outros blogs. É um argumento claramente auto-validativo: “Meu blog é bom porque aquele outro blog, que tem milhares de visitantes diários e já foi matéria do Jornal da Globo, me linka”.
Resulta que com essa ideia na cabeça, quem sofre é a divulgação científica. Na expectativa de agradar a “blogosfera mãe”, o blogueiro de ciências pode acabar direcionando seu conteúdo para um publico alvo que, apesar das opiniões contrárias, não é garantia de ser um público melhor que qualquer outro.
Acho um pouco ingênua a noção de que um blogueiro de política, ou de humor, ou de tecnologia, tem capacidades melhores do que, digamos, blogueiros miguxos, para identificar um bom material de divulgação científica. Há a esperança constante de que pessoas que fazem bem o seu trabalho, seja na área que for, possuem um bom senso mais apurado.
Eventualmente isso pode ser verdade, mas não há garantias aqui. Em todo caso, bom senso é bom, mas não é o bastante. Eu me considero uma pessoa relativamente razoável, de bom senso. Mas isso não me torna eficaz em apontar bons textos sobre política, embora eu certamente sou capaz de identificar aqueles textos que pecam no exagero, ou na falta de profundidade.
Com os textos científicos ocorre o mesmo. Pessoas de bom senso são capazes de identificar pseudo-ciência extremista quando olham para um texto desse tipo. Mas talvez deixem passar uma pseudo-ciência bem disfarçada. Ou pior, um texto científico mal produzido e de conteúdo pouco rigoroso.
A questão principal é que na tentativa de se auto-validar, a blogosfera científica perde tempo demais seguindo as regras da outra blogosfera. Entre textos de divulgação, as vezes entre os textos de divulgação, sempre sobram espaços para agradar o colega blogueiro. Tudo em nome da relevância, claro.
Um exemplo disso foram os relatos do EWCLiPo. Dos quatro que li, só um falava sobre as discussões que o evento levantou. Os outros trataram de focar em como os blogueiros são super legais, como o chopp foi bom e, eventualmente, reservavam um parágrafo pra dizer, assim mesmo, de passagem, sobre os temas que o evento tratou.
Senhores, a relevância não está na capacidade de agradar os pares. Esta na capacidade de cumprir com eficácia o objetivo proposto, no nosso caso, divulgar ciência. Ser relevante é passar sua mensagem de forma correta e consistente, atingindo o leitor de maneira permanente. Tarefa fácil? Longe disso.
Existe uma maneira simples de medir esta relevância? De forma alguma. Acredito que o feedback dos leitores do blog, fieis ou não, tenha lá seu valor. Além disso, o tempo é sempre o melhor juiz. É muita ingenuidade achar que se é relevante com um blog de um ou dois anos de idade.
Em todo caso, tenho cá a certeza de que nem o Google Analitycs, nem o blogueiro famoso, são capazes de dizer quem é ou quem deixa de ser relevante.
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Thiago, acho que tudo o que vc comentou está relacionado às dores de crescimento de uma comunidade. Sempre à um certo deslumbramento com a ferramenta, há discussões sobre relevância, etc. Ano que vem teremos discussões entre blogueiros e jornalista e depois sobre post pago, você vai ver.
Só discordo quando vc insua que os blogs de divulgação cienttífica não deveria seguir a lógica dos blogs em geral, apesar de fazer divulgação científica, eles ainda são algo bastante pessoal. Também discordo que se mencione outros blogueiros apenas para buscar relevância. A menção aos outros blogs serve para criar um senso de comunidade entre os blogs, um senso que está longe de ser ilusório.
Agora, usar links como indicador de relevância é apenas uma conseqüência de uma área que carece de métricas boas. Este indicador tem muitas desvantagens mas é um dos indicadores utilizado mesmo assim.
[...] Leia mais deste post no blog de origem: Clique aqui e prestigie o autor [...]
Carlos, se você estiver certo, então em ao menos um lugar a teoria da recapitulação funciona rsrs. Se a blogosfera científica se pegar discutindo esse tipo de coisa, sou capaz de abandonar o barco rsrsrsrs.
Eu não insinuei que os blogs de ciência não deveriam seguir a lógica dos blogs. A não ser que esta lógica esteja relacionada com a auto-promoção de meia dúzia de gente que se julga importante por ter, sei lá, milhares de pageviews diários. Blogs são, e devem continuar sendo, pessoais…
E o senso de comunidade vem naturalmente, não é preciso o tempo todo firmar isso buscando ganchos e fazendo malabarismo pra encaixar outros blogueiros nos nossos textos. Evidente que quando o assunto é relevante, é sempre bom linkar outros textos de outros blogs. Até pra expandir a discussão. O duro é quando se faz isso de forma indiscriminada e, ao chegar ao final do post, existirem mais referências à blogueiros do que conteúdo.
Concordo que existe uma carência de métricas boas para medir a relevância de blogs (e com efeito, de muitas outras coisas). Mas não acho, nem sendo muito otimista, que links são o melhor indicador que temos. Acho, na verdade, que eles sequer são indicadores, que dirá de relevância… É claro que só criticar os links como indicadores não resolve o problemas… Mas, hey, quem disse que seria fácil afinal?
Abraços.
Concordo com você Thiago. Acho que temos sim um problema com a qualidade da informação dentro do pequeno nicho dos blogs de ciência em português e isso acaba interferindo na comunidade como um todo. Hoje há uma ideia de quanto mais blogs de "ciência" melhor. Mas acho que chamar indiscriminadamente qualquer blog que cita algo relacionado a ciência ou que fala de assuntos pseudo científicos de blog de "ciência" pode trazer mais problemas do que vantagens a divulgação científica.
Fico sim preocupado com a "invasão" de jornalistas. Acho que eles são pessoas que tem um público grande e podem trazer mais leitores. Mas será que isso justifica ? Criticamos tanto a cobertura da ciência na mídia e agora temos muitos jornalistas que viraram blogueiros científicos.
Bem, a discussão continua….
Luiz, não acho que os jornalistas estão invadindo. É preciso observar que existem diferenças entre jornalismo científico e divulgação científica. E mesmo assim, a priori não existe problema algum de jornalistas fazerem divulgação científica.
Há bons blogs de DC feito por jornalistas.
A crítica da cobertura da ciência na mídia tem razão de existir. Em geral o que se faz é abissalmente ruim… Mas não é problema de um lado só. Os ciêntistas se fazem muitas vezes inacessíveis e se recusam a falar com a imprensa. A justificativa é sempre esta, que a imprensa distorce o que o cientista fala… O que até pode acontecer, e até pode ser a regra… Mas isso também não justifica o afastamento dos cientistas.
Em geral, não me importo com QUEM esta fazendo divulgação, desde que esteja fazendo bem feito.
É claro Thiago. Concordo com você. Eu generalizei quando falei em "jornalistas", mas grande parte do que eu vejo de blogs de ciência não são realmente de ciência. Esta é a questão. Um jornalista pegar um artigo científico, ler o abstract e o press release e traduzir isso sem uma discussão sobre os artigos anteriores e sobre os dados pode trazer problemas para o leitor. Sinto falta de pessoas mais críticas sobre o que escrevem.
Acho que isso é um problema tanto para jornalistas de ciência quanto para jornalistas de política e economia. O problema não é o assunto em si, mas sim a qualidade de quem escreve. É claro que existem alguns blogs de divulgação feitos por jornalistas, como existem bons blogs de jornalistas sobre política e economia. Só fico preocupado quando confundimos o jornalista político com o cientista político, o jornalista de economia com o economista e o jornalista de ciência com o cientista.
Existe sim um afastamento dos cientistas da divulgação. Mas é para isso que estamos aqui, cada um com seu blog, para tentar reverter isso. Eu me importo com QUEM está fazendo divulgação, pois é baseado no seu conhecimento prévio que ele vai analisar de forma crítica o que escreve. Tenho certeza que um bom cientista jornalista consegue entender e discutir de forma bem mais embasada do que um bom jornalista de ciência. Um professor da UFRJ que dá aula sobre docência sempre fala que "Escrevemos melhor sobre assuntos que temos experiência prática, pois vivenciamos cada etapa do processo". Concordo plenamente com ele.
Abraços.
Bem, entrando na discussão, posso falar do que entendo um pouco melhor. Quando um jornalista fala sobre aquecimento global, salvo raríssimas exceções, não passa de ambientalismo disfarçado de ciência. Falam o que é da moda.
Bem, pq para economia temos colunistas que são economistas de renome e para ciências são basicamente jornalistas esforçados? Sabe de quem é a culpa? Nossa mesmo.
Acho que biólogos, geólogos, e qualquer outro ólogo podem se especializar em divulgação. Do mesmo jeito que existe curso de licenciatura, pq não curso de biologia (por exemplo) modalidade jornalismo?
Acho que tudo é validado, claro (como vc disse) que deve ter qualidade. Não qualidade de ser um bom texto (leitura fácil), mas qualidade de ser baseado em fatos, fatos estes que confirmem ou não o assunto. Como por exemplo (outra vez) aquecimento global. Só ouvimos que isso é confirmadíssimo, que o IPCC é um Deus! Existem outras pessoas querendo falar, outras visões. Mas quase não vemos isso nos jornais ou nos blogs.
Acho que esse assunto realmente é polêmico, por isso acredito que a discussão é longa
Senhores, concordo com a crítica de vocês. Só estava tentando evitar as generalizações. Não há dúvidas de que a ciência é mal tratada na mídia. Mas isso não é essencialmente culpa do jornalista.
Há uma série de hierarquias a serem cumpridas em um jornal e, em última instância, quem diz o que vai ou o que não vai pra gráfica não é o jornalista. Mas, de novo, corremos o risco aqui de estarmos falando de jornalismo científico e não de divulgação científica.
E só pra ser justo, também não podemos considerar que cientistas são bons divulgadores de ciência. Apesar de concordar com a coisa de "escrevemos melhor sobre o que sabemos", tem muuuuito cientista por aí que deveria ser afastado da atividade de divulgação por decreto de lei rsrs.
Mas o Luiz pegou em um ponto importante. Vomitar artigos e etc não faz sentido. É preciso sempre estabelecer uma visão crítica de tudo, e passar isso em nossos textos de divulgação. Se queremos um público melhor, então precisamos ensiná-los a serem melhor. Qualquer um diz o obvio, nem todo mundo para pra pensar dois segundos sobre isso.
A discussão é longa… Mas até agora, esta excelente.
Abraços
[...] Leia mais deste post no blog de origem: Clique aqui e prestigie o autor [...]
Thiago,
Excelente post. Já cheguei a discutir isto algumas vezes em meu blog, nem sempre agradando com o que disse. Concordo plenamente com você em relação à utilização do número de links como uma boa medida da relevância ou da qualidade de um blog. Aliás, fiz há algum tempo uma crítica disto, relacionando a tendência com a também lamentável prática de se medir a relevância ou qualidade de um artigo científico pelo número de citações e, o que é pior, a qualidade de um pesquisador pelo número de artigos publicados. Para mim, são diferentes faces de um mesmo problema, a mercantilização do conhecimento ou de qualquer aspecto da vida moderna, associar qualidade com números, como se Harold Robbins fosse um melhor escritor que Saramago porque escreveu mais livros e os vendeu em maior número. É a ditadura da mediocridade.
Olá Thiago,
Essa discussão é absolutamente atual e necessária.
Na verdade, não é propriamente a qualidade dos textos o que determina a influência ou a visibilidade de um blog, mas o local onde ele está hospedado: um blog apadrinhado na Veja ou no Uol serão influentes, mesmo se medíocres. Enquanto isso, há bons blogueiros com um número reduzido de leitores. A blogosfera, definitivamente, não é justa.
Resta-nos continuar trabalhando…
Abraço,
Lelec
PS: Dia 12 de fevereiro é o bicentenário de nascimento de Darwin. Acho que devemos todos comemorar a efeméride em nosso blogs…
Prezados, o problema de medição de impacto (não qualidade) de um artigo científico ou produtividade (não qualidade) é antigo, existe uma literatura imensa sobre isso. Não iremos resolver isso no ambito dos blogs, e é ingênuo apenas criticar um índice sem propor outros igualmente viáveis. Se você pensar bem, TODOS os índices usados pelo IBGE em estatística são passíveis de crítica, mas daí não se conclui que o que temos que fazer é apenas uma análise "qualitativa" da sociedade brasileira (ou seja, achismo, simplesmente).
Ou seja, nossa avaliação precisa ser mais do que quantitativa, mas não "menos do que" quantitativa!
A questão é: dá para, com as informaçoes disponíveis, elaborar índices melhores? Acho que sim, propus recentemente o índice de Hirsch para blogs usando apenas informação do Technorati.
A questão é para que sevem os índices? Eu proponho que índicdes devem ser usados não para detetar os bons blogs (verdadeiros positivos, eles não precisam disso, já foram "validados" pela comunidade, mas sim para detetar bons blogs que estão sendo subavaliados. Ou seja, blogs com autoridade Technorati baixa mas índice de Hirsch alto, por exemplo…
O importante é detetar os falsos negativos, separ-a-los do verdadeiros negaivos. Já quanto aos falsos positivos (blogs populares mas ruins), não há muito o que fazer, isso é fruto de feedbacks positivos psicossociais…
Quanto ao resto, não tenho certeza de que os blogs devem reproduzir os padrões de qualidade canônicos da divulgação científica. Afinal, sendo assim, qual seria a diferença das revistas eletronicas de divulgação científica?
Gente, faz tempo que espero a oportunidade prá dizer o que mais me causa espanto neste processo de institucionalização dos blogs de Ciência. Eles estão sendo produzidos diametralmente opostos à maneira de se fazer Ciência. Explico: Se ao ciencista é (ou deveria ser) ensinado observar os fenômenos da Natureza, procurar hípóteses que os expliquem, escolher os materiais e métodos mais adequados para verificar as hipóteses, para enfim chegar aos resultados, analisá-los e conclui-los, como podemos pegar uma ferramenta da moda (blog) e querer que ela atenda à Natureza (Divulgação Científica), ao invés de nos perguntarmos se esta é a melhor ferramenta para o problema que temos (levar a Ciência à população)? Vejo vocês gastando energia tentando fortalecer blogs de Ciência e me pergunto – por que eles agem como se os blogs fossem a máquina mais moderna (nem sempre a mais eficiente) de análise laboratorial, ou A solução para o aquecimento global? Na minha opinião, blogs de DC deveriam existir como mais uma das atividade de quem gosta e sabe escrever sobre Ciência.
Exatamente Ítalo. A crítica também é valida pra esse esquema "publique ou pereça" que vem sendo aplicado. Mas tenho esperanças de que as coisas mudem… Até lá, seremos constantemente "os chatos" rsrs.
Abraços.
Andrea, você disse:
"Se ao ciencista é (ou deveria ser) ensinado observar os fenômenos da Natureza, procurar hípóteses que os expliquem, escolher os materiais e métodos mais adequados para verificar as hipóteses, para enfim chegar aos resultados, analisá-los e conclui-los, como podemos pegar uma ferramenta da moda (blog) e querer que ela atenda à Natureza (Divulgação Científica), ao invés de nos perguntarmos se esta é a melhor ferramenta para o problema que temos (levar a Ciência à população)?"
Isso é uma filosofia da ciencia chamada empirismo (pré-Popperiano). Uma filosofia que nenhum cientista realmente usa. O que fazemos é: Ficar obcecados por algum problema e trabalhar nele até que dê algum resultado… Primeiro você atira a flecha, depois você pinta o alvo em volta!
Por favor cite algum blog que ache que seja uma forma de análise laboratorial ou a solução para o aquecimento global. Nunca vi blog algum dizendo isso.
Da mesma forma, achar que as pessoas escolhem divulgar Ciência pelos blogs porque é a ferramenta da moda é uma injustiça tremenda. Blogs são uma ferramenta de publicação fácil de ser utilizada, esse é o seu mérito e não a sua popularidade.
Eu trabalho com diversas formas de divulgaçao científica desde que entrei na Graduação. Muitas das formas são caras, como livros, outras, como exposições, não estão disponíveis em todas as partes do país. Blogs certamente não são a melhor forma de se divulgar Ciência mas é uma forma de fácil publicação e de fácil consumo. De que outras formas você sugere que gastemos as nossas ebergias?
Também não acredito que alguém veja os blogs como a solução definitiva para a divulgação científica. Quer dizer, qual a razão prática em se apostar todas as fichas em um único modelo?
Apesar disso tudo, os blogs são, sem sombra de dúvida, a maneira mais barata e acessível de se fazer divulgação científica. Não substituem os outros meios, mas por sua capacidade de ser muito mais acessível que qualquer outra mídia tradicional, e permitir a convergência de vários tipos de conteúdo, são uma grande solução.
Enfim, não vou me alongar nisso… Acho que sabemos bem o papel dos blogs nesse sentido.
Osame, eu gostaria de mais informações sobre o índice Hirsch. Achei alguma coisa bem dispersa na internet, embora também não tenha me empenhado muito na busca. Em todo caso, se você puder indicar algo que julgue fundamental sobre o tema, ficarei bastante agradecido.
E concordo que criticar o sistema atual sem propor algo melhor não é muita coisa. Já tinha dito isto ao Carlos Hotta alguns comentários acima. O caso é que embora eu de fato critique os modelos atuais de se medir relevância, o meu problema maior não é, por exemplo, com índices de pageview e etc. É antes disso com a noção de que é preciso convencer outros blogueiros, nomeadamente os que não são de ciência, a nos linkarem, ou nos validarem, ou nos indicarem de alguma forma.
Mais ainda, vejo as vezes as pessoas dizendo que os blogueiros de ciência são uma blogosfera "marginal". Não concordo. Somos OUTRA blogosfera. Existe essa coisa de dizer que a blogosfera são o total de blogs subtraindo os blogs miguxos e similares. É ingenuidade. Os miguxos tem sua própria blogosfera e sua própria validação. Mesma coisa com os blogs de tecnologia, política e humor. Por que seríamos diferentes? Só por que, em geral, somos menos "visíveis" que os outros tipos de blogs?
O que a blogosfera científica precisa fazer é encontrar seu próprio espaço, com suas próprias regras.
Outra coisa, o que exatamente você quis dizer com padrões de "qulidade canônicos da divulgação científica"?
Abraço a todos.
Osame,
Obrigada pelo retorno. Mas confesso que continuo perplexa. Se a ciência é "atirar a flecha da obscessão de alguém para pintar alvos ao redor depois" não estamos diante de um cientista como foram, por exemplo, Darwin, Pasteur, Mendel dentre outros que de fato fizeram a diferença na Ciência, mas sim diante de um técnico que resolve problemas como um mecanico de autos, ou um médico – eles seriam cientistas na sua visão não empírica?!
Abs.
Carlos,
Nenhum blog se diz ser um novo equipamento laboratorial e nem diz ter A solução pro aquecimento global, óbvio. Há alguns anos não existia blog, portanto, ele é, além de ferramenta útil e barata, uma ferramenta da moda – isto não é injustiça, é real. O fato de ser utilizado para a finalidade de DC não é ruim, é apenas mais uma de suas finalidades. O que tentei dizer com tudo isto foi que de um universo muito grande (DC) vejo vocês gastando energia na tentativa de institucionalização de blogs de DC (uma pequena parte do todo) quando podiam simplesmente não gastar energia com esta questão e podiam apenas divulgar ciência, tocando as postagens, pensando em meios de melhorar a qualidade dos conteúdos, dos leitores e tais. Penso que a seleção natural será o melhor caminho neste processo, sem que façam força, mas deixando as mutações ocorrerem e serem selecionadas pela internet toda, não só pela blogosfera.
Vamos conversando! Abs.
Andrea, desculpe mas quando você lê as biografias desses cientistas, você percebe que basicamente eram pessoas obcecadas por certos problemas (evolução, microbiologia, genética). Não ficavam observando, observando, observando até fazer todo o procedimento metodologico que vc descreveu e só no final chegar nas conclusões. Esse formato (que é o formato com que são apresentados os resultados em papers, nada tem em comum com o verdadeiro procedimento heuristico da boa pesquisa que é: 1. ficar antenado com as grandes questões de seu campo de estudos (muita leitura aqui). 2. Discutir com os amigos na lanchonete da Universidade (ou laboratorio de pesquisa, tomar muito café etc).3. Ter uma idéia boa ou criativa (muita sorte aqui, junto com uma mente preparada com bastante bagagem de modo a poder fazer associações e combinações e transferencias de técnicas ou idéias de um campo para outro). (continua)
4 Ter uma boa idéia de onde chegar (você têm um chute ou guess sobre o que a sua pesquisa vai dar – se der errado e os dados ou experimentos te surpreenderem, melhor ainda, pode ser coisa realmente nova!). 5. Pensar, pensar, conversar com seus colaboradores, a fim de que a coisa (que normalmente está uma bagunça na sua cabeça) fique um pouco mais clara. 6. Juntar os gráficos, figuras e outros resultados obtidos depois de usar estatística etc e formar um esqueleto do artigo cientifico. 7. Defender a sua idéia (por ela ser nova, não será facilmente aceita). Nao adianta voce ficar criticando detalhadamente suas ideias, deixe isso para os referees e a comunidade. Se vc não acredita na sua ideia, não espere que outros acreditem: sua idéia merece a melhor defesa intelectualmente honesta que voce puder elaborar (é nesse ponto que cientistas famosos acabam entrando em polemicas científicas); 8. Finalmente escrever o paper, com o formatinho metodologico asseptico Introdução, Material e Metodos, Resultados, Discussao e Conclusao que você descreveu (embora o paper seja uma grande mentira sobre o caminho real que voce traçou durante a pesquisa).
A pesquisa real não é nem objetiva, nem sem paixões, nem lógica e racional, nem metodologica. Mas depois de tudo feito, voce precisa fazer uma reconstrução racional, mostrar que as conclusoes podem ser defendidas racional e objetivamente "a posteriori". Foi isso o que eu chamei de pintar o alvo depois de atingido o objetivo.
Thenriques, eu chamei de padrão canônico um texto jornalistico que tenta ser imparcial e objetivo. Acho que o blog é mais relacionado com as colunas opinativas jornalisticas.
Conectando com a discussão aqui: Carlos, Átila e eu, entre outros, ficamos primeiro fascinados pelos blogs, tinhamos uma intuição de seu potencial, mas justificar racionalmente, com evidencias estatisticas conclusivas, que blogs têm um ótimo índice custo/benefício em termos de Divulgação Científica é algo a ser feito a posteriori, depois que uma blogosfera científica floresça (ou não). Quando pudermos provar cientificamente nosso ponto (e até publicar sobre isso!) já será um estágio bem avançado do processo (o que chamamos em ciência de "asfaltar a estrada" ou "polir o armário" = pintar o alvo em volta). Por enquanto temos apenas desbravadores abrindo picadas… Bom, na verdade, não estamos sendo muito originais, pois estamos indo na cola do Science Blogs, do Nature blogs etc, ou seja, estamos também confiando no faro e bom senso dessa gente.
Um comentário sobre Mendel (da Wikipedia): Mendel's experimental results have later been the object of considerable dispute.[5] Fisher analyzed the results of the F2 (second filial) ratio and found them to be implausibly close to the exact ratio of 3 to 1.[6] Only a few would accuse Mendel of scientific malpractice or call it a scientific fraud — reproduction of his experiments has demonstrated the validity of his hypothesis — however, the results have continued to be a mystery for many, though it is often cited as an example of confirmation bias. This might arise if he detected an approximate 3 to 1 ratio early in his experiments with a small sample size, and continued collecting more data until the results conformed more nearly to an exact ratio.
Ou seja, acho que ele poliu seus resultados em demasia (pintou o alvo circular demais!)
Boa, Thiago. Como vc pôde notar, metaposts são necessários.
[...] Auto-validação e a blogosfera científica [...]