Os mais diversos métodos científicos, mais notadamente os positivistas e os racionalistas, com frequência defendem que a ciência deve ser autônoma, neutra e imparcial. O filósofo Hugh Lacey possui uma série de ótimos ensaios sobre o tema, e uma proposta bastante particular sobre a ciência moderna. Lacey também diz que destes três valores, apenas a imparcialidade ainda é mantida.
Para compreendermos o raciocínio de Lacey é preciso antes entender como ele define os três valores. A imparcialidade diz respeito aos meios em que teorias científicas são escolhidas ou priorizadas em detrimento de outras. Essa seleção de teorias é feita através de um método bem definido, que elege uma série de critérios e que são a base da seleção das teorias. Como todas as hipóteses e teorias devem se enquadrar a este método e satisfazer seus critérios, o processo torna-se imparcial. A neutralidade se refere aos valores externos ao método científico. Valores sociais e morais, por exemplo, não deveriam afetar as ações da ciência. Uma descoberta científica ou uma pesquisa qualquer não deve beneficiar interesses e valores. Em tese a ciência não tende para o bem ou para o mal, tende para o neutro. A autonomia atesta que cabe a ciência decidir suas próprias prioridades e seus próprios meios.
Pela breve explicação acima é possível chegar a certas conclusões. De fato a imparcialidade parece estar garantida. Não importa qual método científico seja mais aceito, nem mesmo importa que ele deixe de ser aceito em detrimento de outro, as escolhas das teorias científicas sempre serão baseadas em critérios fixos estabelecidos pelo método. Tal processo garante a imparcialidade.
Já a neutralidade esta bastante comprometida. Na verdade, acredito que a neutralidade só é possível epistemologicamente. quando chega ao plano de aplicação seu conceito simplesmente não se enquadra ou não é obedecido. É primeiro preciso lidar com os valores morais, éticos e culturais do próprio cientista. Esses valores não são universais normalmente indissociáveis do indivíduo. ora, um cientista não irá realizar pesquisas que vão de encontro ao seus valores, ao menos não por vontade própria.
A autonomia científica passa pelo mesmo processo de comprometimento. O cientista não desenvolve suas pesquisas de forma independente, sofre influencia de pressões sociais e interesses comerciais. Problemas que acometem a espécie humana, como doenças pandêmicas (AIDS, gripe aviária), com efeito provocam uma pressão social para a busca pela solução do problema. Da mesma forma, interesses comerciais acabam guiando a ciência em direções específicas. Todo cientista precisa de financiamento, e ninguém financia nada que não irá trazer retorno financeiro. As pressões sociais e as limitações de financiamento acabam por limitar a autonomia da ciência.
Devemos observar que a epistemologia de Lacey permite o confrontamento de suas definições com a aplicação em um “mundo real”, e desta capacidade de confrontamento que vem o apelido de “epistemologia engajada”.
Em todo caso, é importante lembrar que a ciência é uma atividade humana como qualquer outra. Não se trata de algo especial, trata-se apenas de uma maneira de entender o mundo físico e de como interagir com ele.
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Eu sinceramente acredito, Thiagão, que a neutralidade não existe. À partir do momento em que a pesquisa ou teoria der um resultado, está eliminando outros, e portanto deixando de ser neutra. Viajei?
Concordo com você que a autonomia morreu (mesmo centros universitários são assediados por corporações atualmente), agora… com os escândalos recentes (tá, não tão recentes) sobre pesquisas falsificadas, será que a imparcialidade ainda se mantém?
Tive o privilégio de conhecer o professor Hugh Lacey, e assistir a uma aula sobre valores da ciência. Muito bom e muito coerente, gostei bastante das aplicações que ele apresentou no caso dos trangênicos na agricultura.
Depois da aula por acaso meu professor de filosofia da ciência que er ao anfitrião do Hugh Lacey me ofereceu carona, claro aceitei. No carro conversamos e professor Lacey me contou que sua mãe tinha uma certa dificuldade de explicar o que ele fazia… Achei engraçadim…
Ogro
Acho que a imparcialidade se mantém nos termos em que ela foi definida. De fato a ciência observa muito seus métodos de escolha de teorias e hipóteses de forma que, não importa sobre o que a teoria ou hipóteses trata, desde que esteja nos termos do método.
Barbara
Conhecer o Lacey assim é um privilégio danado. Oportunidade única.
eu achei essas resposta muito legal mas nao é bem o que eu quero…
vejamos se eu entendi…
a ciencia é a razão(“o certo”, pois ela prova o que pensa ???
é isso ???
por favor me respondam no meu email…lepisan@yahoo.com.br
Não concordo com a “tese” de que “a ciência não tende para o bem ou para o mal, tende para o neutro”. Se “a ciência é uma atividade humana como qualquer outra”, como conclui o texto ela tenderá sempre para algum lado. Afinal, toda atividade humana está sujeita a interesses sociais. A ciência não existe numa espécie de “vácuo moral”. Por isso, concordo quando diz que “a neutralidade só é possível epistemologicamente”.
Leandro
Acho que vc não compreendeu. A ciência não prova nada, pois o conceito de prova implica em uma resposta definitiva para um problema e, como previsto nos mais variados modelos do método científico, não há como saber se a resposta que obtemos para um determinado problema é definitiva. No entanto, é objetivo da ciência investigar e entender melhor os fenômenos naturais.
Blogildo
Nem você, nem eu e nem o Lacey acreditamos que a ciência tenha tendências neutras. No entanto, essa é uma definição de valor que o Lacey propõe, a neutralidade. Vale lembrar que valor é algo que se deseja e não a representação do que de fato acontece. O próprio Lacey diz que o valor da neutralidade esta completamente comprometido.
ola, eu sou o andre dias e sou um estudante de portugal.O meu professor pediu-me que fizesse um trabalho sobre a imparcialidade dos valores e eu ando um pouco desorientado…, sera que me pode dar umas luzes sobre isso Tiago ?
E´ possivel falar em neutralidade cientifica? Por que?
VC sabem me dizer quais os principais elementos do ideal cientifico?
Olá sou a Luciane Santos, do PA. Quero apenas dizer que gostei muito da sua explicação; e através dela conseguí a resposta que precisava para minha pergunta.
Gostariade acrescentar que CIÊNCIA é apenas um meio para se chegar a um fim, geralmente melhorar a vida do ser humano atraves de descobertas, desenvolvimento e evolução de soluções para o cotidiano.
Neste ponto a ciência não pende para o bem ou mal. Na verdade o emprego da ciência é dado pelo ser humano que tem uma tendencia positiva ou negativa,o que gera uma distorção da discussão sobre sua neutralidade.
Já o cientista tem suas vontades e ideologias próprias, mas enquanto instrumento de manipulação da ciência pode tambem agir com neutralidade, ao menos é o que se espera. Um cientista religioso, pode muito bem, contra sua crença na cura divina, trabalhar no desenvolvimento de medicações para o mesmo fim de cura. Mas influenciado pela industria farmaceutica seu trabalho pode acabar sendo direcionado para a simples prolongação da vida e não a cura efetiva.
Oi Cleber, obrigado pelo comentário.
Mas discordamos em alguns pontos. Não acho que a ciência seja tão utilitarista quanto você a definiu. Até por que, se ela é feita para melhorar a vida do ser humano, já envolve o conceito de "melhora" que, claro, é subjetivo e , por isso mesmo, longe de ser neutro.
A ciência é, assim como tantas outras coisas, uma ferramenta de compreensão do mundo. É uma atividade coletiva e social e, sendo assim, está sujeita às convenções normais da sociedade. Não pode portanto ser neutra e com certeza não é autônoma.
Veja que não ser neutra ou autônoma não deve ser considerado como defeito. Nenhum de nós o é, nenhuma outra atividade social o é e, até aonde podemos pensar, nada nascido no seio das sociedades humanas o pode ser.
Abraços.