A Prenhez Tubária, o Anticoncepcional e a Divulgação Científica

março, 2010

Fornecer informações de um modo acessível à população é o principal objetivo da Divulgação Científica. Digo de se traduzir aquela linguagem técnica, de difícil absorção, cheia de latins e de palavras que passam ao largo do uso cotidiano, como no caso das ciências e suas expressões mais puras. Nelas e nas mais diversas áreas.

E por quê não usar o dicionário?
Divulgação: ato ou efeito de tornar pública alguma coisa; difusão, propagação, vulgarização. (Houaiss)

Repito: difusão, propagação, vulgarização. Três palavras adequadas ao propósito deste texto. E um incômodo. Explico:

Recentemente passei por uma cirurgia para a retirada de um pedaço de uma das trompas, em decorrência de uma gravidez ectópica (quando o feto se desenvolve de forma tubária). Por certo, uma fatalidade. Maior ainda pelo fato de eu estar tomando Mesigyna®, anticoncepcional injetável fabricado pela Bayer do México e comercializado aqui no Brasil pela Schering.

A parte interessante desse tipo de anticoncepcional trata-se do fato dele ser administrado mensalmente por via intramuscular profunda, de forma extremamente lenta e, portanto, há registro de cada dose na farmácia em que a injeção é aplicada. Coisas das legislações, ainda bem, pois assim levanto a possibilidade de entrar com um processo contra o laboratório.

E é aí que encontro o primeiro incômodo e penso no quanto é importante a Divulgação Científica. Afinal, de que se trata aquela porcentagem de ineficácia (geralmente 1%) presente em todas as bulas dos anticoncepcionais?

“Quando usado corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano (uma gestação a cada 100 mulheres por ano de uso). O índice de falha pode aumentar quando os intervalos entre as injeções são prolongados.” (Bula do Mesigyna®).

“Os COCs [Contraceptivos Orais Combinados] são utilizados para prevenir a gravidez. Quando usados corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano. O índice de falha pode aumentar quando há esquecimento de tomada dos comprimidos ou quando estes são tomados incorretamente, ou ainda em casos de vômito dentro de 3 a 4 horas após a ingestão de um comprimido ou diarréia intensa, bem como interações medicamentosas.” (Bulas do Yaz® e do Yasmin®).

“Contraceptivos orais combinados, quando usados corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano. A ingestão irregular pode levar a sangramentos intermenstruais, além de reduzir a eficácia terapêutica e o efeito contraceptivo de Diane® 35.”

É tanta repetição que levanta até suspeitas. Algo do tipo os laboratórios se precaverem de ações legais caso algo ocorra distante do previsto e coisa e tal. E apenas isso?

Por certo devem haver estudos científicos que apresentam tal margem de erro e, como dizem os manuais de métodos de pesquisa, principalmente no tocante as estatísticas e validade dos experimentos nos quais as variáveis são controláveis.

Consenso: várias técnicas estatísticas são necessárias para permitir a descrição das características dos dados, testar relações de conjunto entre os dados e suas diferenças. Geralmente o resultado é uma média.

No caso da eficácia dos anticoncepcionais, o conceito utilizado em técnicas estatísticas é o de confiabilidade (e não o de probabilidade, como muitos podem achar). Envolve pesquisa correlacional (entre as variáveis) e isso significa haver um coeficiente de correlação, que pode ser alto ou baixo, satisfatório ou insatisfatório.

E as dúvidas vão aumentando: cientificamente, de que se trata o uso correto de uma substância? Esta falha de 1% do uso dos anticoncepcionais injetáveis é determinada a partir de quê? Do esquecimento de uma das doses? Do erro na administração da ingestão? Ou refere-se mesmo à ineficácia da substância para determinados organismos? Dentro deste 1%, qual é a porcentagem destinada ao uso inadequado da substância? E em relação à interação com outros medicamentos? Afinal, como é calculado este 1%? E outras tantas perguntas, para tantas variáveis…

Entre as variáveis, por certo que outros fatores estão envolvidos, e que representam o mundo científico: a amostra populacional, a validade das medidas e a expressão de fidedignidade por meio da correlação. E tudo isso promove uma margem de erro.

Mas, afinal, essa margem de erro é suficiente para o laboratório eximir-se da responsabilidade de ineficácia de um medicamento? Todos lembram do caso da pílula de farinha.

Em uma pesquisa breve relacionada na internet, verifico haver muitas mulheres na mesma situação do que a minha. E muitas delas questionando o laboratório judicialmente. Se há um argumento que possa ser válido, eu aposto na confiabilidade.

E não digo apenas em relação ao método científico em si, mas de todo o entorno. É fato de que os anticoncepcionais são vendidos por sua confiabilidade e não pela possibilidade do erro.

Onde entra a Divulgação Científica nisso tudo? No acesso à informação. Essa eu só fui procurar depois do ocorrido, para então ouvir de especialistas frases do tipo:

– esse medicamento quando não funciona tem um alto risco de gravidez ectópica;
– nossa farmácia parou de aplicar o medicamento porque muitas mulheres relataram passar mal, então o laboratório veio pedir para voltarmos a aplicar o medicamento;
– é bobagem processar o laboratório já que nenhum método para evitar a gravidez é 100% seguro.

Independente dos argumentos, uma coisa é fato: o acesso à informação, a popularização da ciência, sua vulgarização poderia ter me permitido correr esse risco de gravidez ectópica de uma forma mais consciente. Afinal, eu poderia ter aliado o anticoncepcional com o uso da camisinha. Ou com o uso de um DIU. Ou outra combinação possível.

Aqui, eu entraria com o debate pelos argumentos da bioética e coisa e tal. É fato que nós somos responsáveis pelos nossos atos, e, neste caso acima relatado, os laboratórios também não o são?

De qualquer forma, ressalto a importância da Divulgação Científica para a tomada de decisão das pessoas, para que elas evitem incômodos. Inclusive quando se quer usar da própria ciência em um processo judicial.