As duas Biologias de Mayr

abril, 2011

Em 1859, quando Darwin publicou “A Origem das Espécies”, ele já sabia que tempos difíceis estavam por vir. E vieram. As idéias contidas naquele livro causaram um grande rebuliço não somente na comunidade acadêmica da época, mas na sociedade como um todo. Num âmbito mais geral, a idéia de uma espécie descender de outra (e especialmente a idéia do homem descender “do macaco”) batia de frente com os ideais religiosos da Europa do século XIX – na verdade, ainda bate com ideais religiosos de hoje, mas deixemos o conflito ciência x religião para um outro post. Na esfera acadêmica, o tempo de existência da Terra era um assunto sobre o qual os cientistas ainda estavam longe de entrar em consenso, e como o argumento de Darwin tinha como premissa que a Terra era muito antiga, esse era um assunto recorrente entre seus opositores. Inclusive, Lord Kelvin, o grande físico criador da escala termométrica universal, era um desses opositores, e um que deu muita dor de cabeça a Charles Darwin¹.

Resumindo uma história longa, quando Darwin propôs sua teoria da evolução por seleção natural, ela não foi aceita de cara pela comunidade científica. Na verdade, isso demorou mais de meio século pra acontecer. Talvez as pessoas de sua época não tenham conseguido entender o que ele estava tentando dizer. Talvez tenham entendido, mas viviam num paradigma que as impedia de dar crédito para uma teoria daquele tipo. Ou talvez de fato as evidências existentes na época favorecessem uma outra forma de pensar. Seja lá o que for, o fato é que quando perceberam (muito tempo depois) a profundeza e o poder da teoria darwiniana, ficaram muito empolgados. Muito mesmo! Mas como a teoria de Darwin era muito mal vista pela maior parte das pessoas na academia e fora dela, aqueles que a aceitavam começaram um grande movimento de divulgação e defesa do darwinismo.

Um desses grandes defensores foi o zoólogo alemão Ernst Mayr (1904-2005). Além de incorporar a teoria darwiniana para interpretar os dados de suas pesquisas acadêmicas, escreveu vários livros de divulgação sobre o darwinismo. Os mais conhecidos são “Biologia: Ciência única”, “Isto é Biologia”, “O desenvolvimento do pensamento biológico”, “Isto é evolução”, “Um longo argumento”, entre outros. Todo biólogo já leu um ou dois. Isso porque não é necessário ler todos para entender o que Mayr quer nos dizer.

Toda a obra (de divulgação) de Mayr se baseia em algumas idéias centrais relativamente simples². E o argumento que ele defende com veemência a partir dessas idéias é que a teoria da evolução organiza o conhecimento biológico de tal forma a tornar a Biologia uma Ciência muito diferente da Física e da Química. Para ele, a Biologia tem que explicar os fenômenos a partir de duas abordagens diferentes, a das causas próximas e a das causas últimas (ou evolutivas). Por exemplo, para explicar por que as aves voam alguém poderia falar sobre as asas e as penas, sobre os ossos pneumáticos (que são bastante leves), sobre as características do sistema respiratório das aves, etc. Essa pessoa estaria explicando o vôo das aves a partir das causas próximas. Outra pessoa poderia responder essa mesma pergunta recorrendo às causas últimas, ou seja, à história evolutiva das aves. Seria necessário construir uma narrativa histórica que explicasse como essas características surgiram a partir de ancestrais que não as tinham. Para enfatizar esse ponto, Mayr divide a Biologia em duas: A Biologia Funcional (ou mecanicista) e a Biologia Evolutiva (ou histórica).

Cada uma dessas divisões seria responsável por um tipo de explicação. Ou seja, a Biologia Funcional se preocuparia com as causas próximas (Fisiologia, Genética, Anatomia, Bioquímica, Biologia Celular, Ecologia, etc.) e a Biologia Evolutiva com as causas últimas (Sistemática, Biogeografia, Paleontologia, Embriologia, etc.). É importante ressaltar que existe uma diferença metodológica crucial entre essas duas áreas. Enquanto a Biologia Funcional se utiliza principalmente de uma metodologia experimental, se baseando em evidências e observações diretas, a Biologia Evolutiva constrói suas explicações a partir do método comparativo e de evidências indiretas – afinal, não tem como voltar milhões de anos no tempo para fazer observações diretas e realizar experimentos com material vivo.

Um pessoal da Física costumava dizer que essas explicações baseadas em evidências indiretas eram fracas, e que por isso a Biologia não era uma Ciência “de verdade”. Mayr, é claro, brigava muito com eles e, de fato, os físicos não poderiam estar mais errados. Os seres vivos, por terem uma inegável história evolutiva, demandam um tipo de estudo diferenciado. E atualmente esse tipo de estudo tem tomado um lugar central dentro da Biologia acadêmica, e atende pelo nome de Biologia Comparada.

Enquanto a Biologia aplicada vem se empenhando em seqüenciamentos genômicos e na pesquisa com doenças, a Biologia teórica tem na Biologia Comparada sua linha de frente. Entender os processos fisiológicos e ecológicos dos seres vivos (causas próximas) não tem sido mais suficiente. Por isso, a partir desses dados da Biologia Funcional, esses biólogos tentam reconstruir a história evolutiva dos diversos grupos de seres vivos para entender como ela se desenrolou. Já que a evolução das espécies está altamente relacionada às mudanças no meio ambiente, as explicações evolutivas devem reconstruir os ambientes do passado com o maior detalhamento possível (temperatura média, clima, vegetação, tipo de solo, posição de placas tectônicas, relevo, disponibilidade de água e alimento, etc.), associar os seres vivos a esses ambientes e tentar entender como funcionavam os ecossistemas do passado. Uma missão nada fácil, mas extremamente fascinante. E os resultados desses estudos às vezes indicam padrões evolutivos muito interessantes que mudam a forma como entendemos a história da vida na Terra. E, afinal, não é esse o objetivo central da Biologia?

 

¹ Uma descrição muito interessante e detalhada sobre isso pode ser encontrada em Burchfield, J.D. 1974. Darwin and the Dilemma of Geological Time. Isis, Vol. 65, No. 3, pp. 301-321.

² Um resumo bem decente das idéias que permeiam a obra de Mayr pode ser encontrado em um texto do próprio autor: MAYR, E. The autonomy of Biology: The position of Biology among sciences. The Quarterly Review of Biology, Vol. 71, nº 01, p. 97-106. 1996.