Ciência e a utopia da imortalidade

março, 2010

Escrito muito antes da Ilíada e da Odisseia, a Epopeia de Gilgamesh conta-nos a história de um homem que toma a consciência de si próprio e descobre o medo da morte através da perda trágica daquele que ama, levando-o a iniciar uma busca desperada pela imortalidade. Depois de ter falhado todas as tentativas, sobretudo devido à impossibilidade de dominar o tempo, o homem regressa à cidade de Uruk, onde toma a decisão de escrever a sua epopeia, mesmo sem se aperceber que ao fazê-lo está a imortalizar a sua memória, que é a única que nos convém e que nos é possível. Em certo sentido vai ser este o corolário lógico das epopeias modernas na busca por uma imortalidade. Já esquecido do que o levou a ter vontade de viver para sempre, o homem moderno, digamos assim, procura materializar os seus sentimentos de terror e de perda, transformando-os em obstáculos transponíveis pela técnica. A manipulação genética, e todas as suas derivações mais ou menos sofisticadas, surge assim como uma espécie de epifenómeno de uma doença que, precisamente por ter momentos felizes, é levada a esquecer-se de si.

O espinho essencial de ser consciente
É normal que não estejamos atentos à vida porque habitualmente estamos entretidos com o que ela nos oferece. A vida tem manha. Distrai-nos com muitos problemas para que ela própria não se torne num problema. A vida tem um aspecto doentio. Que a vida é uma frenética correria para a morte é o seu sintoma mais óbvio. Aliás, correria essa que nega o sintoma precisamente porque acha que a morte está no fim da vida, quando na verdade a vida gasta-se e consome-se. A morte é então encarada como um abismo e enquanto assim for, a vida será sempre uma piada sem graça. Uma correria sem sentido mas com a aparência de sentido. Uma ilusão de haver mais qualquer coisa à nossa frente mas insconscientes do simples facto de estarmos vivos. A lucidez perante a vida, ou como dizia Álvaro de Campos, «o espinho essencial de ser consciente, a vaga náusea, a doença incerta, de me sentir», arrastaria consigo a angústia. Salva-nos a miopia de não nos enxergarmos com clareza. Salva-nos também os estratagemas hábeis que vamos impregnando no nosso modo de viver por forma que tudo isto não se transforme numa mais ou menos lenta agonia.

A ideia de imortalidade enquanto estratagema que nos distrai da vida
A ideia de imortalidade, ou melhor, a vontade de viver para sempre, surge então como uma utopia edificante cujo representante mais eloquente é o cristianismo. A matriz é universal. Há sempre alguém a mandar os outros fazer qualquer coisa em troca da vida eterna. Quando na verdade o embuste é evidente. Um pouco como no tempo em que diziam aos judeus que iam tomar banho, e lhes pediam inclusivé que decorassem o número do cabide onde tinham pendurado as suas roupas, quando na verdade, sem saberem, estavam voluntariamente a entrar numa câmara de gás. A promessa de vida eterna, ou até de um simples banho, são assim estratagemas que nos permitem acordar, viver e dormir tranquilos sem pensar nisso.

Porque o desespero paralisar-nos-ia por completo.A parábola do jardim do Éden é exemplar da necessidade que o homem tem em dominar o tempo. Porque ser imortal é precisamente isso, é exercer um domínio autoritário e totalitário sobre o tempo. É manipulá-lo ao seu jeito. É jogar com ele mas tomando como certeza que no final ele acaba sempre por perder. Nesse jardim havia duas árvores – a árvore da ciência do bem e do mal, e a árvore da vida. Da primeira o homem comeu o fruto e por isso foi expulso do jardim, que é agora guardado por querubins armados de espada flamejante para que o homem não se aproprie também da árvore da vida. Porque a imortalidade só pode ser alcançada pela redenção. E não uma imortalidade do corpo mas sim da alma. Aliás, uma imortalidade da alma que se faz à custa da mortalidade do corpo. O que, no imediato, quer dizer que esta vida que temos, feita de carne e osso, e que é única, não tem qualquer valor.

A vontade de viver para sempre resulta assim de uma inquetação humana profunda: a consciência de si. Esta consciência é como um espinho profundamente entranhado e que nos causa uma dor persistente e aguda. Aliás, uma dor que nos faz suplicar pelo seu fim. A dor é em grande parte dos casos o limite. E um limite que pode levar ao suicídio como um acto de desespero mas também de sobrevivência. Quando se quer a verdade, tortura-se, provoca-se dor. Ninguém a suporta. Ninguém a quer. Todos a evitam. Estar doente é ter dor. Quando dói queremos que essa dor termine o mais rapidamente possível. A imortalidade surge assim na forma de promessa. Na verdade, ela funciona como um potente analgésico. Elimina a dor.

Ciência e a promessa de imortalidade
Vivemos hoje tempos difíceis. Diz-se por aqui à boca cheia que as sociedades ocidentais vivem tempos de descrença. Não um tempo em que os homens não acreditam num deus, mas antes um tempo em que os homens deixaram simplesmente de acreditar. Seria então de esperar que, em consequência desta descrença, em grande parte devido a uma inesperada lucidez perante a corrupção dos valores dentro da própria Igreja, os homens caissem numa situação de uma angustiante solidão espiritual. Mas não é bem assim. É claro que tudo isto teve consequências. O capitalismo é necessariamente uma sociedade de violência, que corrompe as pessoas e as torna violentas. E uma violência que não é apenas física mas também, e sobretudo, psicológica, evidenciada naquilo que o filósofo León Rozitchner define como uma «violência normal», aquela que resulta da «vontade dos outros».

Porém, o homem moderno é incapaz de viver no vazio existencial. O sentido da vida é algo que lhe é ontológico e do qual depende como de pão para a boca se tratasse. Surpreendentemente, ou não, a ciência tem vindo a assumir esse papel. Com as suas promessas de cura e de alívio da dor, e sobretudo de imortalidade, a ciência, tal e qual a conhecemos hoje, tem vindo a assumir o aspecto de uma crença. Começou com o milagre dos antibióticos que iriam de uma vez por todas livrar-nos das doenças terríveis que ceifavam massivamente as vidas alheias. Começou com a penicilina, depois a estreptomicina. Vieram depois os anti-maláricos, os anti-depressivos, os anti-inflamatórios, os anti-piréticos, sempre os anti-qualquer coisa. O caso da raiva é eloquente da forma como uma descoberta científica pode santificar o seu descobridor. Louis Pasteur viveu num tempo em que a raiva matava milhares de pessoas. A Europa viva com muito medo de algo que não sabia combater. E ninguém suporta viver com tanto medo.

Neste contexto, a descoberta da cura para a raiva surgiu assim como uma espécie de milagre. Em todos os casos, o corolário era o mesmo. Íamos deixar de estar doentes. E se íamos deixar de estar doentes, então isso significava que íamos viver para sempre. Hoje, as promessas de cura são agora sintetizadas em fórmulas mais sofisticadas próprias do nosso tempo como seja a manipulação genética, a clonagem terapêutica de células estaminais ou a cirurgia fetal, ou ainda o advento da biónica, berradas todos os dias na televisão e nos jornais.

Nalguns casos estas promessas surgem disfarçadas de artigos científicos publicados em revistas altamente credíveis. O efeito mais imediato é que as pessoas passam a acreditar na ciência porque ela é a solução para todos os nossos problemas. Não interessa que mais de cinquenta anos depois ainda não tenhamos descoberto a cura para a SIDA. O que interessa é a promessa. Porque é ela que nos acalma a nossa dor e nos permite viver uma vida sem angústia. Os cientistas prometem que dentro de algum tempo vamos ser imortais.

E apesar da ideia ser entusiasmante, sobretudo porque confere ao cientista um poder imenso, ela não passa de uma mentira. Não sabemos tudo nem nunca vamos saber tudo. Porque a natureza é um alvo em movimento. Porque a natureza está constantemente a desafiar-nos. Ela resiste (veja-se o caso da resistência aos antibióticos, assunto cada vez mais sério). Ela resiste sempre.

Em 2006, a revista científica Nature publicou um artigo do biólogo franco-croata Miroslav Radman onde se descrevia o mecanismo de ressurreição da bactéria Deinococcus radiodurans que mesmo depois de morta é capaz de voltar à vida em poucas horas. E isto graças à capacidade genial e única de regenerar o seu material genético mesmo quando este se encontra fragmentado. Logo depois da publicação deste artigo, o senhor foi entrevistado por múltiplos órgãos de comunicação social, sempre tendo como epíteto que agora é que a medicina regenerativa ia vingar e que este era apenas o primeiro passo para a reconstituição neuronal e cardíaca e, claro está, para a imortalidade dos humanos.

Numa entrevista ao jornal La Nacion, este mesmo senhor esgrima argumentos, cria cenários, repete até à exaustão que tudo é possível, mas sobretudo faz promessas. E promessas com destinatários muito específicos. Porque não é ingenuamente que surge no meio de tudo isto a palavra ressurreição.

Aliás, é estratégico. Ainda na mesma entrevista, quando o jornalista o questiona se o instituto que acaba de fundar – Instituto Mediterrânico para as Ciências da Vida – irá trabalhar na ressurreição humana, o senhor responde que pediu inclusivé um financiamento ao Vaticano para trabalhar sobre a base molecular da ressurreição. Ora, estas patetices, que enchem as pessoas de expectativas, não passam de estratégias com vista a impressionar potenciais investidores. Além do mais, isto está de tal modo enviesado que ninguém é capaz de debater estas questões de um modo sério. Nestes tempos ndamos assim. De um lado, prometem a imortalidade daqui a não sei quantos anos. Do outro lado, por causa do aquecimento global e da predação assaz dos ecossistemas, anunciam o fim do mundo também daqui a não sei quantos anos. Ai eu!

O processo de santificação da ciência é uma ilusão perigosa. Como dizia François Jacob, «nada é mais perigoso do que a certeza de se ter razão». Porque com ela se pode manipular muito para além de gâmetas ou embriões. Pode-se inclusivamente manipular sociedades e implementar vontades. E ganhar muito dinheiro. Ou já se esqueceram dos tempos em que a ciência era usada com fins sociais absolutamente perniciosos? Lembram-se dos pressupostos da eugenia? Eu não me esqueço. E a gente não se pode esquecer. Porque se nos esquecermos disto, se aceitarmos tudo isto com uma passividade crítica própria de um homem térmita, se deixarmos que a ciência seja abusivamente mostrada ao grande público como uma espécie de Boa Nova, então será o fim da ciência. É por isso que hoje, agora, já, é urgente que se advirta as pessoas para não acreditarem em tudo aquilo que lêem ou que ouvem. Até mesmo quando é escrito ou dito por cientistas.