Como fabricar um quebra-cabeça impossível

novembro, 2009

Um aspecto interessante da Ciência é que para cada pergunta que é respondida, várias outras são feitas, o que, em teoria, torna o processo de investigação infinito. Dessa forma, a cada dia que passa, assuntos cada vez mais específicos vão sendo pesquisados e descobertos. Quando essas novas descobertas são divulgadas para a comunidade científica nas revistas especializadas, os títulos dos artigos até assustam, como por exemplo, ABA-Activated SnRK2 Protein Kinase is Required for Dehydration Stress Signaling in Arabidopsis”.

Arabidopsis é o “apelido” da espécie Arabidopsis thaliana, uma planta muito famosa entre os geneticistas por que ela foi a primeira planta que teve o genoma seqüenciado. Assim, um número muito grande de pesquisadores trabalha com essa planta, mas não por que ela seja especialmente interessante ou bonita ou importante. Escolhem-na por que ela já tem o genoma seqüenciado, e é isso.

Tá…Então os cientistas que fizeram essa pesquisa (que, se você quiser, pode tentar ler aqui) descobriram que para que o processo de sinalização de stress por desidratação dessa planta ocorra, um tipo específico de proteína Kinase é ativado pelo hormônio vegetal ABA (Ácido abscísico). Para isso, eles utilizaram métodos extremamente complexos e máquinas que ninguém sabe que existem. É necessário muito treino para saber mexer nessas máquinas e muito estudo – muito mesmo! – para entender os processos que estão envolvidos nesse tipo de pesquisa, ou seja, pesquisar isso não é pra qualquer um; é preciso ser um especialista na área.

Aí entra uma questão fundamental para a Ciência. É muito provável que os pesquisadores que fizeram essa descoberta não façam a menor idéia de onde essa planta vive, de suas estratégias reprodutivas, de suas relações com os outros seres vivos de seu habitat, etc. Em momento algum da pesquisa esses “detalhes” foram importantes. Esses pesquisadores se especializam tanto na área da Biologia Molecular que não conseguem mais ver as coisas de uma forma ampla.

Isso não acontece só na área da Biologia Molecular. Acontece em todas as áreas de todas as Ciências. Quanto mais a pesquisa sobre determinado assunto avança, mais especialista tem que ser o sujeito que vai dar prosseguimento a essas pesquisas. Dessa forma, não existem mais “físicos”; existem físicos especialistas em física nuclear, físicos especialistas em transmissões de alta freqüência, e assim por diante. Esses profissionais, no processo de sua formação altamente especializada, acabam deixando de estudar outras coisas importantes, e muitas vezes “de propósito”. Quem estuda abelhas acha que as abelhas são os bichos mais legais do mundo e não está nem aí pros ursos ou pras bactérias. Já quem estuda gimnospermas não quer nem saber das abelhas, e muito menos dos fungos ou das andorinhas. É criado um vínculo forte com a área de estudo, como se ela fosse mais importante do que todas as outras, e os cientistas não se interessam mais em estudar coisas que não sejam de sua área – e pior, isso é valorizado, porque quanto mais especialista for o cara, melhor.

Como atualmente a maioria das áreas de pesquisa já está bem desenvolvida, a maior parte dos cientistas de hoje são especialistas. A questão é: para onde isso vai nos levar? Os cientistas que têm um conhecimento amplo e uma visão integrada estão dando lugar à “Zé Bitolas” tolos o suficiente para achar que uma área do conhecimento é mais importante do que outra.

Enquanto por um lado a especialização é necessária para que a Ciência continue progredindo, os cientistas que se especializam perdem a capacidade de integrar o conhecimento que eles mesmo produzem com o conhecimento que o resto da humanidade já construiu historicamente, porque para eles não é interessante estudar esse “resto”. Hoje temos uma quantidade absurdamente enorme de artigos publicados sobre coisas altamente específicas. Amanhã pode ser que essa infinidade de artigos se transforme num quebra-cabeça impossível, não porque os artigos não têm conexão entre si, mas porque não vai ter mais ninguém capaz de perceber que eles formam uma figura; cada um vai estar preocupado apenas com a sua pecinha.

Auguste Conte, em seu Curso de Filosofia Positiva, já em 1830 previa esse momento. Ele dizia que a Ciência é como uma árvore: ela vai se ramificando em vários galhos, que vão se ramificando em galhos cada vez menores e menores, mas todos os galhos estão de alguma forma conectados ao tronco principal, e ele advertia fortemente para que isso nunca fosse esquecido.

Nem 200 anos se passaram e agora parece que estamos tentando plantar uma árvore para cada área do conhecimento. É preciso que a formação polivalente dos cientistas seja valorizada e que a Ciência ande mais devagar para o seu próprio bem.