Creation: uma crítica

janeiro, 2010

Quando li a notícia de que estavam fazendo um filme sobre como Darwin escreveu o Origem das Espécies fiquei bastante empolgado. Primeiro por que qualquer um que leu o livro biográfico escrito por Adrian Desmond e James Moore sabe que esta é uma excelente história a ser contada. Segundo por que o ator encarregado de interpretar o naturalista inglês é o Paul Bettany que já tinha interpretado um outro naturalista, fictício é verdade mas tremendamente inspirado em Darwin, no filme Mestre dos Mares.

Tive a oportunidade de assistir ao filme ontem que, numa tentativa infeliz de ironia, foi chamado de Creation. Tenho más notícias. Vou resumir o assunto já que os próximos parágrafos vão conter algum spoiler e eu não quero estragar nada para ninguém. O filme não se sustenta nem como filme, nem como cinebiografia. Aviso novamente, como reforço, OS PRÓXIMOS PARÁGRAFOS PODEM CONTER SPOILERS, portanto, siga por própria conta e risco.

Esteriótipos e Exageros

Antes de mais nada devo reforçar que toda a crítica que faço é, sobretudo, por oposição ao livro do Desmond e Moore. Obra que não tem relação direta com o filme, que foi baseado no livro Annie’s Box, de Randal Keynes que é também tataraneto de Darwin.

O filme se divide em duas linhas de tempo. A primeira tem como ponto central a figura de Anne Darwin, mostrando a relação privilegiada entre Charles e sua segunda, e preferida, filha até sua devastadora morte aos 10 anos de idade. A segunda linha de tempo mostra Darwin lutando contra sua doença e sua tentativa de terminar o Origem das Espécies para publicação.

A primeira coisa que me incomodou bastante é a maneira como tudo é construído. Tudo muito exagerado, tudo muito esteriotipado. Darwin é o gênio indomável que tenta conter a si próprio em respeito ao amor que sente por sua esposa, Emma, a beata que em nome da religião vê, sem reclamar, sua filha sendo torturada, ao mesmo tempo em que suprime os impulsos do marido na busca de salvação para sua alma. Anne é a criança gênio, feita à imagem e semelhança do pai.

E por exagerar transforma o “naturalista atormentado” de Desmond e Moore em um “naturalista alucinado”. Darwin passa metade do filme tendo visões do fantasma de sua filha, em uma crise existencial que relaciona o Origem das Espécies com a morte de Anne, com as dificuldades do casamento, com a doença misteriosa.

Para o filme, o “Origem” não é um livro científico, mas um livro destinado a matar Deus, que só vê a luz do dia quando seu autor finalmente faz as pazes consigo mesmo, com sua esposa beata, com sua filha morta e com seu ateísmo latente. E é essa preocupação em a todo instante colocar a ciência em contraposição com a religião me leva a um segundo ponto.

Quando não se tem conteúdo, apele para a polêmica.

Creation faz exatamente isso. O filme não consegue prender o expectador pela força da história de como Darwin escreveu seu famoso livro. Ao invés disso, aposta todas as fichas em polêmicas rasas e que estão na moda. Não há uma só oportunidade de reforçar a briga entre ciência e religião que seja perdida. Darwin é retratado como um ateu enrustido, mesmo antes da morte de sua filha. A própria Anne é mostrada como uma criança que não acredita nos ensinamentos da bíblia, sendo penalizada e torturada por seu tutor religioso.

O nome do filme, como já disse anteriormente, é um trocadilho barato feito exclusivamente com o intuito de provocar polêmica. Nem mesmo o caso Darwin x Wallace passa batido.

Por fim, fiquei excepcionalmente desapontado. Não é de hoje que espero um bom filme sobre Darwin e, quando ele finalmente chega, é feito nas coxas. Por outro lado, Charles é uma figura tão rica em termos de história que o melhor seria uma série de TV. Em todo caso, não assistam, a não ser a título de curiosidade.

O duro é ver uma excelente idéia ser tão ridiculamente mal aproveitada. No final das contas, não temos nem 10 minutos de cenas que são ativamente relacionadas com a “criação” do Origem das Espécies. Nem mesmo a presença da lindíssima Jennifer Connelly salva. Aliás, se você quer ver Jennifer Connelly como esposa de um cientista, uma opção muito melhor é assistir ao Uma mente brilhante que, ao menos como filme, supera e muito essa aberração chamada Creation.