Darwin não roubou Wallace!

setembro, 2017

A uns bons anos atrás fui a uma palestra sobre evolução de um professor da USP. Não me lembro o nome desse senhor, lembro que foi no SESC do Ipiranga e eu ainda estava na faculdade, então deve ter sido entre 2004 ou 2005. Em dado momento eles se pôs a ofender efusivamente a memória de Darwin. Disse que ele era um inepto, que suas ideias não eram suas, que ele havia roubado Wallace.

A plateia foi a loucura. Riam e comemoravam a fala daquele professor, como se ele fosse um rebelde desafiando uma mentira que ninguém, a não ser ele, tem culhões de desafiar.

Na época eu já tinha lido Darwin, a gigante biografia escrita por Adrian Desmond e James Moore, e já sabia que na fala daquele professor havia apenas ignorância.

Darwin e Wallace

Darwin e Wallace

Não se pinta a Mona Lisa de um dia para o outro.

De acordo com os dois autores, com base em cartas, outros documentos e fontes primárias, Darwin foi lentamente chegando em sua teoria evolutiva ao longo dos anos num processo que começa durante sua viagem ao redor do mundo e termina décadas depois de retornar à Inglaterra.

Há textos e cartas que mostram que Darwin começa a considerar suas ideias evolucionistas por volta de 1839. Há uma carta escrita para seu colega Lyell em 1841 já exibindo um pouco do que viria a ser sua teoria.

Houve também diferentes versões do escrito final. Algumas dessas versões eram enormes e foram revisadas pela esposa de Darwin, Emma. Muitos dos amigos de Darwin chegaram a ler e opinar em várias das versões de sua teoria evolutiva ao longo do tempo, muitas vezes por cartas, o que registra o fato de que os pensamentos evolucionistas de Darwin foram tomando forma ao longo de décadas.

Quando já estava relativamente confiante de seu trabalho, em 1844 um livro chamado Vestígios da História Natural da Criação (tradução livre aqui, desculpem o mal trabalho) é publicado defendendo ideias lamarckistas, reacendendo uma série de polêmicas. As críticas aos Vestígios e a noção de evolução, ou mesmo de mudança nas espécies naturais ao longo das eras, foram muitas e muito acaloradas. Darwin era muito reservado e doente, evitava se envolver em discussões e polêmicas e, por conta disso, acabou engavetando sua teoria por um longo período.

Durante este tempo Darwin escreveu uma das maiores obras sobre invertebrados marinhos, ainda hoje muito reverenciada. Sua misteriosa doença se agravou e ele passou por tratamentos estranhos que pouco ajudavam e o faziam inútil por dias, as vezes semanas. Passou pelo luto de perder uma de suas filhas preferidas.

as, por volta de 1855, Darwin se recupera e volta a trabalhar em sua teoria evolutiva. Novamente o apoio dos amigos foi decisivo. Por conta das críticas ao Vestígios e também pelo amadurecimento de suas ideias, Darwin reescreve praticamente tudo o que já havia escrito.

Começa também a realizar experimento e se corresponder com pessoas do mundo todo, em busca de um maior suporte experimental e observacional de sua teoria. A preocupação exacerbada de Darwin, claro, era com as críticas que certamente viriam.

Em uma das ocasiões em que exibiu secretamente seus rascunhos do que viria a ser o seu mais famoso livro, Lyell avisou Darwin de que ele deveria publicar as suas ideias o quanto antes, sob o risco de outra pessoa o fazer primeiro. Darwin alegou que não poderia fazer isso sem mais alguns anos de trabalho, mas que se soubesse de alguém trabalhando no mesmo assunto, publicaria algo rapidamente.

Foi neste ponto, em 1958, que Darwin recebeu a famosa carta de Wallace.

 

A carta de Wallace

Alfred Roussel Wallace era um naturalista britânico não muito diferente de Darwin. Vivia a vida colhendo espécies de animais e plantas pelos lugares do mundo em que estava. Conheceu Darwin através de textos que ele havia publicado sobre sua própria viagem ao redor do mundo.

Assim como muitos naturalistas da época se envolveu com as discussões sobre teorias evolutivas. Se baseou em textos do próprio Darwin (que embora não fossem sobre evolução traziam uma sugestão de que isso poderia acontecer) bem como Lamarck e até do Vestígios.

Se correspondeu com Darwin sobre o tema algumas vezes, mas suas ideias eram muito embrionárias e, na opinião de Darwin, pareciam buscar um equilíbrio entre a criação religiosa e evolução num sentido mais natural.

Darwin, em correspondência a Lyell, chega a confessar que não leu ou não deu a atenção devida as ideias evolutivas de Wallace por achar que ele as usava para justificar sua crença em um criador, no entanto, usou os serviços de coleta de animais de Wallace para juntar dados para a sua própria teoria.

O que se sabe é que Wallace, de forma independente, de fato propõe um mecanismo evolutivo quase idêntico ao de Darwin numa carta ao próprio. Pede ainda que envie a Lyell para que ele possa dizer o que acha.

Darwin assim o faz, anexando junto uma carta a Lyell lamentando não ter publicado suas ideias antes e sugerindo que deixaria para Wallace os créditos da teoria.

Lyell no entanto oferece uma outra alternativa. Decide que os trabalhos de Darwin e Wallace fossem apresentados em conjunto na Sociedade Linneana, o equivalente da época a publicar um artigo em uma revista científica, e que os créditos sobre a teoria fossem dados aos dois.

Darwin publicaria o “Origem das espécies através da seleção natural” no ano seguinte, em 1859, depois de trabalhar em sua teoria por mais de vinte anos.

 

Por que ainda se questiona a moral de Darwin?

Minha suspeita é a de que é muito fácil se relacionar com a dor do “underdog” traído e esquecido pela história. Todo mundo conhece o sentimento de derrota e injustiça. É muito sedutor comprar a ideia de que um acadêmico unânime conquistou sua fama na base do roubo intelectual, especialmente se você faz parte da academia.

Mas mesmo que você não faça, o sentimento de que o sucesso alheio é fruto de desonestidade, no Brasil, é quase uma unanimidade. Tenho certeza de que há explicações sociais, neurológicas e culturais para isso. Aposto que envolve a escassez típica de um sistema capitalista.

Então, quando anos atrás escutei aquele professor falando de como Darwin era incapaz de ter tido uma ideia tão revolucionaria, ele poderia na verdade estar externalizando a frustração de quem sabe, nunca ter tido o reconhecimento que Darwin tem apesar de todo seu esforço. A plateia devia estar se sentindo igualmente frustrada e vingada.

embora eu naquela ocasião não ter comprado o barulho, sei exatamente como é o sentimento frustrante de não receber o reconhecimento que minha expectativa diz que eu deveria receber. “Been there done that”.

Seja como for, e a despeito de qualquer explicação que se pode dar, o fato é que embora o mecanismo básico da seleção natural tenha sido cocriado por Darwin Wallace, foi Darwin quem realmente o explorou de forma profunda e fomentou todas as discussões existentes até hoje.

Darwin não roubou Wallace, nem Wallace foi varrido para baixo do tapete da história. Eles podem ser ambos pais da mesma criança, mas foi Darwin quem preparou seu filho para o mundo. Vamos aceitar isso de uma vez e seguir em frente.