Desinteresse crônico

janeiro, 2011

Observe os diálogos abaixo:

(1)

– Ei, estou lendo os livros da saga Crepúsculo e estou adorando! Tem muito mais emoção do que nos filmes! Você já leu?

– Eu não cara… Deus me livre! Me dá enjôo só de pensar em quanta bobagem deve estar escrita num livro sobre vampirinhos apaixonados! Não sei como você pode gostar de coisas tão juvenis!

– Ah, para! Se você não leu, não pode falar nada do livro!

– Mas não é possível que essa história seja boa… Me disseram que quando esses vampiros saem no sol, eles viram purpurina! Fala sério, né?

– Nossa, você é muito preconceituoso e cabeça dura! Quando forma uma idéia, ou melhor, copia de alguém, não se abre pra nenhum outro ponto de vista…

(2)

– Você viu que descobriram indícios de respiração unidirecional em crocodilianos? Isso não é demais?! Até então se pensava que só as aves tinham esse tipo de respiração!

– Nossa, mas como assim? Os crocodilos não passam nem perto de ter as mesmas demandas metabólicas que as aves…

– Exato! E eles nem são o grupo de répteis que deu origem às aves, o que indica que esse tipo de respiração pode ser simplesiomórfico pra maioria dos grupos de répteis do final do Triássico.

– Uau… Se for assim mesmo, então muito do que a gente conhece sobre evolução dos vertebrados terrestres vai ter que ser revisto.

Onde poderia ter acontecido cada uma dessas conversas? A primeira possivelmente em um lugar comum, como uma praça, um bar, um ônibus, na sala de estar, no MSN… Enfim, praticamente em qualquer lugar. Mas a segunda, por algum motivo, parece que só poderia acontecer num ambiente acadêmico: alunos nerds conversando num final de palestra ou talvez docentes batendo papo num café. O segundo diálogo parece ser deslocado, como se fosse preciso um certo nível de “anormalidade” por parte dos participantes para que ele aconteça. Afinal de contas, quem em sã consciência conversaria sobre… simplesiomorfias?

Mas, se pensarmos bem, qual é o problema em conversar sobre simplesiomorfias? Porque as pessoas acompanham de perto os lançamentos de CDs, filmes e livros que gostam, mas não fazem o mesmo esforço para acompanhar as descobertas científicas de alguma área que tenham interesse? A resposta sincera é triste: porque as pessoas não têm muito interesse pela Ciência. Por algum motivo, interessa a todos saber em detalhes a biografia daquele artista bacana, mas não a dos cientistas e outros personagens que, de certa forma, moldaram a forma como enxergamos as coisas. Todo mundo quer saber da onde a Lady Gaga tirou a idéia de usar uma roupa de carne, mas ninguém quer saber da onde Copérnico tirou a idéia de que a Terra gira em torno do Sol ou Darwin tirou a idéia da seleção natural.

Por muito tempo a Ciência era chamada de filosofia natural, e um sábio certa vez disse que “o início da filosofia é a admiração. A filosofia é a expressão humana da curiosidade sobre tudo, sua tentativa de entender o mundo por meio de seu intelecto”. Assim, a Ciência seria uma extensão da curiosidade humana, que começa com a admiração. Mas ninguém mais se admira com as estrelas ou os animais, e sim com reality shows e escândalos dos famosos.

Por que isso acontece? O que tem de errado com a Ciência? Por um lado, ninguém discorda que ela é absolutamente importante pra humanidade, mas, por outro, parece haver um consenso de que não é importante conhecer a história da Ciência, ou saber como ela funciona. Na verdade, até mesmo o conhecimento construído por ela parece entediar (ao invés de fascinar) muita gente. “Ah, respiração unidirecional…legal…”

Talvez a Ciência seja chata e entediante, e por isso atraia poucas pessoas. Mas pode ser que não. Talvez ela seja formidável e instigante, mas por algum motivo as pessoas não consigam perceber isso. Pesquisas sobre a imagem pública da Ciência revelam que o cidadão comum sabe muito pouco a respeito das práticas científicas e tem um domínio limitado de alguns conceitos centrais. A possibilidade de a Ciência ser chata ainda não está descartada, mas essas pesquisas mostram que a Ciência que as pessoas desgostam não é a mesma que é praticada laboratórios adentro.

Sendo assim, é bem possível que as pessoas não se interessem pela Ciência por não conhecê-la muito bem. Se for isso, então seria suficiente que as pessoas conhecessem a Ciência mais de perto. Podemos com justiça nos rebelar contra nosso sistema de ensino, que tem aulas de “ciências” em todos os 12 anos do ensino básico e mesmo assim forma alunos pouco proficientes. A escola (e os governos que definem e executam suas diretrizes) tem, sim, uma grande parcela de culpa nessa questão. Mas colocar a culpa no governo é uma das formas mais clássicas de se eximir de responsabilidade. Além disso, quando falamos de mudanças curriculares nas escolas, estamos falando de um prazo bastante longo; décadas.

Haveria outras formas de aumentar o conhecimento e o interesse do grande público pela Ciência? Talvez um dos grandes problemas seja a forma dogmática com que a Ciência chega ao público. As pessoas podem discordar a respeito de se um livro ou um CD é bom ou ruim, mas parecem não achar que podem discordar das coisas que vêm da Ciência. Se tudo que a Ciência diz é certo e definitivo, então realmente não tem muito o que ficar conversando sobre ela. Fosse o campo aberto de debates da Ciência revelado, um grande passo seria dado.

O que poderia, então, ser feito? Será que se os jornais tivessem um caderno de Ciência num formato diferenciado, ou as revistas que prometem dietas milagrosas falassem um pouco de fisiologia, as coisas poderiam melhorar? E se as revistas discutissem mais Ciência e menos a vida das celebridades (ou incluíssem cientistas como celebridades e falassem sobre a vida deles)? E se os telejornais e documentários expusessem as descobertas científicas num tom menos impositivo? Será que exposições científicas a preços acessíveis ajudariam? Que tal trocar o “show da Física” por quadros mais condizentes com a prática científica nos programas de domingo? E se cientistas fossem convidados com mais freqüência pra talk shows e os livros de divulgação fossem mais baratos? Viajando um pouco mais: e se as chapinhas viessem com uma explicação de como elas deixam o cabelo liso no manual, ou se os antibióticos contassem a história da descoberta acidental da penicilina na bula? E se na etiqueta dos cobertores viesse escrito “você sabia que não é cobertor que te esquenta, mas é você que esquenta o cobertor?”

Exageros a parte, a mensagem que fica é que as pessoas não conhecem a Ciência, mas há diversas formas de tentar reverter a situação. Algumas podem estar a nosso alcance: desafiar o irmão caçula a descobrir porque o cacto morre se for regado ou explicar pra mãe porque a cebola faz chorar já pode ser um começo. Puxar assuntos científicos na roda de amigos também pode ajudar (falar mal do show da Física é uma boa pedida!).  Podemos ir além e enviar cartas pro jornal que assinamos reclamando da finura do caderno de Ciência ou descer a lenha em portais na internet que divulgam que os cientistas da NASA descobriram uma “bactéria alienígena” ou que “o ornitorrinco é uma mistura de ave, réptil e mamífero”. Indicar e emprestar livros de divulgação pros amigos também é válido. São coisas pequenas que podem fazer alguma diferença.

Ou não. O buraco pode ser mais em baixo. Pouca gente se interessa por política e economia também, e esses temas são bem melhor divulgados na mídia do que a Ciência. Talvez o desinteresse crônico das pessoas seja um sintoma do fim dos tempos. Esperemos que não.