Divulgação Científica, folias, confetes e serpentinas

janeiro, 2009

1ª versão: Revista Vox Science (Núcleo José Reis de Divulgação Científica)
2ª versão, atualizada: Polegar Opositor

Nas ladeiras de Olinda um pierrô apaixonado, que vivia só cantando, acabou chorando quando viu sua colombina no cordão de Albert Einstein, um boneco gigante no meio da multidão. Isso foi em 2005, e foi a primeira vez do bloco “Com Ciência na Cabeça e Frevo no Pé”, fundado pelo Espaço Ciência, pelo Cenine/UFPE e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência de Pernambuco (SBPC-PE). Já em 2006, quanto riso, oh, quanta alegria, mais de mil foliões no maracatu e um arlequim que ficou chorando o amor de colombina, que só tinha asas para um Santos Dumont em comemoração aos 100 anos do vôo do 14 Bis. Ah, se você fosse sincera… No outro ano foi a vez de José Leite Lopes, físico pernambucano, e a colombina dando viva ao maioral. Ela quer um lindo apartamento, com porteiro e elevador. E sob o tema “Evolução e Diversidade”, Charles Darwin foi o escalado para arrasar pierrôs e arlequins em 2008, ano em que o bloco marca a abertura oficial da V Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de Pernambuco.

Em 2009 os homenageados da vez serão os cientistas Carlos Chagas e Galileu Galilei. É, as águas vão rolar. Por enquanto elas estão sendo puxadas por professores universitários, estudantes e representantes da comunidade científica preocupados com o progresso da ciência, e sua divulgação. Pois então, ei!, vai com jeito, vai, se não um dia, a casa cai.

E qual é o jeito da Divulgação Científica? Em Pernambuco é o frevo que conta a história e homenageia a ciência através de seus personagens. Já as marchas de carnaval pouco têm a ver com isso, dizem o cotidiano e o amor. Elas pertencem a um gênero musical que esteve presente nos carnavais brasileiros entre os anos 20 e 60, altura em que começaram a ser substituídas pelos enredos das escolas de samba. Me leva que eu vou, sonho meu, atrás do samba-enredo há uma ilustração poético-melódica que possui um estilo característico e versejar próprio. Trata-se de uma expressão de linguagem popular, não lhe sendo exigidos esquemas fixos de métrica e rima. Bom para a divulgação científica? Com certeza. A linguagem alegórica escolhida pelos carnavalescos explode corações na maior felicidade e atinge o público em cheio. Candeeiro, candeeiro ó, a pedra do teu anel brilha mais do que o sol!

Pode-se ver, saber e contar de um tudo no maior show da terra. Beija Flor, em 1978, cantou a criação do mundo na tradição nagô, iererê, surge a vida com esplendor. Ciências naturais, da terra, da saúde e humanas. Vai de um tudo para a avenida. Teu cenário é uma beleza. Cada escola apresenta um tema, a partir de um roteiro seqüencial e dos argumentos que fazem uso: alas, destaques, fantasias, adereços e alegorias. Em conjunto, todos devem retratar uma época se o enredo girar em torno de acontecimentos históricos, ou retratar os elementos tradicionais e característicos em casos de temas folclóricos, regionais ou religiosos. E porque através das alegorias, realidades abstratas podem ser concretizadas, as ciências sociais, políticas e econômicas brincam no mar. Elas brincam na areia, no balanço das ondas, e na avenida elas semeiam a vida, o negro, a cultura, a evolução, as tradições, a imigração, a colonização, a arte, os sertanejos, a ecologia, a biodiversidade e os grandes personagens da nossa história: pensadores, sociólogos, artistas, cientistas, políticos. Às vezes nas doses de uma a crítica: liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós. Outras, nas vezes de uma dúvida: como será o amanhã, responda quem quiser. E o realejo diz, que a divulgação científica será feliz entre folias, confetes e serpentinas.