Evolução ainda é Tabu? A importância da comunicação de conceitos

abril, 2013

Num país laico “para inglês ver”, falar sobre qualquer coisa que desafie a dominância religiosa é um terreno perigoso. Boa parte das escolas imputa a seus estudantes algum juízo de valor religioso, mesmo quando ela é declaradamente laica. Quantas aulas minhas do ensino fundamental, no SESI, não se iniciaram com os professores rezando o “Pai Nosso” com a turma? Quantas salas de aula não tinham um crucifixo na parede? E não é desconhecido o bullying contra alunos que não participam dessas rotinas religiosas (e quem não viu este vídeo ainda, vale muito a pena).

A maioria das disciplinas não tem muitos problemas com a preferência religiosa de seus alunos, já que os conceitos ensinados dificilmente apresentam conflito com a fé do indivíduo. Dessa forma, a imposição velada de aspectos religiosos não é vista como prejudicial por boa parte do corpo discente. Mas quando os aspectos que devem ser abordados em aula mexem com a fé, como lidar?

E essa situação é comum e recorrente nas aulas de ciências. Tempo geológico, conceitos de astronomia e, em especial, evolução são temas que geram conflito direto com as afirmações ortodoxas da maioria das religiões. Infelizmente, muitos estudantes e professores se esquecem de separar racionalismo e fé. São esferas diferentes e, portanto, não devem ser trabalhadas como o mesmo tipo de assunto.

T de Teoria ou de Tabu?

Nesse âmbito, a evolução não deveria ser tabu, certo? A teoria da evolução é uma teoria, como o próprio nome diz, embasada em uma gama de evidências e vem sendo esculpida com a incorporação de mais informações ao longo de séculos. Ela não deve ser tratada pelo escopo da fé, mas do racionalismo, já que não existe o “não acreditar” na evolução, apenas a ignorância sobre como a ciência funciona, e que teoria é um dos maiores “status” que algo em ciência pode ter. Ignorar o ensino do tempo geológico, da evolução e de outros tantos temas só afasta a população em geral do processo científico, e dá margem a propostas controversas como o abandono no ensino de ciências em parte dos anos escolares.

Entretanto, alguns tópicos de ciências desafiam afirmações mais ortodoxas de diversas religiões, e todos sabem que entrar em assuntos que desafiam a religião de uma pessoa é terreno mais perigoso que xingar o time de futebol (ou mesmo a mãe). Mexer com a fé é algo delicado, ainda mais porque a primeira reação do ouvinte é se sentir desafiado e teimosamente não aceitar quaisquer explicações racionais. Aos olhos daqueles que vêem o mundo objetivamente é difícil fazer concessões na abordagem, mas ofensividade cria apenas um abismo no diálogo. Há maneiras diferentes de aproximar a comunidade geral do mundo científico, e o cuidado na escolha das palavras importa mais do que se imagina.

Cuidado na manipulação

Uma aproximação interessante é aquela de um artigo publicado na edição de fevereiro da revista Ciência Hoje, sobre o que os jovens brasileiros pensam sobre evolução e religião. Ela demonstra como o entrevistado responde de maneira a satisfazer a expectativa que presume ser a de seu interlocutor. A resposta que pode ofender dificilmente é escolhida, mesmo que seja mais próxima de suas convicções pessoais, de maneira que diversas pesquisas de opinião tendenciosas elaboram as perguntas de maneira a conduzir a resposta do entrevistado àquela que o financiador da pesquisa deseja. O exemplo levantado pela reportagem é aquele feito em uma enquete na Inglaterra, a qual apresenta a seguinte frase:

O evolucionismo ateísta, que afirma que a evolução torna desnecessário e absurdo pensar em Deus, é…

Para tal frase, eram oferecidas cinco alternativas de resposta, das quais “certamente falso” e “provavelmente falso” foram as mais votadas, respectivamente. Com a pergunta colocada com tanto juízo de valor, não surpreende o tipo de resposta mais votado.

Acima é explicitado um caso clássico de pesquisa mal feita, tendenciosa e manipuladora, na qual há um esforço deliberado de induzir a um tipo de resposta, constrangendo o entrevistado.

Visando a uma resposta mais neutra, os autores do artigo da Ciência Hoje elaboraram um questionário que avaliava a crença religiosa e posteriormente abordava questões sobre evolução, para ver se a maioria dos jovens brasileiros acha inconcebível ou conciliador apresentar uma fé religiosa e aceitar a teoria da evolução. Nesse questionário foram feitas perguntas sobre a preferência religiosa do entrevistado e outras que mediriam a concordância com afirmações de cunho evolutivo. As pessoas responderam se concordavam ou não com afirmações como “As espécies atuais de animais e plantas se originaram de outras espécies do passado.”; “A evolução ocorre tanto em plantas como em animais.” e “O ser humano se originou da mesma forma que as demais espécies biológicas.”. Qual não foi a agradável surpresa de se perceber que a maioria dos estudantes concordava com tais informações, demonstrando que o jovem médio concilia sua crença religiosa com evidências científicas, e não apresenta adesão total aos dogmas religiosos.

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 Como você se comunica?

Dessa forma, podemos perceber que a abordagem de temas científicos faz diferença na sua aceitação primária. Obviamente, o conhecimento pormenorizado de temas como evolução é ainda tópico que precisa ser trabalhado melhor, mas a abordagem primária não ofensiva pode aproximar a população geral da ciência. Dessa forma, temas como evolução podem sair da categoria de tabu e serem devidamente tratados e entendidos mesmo por aqueles cujos dogmas religiosos não seriam totalmente compatíveis com esta teoria. E, quem sabe no futuro, aqueles que se interessarem mais por ciência possam aderir conscientemente ao racionalismo.