Minha contribuição sobre a polêmica entrevista do Malafaia

fevereiro, 2013

AVISO: Publiquei este pequeno texto originalmente no Facebook e decidi que ele cabia muito bem aqui no Polegar, então estou postando ele por aqui também.

Foi um tormento incrível assistir a esta entrevista não só pelos motivos evidentes (homofobia, proselitismo religioso, campo de distorção da realidade, festival de porcentagens que não dizem absolutamente nada, dados com fontes não citadas e um desconhecimento geral do processo científico como um todo e da realidade de maneira pontuada) mas também por outro, bem mais velado. O dito pastor é claramente um analfabeto no que diz respeito à ciência e sabendo que não é o único, usa sua exposição para levar os mais ingênuos ao raciocínio equivocado sobre a mesma.

"Amo os homossexuais como amos os bandidos" - Malafaia, Silas

“Amo os homossexuais como amos os bandidos” – Malafaia, Silas

Antes de continuar quero dizer que vi o vídeo do Eli Vieira, que é um doutorando em genética e que rebateu com competência o mar de bobagens que o Malafaia disse no que diz respeito a esta área da ciência em específico, e não vou falar sobre genética aqui, ele já disse tudo. Também estou atendendo à convocação feita pelo deputado Jean Wyllys que pediu para que os homens e mulheres de ciência se levantassem e defendessem nossa atividade dessa apropriação medíocre e bizarra feita pelo pastor no programa.

Como parece haver nas pessoas que defendem o pastor uma certa necessidade em desqualificar quem o rebate de acordo com sua qualificação acadêmica, já mostro logo o tamanho dos meus documentos. Sou graduado e licenciado em ciências biológicas e mestre em história e filosofia das ciências o que, julgo eu e a Universidade de Lisboa que me deu nota 17 de 20 na minha defesa de dissertação de mestrado, é o suficiente pra não só compreender razoavelmente daquilo que vou escrever a seguir mas desqualificar opiniões baseadas em interpretações errôneas de fontes desconhecidas por uma pessoa que não tem, no mínimo, o mesmo grau de intimidade com o assunto quanto eu tenho.

Se o último parágrafo lhe pareceu arrogante demais, não vou me desculpar porque não é pecado algum atestar um fato. Só estou estabelecendo a linha clara de que você pode e deve discordar e discutir tudo o que escreverei na sequência, mas só depois de julgar compreender o assunto na mesma extensão que eu. Você não precisa sequer dos mesmos diplomas que eu tenho, apenas da mesma carga de conhecimento, ou uma que seja maior. Se assim o for, fique a vontade para me mandar enfiar meus documentos aonde lhe convir mais e deixe sua opinião.

Ok, foi uma longa mas necessária introdução apenas para eu dizer aqui que além de não entender nada de genética o pastor Malafaia também não entende nada dos processos íntimos da ciência. Ele diz lá pelo fim da entrevista usando a evolução como exemplo, e eu não estou citando o homem aqui mas descrevendo a ideia geral do que ele quis dizer, que a ciência produz muitas teorias e que estas teorias não passam disso, são o que são por não serem observáveis e que portanto ocupam um lugar menor no corpo de conhecimento científico. Não sei quantos de vocês leram a resposta que ele deu ao vídeo do Eli Vieira, o link é este caso não tenham lido, mas o argumento é basicamente o mesmo… Para o pastor Malafaia, não há provas científicas que o agradem, apenas teorias que não devem ser levadas a sério pois são, afinal, apenas teorias.

É um argumento bastante comum na cabeça das pessoas que discutem resultados científicos que desafiam suas visões de mundo e a consistência de suas realidades inventadas, é também um argumento bastante comum na cabeça daqueles que não entendem nada sobre ciência, não sabem do que estão falando, não se interessam em saber e encontram conforto em sua própria ignorância.

É preciso já fazer uma distinção simples que o pastor Malafaia ignora de má fé, que é a separação que há entre teoria e a observação de um fato. Por exemplo, vemos todos os dias, desde que nascemos, desde que o homem caminha pela crosta sólida deste pálido ponto azul que chamamos de casa, que qualquer objeto quando solto no ar tem essa tendência conveniente e por vezes irritante de se mover insistentemente em direção ao centro do planeta. Em outras palavras, as coisas caem. Não importa o quão alto você atire uma maçã (ok, importa sim, mas vamos considerar apenas a força de um braço humano, ainda que este humano seja o Arnold Schwarzenegger) ela SEMPRE irá cair. Oras, para essa coisa invisível que age sobre a maçã, para esta força irresistível que parece atrair todas as coisas damos o nome de gravidade.

Pois bem, a gravidade é um fato. Não é um fato exclusivamente científico, mas sim um fato da vida, do Universo, de tudo o mais. Mas temos também isso que chamamos de teoria gravitacional. E o que seria a teoria gravitacional? Bem, trata-se de uma explicação (na verdade explicações, há mais de uma teoria gravitacional) para a natureza da gravidade, seu funcionamento, suas particularidades, efeitos e etc.

Reparem portanto que uma teoria é uma explicação para uma observação do mundo, e é mais do que isso. É uma ferramenta de predição do mundo físico. Toda teoria tem em sua base uma observação, mas toda teoria também cria meios para podermos prever coisas que ainda não foram observadas, ou não podem ser observadas ou não sabemos que poderiam ser observadas ou mesmo que existiam até a teoria sugerir o contrário.

Portanto, teorias não são explicações feitas à moda caralha apenas para testar o escopo criativo da mente dos cientistas. Não criamos teorias e depois tentamos observá-las, como diz o pastor. Criamos teorias PORQUE OBSERVAMOS algo e temos essa necessidade incrível de explicar estas coisas que observamos.

Com isso dito, é importante deixar claro duas outras coisas. A primeira é que não há na ciência nenhuma pretensão de se criar verdades absolutas. Deixamos as verdades absolutas para as religiões, para os ignorantes, para os insensatos, os de mente pequena, os aproveitadores e enganadores. Na ciência nos preocupamos em fazer boas perguntas e produzir respostas razoáveis que podem e devem ser testadas e desafiadas à exaustão. Quando descobrimos que uma teoria esta equivocada não nos desesperamos (ok, um pouco) nem tentamos mudar a realidade para que ela se adeque à nossa visão limitada de mundo. Pelo contrário, comemoramos (ok, nem sempre) nossa derrota pois sabemos que é a partir dela que progredimos.

A segunda coisa é que para a ciência, o status máximo que um corpo de conhecimento pode atingir é justamente o de teoria. Quando chamamos algo de teoria isso quer dizer, basicamente, que aquele corpo de conhecimento já passou pelo teste mínimo necessário para ser levado a sério pela comunidade, ou seja, é fundamentado em observações do mundo físico, não possui elementos mágicos e não é fundamentado nos amigos imaginários ou delírios coletivos de um grupo de indivíduos, produz boas explicações e boas implicações, oferece um futuro promissor ou um angulo novo para um problema de forma mais eficiente do que as teorias vigentes. Nem sempre concordamos com as teorias que temos, mas se as discutimos é por que algo de valor elas possuem.

Portanto, uma teoria nunca é “só uma teoria”. Quando damos o nome de teoria a algo não estamos dando um ar de incerteza para aquilo mas justamente elevando aquilo ao grau máximo de respeito que a ciência pode ter por uma ideia. Você pode estar se perguntando se o grau máximo não seria dar a algo o status de lei, afinal, temos leis científicas. Mas não, leis são fenômenos físicos observados com tanta frequência que podemos ter a certeza de que em condições normais estes fenômenos e seus efeitos irão sempre existir. Há, é claro, teorias que abordam justamente o funcionamento e os efeitos destas leis.

Enfim, acho que é isso… Já escrevi demais. Só queria deixar isso tudo registrado aqui para que vocês, meus amigos que eu tanto prezo, não sirvam de massa de manobra a este cidadão ignorante. Não façam como ele e não caiam na conversa dele.

Não há no discurso do Malafaia qualquer coisa científica, ainda que ele se esforce para dar ao seu preconceito um tom de razão. Também não se pode, em ciência, escolher o que acreditamos ou não acreditamos somente com base em nosso gosto pessoal.

Não se pode falar de genética e depois dispensar a evolução como uma ideia tola e não comprovada. Não se pode querer discutir ciência a sério sem entender um conceito tão básico quanto o da teoria.

Silas Malafaia não sabe o que fala, e isso é um fato observável. E não precisamos de uma teoria para explicá-lo, basta uma palavra: ignorância.

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