O outro lado da moeda – um preâmbulo

outubro, 2009

E se um dia você for fazer um plano de saúde e a atendente, muito graciosamente, te disser: “Sinto muito senhor, mas nossa empresa não se interessa em fazer um plano para você. Aquela amostra de sangue que recolhemos do senhor na semana passada acusou que você tem um gene que causa câncer. Não podemos arcar com esses prejuízos. Tenha um bom dia!”.

E se um dia você for matricular seu filho na escola e a secretária disser: “Olha…eu sei que seu filho tem apenas 5 anos de idade, mas acontece que ele tem o gene da agressividade. Não queremos alunos violentos em nossa escola. Sinto muito, não poderemos fazer a matrícula do seu filho, mas posso te passar o nome de algumas escolas que aceitam margin…digo, crianças com esse gene”.

Absurdo demais? Talvez nem tanto. Na verdade, não falta muito para chegarmos lá. Tudo o que falta, aliás, é a certeza absoluta de que o sujeito vai mesmo desenvolver câncer e de que o moleque vai mesmo ser violento – o resto a ambição e a cretinice humana dão conta de fazer. Cientistas não muito gente boa estão trabalhando para que isso aconteça, enquanto nós ficamos aqui, no escuro.

Na área da genética, há um esforço muito grande para tentar associar genes com funções. “Esse gene serve para fazer isso, aquele gene para fazer aquilo, etc.” Muitas vezes, dá certo, e promessas empolgantes são feitas. Terapias e vacinas gênicas são apenas um exemplo. Especulam até que num futuro não tão distante poderemos escolher um conjunto de características, levar no laboratório e esperar nove meses para ter um filho do jeitinho que a gente quer. Mas tem vários tipos de interesses políticos e econômicos por trás dessas coisas; sempre tem. E as coisas nunca são tão simples quanto parecem, e é aí, exatamente nesse ponto (entre milhares de outros), que a Filosofia da Ciência e o pensamento crítico fazem falta ao cidadão.

Na escola todo mundo aprende que “Fenótipo = Genótipo + Meio Ambiente”, mas ninguém para pra pensar o que isso significa. Saber que pintar o cabelo de loiro muda o fenótipo, mas não o genótipo, passa longe de ser suficiente. Estão usando a Ciência pra defender os interesses de uma minoria, e ninguém está percebendo.

A Ciência pode e deve ser questionada. É assim que ela progride, por sinal. Mas isso é um segredinho que, infelizmente, só os cientistas sabem, e enquanto o conhecimento científico for visto como dogmático, as pessoas vão continuar acreditando em “contos de fadas científicos”, e o estrago pode ser muito, muito grande.

Desconfie da Ciência. Isso será muito bom pra você, pra sociedade e pra Ciência também.