Remédios naturais

março, 2009

Imagine que você está com uma dor-de-cabeça terrível e que pode escolher entre dois remédios igualmente eficientes: um comprimido e um chá feito com cascas de árvore. Qual dos dois você preferiria, sabendo que ambos resolverão o problema da mesma maneira? Em princípio não haveria razão para preferir um ou outro método, a não ser pela facilidade de ingestão – há quem tenha dificuldade de engolir comprimidos, outras pessoas detestam chá… No entanto, tenho certeza de que uma grande proporção das pessoas escolheria o chá com a mesma justificativa: é que o chá é natural…

Primeiro vamos entender o conceito de “natural” utilizado nesse pensamento. Um comprimido obviamente é uma substância química manipulada pelo farmacêutico, humano, e, portanto, não veio pronto da natureza. Já o chá é apenas alguma parte vegetal preparada em água quente e portando todas as suas características originais, sendo, assim, natural.

Se o princípio ativo das duas formas de medicamento é o mesmo, isto é, se a substância que vai fazer a dor-de-cabeça passar é a mesma tanto no comprimido, quanto no chá, por que é, então, que o método de extração faria alguma diferença?  Quando a substância sintetizada em laboratório (e idêntica àquela do chá) é introduzida no corpo do paciente, o organismo percebe que ela não foi gerada na planta? Não, o corpo não sabe, por isso é apenas crendice supor que uma substância “natural” é superior à dita “química”.

Agora modifiquemos o exemplo: as suas opções para aliviar a sua cefaléia insistente são um comprimido de aspirina e um chazinho de casca de salgueiro. O comprimido foi fabricado por um laboratório e o chá foi feito pela sua avó. Qual você prefere? Nesse caso eu recomendo fortemente que você opte pelo comprimido, exatamente porque ele não é “natural”. A casca do salgueiro possui, além do princípio ativo da aspirina, milhares de outros compostos químicos, desenvolvidos ao longo do processo evolutivo como forma de defesa química contra predadores. Isso significa que não sabemos exatamente como essas substâncias interagem entre si. Some-se a possível ocorrência de substâncias exógenas, como fungos e bactérias, as quais influenciam a composição química da casca. Quando testados os compostos para verificar-se o princípio ativo da casca do salgueiro, isolou-se a substância que comprovou ser a solução para a dor-de-cabeça, e aí o produto já deixou de ser “natural”, porque ele foi filtrado – manipulado em laboratório.

Assim, o comprimido foi desenvolvido a partir de uma substância encontrada na casca do salgueiro, e cuja composição foi melhorada para atingir sua máxima eficiência. Quando a sua avó faz o seu chá ela não verifica a sua resposta fisiológica e não faz testes controlados para saber se a planta está realmente fazendo efeito ou se há algum risco para a sua saúde. Os laboratórios, por mais fraudulentos que sejam, fazem esse tipo de teste e são regulados por alguma agência pública de saúde, que pode verificar resultados de experimentos extensos e decidir se um determinado medicamento pode e deve ser liberado para consumo da população.

Os medicamentos “naturais” utilizados com base na sabedoria popular são muito importantes, porque constituem uma fonte de informação acumulada por inúmeras gerações, baseada no princípio de tentativa e erro, mas não são exatamente um exemplo de segurança. Por essa razão a disciplina da Etnobotânica (que estuda, entre outras coisas, o conhecimento humano de vegetais e seu uso) é ativamente estimulada, para investigar cientificamente a eficiência de tais medicamentos e, por vezes, romper crendices e superstições.

Aqui tem um post de Cristina Vieira discutindo os supostos benefícios de substâncias naturais, e aqui um artigo de Lauro Barata, pesquisador do Laboratório de Química de Produtos Naturais do Instituto de Química da UNICAMP, sobre a produção brasileira de fitomedicamentos.