Uma nota breve sobre a adaptação das espécies I

abril, 2010

É frequente dizer-se que as espécies se adaptam. Por exemplo, mamíferos como os golfinhos, adaptaram-se às circunstâncias da vida marinha. Os bicos dos tentilhões das Galápagos adaptaram-se às características peculiares de cada uma das ilhas. Os membros do morcego adaptaram-se ao voo. Em teoria, perante os novos cenários climáticos é provável que muitas espécies se adaptem às novas circunstâncias ecológicas. É provável que o urso polar reduza a espessura da sua camada de gordura, ou então que as orelhas dos elefantes se tornem maiores para uma mais eficaz dissipação do calor. A adaptação das espécies é para nós quase uma banalidade. Em diferentes contextos, as espécies adaptam-se. Ponto final.

A adaptação das espécies é pensada ao jeito lamarckiano, isto é, a adaptação das espécies é vista como um esforço intencional de conformar a sua morfologia e a sua fisiologia a um determinado contexto. Como se a adaptação fosse uma resposta a um estímulo do meio envolvente. Quando, na verdade, ela é espontânea. Por exemplo, a girafa bem pode esticar o pescoço que ele não vai crescer mais por isso. A possibilidade de adaptação está na diversidade genética. Fazendo referência a um exemplo clássico, não é pelo facto de a poluição industrial ter enegrecido os troncos que fez com que a espécie Biston betularia se tornasse de repente de cor escura. Não, o que aconteceu foi que essa possibilidade de adaptação já existia. Traças de cor escura já existiam na população embora  em muito menor número. No entanto, a nossa interpretação vai no sentido de achar que aquela espécie fez um esforço estoico para sobreviver.

Adaptar significa qualquer coisa como “tornar apto”. Neste sentido, quando se diz que uma espécie se adapta, então estamos a dizer que uma espécie está a tornar-se apta. E, como nos ensinou Darwin, apenas os mais aptos são seleccionados, sobrevivem e se reproduzem. No entanto, aqui o verbo “tornar” alude à ideia de “mudar para”. Ou seja, as espécies ao adaptarem-se, estão ao fim e ao cabo a mudar para uma condição que as torne mais aptas naquele contexto. E essa condição agora pode ser morfológica ou fisiológica ou até comportamental. E no entanto, fica a ilusão que essa adaptação é intencional e em resposta a um estímulo quando na verdade ela é casual e estritamente espontânea.