Evolução ainda é Tabu? A importância da comunicação de conceitos

abril, 2013

Num país laico “para inglês ver”, falar sobre qualquer coisa que desafie a dominância religiosa é um terreno perigoso. Boa parte das escolas imputa a seus estudantes algum juízo de valor religioso, mesmo quando ela é declaradamente laica. Quantas aulas minhas do ensino fundamental, no SESI, não se iniciaram com os professores rezando o “Pai Nosso” com a turma? Quantas salas de aula não tinham um crucifixo na parede? E não é desconhecido o bullying contra alunos que não participam dessas rotinas religiosas (e quem não viu este vídeo ainda, vale muito a pena). continue lendo >>

Minha contribuição sobre a polêmica entrevista do Malafaia

fevereiro, 2013

AVISO: Publiquei este pequeno texto originalmente no Facebook e decidi que ele cabia muito bem aqui no Polegar, então estou postando ele por aqui também.

Foi um tormento incrível assistir a esta entrevista não só pelos motivos evidentes (homofobia, proselitismo religioso, campo de distorção da realidade, festival de porcentagens que não dizem absolutamente nada, dados com fontes não citadas e um desconhecimento geral do processo científico como um todo e da realidade de maneira pontuada) mas também por outro, bem mais velado. O dito pastor é claramente um analfabeto no que diz respeito à ciência e sabendo que não é o único, usa sua exposição para levar os mais ingênuos ao raciocínio equivocado sobre a mesma.

"Amo os homossexuais como amos os bandidos" - Malafaia, Silas

“Amo os homossexuais como amos os bandidos” – Malafaia, Silas

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Fogo que arde sem se ver: uma reflexão sobre o incêndio na floresta da USP de Ribeirão Preto

agosto, 2011

Ontem a tarde uma fumaça escura pairava sobre o campus da USP de Ribeirão Preto. Todo aquele carbono, que irritava os olhos e as vias aéreas dos estudantes, professores, funcionários e curiosos, era, até aquela manhã, parte integrante de uma floresta de mais de 700.000 m² de extensão. O estrago foi devastador em todas as dimensões imagináveis. Pra começar, a área atingida passou de 430.000 m². Como se não bastasse, nessa área estava contido o único banco genético de mata mesófila semidecidual do Brasil.

Um banco genético é exatamente o que o nome sugere: um local onde se deposita o material genético dos organismos. Quanto maior a variabilidade genética, melhor. Existem duas razões principais pelas quais o material genético dos indivíduos de uma espécie pode ser depositado num banco genético: (1) porque a espécie é (ou tem potencial para ser) interessante economicamente para o ser humano ou (2) porque a espécie precisa ser conservada. No primeiro caso, é comum os bancos genéticos estarem associados à instituições de pesquisa em melhoramento genético, que utilizam o material lá depositado para conduzir seus experimentos. Já no segundo caso, o panorama é bem diferente.

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As duas Biologias de Mayr

abril, 2011

Em 1859, quando Darwin publicou “A Origem das Espécies”, ele já sabia que tempos difíceis estavam por vir. E vieram. As idéias contidas naquele livro causaram um grande rebuliço não somente na comunidade acadêmica da época, mas na sociedade como um todo. Num âmbito mais geral, a idéia de uma espécie descender de outra (e especialmente a idéia do homem descender “do macaco”) batia de frente com os ideais religiosos da Europa do século XIX – na verdade, ainda bate com ideais religiosos de hoje, mas deixemos o conflito ciência x religião para um outro post. Na esfera acadêmica, o tempo de existência da Terra era um assunto sobre o qual os cientistas ainda estavam longe de entrar em consenso, e como o argumento de Darwin tinha como premissa que a Terra era muito antiga, esse era um assunto recorrente entre seus opositores. Inclusive, Lord Kelvin, o grande físico criador da escala termométrica universal, era um desses opositores, e um que deu muita dor de cabeça a Charles Darwin¹.

Resumindo uma história longa, quando Darwin propôs sua teoria da evolução por seleção natural, ela não foi aceita de cara pela comunidade científica. Na verdade, isso demorou mais de meio século pra acontecer. Talvez as pessoas de sua época não tenham conseguido entender o que ele estava tentando dizer. Talvez tenham entendido, mas viviam num paradigma que as impedia de dar crédito para uma teoria daquele tipo. Ou talvez de fato as evidências existentes na época favorecessem uma outra forma de pensar. Seja lá o que for, o fato é que quando perceberam (muito tempo depois) a profundeza e o poder da teoria darwiniana, ficaram muito empolgados. Muito mesmo! Mas como a teoria de Darwin era muito mal vista pela maior parte das pessoas na academia e fora dela, aqueles que a aceitavam começaram um grande movimento de divulgação e defesa do darwinismo.

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Desinteresse crônico

janeiro, 2011

Observe os diálogos abaixo:

(1)

– Ei, estou lendo os livros da saga Crepúsculo e estou adorando! Tem muito mais emoção do que nos filmes! Você já leu?

– Eu não cara… Deus me livre! Me dá enjôo só de pensar em quanta bobagem deve estar escrita num livro sobre vampirinhos apaixonados! Não sei como você pode gostar de coisas tão juvenis!

– Ah, para! Se você não leu, não pode falar nada do livro!

– Mas não é possível que essa história seja boa… Me disseram que quando esses vampiros saem no sol, eles viram purpurina! Fala sério, né?

– Nossa, você é muito preconceituoso e cabeça dura! Quando forma uma idéia, ou melhor, copia de alguém, não se abre pra nenhum outro ponto de vista…

(2)

– Você viu que descobriram indícios de respiração unidirecional em crocodilianos? Isso não é demais?! Até então se pensava que só as aves tinham esse tipo de respiração!

– Nossa, mas como assim? Os crocodilos não passam nem perto de ter as mesmas demandas metabólicas que as aves…

– Exato! E eles nem são o grupo de répteis que deu origem às aves, o que indica que esse tipo de respiração pode ser simplesiomórfico pra maioria dos grupos de répteis do final do Triássico.

– Uau… Se for assim mesmo, então muito do que a gente conhece sobre evolução dos vertebrados terrestres vai ter que ser revisto.

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Elogio ao plástico

outubro, 2010

Foi recentemente editado em Lisboa pela Escolar Editora o livro História do PVC em Portugal. CIRES – Um caso de sucesso, de Maria Elvira Callapez. Decorrente de uma tese de doutoramento apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa, este livro tem o mérito de registar alguns aspectos importantes associados à transferência e desenvolvimento das tecnologias de fabricação do policloreto de vinilo. Mais, ao mesmo tempo que o faz, deixa entrever um pano de fundo marcado por um regime de condicionamento industrial. Este regime, instituído formalmente em 1931 e em vigor até 1974, limitava a concorrência entre os nacionais a partir do impedimento do excesso de produção. Com um carácter fortemente proteccionista e indiferente quanto à liberalização do comércio externo em curso, este regime comungava de uma visão política eminentemente conservadora. Neste sentido, o livro de Callapez revela-se um trabalho de história da tecnologia e da indústria química portuguea de referência. Não apenas descodifica como também constrói toda uma narrativa que dá ao leitor a possibilidade de compreender de uma forma mais aprofundada os mecanismos de evolução dos processos de fabrico de plásticos. Aliás, evolução essa que serve de corolário ao progresso da própria ciência. Por conseguinte, a implementação de novos processos de fabrico, mais avançados e mais eficientes, é precedida não apenas por um progresso tecnológico da indústria química em si mas, talvez mais importante, é precedida por uma reconfiguração epistemológica da própria química. Reconfiguração essa capaz de fertilizar a inovação e a aplicabilidade das técnicas desenvolvidas em laboratório. Disso nos dá conta Callapez em obra anterior – Os plásticos em Portugal: a origem da indústria transformadora (Editorial Estampa, 2000) – quando refere que «O desenvolvimento das teorias químicas da polimerização (…) a par do desenvolvimento da tecnologia das altas pressões, foi significativo para o aperfeiçoamento e desenvolvimento dos plásticos comerciais. Na realidade, permitiram superar muitos dos problemas técnicos de produção de polímeros e da sua conversão em materiais comercialmente viáveis, levando a um desenvolvimento acentuado na produção deste tipo de compostos» (p.37).

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Podem os vírus ter-nos tornado humanos? – Parte I

abril, 2010

A questão começou por ser filosófica. Numa sessão da American Philosophical Society de 15 de Novembro de 2003, o virologista Luis P. Villarreal, director do Centro de Investigação em Vírus da Universidade da Califórnia em Irvine perguntava: «Can Viruses Make Us Human? A ciência tinha uma resposta objectiva. Não. Os vírus, que nem sequer seres vivos são considerados, são parasitas moleculares cujo interesse primordial consiste em induzir doenças no seu hospedeiro. Neste sentido, os vírus são qualquer coisa de maléfico. Veja-se o caso do VIH causador da SIDA que todos os anos ceifa milhares de vida em todo o mundo. Ou o vírus H1N1 que ameaçava dizimar populações inteiras. Ou ainda o temível vírus Ébola que nos filmes é-nos apresentado como uma espécie de assassino em série. Ou então o mais contido vírus da gripe sazonal que todos os anos faz com que milhões de pessoas passem os seus dias a espirrar. Para tornar tudo isto ainda mais grave, não há forma de os combater. Por conseguinte, como podem os vírus ter-nos tornado humanos? Não, para nós, o grande plano dos vírus sempre foi exterminar os humanos. Acontece que, além da objectividade pura não existir, a resposta da ciência a esta questão está profundamente afectada por uma subjectividade. Na verdade, alguns cientistas têm sido de tal modo convincentes que nós acreditámos sem qualquer resistência nos seus delírios. Estamos pois todos dentro ou fora da realidade, como acontece nos chamados delírios partilhados. Provavelmente, mais fora do que dentro. Talvez aqui a filosofia possa dar uma ajuda. Por exemplo, segundo Peirce, a realidade é tudo aquilo que nos provoca resistência. Quer isto dizer que se há qualquer coisa que cause resistência à nossa expectativa, então é provável que essa qualquer coisa seja real. A ciência é uma incessante busca pela realidade. E é escrita a lápis de carvão. Porque a ciência vive na eminência de ter de ser rescrita uma vez, e outra vez, e ainda mais outra. Aliás, a história da ciência é um livro rasurado em todas as suas páginas. O caso dos vírus é um exemplo bastante eloquente. Investigações recentes têm defraudado persistentemente as nossas expectativas. O que significa que, por certo, nos aproximamos cada vez mais da realidade.

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O mito da sustentabilidade

abril, 2010

O que há de errada não é a ideia em si, mas como o discurso dominante que se apropriou ideologicamente do significado da palavra sustentabilidade, para dar a ele uma ideia de que é possível desenvolver sem agredir o meio ambiente, desde que seja um desenvolvimento tecnológico feito através do “know how” da ciência e financiado pela economia de mercado…

Aí é que jaz o problema, esse discurso hegemônico apoiado no paradigma cientificista-tecnológico que vivenciamos na sociedade moderna, capitalista, urbana e globalizada nos leva a uma lógica muito contrária ao que apregoa o discurso da sustentabilidade… Na verdade a lógica é a produção e o consumo. E para haver produção há de se ter recursos, buscados na exploração no meio ambiente (mas isso ninguém precisa saber, ou a gente dá um jeito de falar que estamos fazendo isso de uma maneira sustentável) e assim essa relação se retroalimenta pelo discurso que a produção se justifica, pois, garante a qualidade de vida (consumo exagerado e supérfluo).

sustentabilidade

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Com o coração do lado direito

abril, 2010

Há dias, estava eu a tentar por ordem nas dezenas de ficheiros que flutuam no ambiente de trabalho do meu notebook, quando de repente me salta aos olhos um artigo sobre competição espermática. Ah, os espermatozóides! Lembrei-me logo de uma história que eu costumo sempre contar quando pretendo mostrar a alguém como a lógica da vida nos prega uma valente rasteira de cada vez que julgamos saber tudo.

Woddy Allen

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Uma nota breve sobre a adaptação das espécies II

abril, 2010

Mas afinal o que é que faz com que haja tanta variedade? Para os neodarwinistas, essa variedade resulta fundamentalmente das mutações e da recombinação génica. Mas há um outro mecanismo de produção da variação que é a simbiose e a transferência horizontal de genes. Por exemplo, quando começámos a sequenciar o genoma humano, ficámos surpreendidos pela quantidade de DNA que aparentemente não tinha qualquer utilidade. Era referido como junk DNA. Hoje sabemos que esse lixo é afinal informação genética de vírus e bactérias que a determinada altura integraram o genoma humano. Por exemplo, porque razão a nossa flora intestinal se mantém ordenadamente dentro de certos parâmetros fisiológicos e apenas com aquelas variedades de bactérias? Certamente porque houve transferência horizontal de genes. Um outro exemplo bastante paradigmático é o caso da lesma Elysia chlorotica que ao alimentar-se da alga Vaucheria litorea tem a capacidade de incorporar no seu epitélio intestinal os cloroplastos desta, e apenas desta, alga, mantendo-os viáveis por um período de cerca de 8 meses. No final desse período, ingere e integra novos cloroplastos. Ora, para isto acontecer, teve que haver uma transferência horizontal de genes por forma a que esses cloroplastos se mantenham viáveis. Na verdade, foram identificados no genoma da E.chlorotica genes – por exemplo, rbcL, rbcS, psaB, psbA – da alga V.litorea que possibilitam que haja uma tradução e transcrição activa de genes cloropastidiais dentro do animal hospedeiro. O que é, digamos assim, algo de absolutamente surpreendente. Por conseguinte, mutações, recombinação génica e simbiose são os grandes produtores de variedade contribuindo assim para uma maior possibilidade de adaptação por parte das espécies aos múltiplos desafios ecológicos.

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