O outro lado da moeda – um preâmbulo

outubro, 2009

E se um dia você for fazer um plano de saúde e a atendente, muito graciosamente, te disser: “Sinto muito senhor, mas nossa empresa não se interessa em fazer um plano para você. Aquela amostra de sangue que recolhemos do senhor na semana passada acusou que você tem um gene que causa câncer. Não podemos arcar com esses prejuízos. Tenha um bom dia!”.

E se um dia você for matricular seu filho na escola e a secretária disser: “Olha…eu sei que seu filho tem apenas 5 anos de idade, mas acontece que ele tem o gene da agressividade. Não queremos alunos violentos em nossa escola. Sinto muito, não poderemos fazer a matrícula do seu filho, mas posso te passar o nome de algumas escolas que aceitam margin…digo, crianças com esse gene”.

Absurdo demais? Talvez nem tanto. Na verdade, não falta muito para chegarmos lá. Tudo o que falta, aliás, é a certeza absoluta de que o sujeito vai mesmo desenvolver câncer e de que o moleque vai mesmo ser violento – o resto a ambição e a cretinice humana dão conta de fazer. Cientistas não muito gente boa estão trabalhando para que isso aconteça, enquanto nós ficamos aqui, no escuro.

continue lendo >>

Sobre mitocôndrias, esfingomielina e estípulas interpeciolares

outubro, 2009

Estava lendo um livro esses dias que dizia que, na cidade de São Paulo, as aulas de Biologia do Ensino Médio têm uma média de seis termos novos definidos por aula. Se fizermos as contas considerando que em geral as escolas têm três aulas de Biologia por semana, veremos que o número de termos novos “aprendidos” pelos alunos é de cerca de 600 por ano. Não sei, mas acho que se eu soubesse falar 600 palavras em russo talvez eu fosse capaz de me comunicar rudimentarmente com alguns russos (os dispostos a fazer um esforço pra me entender), mas os alunos do Ensino Médio que decoram 600 termos biológicos por ano não são capazes de entender os princípios elementares da Biologia.

continue lendo >>

O joio e o trigo.

junho, 2009

Quem acompanha este blog a mais tempo sabe que o debate entre evolucionismo e criacionismo sempre foi um tema recorrente, ao menos no primeiro ano de vida. Gradativamente o debate em si foi sendo deixado de lado, e isso se deve ao fato de que, ao meu ver, falta nos dois lados da polêmica o refinamento necessário para uma discussão saudável.

Normalmente vemos textos e mais textos, os deste blog incluídos, que funcionam basicamente na refutação de contra-argumentos do adversário. Nesta troca desmedida de refutações, o que pouca gente se dá ao trabalho de fazer é separar o joio do trigo. A começar pela unidade fundamental do que se está debatendo: Teoria evolutiva ou teoria da evolução?

Ao observador desatento, ao dogmático mais ferrenho e ao cientista  epistemologicamente pobre, ambas as coisas podem parecer iguais. A simples compreensão desta diferença pode evitar uma série de discussões inúteis e erros de interpretação.

Quando nos referimos à realidade (ou não) da evolução dos seres vivos, estamos falando da teoria evolutiva. Qualquer querela neste nível deve se ater à discussão sobre se a biodiversidade do planeta existe como a vemos hoje desde “sempre” ou foi mudando ao decorrer do tempo. A questão básica aqui é, as espécies são fixas no tempo ou variam?

Já por teoria da evolução entendemos os mecanismos propostos para a variação das espécies no tempo. É aqui que entram Lamarck, Darwin, Neodarwinistas e por aí a fora. A diferença é sutil, mas bastante clara: Uma coisa é saber se as espécies mudam, outra é COMO mudam.

Um cientista bem preparado, e que responde “qual delas?” para a pergunta “você acredita na teoria da evolução?”, tenho certeza, acaba com a maioria dos debates antes mesmo deles começarem.

Mata Atlâtica um Hotspot ameaçado

maio, 2009

O conceito Hotspot significa uma área de importância elevada para conservação da biodiversidade. Ele se baseia no princípio de que a biodiversidade não está distribuída igualmente no planeta, e por isto delimita determinadas áreas com altos níveis de biodiversidade e em risco de degradação ou desaparecimento, e por isso a urgência na implementação de ações de conservação a fim de se preservar estes ecossistemas ou os remanescentes da sua formação original.

No Brasil há dois Hotspots a Mata Atlântica e o Cerrado, que são ecossistemas prioritários para a conservação, isto é, de alta biodiversidade e ameaça em alto grau. Estes ecossistemas foram incluídos nesta categoria, após avaliação de especialistas e do Ministério do Meio Ambiente (1) que trabalharam juntos para identificá-los como Hotspots.

A Floresta Amazônica não é considerada um Hotspot, mesmo sendo considerada de altíssima biodiversidade, pois, não sofreu e/ou sofre um processo de degradação tão intenso como os dois ecossistemas citados, e por isto com risco de desaparecimento permanente de espécies.

continue lendo >>

Crodowaldo Pavan e o projeto Roda Viva Científico

abril, 2009

A ciência, especialmente a genética, brasileira está de luto com o falecimento do Prof. Crodowaldo Pavan no dia 03/04/2009. O irreverente e obstinado pesquisador, autor de inúmeras contribuições científicas e políticas tanto quanto de observações provocadoras e desconcertantes em reuniões científicas ou declarações à sociedade, contava aos alunos de divulgação científica que nunca temeu estar errado! com a graça irônica de um vovô esperto que sorria ao lembrar-se de seus adversários científicos, que o colocaram, como bem lembrou o Thiago aí embaixo, dando três voltas no Mundo até acreditarem em seus cromossomos politênicos.

1998. Congresso da Sociedade Brasileira de Genética. Após exposição da Prof. Lygia da Veiga Pereira sobre clonagem, Pavan pega o microfone e diz alto e em bom tom, para a indignação dos demais geneticistas brasileiros. “Eu não vejo problema algum em um casal querer fazer clonagem para renascer um filho morto!”

continue lendo >>

Sobre a história da relação Ser Humano x Natureza

março, 2009

Nos primórdios da humanidade, na pré-história (aproximadamente 4000 a.C.) período que antecede a invenção da escrita, há, portanto, uma falta de registros de como se inter-relacionavam ser humano e natureza. Possivelmente estas relações eram baseadas no princípio de que homem e natureza eram um todo, sem a separação de um e outro, consequentemente não se observavam relações de domínio ou posse da natureza pelo ser humano.

continue lendo >>

Remédios naturais

março, 2009

Imagine que você está com uma dor-de-cabeça terrível e que pode escolher entre dois remédios igualmente eficientes: um comprimido e um chá feito com cascas de árvore. Qual dos dois você preferiria, sabendo que ambos resolverão o problema da mesma maneira? Em princípio não haveria razão para preferir um ou outro método, a não ser pela facilidade de ingestão – há quem tenha dificuldade de engolir comprimidos, outras pessoas detestam chá… No entanto, tenho certeza de que uma grande proporção das pessoas escolheria o chá com a mesma justificativa: é que o chá é natural…

Primeiro vamos entender o conceito de “natural” utilizado nesse pensamento. Um comprimido obviamente é uma substância química manipulada pelo farmacêutico, humano, e, portanto, não veio pronto da natureza. Já o chá é apenas alguma parte vegetal preparada em água quente e portando todas as suas características originais, sendo, assim, natural.

continue lendo >>

O cisne negro

fevereiro, 2009

Seria cômico se não fosse trágico. O acidente no lago da Aclimação. Ela saía de casa para passear. Terça-feira, Carnaval-2009. Estava um pouco cansada de seus filmes e livros, e resolveu movimentar-se como fazia de vez em sempre, que possível. MP3 nos ouvidos, short, tênis e camiseta. Resoluta, já que o sol do meio-dia estava encoberto pelas nuvens escuras das Águas de Março que resolveram fechar o verão inteiro.

Viu um helicóptero sobrevoando a área, aumentou o volume da música em seus ouvidos. Um aglomerado de pessoas e policiais na borda do lago, achou melhor nem olhar, alguém deve ter se machucado. Carros da polícia civil metropolitana e da polícia florestal fazendo Cooper, alguma coisa realmente aconteceu, que Deus cuide… Policiais entrando no lago… Heim?! O lago está seco!!!

continue lendo >>

Divulgação Científica, folias, confetes e serpentinas

janeiro, 2009

1ª versão: Revista Vox Science (Núcleo José Reis de Divulgação Científica)
2ª versão, atualizada: Polegar Opositor

Nas ladeiras de Olinda um pierrô apaixonado, que vivia só cantando, acabou chorando quando viu sua colombina no cordão de Albert Einstein, um boneco gigante no meio da multidão. Isso foi em 2005, e foi a primeira vez do bloco “Com Ciência na Cabeça e Frevo no Pé”, fundado pelo Espaço Ciência, pelo Cenine/UFPE e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência de Pernambuco (SBPC-PE). Já em 2006, quanto riso, oh, quanta alegria, mais de mil foliões no maracatu e um arlequim que ficou chorando o amor de colombina, que só tinha asas para um Santos Dumont em comemoração aos 100 anos do vôo do 14 Bis. Ah, se você fosse sincera… No outro ano foi a vez de José Leite Lopes, físico pernambucano, e a colombina dando viva ao maioral. Ela quer um lindo apartamento, com porteiro e elevador. E sob o tema “Evolução e Diversidade”, Charles Darwin foi o escalado para arrasar pierrôs e arlequins em 2008, ano em que o bloco marca a abertura oficial da V Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de Pernambuco.

continue lendo >>

Calcinhas de carneirinhos

novembro, 2008

Abaixo os forros de algodão?! “Quando colocadas em placas para culturas de bactérias verifica-se que as fibras de viscose apresentam um crescimento bacteriano menor que as demais fibras, inclusive de algodão” disse o professor do curso de Engenharia Têxtil da faculdade de Engenharia Industrial da FEI, Fernando Barros.

Em sua palestra sobre “Impactos ambientais nas principais fibras têxteis” realizada na II Expo-indústria – Cadeia Produtiva têxtil, Confecção e Vestuário, no último dia 19 na sede da FIESP em São Paulo ele esclareceu também que o discurso do baixo impacto ambiental da produção da fibra de viscose de bambu, quando comparado ao da fibra de viscose produzida a partir de eucalipto, “é uma falácia!”. 

continue lendo >>