O ego e o eco: a carreira acadêmica, publicações e o acesso à produção científica

fevereiro, 2012

A Ciência é a forma mais eficiente que conhecemos de descobrir como o mundo funciona. Ela sacia a nossa curiosidade e permite que a gente invente coisas e construa engenhocas e máquinas de todos os tipos e para todos os fins. Medicina, tecnologia, exploração do espaço, conservação de ambientes naturais, produção de energia, etc., são todas áreas extremamente relevantes na atualidade nas quais contamos fortemente com a Ciência. E contamos com ela na forma de investimentos; muito dinheiro (muito mesmo!) é gasto anualmente com Ciência. Por exemplo, na Europa quase 8 bilhões de euros foram gastos para a construção de um acelerador de partículas, o LHC. Vale lembrar que em muitos países (incluindo o nosso) boa parte do dinheiro investido em Ciência vem dos cofres públicos, o que significa que somos nós, todos nós, que pagamos por isso.

Ok. Então gastamos uma grana bem razoável com a Ciência porque ela é a forma mais eficiente que temos de construir conhecimento confiável. Provavelmente é um dinheiro bem gasto. Mas será que teria alguma forma de tornar a Ciência mais eficiente?

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Plágio e Remix: Uma narrativa de duas culturas.

novembro, 2011

No dia 02 de outubro o blog de ciências da Folha, o Laboratório, soltou um post chamado Educar para não plagiar. O texto chama atenção para um congresso sobre plágio e má conduta científica e aponta algumas conclusões tiradas durante o evento.

A primeira conclusão é a de que hoje em dia, por conta da facilidade de acesso à informação, está mais fácil plagiar. A segunda conclusão, que de acordo com o texto é mais filosófica, diz que a facilidade de acesso à informação científica não deveria justificar o aumento do número de casos de plágio (o texto original da Folha diz “fraude” e não plágio neste ponto específico, mas fraude segundo o dicionário Aulete quer dizer falsificação de uma forma geral o que, acredito eu, não tem relação direta com a facilidade de acesso à informação, neste caso plágio parece-me ser o mais correto). Uma última conclusão argumenta que estudantes e pesquisadores mais novos não foram ensinados a lidar com toda essa informação e plagiam por pura ignorância.

Curioso ver que nos comentários do texto da Folha alguém que assina como Roberto faz uma pergunta simples mas que está no centro desta questão: “Afinal a internet ajuda ou atrapalha a ciência”?

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Porquê o CDF é o contrário do que a ciência precisa.

agosto, 2011

No meu texto anterior chamei a atenção (de forma bastante superficial é verdade) para a questão de como o paper científico transposto do meio físico para o meio digital traz consigo todos os problemas do paper físico aproveitando muito pouco das qualidades do meio digital.
Também chamo atenção para o fato de que Stephen Wolfram também reconhece parte destes problemas e, na tentativa de encontrar alguma solução, criou o formato CDF. Recomendo que assistam ao vídeo do Wolfram apresentando o formato, caso ainda não tenham assistido.

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Para onde vai o “paper” científico?

agosto, 2011

Para a lata do lixo seria a resposta mais evidente, não estivessem todos eles se transformando em arquivos digitais que, bem, por enquanto até podem ir para a lixeira… Mas até quando? Essa pergunta também tem uma resposta simples: Até quando o paper científico fizer sentido e continuar importante para uma ciência que, queiram os mais apaixonados ou não, está caminhando na direção de uma profunda reformulação de si mesma.

Eu sei, eu sei. Estou como um profeta do apocalipse segurando uma placa “prepare-se, o fim dos papers esta próximo” e, como qualquer profeta do apocalipse, posso estar parecendo um pouco fora da minha sanidade mental. Mas se pararmos um segundo para olhar para a história da comunicação da ciência, chegaremos à conclusão de que o fim do modelo atual de comunicação de resultados e validação da própria atividade científica não é tão absurda assim.

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Comunicação da Ciência e Web 2.0: A Tese.

maio, 2011

Há pouco mais de dois anos eu decidi atravessar o Atlântico em direção à Lisboa com o intuito de fazer um mestrado em História e Filosofia das Ciências, na Secção Autónoma de História e Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. na época em que fui, imaginava fazer algo relacionado à divulgação científica, mas não tinha uma ideia muito clara ainda.

É curioso pra mim falar sobre esse processo agora sem me recordar de um vídeo muito interessante em que o cocriador da Apple, Steve Jobs, fala como experiências de vida aparentemente sem relação qualquer o ajudaram depois a revolucionar o próprio conceito de computador pessoal que ele próprio havia criado anos antes.

Não estou me comparando de modo algum ao Steve Jobs, evidente, mas acredito que passei por um processo similar. Com dezesseis anos comecei a trabalhar em uma gráfica como artefinalista. Por conta disso passei a me interessar por comunicação visual e design, o que me levou anos depois a fazer o curso de design gráfico da Escola Panamericana de Artes.

Terminado o curso, decidi entrar em uma faculdade. Fiz vestibular pra direito e passei mas, por uma série de complicações, acabei trocando pra ciências biológicas, sem muita vontade de seguir com o curso. Bastou-me uma semana de aulas pra eu ficar apaixonado pelo curso e seguir até o fim.

Entre o curso de design e a faculdade de biologia, eu que já era um viciado em computadores e tinha acesso à internet desde 1996, passei a me interessar por blogs. Comecei, como todo mundo que conheço, com um blog sobre coisas pessoais e fui mudando gradativamente até que 2007 comecei este singelo blog de divulgação científica. No ano seguinte, justamente por causa do blog, acabaria por me inscrever no curso de divulgação científica do Núcleo José Reis de Divulgação Científica.

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Quem governa o 3º Mundo?

novembro, 2009

Não, não me refiro aos chamados países em desenvolvimento. O 3º mundo ao qual estou me referindo é aquele proposto pelo grande filósofo Karl Popper. Já escrevi sobre o assunto neste blog antes mas, tendo em vista que o texto não foi lá muito claro, faço uma nova tentativa.

Em seu livro Conhecimento Objetivo, Popper propõem uma divisão tripla do mundo. O 1º mundo é aquele que contém objetos físicos ou estados materiais. O 2º mundo é composto por estados de consciência ou mentais. E por fim o 3º mundo, habitado por conteúdos objetivos de pensamento, em especial pensamentos científicos, poéticos e de outras obras de arte.

Vemos então que no 2º mundo estão os pensamentos subjetivos, ou o ato de pensar em si, enquanto no 3º mundo estão os pensamentos objetivos, ou o conteúdo destes pensamentos. Livros, artigos e obras de arte são a representação física dos habitantes deste último.

Mas este não é um texto sobre Karl Popper, ou mesmo sobre considerações a respeito da validade ou implicações da divisão proposta pelo filósofo. A introdução sobre o 3º mundo popperiano me serve apenas para dar maior materialidade ao fato de que, por mais que vivamos em um mundo mergulhado em informação (ou em pensamentos objetivos), há, e talvez sempre houve, uma disputa constante para determinar quem governa isso tudo.

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Questão de acesso

outubro, 2009

Imaginem a cena: o ilustríssimo Dr. Roberto, renomado cientista na área de fisiologia osmorregulatória de caranguejos, passa 7 anos fazendo um grande estudo. Viaja a trabalho por diversos países, se enfiando nos mangues mais fedidos e barrentos para coletar esses crustáceos, depois os leva para o laboratório e faz exaustivos experimentos que resultam numa pilha de centenas de tabelas e gráficos que ele, com muita paciência, analisa e compara um a um. Depois de sistematizar seus dados, Dr. Roberto os compara com os da literatura, identifica semelhanças e diferenças entre os estudos e quebra a cabeça para tentar entender de forma integrada o fenômeno que está estudando. Depois disso tudo, ele, super empolgado, escreve um artigo para tornar público o seu estudo, seus questionamentos e suas conclusões.

O artigo do Dr. Roberto é publicado em alguma revista super específica sobre crustáceos que menos de 1% da população mundial sabe que existe. As únicas pessoas que vão se interessar em lê-lo são os outros cientistas que estudam osmorregulação em caranguejos, e olhe lá, por que se o grupo de caranguejos que o Dr. Roberto estuda for muito distante filogeneticamente do que o Dr. Luís estuda, talvez o Dr. Luís nem se dê ao trabalho de ler. Mas o Dr. Luís não é importante. O importante é que, a partir de agora, qualquer pessoa que quiser estudar osmorregulação naquele grupo de caranguejos vai poder contar com a contribuição do Dr. Roberto, certo?

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Ciência em fase beta.

março, 2009

Publicar um artigo científico é, em geral, um processo laborioso e até certo ponto burocrático. Além do evidente trabalho de escrever o artigo, é preciso submetê-lo a uma revista apropriada e torcer por uma resposta positiva. Daí até a publicação efetiva o artigo ainda passa pela peer review e etc.

O caso é que na maioria das revistas, da aceitação do artigo à publicação, existe um hiato de, em geral, um ano. Dependendo da revista, esse período pode aumentar ainda mais, eventualmente, chegando a três anos.

Disso resulta que é muito comum ver os pesquisadores distribuindo seus trabalhos entre seus colegas antes de ele ser publicado. A questão que podemos levantar disso tudo é, até quando tal situação vai se manter?

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Pós em Divulgação Científica

março, 2009

Antes que as pedras voem, aviso: Este não é um post pago.

A divulgação científica no Brasil não é um fenômeno recente. Que o diga o grande divulgador-cientista-jornalista José Reis. Mas apesar de não ser novidade alguma, é impossível negar que a atividade como um todo vem, nos últimos tempos, ganhando ainda mais importância, relevância e maturidade.

A internet tem grande responsabilidade neste movimento, e apesar disso é estranhamente negligenciada na maior parte dos cursos que tratam sobre o tema.Foi pensando sobre isso, em um brainstorm regado a pizza e vinho, que a Andréa, a Fernanda e eu desenvolvemos o projeto de um curso de Divulgação Científica que dê a devida importância à internet.

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Auto-validação e a blogosfera científica.

janeiro, 2009

Institucionalização! Este foi o grande passo dado pela ciência no período da revolução científica. O resultado desse passo foi o surgimento de um dos maiores empreendimentos humanos já vistos. A ciência cresceu, ganhou credibilidade e afeta ativamente o meio de vida da sociedade.

É curioso notar como a institucionalização em geral resulta no crescimento acelerado de uma atividade qualquer. Mais do que isso, faz com que a atividade em questão ganhe respeito e articulação política. As religiões aprenderam isso bastante cedo. A ciência demorou um pouco mais.

Uma das principais características resultantes da institucionalização é a chamada auto-validação. Isso quer dizer basicamente que uma comunidade qualquer é capaz de validar a si própria. Parece estranho? Mas não é.

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