Pau que nasce torto, nasce torto mesmo?

setembro, 2007

Estes dias, entre amigos meus, surgiu uma questão interessante. Características humanas, como egoísmo ou comportamento violento por exemplo, são inatos? Seriam essas características definidas pela genética ou seriam fruto de interações do indivíduo com o meio ambiente?

É de costume, neste tipo de discussão, estabelecer relações comparativas com o comportamento de animais. Mas mesmo na etologia, a área do conhecimento que estuda o comportamento animal, essa questão não esta bem definida. Existe uma séria de complicações em se detectar quando um comportamento é inato ou quando foi aprendido. Alguns pesquisadores afirmam que é simplesmente impossível ter certeza de que um comportamento qualquer seja inato. A alegação é que ainda que um animal seja isolado de seus pais no momento do nascimento, ou ainda antes quando se trata de animais que botam ovos, não é possível afirmar categoricamente que ele não tenha sofrido um estímulo qualquer durante sua vida embrionária.

Pelo lado da genética a situação é igualmente nebulosa. Ainda assim existem bravos pesquisadores envolvidos com essa questão e, aparentemente existe um consenso geral de que é muito provável que o comportamento animal seja definido pela genética e pelo meio ambiente ao mesmo tempo. O estudo do canto das aves fornece alguns dados interessantes neste sentido.

Experimentos efetuados com pardais compararam o canto de aves de diferentes espécies em duas condições específicas. Algumas aves eram isoladas do convívio com outras enquanto outras aves eram mantidas em seu convívio normal. O que se constatou foi que, muito embora o padrão do canto das aves mantidas isoladas fosse substancialmente diferente do padrão das aves mantidas em convívio com outras, características específicas do canto de cada espécie (como a duração do canto por exemplo) eram mantidos. Isso pode significar um bocado de coisas, mas aparentemente a constatação mais clara é a de que o canto em si é de fato um fator genético já que as características individuais do canto de cada ave foram mantidas nas que foram isoladas de seus pares, no entanto, os padrões dos diferentes cantos de cada espécie são aprendidos.

Ainda no campo da genética existe um conceito conhecido como plasticidade fenotípica. A definição deste termo diz que um genótipo qualquer pode produzir diferentes variações fisiológicas, morfológicas ou comportamentais em resposta a condições ambientais específicas. Isso significa que um comportamento qualquer condicionado geneticamente (seja pelo comportamento em si, seja por depender de estrutura morfológicas específicas) pode ser modificado em razão da interação entre o genótipo e o meio ambiente. Por exemplo, se supormos que uma espécie qualquer de inseto tenha estruturas que produzam um som específico na época de reprodução, seu comportamento reprodutivo seria modificado substancialmente caso essa estrutura que produz o som seja originária de um genótipo que modifica sua expressão de acordo com, digamos, a disponibilidade de comida.

Mas voltando às características humanas. Será que elas passam por processos similares aos citados acima no que diz respeito ao comportamento animal? É preciso levar em consideração que o comportamento humano esta fortemente atrelado à cultura. Mas não seria a cultura a expressão máxima do comportamento humano? Não acredito que haja uma resposta definitiva para este caso.

Acredito apenas que passamos por processos similares aos dos outros animais, tendo a genética e o meio ambiente papéis fundamentais na formação de nossos comportamentos durante todo o processo evolutivo do homem. Os processos genéticos fornecendo a capacidade para o desenvolvimento de comportamentos sociais e culturais e o meio ambiente selecionando esses comportamentos. Não creio na possibilidade de alguém nascer predestinado a ser egoísta ou violento, como se é de imaginar caso a genética fosse a única força responsável pela expressão de tais características.

Nascemos todos com o potencial para o egoísmo e para o altruísmo. Para a violência e para o pacifismo. O que nos faz tender para um comportamento específico é nosso contexto histórico, social, cultural e, portanto, ambiental.

Duvidar é saudável!

setembro, 2007

Não sei a quanto tempo, mas anda rodando a internet um vídeo mostrando supostos discos voadores no Haiti passando por cima de coqueiros e subindo aos céus para se juntar a outros tantos discos. A algumas semanas também recebi um email dizendo que em determinado dia de agosto seria possível observar Marte no céu a olho nú , ele estaria do tamanho da Lua e o fenômeno só se repetiria em alguns séculos. Os dois casos possuem duas coisas em comum. Ambos são falsos e ambos foram encarados como legítimos por muita gente.

Esse tipo de situação não é raro. Ainda me lembro que certa vez o Discovery Channel passou um programa que especulava se seria possível, sem apelar ao fantástico, a existência de animais como os lendários Dragões. No dia seguinte diversas pessoas vieram me questionar se eu tinha visto que “os cientistas ” tinham descobertos fósseis reais de dragões. O mais surpreendente foi ver pessoas da minha sala da faculdade repetindo o mesmo.

Sagan já avisava, falta ceticismo no mundo. As pessoas parecem ter uma propensão a aceitar o fantástico imediatamente, sem pararem para questionar o que estão vendo ou aceitando. Um péssimo hábito cultivado cada vez mais por uma sociedade de pensamento padronizado, alguns diriam até “pasteurizado”. Não se para mais para ouvir, por consequência , perdemos a habilidade de analisar o que é dito. A preguiça de pensar ou de averiguar a veracidade do que foi exibido se alastrou como uma doença contagiosa. Qual a finalidade de pensar, se temos quem faça o trabalho pesado por nós?

Talvez seja a hora de os divulgadores científicos agirem com mais energia na tentativa de disseminar o ceticismo saudável, afinal este é o papel de todos que estão comprometidos honestamente com a boa ciência.

Indo além

Bilhões e Bilhões: Reflexões Sobre Vida e Morte.

O Mundo Assombrado Pelos Demônios.

A teoria da evolução NÃO EXISTE.

setembro, 2007

Não. Este que vos escreve não esta fazendo uso de entorpecentes. Nem ficou louco ou deixou de acreditar na ciência. Mas é fato, a teoria da evolução não existe e eu vou explicar o motivo.

A primeira coisa que devemos entender é que em biologia, a palavra evolução não quer dizer “melhoria” ou “progresso”. Na verdade, o Sr. Theodosius Dobzhansky definiu muito bem evolução como a mudança de frequência alélica dentro de um pool gênico. O que isso quer dizer exatamente?

Hoje é bem conhecido que durante a divisão celular o DNA contido na célula é copiado e que este processo nem sempre é exato. Na verdade, é comum que ocorram mudanças na sequência de DNA, conhecida como frequência alélica. Quando esta mudança ocorre em indivíduos já completos, esse processo as vezes resulta em doenças como câncer. No entanto, quando esta mudança na frequência alélica ocorre nas células sexuais, podem provocar a modificação de características de alguns genes. Muitas vezes tais modificações acabam por inviabilizar a célula, mas também não são raras as vezes em que essa mudança produz efeitos benéficos (nem sempre imediatos).

Tal fenômeno já foi devidamente documentado e pode ser observado com certa frequência de modo que podemos dizer que é um fato. A evolução, enquanto mudança de frequência alélica, é um fato observável portanto. O que realmente se questiona a respeito da evolução é a forma como ela ocorre. Qual o mecanismo que faz com que as modificações na frequência alélica se acumulem e sejam selecionados em detrimento de outros? Neste sentido já houve na história uma série de teorias. Entre todas as teorias propostas, a seleção natural de Darwin é certamente aquela que melhor explica os mecanismo da evolução.

O termo “teoria da evolução” acabou sendo usado pelo senso-comum como forma de se referir a toda idéia darwinista/neodarwinista, ignorando completamente o verdadeiro conceito de evolução (que insisto em frisar, é um fato observável) e causando uma série de enganos a respeito do tema.

Vale lembrar que mesmo os defensores do Design Inteligente reconhecem a evolução como um fato, muito embora duvidem que seus efeitos possam resultar no surgimento de novas espécies. O neodarwinismo defende, pelo contrário, que a evolução pode sim ser o motor do surgimento de novas espécies, servindo como uma explicação elegante da diversidade de de seres vivos no planeta.

Como diria Dobzhansky: “Nada na biologia faz sentido senão à luz da evolução”.

10% do cérebro? 100% mito*.

agosto, 2007

Muito se especula sobre a capacidade do raciocínio humano. Nosso cérebro é, observando-se as devidas proporções, o maior do reino animal. Um orgão tão complexo naturalmente é alvo das mais diversas controvérsias. Uma delas, talvez a mais conhecida, é a idéia que atesta que os seres humanos só utilizam 10% de sua capacidade cerebral. Mas qual a verdade nesta afirmativa?

Antes de averiguarmos se realmente a capacidade cerebral não é totalmente utilizada, é preciso entender de onde veio tal conceito. Durante o século 19 as pesquisas sobre o funcionamento do cérebro ainda estavam engatinhando. Existiam diversas teorias sobre a maneira como o cérebro processava as informações. Uma dessas teorias alegava que o cérebro agia como um todo, processando todas as informações da mesma forma e em um mesmo local. Karl Spencer Lashley, seu criador, elaborou um experimento para comprovar sua teoria. Realizava pequenas cirurgias em ratos, lesionando propositalmente partes do cérebro dos animais e depois averiguando seu comportamento.

Lashey logo chegou a conclusão de que, de fato, os ratos não mostravam perda de habilidades visuais ou de memória significativas, mesmo quando a lesão atingia aproximadamente a metade do cérebro. Seus experimentos foram a base de outras teorias que foram surgindo e acabaram por gerar o mito de que os seres humanos não utilizam plenamente sua capacidade cerebral.

Embora sempre tenha havido oposição a esta teoria, ela acabou sendo amplamente difundida pois permitia uma série de interpretações nada científicas. “Videntes” e pessoas que alegavam possuir toda sorte de poderes sobrenaturais davam credibilidade às suas habilidades dizendo que eram capazes de utilizar mais amplamente sua capacidade cerebral. Os “10% do cérebro” viraram um local seguro a se recorrer quando um embasamento científico era necessário para dar credibilidade a algum tipo de charlatanismo.

A teoria de Lashley não sobreviveu aos ataques da ciência. Scanners de ressonância magnética e os PET’s demonstraram visualmente que de fato o cérebro age de forma compartimentalizada, processando diferentes informações em diferentes regiões. Os experimentos de Lashley também se provaram tendenciosos já que não analisavam de forma ampla o comportamento dos ratos lesionados. No mais, a própria afirmação de Lashley não se sustenta. Seria possível retirar 90% do cérebro de uma pessoa sem causar danos reais? O que dizer dos lobotomizados? Afinal, o que esses 10% significam de fato? Nem Lashley, nem os defensores de sua idéia souberam responder.

Hoje em dia o mito dos 10% ainda sobrevive, mas com nova roupagem. No livro Cachorros de Palha (RCB, 2005) John Gray defende que nosso consciente só consegue captar alguns poucos megabytes de informação enquanto nosso inconsciente capta um número muito maior de dados. Não há formas científicas de se quantificar a quantidade de dados captados pelo consciente, mesmo essa divisão de consciente, subconsciente e inconsciente é questionada pela ciência. Tal idéia não me parece diferir muito do mito dos 10%, tanto em sua honestidade quanto em sua validade.

*Obrigado ao amigo Ogro pela idéia do texto.

Indo além

Cachorros de Palha
Continuum: Como Funciona o Cérebro?

Mente e Cérebro

Raça Humana

agosto, 2007

Existem questões na biologia que são controversas por suas implicações político-sociais. Entre as mais discutidas está a existência ou não de raças (ou subespécies) na espécie humana. Até pouco tempo eu mesmo tinha dúvidas sobre essa questão. Durante a faculdade a maioria dos professores que foram indagados sobre o assunto, assumiam que as diferenças morfológicas encontradas entre negros, caucasianos e mongolóides são suficientes para deixar claro a existência de raças na espécie humana. No entanto, parece que as coisas não são bem assim.

É fato que a análise morfológica sempre teve papel fundamental na classificação de espécies. Era justamente a análise das estruturas dos animais encontrados que determinava sua classificação taxonômica. A morfologia ainda é empregada hoje, mas a genética começou a modificar a forma como a taxonomia (ciência que estuda a classificação dos animais) define o lugar de cada animal na árvore da vida.

E vem da genética as bases do conceito de raça empregado atualmente na biologia. Tal conceito atesta que o termo raça pode ser empregado quando membros de duas comunidades possuem diferenças genéticas maiores do que entre membros de sua própria comunidade. Em termos mais simples funciona assim:

  • É feita a análise do código genético de uma população caucasiana e uma população negra;
  • O código genético dos indivíduos da população caucasiana são comparados a fim de se estabelecer uma porcentagem da variação genética desta população. O mesmo é feito com a população negra;
  • O código genético dos indivíduos caucasianos é então comparado ao código genéticos dos indivíduos da população negra a fim de se estabelecer a porcentagem de variação genética destas duas populações;
  • Caso a análise ateste que existem maiores diferenças genéticas entre indivíduos caucasianos e indivíduos negros do que entre indivíduos de uma mesma população, então podemos dizer que existe uma raça.

Tal análise foi de fato realizada na ocasião do projeto genoma e a conclusão a qual se chegou foi de que não existem variações genéticas consideráveis entre populações diferentes na espécie humana. A diferença genética entre mim e um pigmeu australiano é a mesma que entre mim e minha irmã, por exemplo. É curioso notar que nem mesmo entre os cachorros o conceito de raça biológica poderia ser utilizado, também pelos mesmos motivos.

O conceito de raça então não é biológico. A bem da verdade a palavra “raça” hoje em dia define muito mais uma etnia do que uma subespécie. Vale lembrar também que nós já somos enquadrados como uma subespécie. O nome científico utilizado para nos descrever é Homo sapiens sapiens, sendo a palavra “Homo” o nosso gênero, o primeiro “sapiens” nossa espécie e o segundo “sapiens” nossa subespécie. A nomenclatura biológica atual não prevê regras para definições de subgrupos de subespécies, o que reforça a idéia de que sendo o ser humano moderno uma subespécie não deve ser dividida ainda mais em subgrupos adicionais.

Evidente que o conceito de raça pode continuar sendo empregado de forma comercial para definir diferentes linhagens de cachorros ou cavalos, mas devemos lembrar que é um termo que não é sustentado pela biologia e não deve ser utilizado como forma de diferenciação morfológica. O termo também não deveria ser utilizado para definir as diferenças existentes entre indivíduos humanos, talvez a palavra etnia realize tal função de forma mais eficiente já que é empregada para diferenciar as particularidades culturais das mais diversas populações.

Indo além:

Genes, Povos e Línguas
A Invenção das Raças

A difícil arte do saber ouvir.

agosto, 2007

Me vem agora a situação ocorrida entre Albert Einstein e Edwin Hubble, dois dos maiores cientistas de todos os tempos. Na ocasião do desenvolvimento da teoria da relatividade geral Einstein partia de um modelo de universo estático. Para que seus cálculos fossem condizentes com esse modelo estático Einstein criou a constante cosmológica¹. A constante foi contestada por Edwin Hubble que propôs um modelo de universo em expansão que excluía a necessidade de uma constante nos cálculos da relatividade geral. Einstein então abandonou sua idéia alegando que ela teria sido o maior erro de sua vida.

Em um cenário ideal o debate científico deveria ser sempre assim. Não raro as teorias científicas se contradizem ou explicam fenômenos de formas diferentes. Não há nada errado com isso, é assim que se constrói o conhecimento científico. No entanto, nem sempre os defensores de teorias concorrentes estão dispostos a debater abertamente sobre suas linhas de pensamento.

Se o problema de comunicação já ocorre entre a comunidade científica, o mesmo se dá em graus ainda mais preocupantes quando uma teoria qualquer é discutida não só pelos cientistas mas também por leigos. Nada de errado com isso também, uma das grandes virtudes da ciência é se prestar ao debate amplo. Evidente que para tal os interlocutores devem compreender minimamente o tema que desejam debater. No entanto, isso nem sempre ocorre.

Infelizmente é muito comum a existência de debates que fogem ao que é saudável, ao debate sério e que busca o crescimento intelectual geral e o esclarecimento sobre o assunto debatido, se atendo ao combate de egos, crenças e posições políticas. Acredito que parte deste problema é a dificuldade aparentemente comum que muitas pessoas tem em parar para ouvir os argumentos e idéias de seus “adversários”. Analisar de forma séria e sem preconceito idéias opostas não é fácil, confesso que tenho este problemas muitas vezes.

Ouvir é difícil mas totalmente necessário. Devemos nos esforçar para ouvir posições contrárias às nossas, devemos dar a chance para que o “outra lado” possa construir seus raciocínio e expor as justificativas às suas idéias. Somente desta forma podemos analisar melhor nossos próprios pontos de vista e, no geral, isso é ótimo. Aponta problemas e defeitos em nossas idéias, suas limitações e as formas como melhorá-las.

Devemos nos policiar ao máximo e manter a mente sempre aberta a mudanças e a novas idéias. É importante evitar ataques ad hominem já que desacreditar nossos adversários não é ético, bonito e nem invalida suas idéias. Debates devem se prestar a troca de idéias e análise destas idéias, não existem vencedores e perdedores em debates sérios. Saber ouvir e permitir a livre expressão de idéias e teorias opostas as nossas faz parte da construção do conhecimento científico e moral de todos, e seria ideal se todos tivéssemos a humildade que Einstein teve.

Saber ouvir é, antes de tudo, um exercício fundamental para o bem estar da sociedade e para o progresso honesto.

¹: A constante cosmológica hoje em dia é considerada como válida na teoria atualmente discutida de que o universo na verdade esta em expansão acelerada. O caso demonstra mais uma vez o caráter dinâmico da ciência, aonde teorias e idéias que hoje são julgadas como ultrapassadas podem ser consideradas válidas novamente em decorrência de novas descobertas.

Design Inteligente?

agosto, 2007

Vamos imaginar uma situação simples. Você entra na cozinha de sua casa e encontra um bolo de fubá prontinho em cima da mesa. Enquanto considera se deve comer o bolo com leite condensado ou manteiga você pode se perguntar sobre a origem do bolo. Foi feito em casa? Foi comprado? Mas será que você consideraria a hipótese de o bolo ter se formado por uma série de eventos acidentais aleatórios? Você consideraria a idéia de um caminhão de farinha ter atropelado uma banca de ovos da feira em frente a sua casa e no acidente ter lançado a quantidade certa de farinha e ovos pela sua janela dentro de uma forma localizada em cima do fogão e que caiu dentro do seu forno, ligando o fogo no processo e assando o bolo?

A situação hipotética acima é um exemplo das argumentações feitas pelos defensores da teoria do Design Inteligente contra a teoria da evolução. A idéia é de que os organismos vivos são complexos demais para terem se originado por um processo aleatório, alguns sistemas orgânicos como os olhos e o fator de coagulação são tão complexos que dificilmente poderiam ter se formado de forma gradual como sugere a teoria neodarwinista. É o que o Design Inteligente chama de complexidade irredutível. Como solução alternativa ao “deixa estar” natural proposto pela teoria da evolução, o DI propõem então que a única explicação plausível para o problema é a intervenção de uma inteligência superior não definida. O próprio designer inteligente.

Mas será que o Design Inteligente pode ser considerado uma teoria de fato? Seria ele uma alternativa à teoria da evolução, como assim desejam seus defensores?

Se lembrarmos do racionalismo crítico vamos notar que para que uma hipótese seja considerada como teoria ela deve, obrigatoriamente, poder ser falseada. Estabelecer argumentos ou hipóteses em princípios que não possam ser negados ou comprovados é o mesmo que retirar todo o objetivismo de um enunciado. A pedra fundamental do DI é a existência de uma inteligência superior que afeta diretamente os processos biológicos deste planeta. Mas qual a natureza dessa inteligência superior? Aonde ela está? Como ela age? E quando? Sob quais condições?

Todas essas perguntas não são respondidas ou mesmo abordadas pelo DI. Tudo o que o DI faz é tentar explicar um fato natural utilizando-se de algo que não podemos saber como é ou mesmo se existe de fato. Fica evidente portanto que o DI não pode ser encarado como uma teoria séria, na verdade, não pode ser encarado sequer como uma teoria.

O argumento da complexidade irredutível já foi refutada diversas vezes por cientistas diferentes. Os princípios de evolução convergente e divergente fornecem uma explicação plausível e científica sobre a origem de partes complexas. Mesmo Michael Behe, um dos maiores defensores da complexidade irredutível, abandona a idéia em seu livro mais recente, aceitando a ancestralidade comum dos seres vivos mas alegando que esta ancestralidade ainda é guiada por um “designer inteligente”.

O Design Inteligente não se sustenta. Suas argumentações contra a teoria da evolução são fracas e geralmente refutáveis. Não apresenta indícios sérios de seus enunciados e não deve ser encarado como uma alternativa válida à teoria da evolução.

Indo além:

A Caixa Preta de Darwin

O Relojoeiro Cego

A Escalada do Monte Improvável

Como a ciência funciona: O Racionalismo Crítico moderno e suas críticas.

agosto, 2007

As idéias de Popper, que foram discutidas no texto anterior, sofreram severas críticas de uma série de filósofos. Entre eles podemos sitar Thomas Khun e Lakatus. As críticas desses filósofos diziam que históricamente uma teoria que tenha sido superada por outra não é, muitas vezes, descartada e pode continuar sendo válida. Um bom exemplo desse cenário é o que ocorre com a teoria newtoniana e a teoria da relatividade de Einstein. A primeira tendo sido superada pela segunda deveria ter sido descartada, no entanto muitos cálculos ainda são feitos baseados na teoria newtoniana mesmo essa tendo sido superadas.

Alguns opositores do racionalismo crítico tem como alegação central de que não é possível falsear qualquer teoria existente. Basta modificar as hipóteses auxiliares que suportam a teoria para resolver o problema. Seria o equivalente a dizer que ainda que não se encontrassem fósseis transitórios que pudessem suportar a teoria da evolução isso não invalidaria a teoria pois os fósseis podem não ter se formado por diversos motivos, ou por que os animais transitórios não existiam em número suficiente a ponto de deixarem fósseis ou ainda por que não foi possível encontrar tais fósseis.

Para alguns racionalistas críticos modernos no entanto, as críticas as idéias de Popper são infudadas. Eles alegam que com efeito as teorias, ainda que tenham sido superadas, podem ser alvo de dedicação de grupos de cientistas com o interesse de atualizá-las ou solucionar os problemas que às levaram a serem deixadas de lado. Ou seja, ainda que a teoria tenha sido falseada, ela pode passar por modificações que permitam que ela tenha validade novamente.

Portanto, ainda que o racionalismo crítico tenha opositores, ele ainda é aceito como sendo válido e é de qualquer forma um bom método para se avançar no entendimento do universo que nos cerca. As idéias de Khun e Lakatus também são defendidas por grupos de cientistas e seus conceitos também são válidos embora muitas vezes sejam divergentes com o racionalismo crítico.

A série de artigos sobre o método cientifico se encerra aqui. Um tema tão fundamental e abrangente forneceria por si só material para um site exclusivo. Não pretendo transformar o Polegar Opositor em um dossiê sobre o método científico, mas inevitavelmente este será um tema recorrente. Espero ter conseguido condensar o tema a ponto de torná-lo inteligível para todos que aqui chegaram mas em caso de dúvidas e sugestões, por favor, não exitem em usar a caixa de comentários ou os tentilhões.

Indo além:
O Método Científico: Como o Saber Mudou a Vida do Homem

Como a ciência funciona: O Racionalismo Crítico.

julho, 2007

O positivismo lógico, discutido no texto anterior, apresentava alguns problemas como método científico. Ele simplesmente não era compatível com novas idéias que vinham ganhando espaço como a teoria da evolução através da seleção natural e a física quântica. Era fato que essas teorias não podiam ser embasadas em observações empíricas já que seus enunciados tratavam de coisas que demoram muito tempo para ocorrer ou que são pequenas demais para serem observadas.

A solução veio com Karl Popper e seu racionislismo crítico. Popper negava o caracter cumulativo do conhecimento científico e argumentava que não era possível saber se uma teoria estava mais próxima da verdade do que outra. Popper então propôs uma mudança de visão, alegava que seria muito mais acertado tentar falsear a teoria do que verificar sua legitimidade. Para tal, Popper acreditava que toda hipótese deveria passar por severos testes de verificação de seus enunciados, se a hipótese resistisse a uma tentativa de demonstrar que ela era falsa ganhava o status de teoria.

A teoria então era considerada como a mais aceita para explicar determinado evento ou fenômeno e continuava válida até que uma nova teoria fosse proposta. Quando isso acontecia, segundo Popper, a teoria anterior deveria então ser descartada e substituída pela nova teoria. Definiu-se então o conceito de força de uma teoria. Quanto mais ela resistisse ao processo de falseamento, mais forte ela se tornava.

Pelo racionalismo crítico era possível aceitar hipóteses que trabalhavam com previsões que não poderiam ser testadas de forma empírica. Um exemplo disso é a própria seleção natural que, a grosso modo, diz que a diversidade biológica do planeta é explicada pela evolução de espécies partindo de outras já existentes de acordo com modificações aleatórias selecionadas pelo meio ambiente. Pelo positivismo lógico seria necessário observar o surgimento de uma nova espécie para que a hipótese da seleção natural fosse considerada válida ganhando o status de teoria. Pelo racionalismo crítico poderíamos nos valer de algumas previsões da hipótese para fazer um teste na tentativa de falsear a teoria. Por exemplo, uma das previsões da seleção natural é a existência de fósseis de animais intermediários entre duas espécies existentes. É fato conhecido a quantidade de fósseis encontrados que corroboram com essa previsão, portanto a seleção natural passou pelo teste de falseamento de uma de suas previsões.

Veja que caso não fosse encontrado fósseis que corroborassem com a seleção natural, ela seria descartada como teoria (teria sido falseada) e uma nova teoria deveria ser proposta para explicar a biodiversidade do planeta.

Em resumo:

  • A: O racionalismo crítico nega que o conhecimento cientifico tenha caráter cumulativo;
  • B: Alega que não é possível saber se uma teoria está mais próxima da verdade do que outra e;
  • C: Estabelece que toda teoria tem caráter provisório e que deve ser substituída quando uma de suas previsões for falseada.

A mudança de paradigma proposta pelo racionalismo crítico permitiu a expansão do conhecimento científico, mas será que seria ele a resposta definitiva para o método? É o que veremos no próximo texto.

Indo além:

Método Científico: Como o Saber Mudou a Vida do Homem

Como a ciência funciona: O Positivismo Lógico.

julho, 2007

No texto anterior tratamos sobre a definição de hipótese, teoria e lei de acordo com as ciências naturais. Só pra relembrar o que foi dito:

  • A: Hipóteses são idéias que tentam explicar um fato observável;
  • B: Teorias são hipóteses que passaram pelo processo de averiguação de suas previsões e;
  • C: Leis são hipóteses que explicam eventos que ocorrem com regularidade.

A pergunta lógica que deveríamos fazer ao observar as definições acima é, qual o processo de averiguação que se usa para constatar as previsões ou a regularidade de uma hipótese? Essa é uma pergunta bastante importante já que o método empregado acaba por definir o que é uma teoria ou o que é apenas uma hipótese sem valor algum.

No decorrer da história do mundo, houveram muitas propostas sobre o método de análise cientifica. Um dos mais notáveis foi chamado de Positivismo Lógico (ou Empirismo Lógico). O Positivismo Lógico surgiu durante o Iluminismo e teve forte influência do círculo de Viena e do trio britânico de filósofos, John Locke, George Berkeley e David Hume.

Pelo Positivismo Lógico uma hipótese só pode ser considerada válida se suas previsões puderem passar por um teste empírico, ou seja, se suas previsões puderem ser observadas ou sentidas pelosorgãos dos sentidos.

Por exemplo, eu posso pegar uma caixa de “Especialidades Nestlé” e dizer que dentro dela vão ter três Charges. Bastaria abrir a caixa e contar a quantidade de Charges que ela contém, se fossem três minha hipótese estaria confirmada de forma empírica e passaria a ser chamada de teoria. A teoria permaneceria válida até que uma caixa de “Especialidades Nestlé” que contivesse qualquer número de Charges diferente de três fosse encontrada.

Observamos portanto que pelo método do Positivismo Lógico toda teoria era válida até que se provasse o contrário e o conhecimento cientifico podia ser quantificado de forma probabilística. Ou seja, quanto mais caixas de Especialidades Nestlé fossem abertas e contivessem três Charges, mais provável era de que o enunciado “toda caixa de Especialidades Nestlé tem apenas três Charges” fosse verdadeiro.

Podemos afirma então que o Positivismo Lógico:

  • A: Estabelecia o empirismo como o diferencial do que era cientifico e do que era metafísico e
  • B: Pregava a progressão do conhecimento cientifico.

O Positivismo Lógico foi a base do método cientifico até que recebeu severas críticas do filósofo austríaco Karl Popper. As críticas de Popper bem como suas idéias serão discutidas no próximo texto.

Indo além:

O Método Científico: Como o Saber Mudou a Vida do Homem