Para muitos, senão quase todos, escolher a profissão é um privilégio incalculável. Em geral a opção deve considerar a remuneração, especialmente quando se vai para a universidade passar um tempo financeiramente improdutivo. Acho que é assim que se explica a enorme quantidade de gente estudando alguma engenharia – e, também, a enorme fração de engenheiros que penduram seus diplomas trabalhando em bancos internacionais. Os salários compensam.
Já empregar-se em ciência, em geral, não vai fazer ninguém enriquecer. Tampouco há incentivos para ser cientista no Brasil, já que a regra é estudar muito (somando-se a graduação e a pós-graduação, pode-se calcular uma média de 10 anos de dedicação integral à formação acadêmica) e ganhar muito pouco ou, às vezes, nada. A especialização científica é quase que totalmente estimulada pelas instituições públicas e as bolsas são de baixo valor, têm pouca duração e sua concessão é, muitas vezes, incerta. Apesar disso, eu conheço muitos cientistas felizes e, talvez isso se deva ao fato de que eles atenderam à sua vocação quando escolheram a carreira.
Estima-se que, entre 1985 e 1990, somente 10 títulos de pós-graduação tenham sido concedidos a cada milhão de habitantes no País, o que faz do cientista brasileiro uma espécie rara. Minorias geralmente recebem estereótipos mais facilmente – então aqui estamos, com nosso exemplar de cientista maluco, inteligência muito acima da média, cabelos revoltos, óculos de fundo de garrafa, projetos absurdos, linguajar incompreensível. Como a divulgação do conhecimento científico produzido é muito restrita, tem-se a impressão de que a ciência é inatingível ou, até mesmo, inútil. Outra idéia que se faz do cientista é a de que ele é fundamentalmente um utilitarista, alguém que projeta coisas – o que representa essencialmente a função da pesquisa chamada aplicada. Normalmente ignora-se a existência de um outro tipo de pesquisa, a que trata da ciência básica. Por causa disso, o cientista que faz pesquisa básica deve ser um pouco mais paciente quando explica aos outros a sua profissão. Tomemos o meu exemplo:
Os interesses científicos são, por várias vezes, considerados extravagantes. Em parte a culpa é dos próprios cientistas, que não explicam ao público leigo de que se tratam as suas pesquisas. Por que é que uma pessoa comum acharia útil financiar com recursos públicos a pesquisa de uma lunática fascinada por besouros? “Ah, muito bem, então agora vou pedir que o governo me pague pra que eu jogue bola!”. Como Carl Sagan já mencionou, o consenso popular é de que “(…) Não é o caso de subsidiar a curiosidade dos nerds, mas aquilo que trará benefícios à sociedade”. Eu poderia usar o argumento do meu interlocutor, de que vou encontrar maneiras de acabar com o meu besouro, já que ele é uma praga agrícola em potencial, mas isto não é verdade, o meu projeto trata de uma fase anterior à essa. Para acabar com o besouro, é necessário saber quem ele é, onde ele vive e como ele vive – esses são os verdadeiros objetivos do meu trabalho. Pode ser que eu descubra que ele não é praga de nenhum cultivar importante, e é aí que reside o princípio fundamental da ciência básica: a sua aplicabilidade, quando existente, é sempre futura.
Defender a priorização de recursos para a aplicabilidade imediata do conhecimento científico é o mesmo que dizer, em um exemplo grosseiro, que encontrar a cura do câncer é mais importante do que conhecer a biodiversidade do planeta. Em lógica, isso representa uma falácia – um argumento falso deduzido a partir de uma premissa contestável. Aqui, a premissa seria a de que o bem-estar da humanidade não depende do ambiente em que ele vive. Sabemos que isso não é verdade, o homem não existe se não existir Planeta Terra e o conhecimento a respeito de sua biodiversidade é fundamental para entender o seu funcionamento geral. Assim, o que temos, em verdade, é que os dois interesses são igualmente significativos – o que, por consequência, coloca ciência básica e aplicada em um mesmo patamar.
O que aconteceria se o pensamento imediatista fosse sempre a regra? Sagan cita exemplos históricos imaginando essa situação:
“(…) Um certo sr. Fleming deseja estudar micróbios num queijo fedorento; uma polonesa deseja analisar minuciosamente toneladas de minério da África central, para descobrir quantidades diminutas de uma substância que, segundo ela, brilhará no escuro; um certo sr. Kepler deseja escutar a música dos planetas.”
O resultado seria catastrófico, porque, afinal:
“Maxwell não estava pensando no rádio, no radar e na televisão quando rabiscou as equações fundamentais do eletromagnetismo; Newton nem sonhava com vôos espaciais ou satélites de comunicações quando compreendeu pela primeira vez o movimento da Lua; Roentgen não cogitava em diagnóstico médico quando investigou uma radiação penetrante tão misteriosa que ele a chamou de “raios X”; Curie não pensava na terapia do câncer quando extraiu a duras penas quantidades diminutas de rádio do meio de toneladas de uraninita; Fleming não planejava salvar a vida de milhões com antibióticos quando observou um círculo sem bactérias ao redor de uma formação de mofo; Watson e Crick não imaginavam a cura das doenças genéticas quando tentavam decifrar a diafratometria dos raios X do DNA; Rowland e Molina não planejavam implicar os CFCs na diminuição da camada de ozônio quando começaram a estudar o papel dos halógenos na fotoquímica estratosférica.”
É engraçado que as pessoas perguntem, sem acanhamento, o “pra quê?”. Parece mais fácil aceitar uma profissão do tipo “personal coach” (o que é isso, afinal???) do que uma profissão como “taxonomista”, “físico de partículas” ou “filósofo”. Infelizmente o acesso até aos conhecimentos científicos mais simples ainda é incrivelmente restrito. Por isso eu não fico mais brava quando me perguntam “pra quê?”, mas tenho sinceras esperanças de que uma dia essa pergunta seja considerada quase que uma falta de respeito.
Inspirações e onde saber mais:
Carl Sagan. O Mundo Assombrado Pelos Demônios: No capítulo 23 (Maxwell e os nerds), com explicações detalhadas sobre as descobertas revolucionárias do grande físico Maxwell, Sagan discute o estereótipo do cientista nerd, a ciência básica e as políticas de inovação científica dos últimos anos nos países de primeiro mundo.
Simon Schwartzman. Pesquisa acadêmica, pesquisa básica e pesquisa aplicada em duas comunidades científicas: Diretor-presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), Schwartzman analisa as definições dos modelos de pesquisa e suas implicações políticas.
Oswaldo Ubríaco Lopes. Pesquisa básica versus pesquisa aplicada: Professor do Departamento de Fisiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, Lopes discute brevemente a antiga guerra entre as áreas de pesquisa.
Leia também:
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muitos brasileiros orgulham-se somente por coisas do tipo de termos algumas das maiores jazidas de Fe do planeta, por exemplo, mas quanto custa uma tonelada de Fe gusa no mercado internacional?
Agora, quanto custa uma mg de Fe processado na forma de microprocessador, Rolex, Ferrari…???
Conhecimento, ou ciência de qualidade é poder. Poder é dinheiro…
Blogs vem a ser uma boa válvula de escape para nós que estamos “do lado negro da força” perante a sociedade, enquanto esperamos uma nova “Lei Áurea” (leia-se políticas inteligentes de incentivo à ciência, do maternal ao pós doutorado…)para tirar o Brasil da escravidão tecnológica.
Also, time is money…
Oi, Laura!
Como você vê o projeto Genoma, por exemplo, nesse contexto? Pergunto porque como leigo, entendo que mapear o DNA é algo bastante “observatório” e básico, tanto quanto observar besouros (as possibilidades decorrentes, como você brilhantemente demonstrou com os exemplos de Sir Newton e Madame Curie, etc., são conseqüências dessa observação e não necessariamente o objetivo dela), não é? Ou viajo?
Supondo que eu esteja pelo menos no caminho certo (e não viajando totalmente): você acha que o sucesso desse programa – e, é claro, a participação intensa que o Brasil teve nele, que foi tão divulgada – pode contribuir para um maior incentivo à pesquisa no país? E outra curiosidade minha: quais seriam outras maneiras de incentivar o incentivo (eita expressão boa!) à pesquisa? (quero dizer no sentido de não simplesmente aguardar que o governo faça algo, e sim MOTIVAR o governo a fazer algo – gerar pressão popular, por exemplo. Coisas assim. Em negócios, isso se chama “Push strategy”: se quero que a empresa me dê um treinamento, eu trabalho mais para ter maiores responsabilidades até o momento em que a empresa sinta a “pressão” de me dar o treinamento para que eu possa me desenvolver mais e gerar mais resultado, e por aí vai…)
Olá,
É muito pertinente a sua observação em relação à categoria à qual o Projeto Genoma pertence. Sim, esse projeto trata de uma simples investigação da composição total do código genético de um determinado organismo – ciência básica.
O sucesso do Projeto Genoma em relação ao público e à mídia se deve a um marketing suscitado pelas razões erradas: passava-se a idéia equivocada de que, possuindo a seqüência genética completa de uma espécie, seria possível desmistificá-la e transformá-la de maneiras maravilhosas. Onde está o erro nesta sentença? Bem, o erro está na idéia de que o DNA é a estrutura única e fundamental de determinação do indivíduo. A publicidade esqueceu de mencionar que, além do DNA puro, existe toda a série de processos que leva à sua decodificação em um ser-vivo, gerando o que ele é de fato. Não basta listar as letras que compõem o alfabeto, é necessário também saber quais letras são úteis, como elas interagem entre si e que palavras e frases elas podem formar – e, além disso, o que as frases irão compor (perdoe a analogia tosca). Por isso, além do Projeto Genoma, outros projetos também devem ser agora incentivados, como um Projeto Proteoma (que trata das proteínas decodificadas pelo DNA de uma espécie) e um Projeto Expressão Gênica, etc, etc.
Como você bem notou, as aplicações do Projeto Genoma são inúmeras e essa foi a razão pela qual ele foi tão incentivado, especialmente pelo potencial tecnológico que poderia gerar – o que, para as grandes empresas privadas que também entraram na corrida pelo seqüenciamento, significa uma coisa muito simples: lucro. Infelizmente é muito difícil encontrar exemplos como esse, porque, na maioria dos casos, a aplicação não pode ser facilmente deduzida ou, ainda, pode não existir. Por isso acho que o Projeto Genoma não ajudou muito as outras áreas da pesquisa básica, apesar de ter motivado milhares de jovens estudantes a querer participar da ciência – o que, pessoalmente, acho muito bom.
O “incentivo ao incentivo”, em geral, depende da cultura da época. Quando os EUA foram fundados, por exemplo, o espírito progressista de George Washington proclamou em um discurso: “Nada é mais digno de nosso patrocínio que o fomento da ciência e da literatura. O conhecimento é, em todo e qualquer país, a base mais segura da felicidade pública”. Sabemos que, em nossos tempos, não há um desejo de investigação e o questionamento não é mais considerado uma virtude – certamente resultados de tempos de repressão e guerras. Acho que a pressão popular é muito importante para a mudança, mas também é a pressão lobista. Se o lobby em nosso país fosse legalizado (como é, por exemplo, nos EUA), poderíamos ter um grupo que representasse os interesses da ciência. Infelizmente esse não é o caso, então o que nos resta é a argumentação aliada à publicidade. Pode-se usar, por exemplo, estatísticas que comparem a produtividade científica entre as nações e os fatores relacionados; dados que analisem a situação da pesquisa e a sua relação com a tecnologia e o PIB, por exemplo. Isso está acontecendo atualmente com as pesquisas de biodiversidade, que têm sido incentivadas (relativamente) por causa da velocidade alarmante com que se está desmatando e a preocupação gerada na população e no governo após estudos científicos e divulgação desses resultados na mídia.
Ufa, espero que tenha respondido as suas dúvidas. Me desculpe pela resposta longa!
Abraços.
Sabe, eu tenho um amigo, também biólogo, que anda se especializando em canto de passarinho. Não só em canto de passarinho, mas no canto de UM passarinho em especial. Confesso que com a minha visão utilitária das coisas não vejo muito sentido não. Tampouco entendo quando um mestrando sai de longe pra vir aqui conferenciar com ele a respeito do assunto. Eu sou advogado (advogado é o seguinte, se vc chutar uma árvore cai quatro) e comecei, bem recentemente, a dar uma estudada na ciência do Direito e todo mundo me pergunta “pra quê?!?”. Bom, o negócio é que eu não quero saber só o quê e como, eu quero saber os porquês, de onde veio, pra onde vai, etc. A diferença no meu caso é que o esculacho não vem do sujeito que desconhece o ramo, vem logo do seu colega de profissão!
Quanto ao amigo do passarinho, toda vez que ele toca no assunto a gente pede pra ele assoviar, haha.
Bjs
Muito bom, muito bom, muito bom!!!!!
Estava buscando algo que me ajudasse a explicar à minha esposa sobre as futuras contribuições práticas do LHC e de toda ciência de base e acabei parando aqui no Polegar Opositor. Tanto o blog inteiro quanto esse artigo. Perfeita explicação sobre ciência básica e aplicada. Obrigado pela ajuda.
[...] e ciências de base e aprender a dar a devida importância, recomendo a leitura do artigo “Ciência básica: então, mas você vai estudar isso pra quê?“, da cientista Laura Rocha Prado, também no blog Polegar [...]
Parabéns!!! É desse forma que vamos mudar a mentalidade do nosso povo!
Laura, gostei muito do seu texto. Eu estou há alguns anos na inglória luta de conciliar meu trabalho com um programa de mestrado e, é óbvio, o resultado é o de ainda não ter terminado o mestrado… Sempre fui fascinado pelo conhecimento e pelas possibilidades da natureza, mas como demorei muito a voltar a estudar (7 anos) após o término do curso superior, não pude me permitir viver de bolsa (tentei, mas não deu certo). Acho vergonhoso o investimento em pesquisa no Brasil: é ÍNFIMO!
Eu sempre critiquei os trabalhos feitos sem respeito por quem vai ler e o mau uso da língua portuguesa, mesmo eu sendo "alguém de exatas" (se é que é correto um rótulo como esse, já que existe tanta interdisciplinaridade) e, com o tempo, passei para o mundo acadêmico, mas no nível dos cursos técnicos em escola particular (imagina se eu posso exigir algo de alguém…).
Por isso, é um alívio para mim ler um texto como o seu e saber que existem pessoas interessadas na natureza das coisas e na busca pelo conhecimento. Meu trabalho tem sido voltado à ciencia tecnológica, mas reconheço o valor da ciência básica e da aplica, sem as quais não haveria a tecnológica.
Um abraço,
Wagner
[...] e por vários motivos. Um deles (a importância do conhecimento básico) é muito bem tratado num texto da Laura, em que ela conta o preconceito que sofre por estudar bichos que “não servem pra nada”. Um [...]
sim
' adorei, no futuro quero se formar em zoologia também.! sou fascinada por biologia