Comunicação da Ciência e Web 2.0: A Tese.

maio, 2011

Há pouco mais de dois anos eu decidi atravessar o Atlântico em direção à Lisboa com o intuito de fazer um mestrado em História e Filosofia das Ciências, na Secção Autónoma de História e Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. na época em que fui, imaginava fazer algo relacionado à divulgação científica, mas não tinha uma ideia muito clara ainda.

É curioso pra mim falar sobre esse processo agora sem me recordar de um vídeo muito interessante em que o cocriador da Apple, Steve Jobs, fala como experiências de vida aparentemente sem relação qualquer o ajudaram depois a revolucionar o próprio conceito de computador pessoal que ele próprio havia criado anos antes.

Não estou me comparando de modo algum ao Steve Jobs, evidente, mas acredito que passei por um processo similar. Com dezesseis anos comecei a trabalhar em uma gráfica como artefinalista. Por conta disso passei a me interessar por comunicação visual e design, o que me levou anos depois a fazer o curso de design gráfico da Escola Panamericana de Artes.

Terminado o curso, decidi entrar em uma faculdade. Fiz vestibular pra direito e passei mas, por uma série de complicações, acabei trocando pra ciências biológicas, sem muita vontade de seguir com o curso. Bastou-me uma semana de aulas pra eu ficar apaixonado pelo curso e seguir até o fim.

Entre o curso de design e a faculdade de biologia, eu que já era um viciado em computadores e tinha acesso à internet desde 1996, passei a me interessar por blogs. Comecei, como todo mundo que conheço, com um blog sobre coisas pessoais e fui mudando gradativamente até que 2007 comecei este singelo blog de divulgação científica. No ano seguinte, justamente por causa do blog, acabaria por me inscrever no curso de divulgação científica do Núcleo José Reis de Divulgação Científica.

E daí volto à minha tese. Estávamos lá eu e minha orientadora, a professora Olga Pombo, olhando para todo este meu background quando ouvimos, os dois, quase que ao mesmo tempo, o “clic” característico das engrenagens se encaixando e botam tudo pra funcionar. Decidimos que o tema da minha tese seria “Comunicação da Ciência e Web 2.0”.

Ora, trata-se de um tema mais que pertinente para mim. Eu poderia usar minha bagagem na comunicação visual, minha graduação em uma disciplina científica, meu interesse pela Web e meu trabalho de divulgação científica para tratar de um tema tão recente e tão importante não só para a ciência enquanto atividade, mas também para a filosofia das ciências como disciplina.

O processo do mestrado me tomou mais tempo, energia e dedicação do que eu jamais poderia prever. Como consequência, este pobre blog que foi tão importante pra que tudo isso acontecesse, acabou ficando negligenciado por este que voz escreve. Negligenciado por mim, mas não abandonado, e aqui fica meu agradecimento público, pelos meus tão queridos amigos e colaboradores que continuaram doando um pouco de seu tempo e intelecto para este singelo sítio.

Enfim, o mestrado está praticamente no fim* finalmente concluído. A tese já foi terminada e estou aguardando a defesa que deverá ocorrer nas próximas semanas e* já foi defendida, no melhor espírito Web 2.0, gostaria de compartilhar o fruto deste trabalho que tomou conta dos últimos dois anos e pouco da minha vida. Disponibilizo então, para leitura online ou download, a minha querida tese.

O título é, como já ficou evidente, COMUNICAÇÃO DA CIÊNCIA E WEB 2.0. Pro caso do título sozinho não chamar a sua atenção, deixo abaixo o índice e o resumo. Feedbacks são SEMPRE bem vindos, nem que forem só pra criticar o trabalho (desde que respeitosos, é claro).

Mas chega desse papo furado e conversa fiada e vamos de uma vez ao que interessa…

 

COMUNICAÇÃO DA CIÊNCIA E WEB 2.0

Resumo: Os processos comunicativos estão na base da construção da própria Ciência. Como tal, segundo a teoria de McLuhan, estão sujeitos à mudança dos meios pelos quais esta comunicação é feita, o que acaba por alterar a própria comunicação em si. Meio é mensagem, e nos últimos anos estamos acompanhando a solidificação de um novo meio digital, a Web 2.0, que permite novas formas de interação e provoca mudanças na forma como a Ciência é feita, seja ao nível horizontal da comunicação legitimadora entre os pares, seja ao nível vertical da comunicação entre as gerações (ensino), seja ao nível transversal da comunicação entre Ciência e sociedade. O que vemos hoje é a constituição de uma nova cultura acostumada à abundância e livre acesso à informação, que está no centro de uma revolução cultural e comunicativa que afeta diretamente a maneira como produzimos e comunicamos a Ciência.

Índice:

  • 1- Introdução
  • 2- Da tribo ao livro, da tinta ao pixel
  • 3- Conceitos de Comunicação da Ciência
  • 3.1- Comunicação e Construção do Conhecimento
  • 3.1.1- Comunicação horizontal entre pares
  • 3.1.2- Comunicação transversal entre a Ciência e a Sociedade
  • 3.1.3- Comunicação vertical entre Gerações
  • 3.2- Comunicação da Ciência, agentes comunicadores e comunicação transdisciplinar
  • 3.2.1- Do caráter multiplo do agente comunicador
  • 3.2.2- Divulgação Transdisciplinar
  • 4- Ciência 2.0: Comunicação horizontal da ciência em um ambiente aberto
  • 4.1- Investigação 2.0
  • 4.2- Publicação em um ambiente digital
  • 4.3- Ciência e a cultura do remix
  • 5- Divulgação Científica: A comunicação transversal da ciência

 

PS1: Como a tese foi feita em Portugal, o texto por vezes sofreu modificações para evitar possíveis confusões. É o exemplo do uso da palavra “investigação”, quando no Brasil usaríamos “pesquisa”. Em todo caso, são poucas as vezes em que esse tipo de “correção” foi empregado e o texto não sofre em clareza por conta disso.

PS2: Subi para o Google Docs uma versão em PDF para evitar a perda da formatação do texto em geral. Se vocês acham que o formato dificulta a leitura de alguma forma, aceito sugestões de opções melhores para a disponibilização da tese.

*UPDATE: A tese foi defendida no final de maio, muitas questões relevantes foram abordadas durante a defesa e eu gostei muito do processo como um todo, embora ele não deixe de ser um pouco assustador no começo. Seja como for, a nota final ficou em 17 valores, ou no esquema de notas brasileiro, 8,5 🙂