O ego e o eco: a carreira acadêmica, publicações e o acesso à produção científica

fevereiro, 2012

A Ciência é a forma mais eficiente que conhecemos de descobrir como o mundo funciona. Ela sacia a nossa curiosidade e permite que a gente invente coisas e construa engenhocas e máquinas de todos os tipos e para todos os fins. Medicina, tecnologia, exploração do espaço, conservação de ambientes naturais, produção de energia, etc., são todas áreas extremamente relevantes na atualidade nas quais contamos fortemente com a Ciência. E contamos com ela na forma de investimentos; muito dinheiro (muito mesmo!) é gasto anualmente com Ciência. Por exemplo, na Europa quase 8 bilhões de euros foram gastos para a construção de um acelerador de partículas, o LHC. Vale lembrar que em muitos países (incluindo o nosso) boa parte do dinheiro investido em Ciência vem dos cofres públicos, o que significa que somos nós, todos nós, que pagamos por isso.

Ok. Então gastamos uma grana bem razoável com a Ciência porque ela é a forma mais eficiente que temos de construir conhecimento confiável. Provavelmente é um dinheiro bem gasto. Mas será que teria alguma forma de tornar a Ciência mais eficiente?

Um paradigma epistemológico

Os cientistas são pessoas que passaram (e passam) muito tempo de suas vidas estudando. Estudando muito, e cada vez coisas mais e mais específicas até se tornarem grandes especialistas em alguma micro área do conhecimento. No entanto, durante todo o processo de formação acadêmica dos cientistas, eles não aprendem só coisas específicas relacionadas às suas áreas de estudo. Eles também aprendem, mesmo que de forma indireta e sem perceber, muita coisa a respeito de como se faz Ciência e de como o conhecimento é comunicado. E acontece que esse modus operandi da Ciência muitas vezes é incorporado de maneira inconsciente. Ele é paradigmático. E aí, por mais espertalhão ou inteligente que o cientista formado ou em formação seja, por mais que ele estude e reflita, perceber e questionar um paradigma vigente nunca é uma atividade trivial. O paradigma atual de comunicação dentro da Ciência pode ser visto de maneira simplificada na figura abaixo:

 

Esse modelo de publicação de artigos científicos está vigente há bastante tempo, e foi em algum grau responsável pela consolidação da Ciência moderna como a conhecemos. Mas agora, numa era digital e de rápido compartilhamento de informações, ela está se tornando cada dia mais disfuncional, e por várias razões. Uma delas é que esse ciclo mostrado na figura muitas vezes demora mais de 1 ano para se completar. Às vezes dois, e isso considerando que o preprint seja aceito. Isso significa que se hoje você comprar a edição mais atual de um periódico qualquer, estará lendo pesquisa de 1 ano atrás. A pesquisa anda num ritmo muito mais acelerado do que a dinâmica das publicações, de forma que essa cultura de periódicos acaba retardando o desenvolvimento científico.

Outro ponto complicado são os preços abusivos dos artigos acadêmicos. Quando um cientista consegue, com muita luta e paciência, publicar um artigo, o que ele mais quer é que seu artigo seja lido, comentado e discutido. Mas os periódicos, que já ficaram cozinhando o artigo dele por mais de 1 ano, dificultam ainda mais a vida desse cientista, pois cobram preços exorbitantes para que outras pessoas, universidades e bibliotecas tenham acesso ao artigo. Como se não bastasse, essas revistas comumente cobram do autor para a publicação dos artigos aceitos, e ainda há taxas extras (bem salgadas!) para figuras coloridas e pranchas. Algumas pessoas estão ficando meio bravas, e protestos e boicotes estão sendo organizados por aí. Mas aqui vamos discutir uma coisa diferente, algo que talvez seja um dos próprios suportes do paradigma.

 

Publicar a qualquer custo

Uma das consequências dessa maneira de organizar a produção científica é que artigos completos publicados em periódicos são muito bem vistos. É como se a publicação desses artigos fosse o objetivo último de qualquer cientista. Desde que entram na graduação e começam a fazer uma iniciação científica, jovens pesquisadores já são fortemente estimulados a escrever artigos e submetê-los a revistas, mesmo que de pouquíssimo impacto, porque “é bom pra carreira” ou porque “engorda o currículo Lattes”. Todo um ritual é criado. Alunos de pós-graduação fazem festinhas pra comemorar o aceite de seus artigos em revistas bacanas.

Percebe-se que essa cultura científica de publicações acaba fazendo com que a carreira dos cientistas seja fortemente determinada pela quantidade de artigos que ele consegue publicar. Se for em revistas de alto impacto, melhor, mas se não for, tudo bem. O que importa é publicar, publicar e publicar, senão o cientista fica pra trás, seu trabalho não será (re)conhecido e ele ficará no limbo da Ciência. O resultado disso é um aumento acentuado no número de publicações, que cria demanda para um aumento no número de periódicos, que abre espaço para um aumento no número de publicações, e assim por diante. O gráfico abaixo mostra o crescimento no número de publicações ano a ano no PubMed, que é uma das maiores bases de dados científicas do mundo:

 

Como vemos, o número de artigos publicados mais que dobrou em apenas 10 anos, beirando absurdos 850 mil artigos publicados em apenas um ano e em apenas uma base de dados! A autora desse levantamento estima que o número total de artigos publicados por ano seja por volta do dobro dos presentes no PubMed. São mais de 1,5 milhão de artigos publicados por ano!

O que acontece é que boa parte desses artigos são de baixa qualidade. É mais ou menos assim: um cientista faz uma pesquisa interessante, mas na hora de publicar picota ela em 4 ou 5 artigos pequenos pra ter mais coisa pra por no currículo. Chega a ser ridículo! Para ser reconhecido, o cientista tem que optar por publicar bastante ao invés de publicar com qualidade. Mais ridículo ainda é o fato de que o artigo publicado acaba se tornando um “fim em si mesmo”, o que descaracteriza fortemente a própria dinâmica científica de discussão e debate. O artigo deveria ser visto como o início de um diálogo, e não como o fim de um processo.

Sendo assim, uma das maiores motivações dos cientistas para a publicação é a consolidação de sua própria carreira. Ou seja, ele entra num campo de construção coletiva de conhecimento, cujos produtos deveriam servir a toda humanidade, mas a sua preocupação maior é com a sua reputação. A motivação última para fazer pesquisa é a própria carreira do pesquisador, e não a socialização do conhecimento. Uma inversão bem cruel de valores!

Essa cultura dos periódicos acaba transformando a Ciência num “jogo de interesses” em que as regras não são definidas de acordo com o que é melhor pra Ciência. E é um jogo bastante excludente, que deixa muitos bons jogadores de fora. Vejam só: milhares de pessoas investem anos de suas vidas para se tornar especialistas numa área e acabam ficando no limbo, sem conseguir dar grandes contribuições por causa desse modelo. Por exemplo, não é incomum ver doutores (10+ anos investidos em formação pós ensino médio) desesperados por aí por não conseguirem emprego em suas áreas, prestando qualquer concurso que pague minimamente bem ou indo dar aula sem ter aptidão nenhuma pro ensino. Isso acontece porque os concursos e vagas pra trabalho na área são escassos e muito disputados, e acabam sendo desempatados pelo currículo. Aí aqueles que publicaram menos ficam pra trás, não conseguem a vaga e ficam à margem da Ciência que eles passaram tanto tempo estudando. E lembremos, mais uma vez, que em vários países esses cientistas são formados às custas de dinheiro público!

E aí acontece que os cientistas que conseguem entrar na dança, publicam bastante e se tornam grandes referências em suas áreas, acabam ganhando status e se tornando “autoridades”, o que abre margem pra mais absurdos, pois aí outros cientistas menos prestigiados ficam “na sombra” dessas autoridades ou porque ficam concordando com tudo que elas falam ou porque, se discordarem, serão mal vistos. Isso é altamente contrário ao desenvolvimento do conhecimento científico (ou pelo menos à forma como ele deveria ser).

E não para por aí! Essa dinâmica faz com que alguns cientistas, preocupados mais com suas carreiras do que com as contribuições à Ciência, fiquem “egoístas” e adotem atitudes anti-científicas. Por exemplo, já vi colegas biólogos falarem coisas do tipo “eu não gostaria que ninguém mais trabalhasse com os MEUS BICHOS”. Ou seja, prefeririam ter um campo de estudo pra trabalharem sozinhos, “sem disputa”, e virarem grandes referências “por W.O.” do que ter outras pessoas especialistas na mesma coisa pra discutir e debater os resultados das pesquisas. E, pra piorar, o modelo atual favorece esse tipo de coisa com suas políticas de financiamento e distribuição de bolsas de pós graduação, por exemplo. Chega a ser depressivo!

Não é incomum ouvir pelos corredores das universidades “temos que correr pra publicar isso aí, porque descobrimos que tem outro laboratório pesquisando a mesma coisa e nós temos que publicar antes” ou “putz, to há anos fazendo essa pesquisa e todo o trabalho foi em vão, porque outra pessoa publicou antes”. Também é normal ouvir histórias de intriguinhas e disputas pra ver quem vai ser o primeiro autor de tal artigo, já que o primeiro autor ganha mais reconhecimento. Ninguém quer ficar no meio do “et. al”. A Ciência virou uma corrida em que os cientistas vão atrás de prestígio, e a produção de conhecimento é só o pano de fundo.

 

Open Science: menos avaliação, mais colaboração

Bom, até agora vimos que o paradigma atual de comunicação dos resultados das pesquisas científicas tem consequências que acabam afastando a Ciência de seu próprio objetivo central. Mas, por se tratar de um paradigma, tudo parece natural, e aí mesmo que às vezes os cientistas fiquem meio incomodados, vem aquele pensamento “ah, mas o que eu posso fazer? É assim que as coisas funcionam”.

Mas algumas pessoas conseguiram pensar numa forma diferente de organizar a produção acadêmica. A ideia é simples, mas, como toda sugestão de troca de paradigma, é polêmica. A ideia é tornar a Ciência aberta em todos os âmbitos. Isso significa que todos os artigos seriam de livre acesso para todo mundo mas, muito mais do que isso, que as próprias pesquisas seriam feitas “no aberto”, de forma que todo mundo pudesse participar das pesquisas enquanto elas estão acontecendo, sem ter que esperar publicações em periódicos.

Com todas as ferramentas que temos disponíveis hoje para compartilhamento de informações pela internet, não tem sentido que seja de outro jeito. Quando um cientista publica um artigo, mesmo que seja numa revista de alto impacto, quantas pessoas vão de fato ler o seu artigo? As discussões da Ciência de ponta são altamente específicas, e o número de pessoas que se interessa ou que dá conta de entender os problemas colocados nesses textos já é reduzido por si só. Porque essas próprias pessoas não podem ser os “pareceristas” dos textos? Ou porque não co-autores? Se o foco da Ciência de fato for a construção e compartilhamento de conhecimento, essa é uma ideia que pode catalisar muito o desenvolvimento científico. Mas a “identidade intelectual” de cada cientista vai ficar borrada. Ficaria mais difícil distinguir quem deu as maiores contribuições pra um trabalho (na verdade, mesmo no modelo atual, já é!), mas daria pra muito mais gente participar, e as questões científicas poderiam ser resolvidas de maneira inimaginavelmente mais rápida.

Nos anos que seguirão, teremos uma oportunidade fantástica de reinventar a própria forma com que descobrimos as coisas e com que construímos conhecimento. Mas para que isso aconteça, primeiro temos que criar uma cultura científica que valorize mais o compartilhamento e menos o cientista. Os detalhes de como essa “Ciência Aberta” funcionaria ainda estão pra ser discutidos, mas essa discussão só pode acontecer se os acadêmicos se dispuserem a isso. Até lá, nos resta continuar publicando e publicando, mas ao mesmo tempo ir plantando a semente da Open Science, divulgando a ideia, formando grupos, etc. Pra finalizar, este vídeo é uma mini palestra que esclarece bastante a Open Science, seus pressupostos e suas potencialidades. Vale a pena!