Para onde vai o “paper” científico?

agosto, 2011

Para a lata do lixo seria a resposta mais evidente, não estivessem todos eles se transformando em arquivos digitais que, bem, por enquanto até podem ir para a lixeira… Mas até quando? Essa pergunta também tem uma resposta simples: Até quando o paper científico fizer sentido e continuar importante para uma ciência que, queiram os mais apaixonados ou não, está caminhando na direção de uma profunda reformulação de si mesma.

Eu sei, eu sei. Estou como um profeta do apocalipse segurando uma placa “prepare-se, o fim dos papers esta próximo” e, como qualquer profeta do apocalipse, posso estar parecendo um pouco fora da minha sanidade mental. Mas se pararmos um segundo para olhar para a história da comunicação da ciência, chegaremos à conclusão de que o fim do modelo atual de comunicação de resultados e validação da própria atividade científica não é tão absurda assim.

Livros são tão século XVI…
A ciência (e qualquer outra atividade intelectual na verdade) depende da capacidade de poder registrar a si própria em um meio que possa sobreviver à passagem do tempo e de seus praticantes. Foi a invenção da escrita que permitiu que a filosofia surgisse, e que depois desse frutos na forma da filosofia natural, que iria resultar numa sementinha que começou a crescer no século XVI com a Revolução Científica e terminou virando esta árvore que é a ciência moderna e todas as suas ramificações tão especializadas.

O grande salto para a escrita foi a invenção da imprensa de tipos móveis no século XIII, seguido da constituição de um dos mais antigos meios de comunicação, o livro. Até pouco mais da metade do século XVII os livros eram a forma usual de se comunicar ciência*, mas eram custosos demais (tanto do ponto de vista financeiro quanto do ponto de vista do tempo investido em garantir uma impressão de qualidade). O crescimento da comunidade e de sua produção acabou por deixar claro que o livro de ciência já não era a solução ideal para a comunicar resultados e estabelecer o diálogo entre os cientistas.

A solução veio através do Philosophical Transactions (cuja primeira edição é de 1666) da Royal Society of London, que copiou o modelo usado na época pelos folhetins, mas para distribuir de forma ampla novidades científicas ligadas aos membros da sociedade. Nascia assim o periódico científico, mas não o paper propriamente dito. Levaria ainda bons dois séculos para a ciência encontrar seu próprio estilo de escrita e, com efeito, o paper científico como conhecemos hoje só foi se estabelecer na segunda década do século XX**.

O problema do papel digital…
Não quero entrar na discussão sobre a função do paper e sua validade enquanto meio principal de comunicar avanços científicos. Basta saber que se a invenção do periódico e do paper foi importante pra viabilizar a ampla comunicação da ciência num século em que era extremamente complicado manter o diálogo entre comunidades científicas espalhadas pelas mais diversas localizações geográficas, hoje percorremos o caminho inverso. Os periódicos e o paper dificultam o diálogo da comunidade científica, diminuem a velocidade em que novas descobertas se tornam públicas, limitam o acesso ao conhecimento por um público ampliado (e que paga as contas da ciência) além de esconderem a maior parte do processo científico envolvido na produção do próprio documento.

Pode parecer exagero, mas me arrisco a afirmar que o paper científico, ao menos no que diz respeito à ciência de hoje, tem muito pouco valor informativo, revelando quase nada sobre a verdadeira natureza da atividade científica e de seus processos. É mais fácil aprender “do que a ciência é feita” no Google do que no documento oficialmente utilizado pelos cientistas como meio de contarem uns aos outros sobre o resultado de seus trabalhos.

É claro que se pode argumentar que o paper não precisa ser muito mais do que um “resumão” de meia dúzia de páginas sobre o trabalho de anos de um grupo de cientistas, e se concordo com isso olhando pra uma época que era majoritariamente analógica, discordo completamente quando vivemos em um mundo digital.

Ficam de fora do paper não só os dados detalhados recolhidos durante os anos em que a pesquisa foi levada à cabo, como também toda a série de erros e percalços encontrados no caminho em que o cientista trilhou. Todas estas informações possuem um valor que acaba desprezado na medida em que o paper precisa ter um tamanho redusido para ser publicado. Mas, como sabemos, esta é essencialmente uma limitação do meio impresso e que é reproduzida artificialmente no meio digital.

Infelizmente, temos ainda de lidar com outras tantas limitações que não tem razão de ser no meio digital, mas que foram herdadas de um modelo já bem estabelecido no meio impresso. Ainda precisamos lidar com a dificuldade em se atualizar ou corrigir papers que foram aceitos mesmo em periódicos que só existem online, ou a limitação para o uso de hyperlinks e elementos multimídia como vídeos e trilhas de audio e mesmo imagens animadas.

É ingênuo dizer que não há razão para a ciência não abandonar de vez o pdf (ou qualquer outro formato que limite o uso dos recursos disponíveis em um ambiente digital), estou certo que existem razões. O fato é que a cultura do paper impresso vai mais além do que o simples meio em que se está comunicando ciência. Como McLuhan cansou de nos alertar meio é mensagem, e a própria ciência foi construída em valores que muitas vezes só fazem sentido em um meio impresso. Perdem sua razão de ser em um meio digital  (discuto esse assunto mais a fundo no capítulo 4.2 da minha tese de mestrado, que pode ser acessada livremente). Meu ponto é que seja lá quais forem estas razões, é preciso colocá-las à prova contra a gama de possibilidades que se abre em passar a usar o ambiente digital em sua totalidade, e não como forma de emular uma tecnologia nascida antes da própria ciência.

Críticas ao modelo atual de publicação e sugestões sobre como o ambiente virtual pode ser usado para melhorar estes problemas existem aos montes e eu deixo abaixo algumas sugestões de artigos interessantes neste sentido, além de recomendar meu grupo de Ciência 2.0 no Mendeley.

Seja como for, uma das alternativas ao modelo atual de publicação foi recentemente proposta pelo Stephen Wolfram. A alternativa do Wolfram pode ser vista em mais detalhes no vídeo abaixo, mas volto em breve com um texto novo só para discutir melhor se a solução do Wolfram é ideal***.

Referências e artigos recomendados:
Antelman, K. (2004). Do open-access articles have a greater research impact? College & Research Libraries, 65(5), 372-382. ASSOC COLL RESEARCH LIBRARIES. Retrieved from http://apps.isiknowledge.com/CitedFullRecord.do?product=UA&db_id=WOS&SID=V1@kc79NaoCc98onfd@&search_mode=CitedFullRecord&isickref=136742423

Breivik, M., Hovland, G., & From, P. J. (2009). Trends in Research and Publication: Science 2.0 and Open Access. Modeling, Identification and Control: A Norwegian Research Bulletin, 30(3), 181-190. MIC. doi:10.4173/mic.2009.3.8

Odlyzko, A. (2000). The future of scientific communication. Access to Publicly Financed Research: The Global, 53(1), 13-5. Retrieved from http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.32.3333&rep=rep1&type=pdf

Waldrop, M. (2008). Science 2.0: Great New Tool, or Great Risk? Retrieved April 22, 2010, from http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=science-2-point-0-great-new-tool-or-great-risk

Young, N. S., Ioannidis, J. P. A., & Al-Ubaydli, O. (2008). Why current publication practices may distort science. PLoS medicine, 5(10), e201. Public Library of Science. doi:10.1371/journal.pmed.0050201

 

*Me refiro aqui aos grandes tratados científicos (lembrando que o termo “ciência” e “científico” estão sendo usados de forma anacrônica, à época a ciência ainda não era chamada assim).

**Montgomery, S. “Scientific discourse and its history.” In: Communicating Science, por Eileen Scanlon,Roger Hill e Kirk Junker, 315. Inglaterra: The Open University, 1999.

***Dica: Não é.