Plágio e Remix: Uma narrativa de duas culturas.

novembro, 2011

No dia 02 de outubro o blog de ciências da Folha, o Laboratório, soltou um post chamado Educar para não plagiar. O texto chama atenção para um congresso sobre plágio e má conduta científica e aponta algumas conclusões tiradas durante o evento.

A primeira conclusão é a de que hoje em dia, por conta da facilidade de acesso à informação, está mais fácil plagiar. A segunda conclusão, que de acordo com o texto é mais filosófica, diz que a facilidade de acesso à informação científica não deveria justificar o aumento do número de casos de plágio (o texto original da Folha diz “fraude” e não plágio neste ponto específico, mas fraude segundo o dicionário Aulete quer dizer falsificação de uma forma geral o que, acredito eu, não tem relação direta com a facilidade de acesso à informação, neste caso plágio parece-me ser o mais correto). Uma última conclusão argumenta que estudantes e pesquisadores mais novos não foram ensinados a lidar com toda essa informação e plagiam por pura ignorância.

Curioso ver que nos comentários do texto da Folha alguém que assina como Roberto faz uma pergunta simples mas que está no centro desta questão: “Afinal a internet ajuda ou atrapalha a ciência”?

Duas culturas.

Então, depende… Eu sei que parece papo de filósofo mas é preciso levar em consideração que a ciência moderna nasceu no século XIX e deste herdou uma série de valores e regras e convenções. Valores e regras e convenções que diziam respeito a uma cultura construída com papel, tinta e tipos (McLuhan chamava de Cultura Tipográfica)

Valores e regras e convenções que estavam intimamente ligados não à dificuldade de acesso à informação, mas ao meio rígido e pouco interativo de um mundo impresso no papel. Vejam, o que mudou de lá pra cá nada tem a ver com o acesso facilitado à informação. Sim, é mais fácil conseguir informação hoje do que era antes, mas esta é a consequência da mudança e não a mudança em si.

O que a cultura digital trouxe para o mundo é a democratização da comunicação em massa, antes restrita a um grupo de privilegiados. Essa democratização não tem a ver unicamente com a facilidade de acesso. Uma sociedade com a cesso facilitado à informação ainda é uma sociedade “read-only”, ou seja, de consumidores passivos de um produto acabado. Os primórdios da Internet e a Web 1.0 estão aí pra provar meu ponto.

Democratizar* é fornecer os meios para o desenvolvimento de uma sociedade “read/write”, ou seja, de indivíduos capazes também de contribuir, de lidar com a informação como se ela fosse um pedaço de argila esperando para ser moldado em algo que transcenda o valor de si própria.

E é justamente aqui que se encontra a maior diferença entre a cultura tipográfica e a digital. A primeira valoriza muito mais autoria e produção (o texto sobre a salami science da Veronica é bastante certeiro neste ponto), a segunda colaboração e mash-up’s.

 

Plágio e Remix.

O texto da Folha, bem como este outro do New York Times, reforça a ideia de que estudantes estão plagiando por ignorância de como lidar com informação digital. Talvez o problema não seja este, talvez nós é que somos ignorantes em entender como a geração nascida no meio da cultura digital lida com informação.

O artigo do New York Times chega mesmo a dizer que “muitos alunos simplesmente não compreendem que usar palavras que não foram escritas por eles é um crime grave,” e que a maioria dos casos de plágio nas escolas tem a ver justamente com este fato.

Nestes casos, aquele que copia sem dar os devidos créditos à fonte não está assumindo a autoria pelo que copiou. Está meramente distribuindo uma informação que já está disponível livremente na internet ou em livros ou em artigos científicos.

Para a geração da cultura digital informação tem um valor tão baixo que receber os créditos pela autoria de algo, assim como reconhecer a autoria de algo, é desimportante e desinteressante e efetivamente não acrescenta absolutamente nada no valor daquela informação.

Para a cultura digital, informação é a matéria prima usada para construir redes de interação entre pessoas e ideias. Isso significa que um artigo ou texto ou livro pode sim ser importante, mas pela mensagem que ele transmite e pela capacidade que ele tem de promover a formação dessas redes. Pouco importa aqui se o artigo ou texto ou livro (ou, claro, música ou vídeo ou qualquer material áudio visual) é a voz única e singular de seu autor ou se é uma colagem de frases de vários autores.

Na cultura digital do remix e do mash-up, o foco está na rede e não no indivíduo e é por isso que o plágio é mais um problema de choque de gerações do que um problema ético.

 

Educar para não plagiar

O texto da Folha, diferente do texto do New York Times, aborda essa questão do plágio de um só prisma. Deixa clara a mensagem de que trata-se de um problema educacional que precisa ser corrigido.

Mas será mesmo preciso reforçar no processo educacional valores que talvez estejam desconectados da realidade presente das novas gerações de alunos e pesquisadores ainda em formação? É preciso mesmo usar o processo educacional como um meio de impor regras e valores “de cima para baixo”?

A questão ética existe, claro. É preciso combater o plágio intencional e feito de maneira desonesta, que é realmente prejudicial e deletério para qualquer atividade intelectual. É preciso sim mostrar para as novas gerações que existe valor no esforço intelectual, sem reduzir este esforço a uma maneira particular de organizar palavras em um “papel em branco.”

É fundamental entender que existem regras e valores emergentes da cultura digital e que estas regras e valores não são piores ou melhores do que os valores sociais tradicionais, são apenas diferentes. Tentar sufocar estes valores através da educação não vai ajudar na formação de cientistas melhores ou mais honestos.

Criminalizar a maneira que uma cultura em particular achou para se expressar certamente não vai resolver o problema do plágio, assim como não resolveu o problema da pirataria, que é análogo.

Para a ciência fica a oportunidade de se transformar e entender essa nova expressão cultural, encontrar um meio termo entre o velho e o novo e se reinventar para continuar progredindo. Não se pode esquecer que há séculos atrás era a ciência que estava do outro lado da moeda, desafiando a tradição e sendo criminalizada por isso.

 

*Para entender melhor esse processo de democratização (ou descentralização) leia os 10 escritos sobre redes sociais de Augusto de Franco gratuitamente.