Quem governa o 3º Mundo?

novembro, 2009

Não, não me refiro aos chamados países em desenvolvimento. O 3º mundo ao qual estou me referindo é aquele proposto pelo grande filósofo Karl Popper. Já escrevi sobre o assunto neste blog antes mas, tendo em vista que o texto não foi lá muito claro, faço uma nova tentativa.

Em seu livro Conhecimento Objetivo, Popper propõem uma divisão tripla do mundo. O 1º mundo é aquele que contém objetos físicos ou estados materiais. O 2º mundo é composto por estados de consciência ou mentais. E por fim o 3º mundo, habitado por conteúdos objetivos de pensamento, em especial pensamentos científicos, poéticos e de outras obras de arte.

Vemos então que no 2º mundo estão os pensamentos subjetivos, ou o ato de pensar em si, enquanto no 3º mundo estão os pensamentos objetivos, ou o conteúdo destes pensamentos. Livros, artigos e obras de arte são a representação física dos habitantes deste último.

Mas este não é um texto sobre Karl Popper, ou mesmo sobre considerações a respeito da validade ou implicações da divisão proposta pelo filósofo. A introdução sobre o 3º mundo popperiano me serve apenas para dar maior materialidade ao fato de que, por mais que vivamos em um mundo mergulhado em informação (ou em pensamentos objetivos), há, e talvez sempre houve, uma disputa constante para determinar quem governa isso tudo.

A cobra que engole o próprio rabo.
Os periódicos científicos nasceram com uma missão honrosa. Facilitar a difusão da produção científica entre a comunidade. Hoje mais atrapalham do que ajudam. O Renato abordou o tema em um de seus textos, mas aproveito pra dar meu pitaco.

E começo pelo problema mais fundamental que se pode imaginar. A produção científica já a algum tempo supera, e muito, a capacidade de publicação dos periódicos. Fato posto, os periódicos tiveram que encontrar uma solução para escolher o que deveria ser publicado. E a solução foi o peer-review. Afinal, quem melhor que a própria comunidade científica para decidir o que quer ler?

Embora o peer review resolva o problema dos publhishers, acaba por criar muitos outros para a própria comunidade. O expoente mais clássico disso é o já velho conhecido “publique ou pereça” e sua versão remodelada “seja citado ou pereça”. O ponto principal aqui é notar que uma dúzia de indivíduos não são representativos o suficiente para decidir o que é que uma comunidade inteira deve ler.

Outro problema com este sistema é que ele é caro. Uma assinatura de um publisher qualquer pode, e em geral ultrapassa, facilmente os US$ 10.000,00 por ano, o que o torna muitas vezes proibitivo. Mesmo para as instituições de ensino e bibliotecas. O custo elevado de acesso também dificulta o trabalho de pesquisadores autônomos, desvinculados de instituições de pesquisa.

No final das contas, temos um sistema que se mantém com conteúdo gerado pela comunidade científica, mas que dificulta o acesso da própria comunidade. A situação toda não fica menos bizarra ao notarmos que, embora os publishers cobrem pelo acesso, não pagam ao cientista pelo trabalho publicado.

O circo de Alexandria.
Em 2004 o Google começou a digitalizar livros para torná-los indexáveis pelo seu buscador. A iniciativa virou caso de tribunal quando, em 2005, o Authors Guild e a Association of American Publishers decidiu entrar com uma ação na justiça por se sentir prejudicada pela iniciativa.

O caso está prestes a ser resolvido com um acordo entre as partes, aonde o Google passa a ter a permissão legal para digitalizar e fornecer acesso em troca da cobrança de uma taxa, que será em parte repassada aos autores. O problema é que, se o acordo for homologado da forma que está, irá tornar outras iniciativas de digitalização que já existem (e tantas outras que poderão vir a existir) ilegais (nos Estados Unidos, que fique claro).

Os detalhes do acordo me são obscuros, mas é curioso ver como os concorrentes do Google, como a Microsoft e o Yahoo, estão tão ferozmente tentando expandir os termos do acordo para que eles também estejam legalmente cobertos. Em termos gerais a briga é para impedir que o Google monopolize o mercado de livros digitalizados.

Não menos curioso é ver o artigo de opinião da autoria de Sergey Brin, co-fundador do Google, publicado no The New York Times. No texto em questão ele alega que o interesse do gigante de buscas não é meramente comercial. Não. O objetivo é impedir que desastres, como os diversos incêndios da biblioteca de Alexandria, voltem a destruir por completo a produção intelectual do mundo.

O que o Google quer, segundo seu fundador, não é produzir a maior loja virtual de livros do mundo, mas sim a maior biblioteca da história da humanidade. É claro que fica difícil de engolir o argumento quando um acordo judicial sobre o caso prevê a cobrança de uma taxa que, ainda que em parte, termina nos bolsos do Google.

É da natureza das bibliotecas fornecer acesso à livros e artigos sem cobrar seus utilizadores. Se era de fato o interesse do Google construir uma biblioteca virtual, por que não buscar parcerias com o governo e outras entidades para arcar com os custos exigidos pela indústria de livros dos Estados Unidos?

Quem governa o 3º mundo?
A pergunta que serve de título a este texto não possuí uma resposta fácil. Talvez nem possua uma resposta. Ainda assim darei meu ponto de vista. Quando Popper propôs o 3º mundo fez questão de sublinhar sua independência, no sentido de que um conhecimento objetivo não depende de seu criador para continuar a existir.

Popper chega mesmo a sugerir um exemplo aonde toda a humanidade foi devastada, deixando para trás apenas seus livros e obras de arte. Em tal cenário, uma outra civilização inteligente poderia entrar em contato com este conhecimento perdido e aprender com o nosso legado.

O que Popper talvez tenha ignorado é que para tal, o 3º mundo precisa estar manifestado em algum tipo de mídia e, a história mostra, todas as mídias que conhecemos são controladas por alguém. Podemos dizer então que, pelo bem ou pelo mal, a indústria do entretenimento e os publishers governaram o 3º mundo na medida em que eram elas quem forneciam acesso a ele através de suas mídias.

Por outro lado o cenário atual é muito mais otimista. O advento da internet permitiu que conteúdo fosse produzido e distribuído de maneira mais econômica, por vezes a custo zero. Isso evidentemente enfraquece um modelo e negócio que se sustentava justamente na dificuldade que um autor tinha em se fazer lido. Ou de um músico em ser ouvido.

O controle do 3º mundo se diluiu de tal forma que, podemos dizer, ele esta muito próximo de governar a si próprio. As brigas judiciais pela distribuição de livros digitais só demonstra o óbvio. O papel de mediador que as editoras possuíam esta deixando de fazer sentido. É o fim agonizante de um modelo de negócios que não soube se reinventar.

E o que isso significa para o cientista? A própria metodologia de validação do conhecimento produzido pela ciência acaba por garantir aos grandes publishers mais alguns anos de sobrevivência tranqüila. Tradicionalistas que somos, nos acostumamos com a economia do “publique ou pereça”, nos acostumamos ao sistema de peer-review, nos acostumamos a depender de um periódico para termos acesso às novidades de nossas áreas.

Mas até quando esse cenário irá durar? As desvantagens são evidentes e, tão logo começarmos a perceber que este sistema, ao invés de facilitar o acesso ao conhecimento, cria barreiras cada vez maiores, passaremos a buscar novas alternativas.

O que precisamos ter em mente é que o cientista, em última análise, não se difere de um escritor de romances ou de um músico. Nós, assim como eles, queremos ver nosso trabalho circulando pelo maior número possível de indivíduos da comunidade. A comunidade, por sua vez, quer ter acesso a este conteúdo todo.

Temos a fome e a vontade de comer, e os publishers são como um caríssimo restaurante francês. Embora eventualmente possamos pagar um pouquinho a mais para comer algo diferente, é o feijão com arroz diário que nos mantém em pé.